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Banqueiro se referia a Hugo Motta como ‘irmão’
Malu Gaspar
Yago Godoy
O Globo
Dados extraídos pela Polícia Federal (PF) do celular de Daniel Vorcaro revelam que o dono do Banco Master se definia como “o número 1” do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB). Nos diálogos o banqueiro também se refere ao parlamentar como “irmão”.
Em 2 de fevereiro de 2025, em conversa com seu diretor jurídico, Luiz Rennó, Vorcaro afirma que estava em Brasília “com Davi e Hugo”, uma referência ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e ao próprio Motta. O dono do Master é questionado pelo advogado se “transita bem” com o deputado, e responde: “Transito bem? Kkkk. Sou ‘number 1’. Amigo irmão”, escreveu Vorcaro.
NO COMANDO – No dia anterior, Motta havia sido eleito o novo presidente da Câmara em primeiro turno, com 444 votos, apoiado por 17 partidos, entre eles o PL e o PT. Alcolumbre também venceu a eleição para comandar o Senado na mesma data, com 73 votos de 81 possíveis. Questionado por meio de sua assessoria, Hugo Motta ainda não se manifestou sobre o teor das mensagens.
Em junho deste ano, a PF apontou que Vorcaro custeou estadias para Motta durante uma viagem para Lisboa, em 2024. À época, o presidente da Câmara afirmou “não ver problemas” no pagamento das diárias, já que se tratava de um evento “corporativo e jurídico”.
De acordo com a investigação da PF, Vorcaro bancou suítes em um hotel de Lisboa para Motta e para o senador Ciro Nogueira (PP-PI). O presidente nacional do PP é suspeito de ter recebido vantagens indevidas do banqueiro por ter atuado em favor de seu banco no Congresso Nacional.
UÍSQUE E CHARUTOS – Em 14 de maio de 2024, Motta também foi um das autoridades que estiveram presentes em uma degustação exclusiva de uísque e charuto promovida por Vorcaro em Nova York, segundo O Globo. O encontro ocorreu no Carnegie Club, luxuoso lounge de Manhattan, e a conta total no estabelecimento foi de US$ 1.023.646 — R$ 5.257.036 na conversão feita pela PF.
Dois meses antes, em março de 2024, a cunhada de Motta, Bianca Medeiros, fez um empréstimo de pelo menos R$ 22 milhões com o Master, conforme divulgado pelo jornal “Folha de S. Paulo”. O crédito serviu para comprar um terreno em João Pessoa.
Mensagens divulgadas anteriormente também mostram que Motta era recebido por Vorcaro em casa. Em março de 2025, em conversa com a então namorada Martha Graeff, o dono do Master é questionado se estava com alguém, e responde que “Hugo e Ciro” chegaram em sua casa para “falar com Alexandre”, uma eferência ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Publicado em 21 de setembro de 2026 por Tribuna da Internet

A nova disputa pelo voto passa pelas igrejas
Bernardo Mello
Kaio Magalhães
O Globo
Depois de passar metade da vida frequentando a mesma Assembleia de Deus em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio, a psicanalista Alessandra Silva, de 40 anos, sentiu necessidade de mudar de igreja nas eleições de 2022. Ela diz que o estopim, à época, foi o incômodo com a forma como seu pastor orientava voto “no candidato que ele já tinha escolhido”, apresentado por ele como “representante da pátria e da família” e “contra o homossexualismo (sic)”.
O relato de Alessandra vai ao encontro de dados captados na pesquisa Religião e Vida Pública no Brasil, feita pelo Instituto de Estudos da Religião (ser) com a Quaest. Os dados começam a ser divulgados neste domingo pelo O Globo, no primeiro capítulo da série de reportagens “Fiel da balança”, que vai abordar as mudanças religiosas no país e seus impactos nas eleições e nos hábitos dos brasileiros.
CONTRA O DEBATE – O levantamento, com 15 mil entrevistas presenciais ao redor do país, aponta que oito em cada dez pessoas são contrárias a discutir política em espaços religiosos. Além disso, nove a cada dez brasileiros não querem que sua liderança religiosa permita a presença de candidatos na igreja — esses percentuais são similares entre católicos, evangélicos e outras religiosidades.
