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Publicado em 27 de junho de 2026 por Tribuna da Internet


Michelle e Flávio entram em guerra pela herança política de Jair Bolsonaro


Confronto surpreendeu aliados do ex-presidente

Marcelo Copelli
Revista Fórum

Desde sua ascensão nacional, o bolsonarismo acumulou divergências internas, rompimentos políticos e disputas por influência que, em diferentes momentos, ganharam projeção pública. Várias dessas crises deixaram marcas profundas e provocaram o afastamento de figuras que participaram da construção do movimento. Ainda assim, prevaleceu a capacidade de recompor alianças, estabelecer convergências pontuais e preservar uma narrativa de unidade capaz de manter mobilizada sua base social.

É justamente por isso que o embate entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro merece atenção. Mais do que uma divergência circunstancial, o episódio sugere que instrumentos que durante anos ajudaram a administrar tensões internas já não operam com a mesma eficácia. O conflito expõe um ambiente em que disputas antes absorvidas pelo próprio movimento passaram a refletir uma questão mais ampla: a dificuldade crescente da direita bolsonarista em acomodar interesses, lideranças e projetos para um futuro que deixou de ser uma discussão abstrata e passou a influenciar o presente.

SIMBOLOGIA – A controvérsia ganhou relevância não pelo conteúdo específico do desentendimento, mas pelo que ela simboliza. Ao longo de sua trajetória, o bolsonarismo construiu uma imagem de unidade que se mostrou decisiva para sua consolidação como principal força da direita brasileira. Mesmo diante de crises políticas, derrotas eleitorais, investigações e rompimentos com antigos aliados, a preservação dessa coesão foi tratada como um ativo estratégico. A exposição pública de um conflito envolvendo dois dos nomes mais importantes do universo bolsonarista rompe parcialmente essa lógica e lança luz sobre tensões que vinham se acumulando desde a derrota eleitoral de 2022.

Seria um erro interpretar o episódio apenas como uma disputa familiar. Também seria precipitado enxergá-lo como prova de uma ruptura iminente. O aspecto politicamente relevante está no fato de que a divergência se tornou pública. Na política, especialmente em movimentos fortemente centralizados, conflitos internos costumam ser administrados longe dos holofotes. Quando deixam os bastidores, revelam não apenas diferenças de posição, mas mudanças na forma como lideranças percebem seu papel, seu espaço e sua capacidade de influência.

Essa observação é particularmente importante no caso de Michelle Bolsonaro. Nos últimos anos, ela deixou de ocupar apenas uma função associada à trajetória política do marido para construir uma posição própria dentro do campo conservador. Sua interlocução com lideranças religiosas e sua capacidade de comunicação com mulheres transformaram-na em um dos ativos políticos mais valiosos da direita brasileira. Trata-se de um patrimônio político construído gradualmente e que passou a ter relevância própria, independentemente da função institucional que ela ocupou no passado.

DIFICULDADE DE EXPANSÃO – A importância desse movimento torna-se ainda mais evidente quando observada sob a perspectiva eleitoral. As mulheres representam um dos segmentos nos quais o bolsonarismo historicamente encontrou maiores dificuldades de expansão. Diversos levantamentos realizados nos últimos anos mostraram uma diferença persistente entre a receptividade masculina e feminina ao projeto político liderado por Jair Bolsonaro. Michelle tornou-se uma das principais apostas para reduzir essa distância. Sua imagem pública foi construída justamente sobre características capazes de dialogar com parcelas do eleitorado menos identificadas com o estilo de confronto que marcou a trajetória do ex-presidente.

Ao mesmo tempo, sua influência junto ao eleitorado evangélico adquiriu importância crescente. O segmento consolidou-se como uma das bases mais organizadas e mobilizadas da direita brasileira. Nesse ambiente, Michelle conquistou legitimidade própria, estabeleceu relações políticas relevantes e ampliou sua capacidade de interlocução. Isso ajuda a compreender por que sua atuação passou a produzir efeitos que já não podem ser interpretados apenas como reflexos automáticos da liderança de Jair Bolsonaro.

É nesse contexto que a figura de Flávio Bolsonaro assume papel central na análise do episódio. Entre os integrantes da família, ele é o nome que há mais tempo busca construir uma trajetória política nacional capaz de transcender a condição de herdeiro do capital eleitoral do pai. Sua atuação nos últimos anos revela um esforço permanente para ampliar influência, consolidar protagonismo e ocupar espaço relevante nas discussões sobre o futuro da direita. A inelegibilidade de Jair Bolsonaro tornou esse processo ainda mais importante, pois introduziu um elemento novo na dinâmica interna do bolsonarismo: a necessidade de discutir alternativas sem que exista uma definição clara sobre quem deverá conduzir o movimento no próximo ciclo político.

LIDERANÇAS AUTÔNOMAS – A controvérsia entre Michelle e Flávio torna-se relevante justamente porque ocorre nesse ambiente. Não se trata de uma disputa formal por candidatura nem de uma competição aberta pela liderança do campo conservador. Os fatos não autorizam conclusões dessa natureza. O que eles permitem observar é algo diferente: a coexistência de lideranças que passaram a acumular influência suficiente para atuar com graus crescentes de autonomia.

