quinta-feira, agosto 29, 2019

Ex-presidente do Coaf aponta graves problemas na subordinação do órgão ao Banco Central


Adrienne Senna teme redução da confiança no Coaf
Cláudia Dianni
Correio Braziliense
Integrante do grupo que elaborou o projeto de lei de combate à lavagem de dinheiro, Adrienne Senna foi a primeira presidente do Conselho de Controle de Atividade Financeira  (Coaf), entre 1998 e 2002, quando o órgão ficava no, então, Ministério da Fazenda. Ela está preocupada com futuro do órgão que ajudou a estruturar e aponta vários problemas criados pela Medida Provisória 893/19, assinada pelo presidente Jair Bolsonaro na última semana, que considera graves: tornar o presidente do Coaf submisso ao presidente do Banco Central, permitir o aparelhamento e reduzir a confiança na cooperação internacional, o que fragiliza o esforço da rede mundial de combate ao crime, inclusive o terrorismo. “Antevejo problemas gravíssimos. As Unidades de Inteligência Financeira ao redor do mundo vão colocar o pé atrás”, avisa.
DERROTA – Em janeiro, quando editou a Medida Provisória que reduziu o número de ministérios de 20 para 22, Bolsonaro transferiu o Coaf para o Ministério da Justiça, de Sérgio Moro. Em maio, porém, o Senado aprovou a MP, mas retornou o órgão para o Ministério da Economia, o que foi considerado uma derrota para Moro. Na semana passada, a nova MP colocou o Coaf no Banco Central. Segundo Adrienne, em todos os países, a unidade de inteligência financeira fica alocada em ministérios de economia ou de finanças.  
Mineira e advogada de formação, Adrienne é procuradora da Fazenda aposentada e, por sua atuação no Coaf, foi convidada a atuar como consultora especializada no CTC (Country Terrorism Committee) do Conselho de Segurança da ONU (2002-2004). Entre 2000 e 2002, ela presidiu o Grupo das Américas do Gafisud (Grupo de Ação Financeira sobre Lavagem de Dinheiro), de iniciativa da Organização para a Cooperação para o Desenvolvimento Econômico (OCDE).  Foi ela quem recebeu da Suíça a confirmação de que Paulo Maluf transferiu recursos do Citibank de Genebra para o de Jersey, paraíso fiscal no canal da Mancha. Na entrevista abaixo, que concedeu ao Correio, Adrienne explica por que nem o BC, nem o Ministério da Justiça são adequados para alocar o Coaf.
O que a senhora acha da Medida Provisória, assinada pelo presidente Jair Bolsonaro, que, entre outras mudanças, transfere o órgão para o Banco Central?
Essa Medida Provisória é um absurdo. O mais grave é que revogaram o artigo 16, um dos mais importantes para o combate à lavagem de dinheiro. A  Lei 9.613 estabelece que a composição do órgão tem que ser de servidores efetivos, de reputação ilibada e reconhecida competência entre integrantes do quadro efetivo do BC, CVM, Susep, da Procuradoria da Fazenda, Receita, órgãos de inteligência, PF, Itamaraty e  por indicação dos ministros de Estado.  A pessoa que passa por lá tem acesso e aprende muita coisa. Dependendo de quem for, pode sair de lá um criminoso financeiro ou coisa pior. Além disso, o presidente do Coaf é nomeado pelo presidente a República. Isso é importante por que o presidente do Coaf tem o mesmo chefe que o presidente dos outros órgãos, de quem recebe informação, portanto, não tem relação de subordinação. Pela MP, o presidente do Coaf vai ser indicado pelo presidente do Banco Central, ou seja, virou subalterno de um dos agentes que repassam informação. Tirou a independência. Se o BC não passar as informações, o presidente do Coaf não vai peitar o chefe.  Vai ficar uma coisa intramuros. Perdeu-se a permeabilidade do Coaf entre os outros órgãos.  
Eles também vão permitir o uso político do Coaf. Essa cautela é fundamental. O Congresso tem que reintroduzir esse artigo. O agente mobiliário, por exemplo, só vai dar informação se souber que o órgão é sério, com servidores efetivos, de reputação ilibada  e que são da administração pública e não estão apenas de passagem.  Se quebrar essa confiança, não se recebe mais informação. Não dá para entender o propósito dessas mudanças. São gravíssimas, não se justifica em nenhum aspecto e tem consequência internacionais. Além disso, a MP muda o nome do Coaf, que que fica transformado em Unidade de Inteligência Financeira. Isso ele já é. Então, essa é uma mudança inócua, que vai  acarretar um monte de problemas na cooperação internacional e internamente. Em várias leis ele é nomeado como Coaf. A Lei complementar 105/2001 determina que só o Coaf pode receber as informações, e não outro órgão. Conseguiram bloquear o Coaf ! Para mudar uma lei complementar, e mudar o nome, leva mais de um ano. Levamos dois anos para fazer o melhor projeto e, em uma canetada, muda-se tudo.