Mesmo com essa rejeição, a pesquisa também mostra em que medida os líderes, em especial pastores, tentam influenciar os votos dos fiéis. Questionados sobre o papel da liderança religiosa da comunidade que frequentavam na eleição de 2022, 11% dos entrevistados disseram ter sido orientados por ela a votar no então presidente Jair Bolsonaro (PL), e 5% em Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
ÍNDICE – No caso dos evangélicos, o índice dos que foram orientados a votar em Bolsonaro chega a 20% entre os protestantes, como batistas e presbiterianos. Entre os pentecostais, grupo que inclui denominações como as Assembleias de Deus — igreja de Alessandra —, a Universal e a Quadrangular, 23% afirmam ter recebido de seu pastor a indicação de optar por Bolsonaro.
— O que aquele pastor dizia sobre o candidato não era manifestação espiritual, e sim a preferência pessoal dele — diz Alessandra, que hoje frequenta outra Assembleia de Deus. — Não quero que ninguém venha me dizer o que eu tenho que fazer. Quem convence o homem é o Espírito Santo, em qualquer área da sua vida. Isso inclui também a política.
MARCADOR SOCIAL – Para a antropóloga Lívia Reis, coordenadora da pesquisa Religião e Vida Pública e do Iser, os dados mostram que a religião é um entre vários marcadores sociais que podem influenciar o comportamento eleitoral. Apesar do apoio maciço de pastores das maiores igrejas a Bolsonaro em 2022, a pesquisa mostra que na região Nordeste, por exemplo, onde o PT vem tendo seus melhores desempenhos, Lula conseguiu 35% do apoio entre evangélicos, quase o mesmo desempenho que o de seu adversário (38%) no segundo turno neste grupo.
O levantamento também traz nuances entre as igrejas. No caso de fiéis da Universal, 27% afirmam que o pastor recomendou voto em Bolsonaro, e 12% em Lula, percentuais acima da média em ambos os casos. Além disso, no caso da Universal, 26% dos fiéis disseram concordar que o pastor indique em quem votar, o dobro da média geral da pesquisa.
CORRELAÇÃO DE FORÇAS – Na avaliação de Lívia Reis, os dados mostram que não há um “voto evangélico” homogêneo, mas sim uma correlação de forças nas igrejas.
— Não se trata de o pastor mandar e o fiel obedecer. Na pesquisa, os evangélicos aparecem mais engajados religiosamente do que outros grupos, e a igreja é uma rede de confiança. É nesse sentido que uma liderança pode acabar influenciando o voto, por exemplo, a partir das informações que circulam no grupo de WhatsApp dessa comunidade. Mas também há o inverso, pessoas que deixam a igreja reclamando da insistência do pastor de indicar voto — diz a pesquisadora.
Na atual corrida ao Planalto, Flávio Bolsonaro (PL) vem tentando repetir a estratégia do pai em 2022 e busca o apoio de lideranças evangélicas — que têm hesitado, porém, em declarar voto de forma explícita. Em pronunciamentos, Flávio tem prometido indicar ministros ao Supremo Tribunal Federal (STF) que sejam “contra o aborto e contra as drogas”, fazendo eco a discursos dessas lideranças. O presidente Lula, por sua vez, critica o que chama de “uso político da religião” e diz que não montará “comitê de campanha” em igrejas por “respeito à fé das pessoas”.
DESCONFORTO – Por experiência própria, Gustavo Catarino, de 50 anos, sabe que há um certo “desconforto dos membros” quando pastores “sugerem a igreja se vinculando” a um candidato. Atualmente trabalhando como supervisor em uma empresa de energia e membro de uma igreja Assembleia de Deus, Catarino já foi pastor da Igreja Nova Vida, no Rio.
Em época de eleição, Catarino diz já ter recebido candidatos a vereador na igreja em que era pastor, mas tomando certos cuidados, como o de não lhes franquear a palavra durante o culto. A liderança religiosa, argumenta Catarino, não deve agir como se a política não fizesse parte da vida dos fiéis, mas sim orientá-los a “não trocar seus votos por saco de cimento”.