Michelle ampliou sua influência junto a segmentos estratégicos do eleitorado. Flávio trabalha para consolidar protagonismo nacional. Lideranças religiosas aumentaram seu peso nas decisões do campo conservador. Governadores de direita buscam ampliar sua projeção política. Ao mesmo tempo, dirigentes partidários passaram a defender agendas nem sempre convergentes. Nenhum desses movimentos é extraordinário quando analisado isoladamente. Em conjunto, porém, eles revelam uma transformação importante.

Durante boa parte de sua trajetória, o bolsonarismo manteve relativa coesão apesar das diferenças existentes entre suas correntes políticas, religiosas e partidárias. A liderança de Jair Bolsonaro funcionou como mecanismo de coordenação, referência eleitoral e fonte de legitimidade para os diferentes segmentos que orbitavam o movimento. A derrota presidencial de 2022 e a posterior inelegibilidade do ex-presidente não eliminaram essa centralidade, mas modificaram o ambiente em que ela opera. Pela primeira vez desde a ascensão do bolsonarismo ao centro da política nacional, a discussão sobre o futuro deixou de ser uma questão abstrata e passou a influenciar diretamente o comportamento de suas lideranças.

VISIBILIDADE – Esse é o aspecto mais importante do episódio. A divergência pública entre Michelle e Flávio sugere que determinadas tensões já não podem ser administradas exclusivamente pelos mecanismos que garantiram a coesão do movimento nos últimos anos. O problema não é a existência de conflitos. Toda força política relevante convive com disputas internas. O que chama atenção é sua crescente visibilidade. Quando divergências passam a ocupar o espaço público, elas revelam mudanças na distribuição de influência e na percepção de poder dentro de uma organização política.

Por essa razão, a controvérsia repercutiu muito além do conteúdo imediato do desentendimento. A questão central não é quem saiu fortalecido, quem estava correto ou quem obteve vantagem momentânea. O episódio importa porque oferece uma rara oportunidade de observar a dinâmica interna de um movimento que, durante anos, construiu sua identidade política em torno da unidade proporcionada por uma liderança central. Hoje, diferentes atores começam a ampliar seu espaço próprio de atuação e a disputar legitimidade junto a segmentos específicos do eleitorado conservador.

A controvérsia entre Michelle e Flávio não comprova qualquer cenário inevitável de fragmentação. Seu significado é mais sutil e talvez mais importante. O episódio revela que a disputa pela herança política de Bolsonaro deixou de ser uma questão reservada ao futuro e passou a influenciar o presente.

DISPUTAS – Pela primeira vez, tensões que durante anos permaneceram subordinadas à autoridade do ex-presidente começam a se manifestar de forma visível dentro do próprio núcleo que simboliza o movimento. Trata-se do início de uma disputa por representação política, influência e legitimidade dentro do campo conservador.

O episódio revela as dificuldades de uma força política que agora se vê diante da tarefa mais delicada de sua trajetória: administrar a disputa por seu próprio legado. A questão já não é apenas quem enfrentará a esquerda, o Supremo ou o governo. A questão é quem falará em nome do bolsonarismo quando diferentes setores do movimento começarem a reivindicar essa condição para si.

A história política mostra que projetos personalistas raramente entram em declínio por causa de seus adversários. Com frequência, começam a perder força quando as disputas internas passam a ser maiores do que os consensos que os mantinham unidos. O conflito entre Michelle e Flávio não autoriza previsões definitivas sobre o destino do bolsonarismo. Mas revela que a disputa por seu legado deixou de ser uma questão do amanhã. Ela já influencia o presente — e começa a redesenhar as relações de poder dentro do próprio movimento.


O 2º tempo da Lava Jato 2: o caso Jaques Wagner, por Luís Nassif

Entre a cautela jornalística e o método Lava Jato, a diferença está no respeito ao julgamento dos fatos.

Abra este Link e leia a mtéria  completa:

https://jornalggn.com.br/coluna-economica/o-2o-tempo-da-lava-jato-2-o-caso-jaques-wagner-por-luis-nassif/

No caso Jaques Wagner, a PF virou repórter, e o repórter virou polícia, por Luís Nassif

 

                                    Jaques Wagner em foto de Saulo Cruz - Agência Senado


A Lava Jato 2 está conseguindo seu objetivo de seduzir até bons jornalistas, transformando-os em porta-vozes do punitivismo mais selvagem


,Os influenciadores estão engolindo os jornalistas. Não me refiro a um embate entre ambos, mas ao espírito de influencer baixando até em bons jornalistas. Vale tudo para ganhar seguidores, até deblaterar contra o processualismo.

O direito processual não é burocracia, é a ferramenta que impede o arbítrio estatal, equilibrando a assimetria de poder entre o Estado e o indivíduo. Pode haver abusos, sim. Pode-se recorrer ao direito processual para embargar investigações importantes. Mas, sem o direito processual seria a selvageria.