O governo alega que as mudanças são justamente para evitar o uso político…
Se houve, quando e por quem?  É obrigação do governo identificar e está na lei. O servidor tem que ser punido. A própria legislação dá os mecanismo para punir, caso isso tenha acontecido no Coaf. Tem que identificar, por meio de um processo administrativo, e aplicar a lei. O que o governo está fazendo, sob o argumento de evitar o uso político, é justamente provocar o uso político e ferir a altivez do Coaf. É um contrasenso. Estão tirando as salvaguardas da lei.
O Banco Central é um bom lugar para abrigar o Coaf?
Não é um bom lugar. O Coaf  será um corpo estranho dentro do BC. Há resistências dentro do Banco, com relação a essa transferência. Não é atribuição do Banco Central. O BC conseguiu respeito expurgando várias atribuições do passado. Antevejo problemas gravíssimos. As Unidades de Inteligência Financeira ao redor do mundo vão colocar o pé atrás. Tem que tomar cuidado para não denegrir a imagem junto às instituições internacionais. Com o artigo 16 retirado, vai entrar todo mundo: quadro técnico, cargo comissão, servidores de outras áreas, militares, de tudo. O que um militar vai fazer em uma unidade como o Coaf ? Lá atrás, houve uma preocupação de criar um ambiente protegido, pois lá tem informação sensível e sigilosa, que não pode vazar.
E no Ministério da Justiça, como queria o ministro Sérgio Moro?
A imprensa divulga como se o Coaf tivesse saído da Justiça, do ministro Sérgio Moro, para ir para o Ministério da Economia. É um erro. Não é nada disso. Estão esquecendo de dizer que, este ano, o presidente tirou o Coaf do Ministério da Economia, onde ele tem que estar, e levou para o Ministério da Justiça, um ministério totalmente inadequado para o Coaf. O presidente fez isso por força de uma Medida Provisória, mas o Congresso, sabiamente, não aprovou e o Coaf voltou para a Economia. O Coaf sempre este na Economia. É assim em outros países, e ele sempre foi bem avaliado estando lá, e serviu de modelos para a criação de outras unidades financeiras. Vamos ver se o governo consegue convencer o Congresso dessa necessidade
Por que não é bom que o Coaf fique no Ministério da Justiça?
Isso implode todo o sistema. Não é bom a  começar pela questão de informática, que foi montada em cima da base do Serpro, que fica no Ministério da Economia, antes da Fazenda, onde tem toda a comunicação. Quando sai de lá, começa do zero em outra plataforma. Além disso, a Receita Federal, a  Comissão de Valores Mobiliários (CVMO, a Susep (Superintendência de Seguros Privados), o Banco Central, enfim, todos os grandes agentes  que podem estar em um ponta de dissimulação do dinheiro pertencem à áreas de influência do Ministério da Economia. Isso cria um ambiente mais facilitador para a recepção das informações. Então, acho que o que aconteceu foi que o Moro pediu e não levou. No início do governo do ex-presidente Lula, houve uma tentativa de levar o Coaf para a Justiça. Acho que o então ministro Márcio Thomaz Bastos também pediu o Coaf.
Felizmente, quando o ministro ouviu as implicações, abortou a transferência. Ele ouviu os argumentos técnicos. Eu cheguei a falar com ele. O Coaf é a jóia da Coroa. Um órgão de inteligência que deu certo. O Moro, como juiz, deve ter visto que muita coisa da Lava Jato e de outras operações, veio do Coaf. Eles viram o mundo do combate da criminalidade antes e depois do Coaf. Mas a Justiça não é um ministério adequado para o Coaf, pois é um ministério político, já o da Economia é o ambiente de colher a informação e não é político. Na Justiça, o órgão fica isolado. O Coaf tem que ficar longe da Justiça, do Ministério Público, para evitar troca informal. Não pode ter essa tentação. Se você está de regime, não guardo uma torta na geladeira!
Como aconteceu entre Roberto Leonel e os procuradores da Lava-Jato, segundo as informações da Vaza-Jato que vêm sendo publicadas? Leonel teriam repassado quando chefiava a área de inteligência da Receita. Depois foi nomeado presidente do Coaf, por Bolsonaro.  
Ele trocava informações de forma incorreta. Ele não podia fazer isso. Se fez, agiu mal. Provavelmente vai responder a um processo administrativo e tem que ser penalizado. E ele é servidor de carreira. É auditor da Receita e foi indicado pelo Moro. O ministro Moro deve estar muito triste por ser agora o coveiro do Coaf, pois o presidente do órgão deixou de ser uma indicação do presidente da República e deixou de ter o mesmo nível para ser um ente subordinado do  presidente do Banco Central.
Qual a importância e como o Coaf trabalha?