— Eles sofriam assédio de políticos, e eu dizia que é preciso votar consciente. Já vi colegas pastores colocando a direita como salvadora, que iria resgatar a moralidade. Quando os altares começam a se tornar verdadeiros falantes políticos, não sou a favor. No meu caso, os candidatos participavam do culto, mas sem oportunidade de fala. Depois fazíamos uma oração — lembra.
NARRATIVA – Já a cuidadora de animais Renata Nascimento, de 47 anos, diz ter testemunhado outra faceta do discurso político em igrejas: o uso da narrativa religiosa para atacar adversários. Evangélica desde os 20 anos e hoje frequentando uma igreja batista em Realengo, na Zona Oeste do Rio, ela conta que o pastor de outra igreja da qual fez parte buscava demonizar candidatos de esquerda.
— Ele disse, com todas as letras, que quem votasse no Lula era do capeta. Para mim, aquilo foi o fim da picada — critica.
O antropólogo Flávio Conrado, diretor da Casa Galileia e coautor do relatório “Narrativas evangélicas e contexto eleitoral” junto ao Instituto Democracia em Xeque, avalia que lideranças mais radicalizadas podem estar menos vocais no púlpito, mas seguem usando as redes sociais e outros espaços para “circunscrever o voto religioso à direita”.
PROTAGONISMO – Ele aponta ainda que pastores das principais igrejas têm posicionado o ministro do STF André Mendonça, que é presbiteriano e foi indicado à Corte por Bolsonaro, como personagem de uma “luta do bem contra o mal” envolvendo o colega Alexandre de Moraes, com impactos eleitorais.
— A ideia transmitida é que Mendonça está numa batalha espiritual contra um “sistema corrompido”, que certas lideranças associam à ocupação do Executivo e do STF pela esquerda — avalia Conrado.
Segundo o levantamento realizado pelo Iser e pela Quaest, apenas uma minoria — um a cada cinco entrevistados — participa de grupos ou comunidades religiosas nas redes sociais. Entre os participantes, porém, há a percepção de atividade política nesses espaços: 48% veem “sempre” ou “frequentemente” outros participantes compartilhando conteúdos de política nesses grupos no Facebook, e 34% veem o mesmo no WhatsApp.
MAIS ACESSO – Católicos praticantes, pentecostais e protestantes tendem a relatar mais acesso a esse tipo de conteúdo nos grupos de que participam, em comparação a católicos não praticantes e evangélicos sem igreja.
Para pesquisadores, os dados sugerem que a tentativa de influência política a partir do discurso religioso vai além, hoje em dia, do que é dito de forma explícita dentro da igreja. Em discursos na Avenida Paulista, em São Paulo, no feriado de 7 de Setembro, que depois se tornaram cortes em suas redes sociais, nomes como o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, e a bispa Sonia Hernandes, da Igreja Renascer, pediram orações a Mendonça e associaram sua atuação no caso Master a uma oportunidade para, nas eleições, “derrotar homens injustos” e não permitir que as “trevas ocupem nenhum cargo” no país.
“FORÇA MENDONÇA” – Presente ao mesmo ato, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), distribuiu camisetas com a frase “Força, Mendonça” que, segundo relatou ao portal Metrópoles, foram entregues a ele por grupos ligados à Igreja Católica.
— Talvez estejamos vendo uma aproximação de práticas entre cristãos conservadores, sejam católicos ou evangélicos — diz a pesquisadora Brenda Carranza, professora de Antropologia da Religião da Unicamp. — A campanha eleitoral passa cada vez mais pelos influenciadores cristãos em redes sociais. E os líderes de igrejas passam a trabalhar mais com a defesa de determinados valores, que sejam verbalizados por políticos, do que se restringir a candidatos da própria igreja.
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Publicado em 23 de setembro de 2026 por Tribuna da Internet Facebook Twitter WhatsApp Email Charge de Orlando Pedroso (Canal Meio) Dimitrius...