Entre o indivíduo e o Estado não há paridade de armas: de um lado, a pessoa isolada; do outro, a polícia, o Ministério Público, o COAF, o aparato fiscal, o orçamento, a capacidade de investigar, vigiar e constranger. A processualística existe para impor a esse poder desigual um leito por onde correr. As regras de procedimento — prazos, ritos, competências — não são burocracia; são contenção. 

A Lava Jato 2 está conseguindo seu objetivo de seduzir até bons jornalistas, transformando-os em porta-vozes do punitivismo mais selvagem. Basta analisar o caso Master.

A 9ª fase da Operação Compliance Zero – que flagrou o senador Jaques Wagner – foi construída sobre uma proposição simples e, por isso mesmo, perigosa: a de que proximidade equivale a finalidade. A Polícia Federal reuniu mensagens, áudios, registros de chamadas e contratos extraídos do celular de Augusto Ferreira Lima – dono do Credcesta e ex-sócio de Daniel Vorcaro, e deduziu que o senador Jaques Wagner, líder do governo no Senado, teria atuado no Congresso em favor do Banco Master em troca de um conjunto de vantagens. A peça inteira repousa sobre um elo que ela não demonstra — apenas presume: o de que cada vantagem foi a contrapartida de um ato parlamentar específico.

Para que essa hipótese se sustente, não basta provar a existência da relação entre Wagner e Augusto Lima. É necessário demonstrar o ato de ofício, isto é, a atuação concreta do senador em favor dos interesses do Master. E foi justamente aí que a investigação procurou sua principal evidência: a discussão sobre o aumento do limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), medida que beneficiaria diretamente o Banco Master

O problema é que a acusação parte da conclusão para buscar a prova. Pressupõe que Wagner atuou em favor da proposta e, a partir daí, interpreta todas as evidências sob essa ótica. Agora, porém, surge um fato novo de enorme relevância: o próprio ministro da Fazenda, Fernando Haddad, veio a público afirmar que, a seu pedido, Jaques Wagner trabalhou contra a aprovação da medida.

Se a emenda nunca foi votada em plenário, não existe voto que possa ser apontado como contrapartida. Se o líder do governo, segundo o próprio ministro da Fazenda, atuou para impedir sua aprovação, a tese de que teria trabalhado para favorecer o Master sofre um abalo evidente.

A própria Emenda nº 26, apresentada por Wagner durante a tramitação, tratava do regime orçamentário do Banco Central e não guardava relação com os interesses atribuídos ao Master. A emenda acabou rejeitada oralmente pelo relator. O que resta, então, como prova da suposta atuação em favor do banco? Até aqui, ligações telefônicas, mensagens, contatos políticos e interpretações sobre conversas. Não um resultado legislativo concreto.

É espantoso, mesmo após a Lava Jato, a facilidade com que se aceitam as versões da polícia. Em qualquer democracia minimamente madura, no jornalismo profissional investigações policiais são objeto de escrutínio, não de reverência. Durante décadas, havia uma regra elementar no jornalismo policial: a função do jornalista era verificar, confrontar, questionar e exigir provas.

Hoje, em troca de vazamentos seletivos e “furos” exclusivos – ou, pior!, em troca de likes e seguidores -, parte da imprensa parece ter abandonado essa cautela. Publicam-se hipóteses como fatos consumados..

Na ditadura, havia pelo menos um princípio a ser obedecido, especialmente pelos repórteres policiais: repórter é repórter, polícia é polícia. Agora, para ter acesso a “furos” ou likes, aceita-se qualquer versão da Polícia Federal.

E, agora, como ficam os caros amigos repórteres de polícia? Vão esconder a informação ou reverberar novas versões da Polícia?

Quando o jornalismo irá se dar conta de que o pior exemplo para a profissão são os “jornalistas-selas”, os que se deixam cavalgar pelas fontes ou pelo público?

Aí, os idiotas da objetividade dirão que foi abuso de Wagner aceitar vantagens de Augusto Lima. Foi, sim! Vôos fretados, ingressos para shows, a tal compra do apartamento para reservar para a filha de Wagner. Há vários episódios que atropelam princípios éticos de atuação pública. Mas o crime só ocorre quando há o ato de ofício, a prova da contrapartida do suposto subornado. Ao endossar versões falsas, há o estupro da notícia.

E então? 

É aceitável que um país democrático naturalize investigações conduzidas pelo método da tentativa e erro e divulgadas em tempo real? Que autoridades dotadas do poder de quebrar sigilos, invadir a esfera privada dos cidadãos, realizar buscas e apreensões e constranger reputações públicas apresentem como prova aquilo que, no máximo, constitui uma inferência?

Mais uma vez, fica a sensação de um trabalho apressado. E apressado justamente quando surgia um fato politicamente explosivo: a gravação de Flávio Bolsonaro solicitando recursos a Daniel Vorcaro. Coincidência ou não, o foco do debate público mudou de direção.

E isso talvez explique por que, mais uma vez, a principal pergunta não seja sobre o investigado, mas sobre os investigadores.

https://jornalggn.com.br/politica/caso-jaques-wagner-a-pf-virou-reporter-e-o-reporter-virou-policia/

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