O Coaf surgiu junto com a figura do Crime de Lavagem de dinheiro, como uma obrigação de todos países de combater, no final dos anos 1980 e o início de 1990, o dinheiro do narcotráfico, que começou a gerar um volume muito grande de dinheiro sujo, que é aquele dinheiro que não cria riqueza, mas serve para corromper e retroalimentar o tráfico. Então, essas instituições, de combate ao crime financeiro, foram criadas no âmbito da Organização das Nações Unidas, ou seja, em cumprimento a uma obrigação internacional. O Brasil se adequou ao compromisso para proteger nosso sistema financeiro e continuar inserido na economia internacional.
Em 1998, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso criou a Lei 9.603/98, sobre crimes de  lavagem de dinheiro, e o Coaf, órgão para monitorar e receber os indícios e comunicar o Ministério Público e a polícia. É um padrão mundial. Antes, foi criado um grupo de trabalho trabalho, que eu participei, entre 1995 e 1996, com todos os segmentos: bancos, governo, juristas. Além disso, esse grupo estudou os modelos internacionais e elaborou um projeto de lei. Em todo o mundo, essas estruturas ficam alocadas dentro no ministério de finanças ou economia.
O Coaf recebe informações de bancos, agentes mobiliários, de quem está na ponta e vê o dinheiro e as  formas de lavagem de dinheiro, e faz um trabalho de inteligência. Geralmente são crimes transnacionais, ou seja, lava-se em outro país, em paraísos fiscais, daí a abertura de contas no exterior, para dificultar o rastreamento. Todos os países tiveram que fazer a mesma coisa e criaram suas unidades de inteligência financeira. No Brasil, chama Coaf, nos Estados Unidos, Fincen, na França Tracfing. Paralelamente, foram criados fóruns internacionais, como instâncias de troca de informação. Há monitoramento e consultas o tempo todo. Tá tendo uma movimentação financeira atípica. Algum problema? Por isso, foram criados vários fóruns para monitorar a efetiva implementação das medidas em cada país, na OEA (Organização dos Estados Americanos), na ONU (Organização das Nações UNidos), o GAFI, que é da OCDE, no FMI, no Banco Mundial, pois ninguém quer essa massa de dinheiro sujo transitando na economia global.
Esses mecanismos visavam o combate ao tráfico de drogas e não o combate à  corrupção?
A lavagem de dinheiro é a ocultação e dissimulação de dinheiro proveniente de crime, seja do tráfico de drogas ou da corrupção, que são tipos de crime que geram dinheiro em espécie. Quem fica com esse dinheiro tem dificuldade de inserir no sistema financeiro sem chamar atenção. O trabalho tem que ser rápido ou o dinheiro vai para outro outro lugar e isso dificulta o rastreamento, pois, ao movimentar o dinheiro,outros personagens e movimentos são incluídos, tornando o caminho mais longo. No final dos anos 1990, início dos anos 2000, a preocupação passou a ser o dinheiro da corrupção. As empresas não conseguiam mais competir de igual para igual. Uma empresa que paga corrupção para um governo, por exemplo, prejudica o concorrente. A Convenção de Palermo (ONU/2000) foi feita para combater a corrupção transnacional.
A partir de 2001, com o 11 de setembro, aumentou a preocupação com o rastreamento do  dinheiro do terrorismo. Foi com esse trabalho que conseguiu-se descobrir quem colocou a bomba em um dos aviões que se chocaram contra o World Trade Center, em Nova York. Foi   por meio do rastreamento do dinheiro e da cooperação entre os países, que descobriu-se, também, de onde veio o dinheiro que pagou o curso de um dos sequestradores, pois a atividade terrorista é cara, precisa de dinheiro para recrutar e treinar pessoas. Um deles, inclusive, mandou o dinheiro que sobrou de volta, aumentando o rastro. A partir desse momento, foi possível melhorar o combate ao terrorismo por asfixia.  
Depois do 11 de setembro, houve mudança nas regras internacionais?
O impacto do 11 de setembro foi mundial. Então, veio a obrigação de criar o monitoramento com regras. O Conselho de Segurança da ONU criou um comitê de monitoramento para todos os países, o CTC (Country Terrorism Committee) no Conselho de Segurança, onde, devido ao meu trabalho no Coaf, fui convidada para atuar entre 2002 e 2004. O financiamento do terrorismo é um crime em etapas. Não é como os demais, que a pessoa faz algo e recebe um dinheiro. Então, precisava de muita cooperação internacional. Os países só vão fazer parcerias com o Brasil se tiverem garantia de ter o mesmo grau de confiança que nos outros países.  O Coaf ficou quieto trabalhando bem nesses anos todos e esse monte de crime que passou a ser percebido e punido se deve a essas regras de monitoramento. Carros, imóveis apreendidos, dinheiro congelado nos bancos. Outra coisa que aconteceu foi que reduziu o dinheiro de sequestro, pois as regras dificultam circular dinheiro em espécie. Onde vai colocar o dinheiro do sequestro, que, obviamente, não circula no meio financeiro. Então, as regras e o monitoramento Inibem a prática de uma série de crimes.

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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