segunda-feira, fevereiro 27, 2023

Vacina bivalente amplia proteção para pessoas de grupos de risco, diz médico




Imunizante mais completo começa a ser aplicado nesta segunda-feira (27) em 17 capitais brasileiras em pessoas com mais de 70 anos, imunocomprometidos e comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas

Por Juliana Elias e Layane Serranoda

As novas vacinas bivalentes contra a Covid-19, que começam a ser aplicadas em 17 capitais brasileiras nesta segunda-feira (27), ampliam a proteção contra um número maior de variantes do vírus e tem a função de reforçar a imunidade de quem já está vacinado, em especial pessoas dos grupos de risco.

É o que explica o vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Renato Kfouri. “Essa é a vacina hoje que o mundo tem recomendado de maneira mais universal, como reforço. Ela não é para quem nunca tomou, é para quem tomou pelo menos duas doses”, disse Kfouri em entrevista à CNN neste domingo (26).

As primeiras gerações de vacinas contra o coronavírus, as monovalentes, foram feitas com base na cepa original do vírus surgida em Wuhan, na China, marco zero da pandemia.

Já as bivalentes, explica Kfouri, mantêm a estrutura da cepa original e inclui também a ômicron, uma das diversas variantes que surgiram depois e a dominante na circulação da doença no mundo atualmente – por isso é um imunizante bivalente. “Isso faz com que amplie a proteção inclusive para futuras variantes que possam surgir”, de acordo com o médico.

Kfouri explica que o papel da nova vacina bivalente é essencialmente de reforço, e que seu advento, agora, não dispensa as pessoas do esquema vacinal anterior.

“A ômicron mostrou que os grupos que não são de risco, sem nenhuma doença crônica, continuam muito bem protegidos com três doses da vacina anterior, a monovalente”, diz ele.

“Todos, na verdade, têm que ter pelo menor três doses da vacina monovalente. Essa é a garantia de prevenção de formas mais graves da Covid-19. Por enquanto, então, a recomendação da bivalente é só para os grupos prioritários.”

Nas cidades onde já estão disponíveis, as vacinas bivalentes começam a ser aplicadas nesta semana em pessoas acima de 70 anos, imunocomprometidos e comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas, de acordo com o Ministério da Saúde.

Reuters / CNN

A maldição dos combustíveis




Presidente tenta adiar desgaste e ameaça ministro da Fazenda com nova derrota pública

Por Bruno Boghossian (foto)

Poucos fatores podem drenar a popularidade de governantes e produzir problemas políticos como os preços dos combustíveis. O gás de cozinha mais caro pressionou FHC, a gasolina alimentou o mau humor de opositores com Dilma Rousseff, o diesel jogou uma greve de caminhoneiros no colo de Michel Temer, e Jair Bolsonaro lutou contra as bombas durante a campanha à reeleição.

Lula tenta adiar seu encontro com essa maldição. Assim que voltou ao Planalto, o petista prorrogou o corte de tributos sobre combustíveis —um explosivo deixado por Bolsonaro. A decisão contrariou a equipe econômica, mas o presidente preferiu fugir a todo custo de uma má notícia no primeiro dia de mandato.

O assunto voltou à mesa de Lula porque o governo quer evitar uma escalada de preços quando a desoneração acabar, na quarta-feira (1º). Depois de passar a campanha prometendo baratear os combustíveis, o petista pretende desviar esse peso dos consumidores num momento de inflação já pressionada.

O ministro Fernando Haddad é contra esticar mais uma vez o corte de impostos, que custa alguns bilhões de reais por mês ao governo e atrapalha sua missão de equilibrar as contas. Os conselheiros políticos de Lula argumentam, por outro lado, que uma nova prorrogação é necessária para dar tempo à Petrobras de adequar sua política de preços e amenizar o impacto nas bombas.

Voz influente nas decisões tomadas por Lula, a presidente do PT disse que taxar os combustíveis agora seria "penalizar o consumidor, gerar mais inflação e descumprir compromisso de campanha". Em outras palavras, Gleisi Hoffmann insinuou que a equipe de Haddad propõe uma medida que causa prejuízos à população e danos políticos ao presidente.

A maldição dos combustíveis agora ameaça Haddad. Não é pequena a chance de o ministro da Fazenda ser obrigado a absorver uma derrota pública para a ala política do governo nesse embate, além de ter que acomodar o custo da desoneração por mais dois meses.
 
Folha de São Paulo

Pouco a pouco - Editorial




Número de partidos cai; ajuste gradual é mais realista do que reforma profunda

Quase a metade dos 31 partidos políticos do país estará excluída, neste ano, do rateio das verbas do fundo orçamentário —dinheiro público— destinado a manter tais agremiações. Essa é uma boa notícia.

Se o pluripartidarismo costuma ser um sinal de vitalidade de uma democracia, a existência de mais de três dezenas de siglas constitui uma anomalia que resulta de distorções do sistema político-eleitoral brasileiro e as agrava.

Resultante de normas por demais permissivas, a proliferação de siglas em nada ajuda os eleitores na hora de decidir o voto. Grande parte delas opera como meros escritórios especializados em amealhar recursos públicos, seja diretamente do fundo partidário, seja negociando cargos e verbas por meio de seus membros eleitos.

A fragmentação dificulta a governabilidade. Presidentes precisam cercar-se de uma miríade de legendas médias e pequenas, a custos elevados, para formar maiorias no Legislativo e aprovar seus projetos —ou, ao menos, para evitar CPIs e ameaças de impeachment.

O país só agora começa a colher os resultados de reformas aprovadas a duras penas para lidar com o problema. A primeira, de 2015, fixou exigências maiores para a coleta de assinaturas necessária para a criação de partidos.

Depois, em 2017, a chamada cláusula de desempenho impôs votações mínimas, crescentes a cada pleito até 2030, para que as siglas tenham acesso ao fundo partidário e à propaganda eleitoral paga com dinheiro do contribuinte.

Desde o início das mudanças, a quantidade total de legendas, graças a fusões e incorporações, diminuiu de 35 para as atuais 31. A cifra deve recuar em breve para 29, com dois processos ainda em análise na Justiça Eleitoral.

Mais importante, o número de agremiações representadas na Câmara dos Deputados caiu do recorde de 30, em 2018, para 23 agora, com perspectiva de recuo para 20. Se consideradas as federações, nas quais as siglas se unem por prazo limitado para cumprir a cláusula de desempenho, a cifra pode chegar a 16 forças em atuação.

Obviamente, não se está diante de alguma panaceia. Falta muito, ainda, para que mais partidos busquem se estabelecer em bases mais duradouras, com coerência programática e inserção na sociedade. Nesse sentido, o financiamento público de campanhas também deveria ser reexaminado.

De todo modo, a estratégia de aperfeiçoamentos graduais parece mais realista e promissora do que alguma tentativa de reviravolta total das normas eleitorais do país.

Folha de São Paulo

País da impunidade: Justiça pode ter de devolver R$73 milhões a Palocci




Ex-ministro de Lula pode reaver fortuna sob tutela judicial (Foto: EBC)
Por Cláudio Humberto

Com o processo estacionado na Justiça Eleitoral do Distrito Federal, Antônio Palocci pode reaver os quase R$ 73 milhões que estão sob custódia judicial. O processo contra o ex-ministro da Fazenda e “operador” confesso de Lula é um dos cerca de 260 que foram gerados pela Operação Lava Jato e ainda tramitam a passos de tartaruga. O juiz da 1ª Zona Eleitoral do Tribunal Regional Eleitoral do DF recebeu um “pedala” da 13ª Vara Federal de Curitiba, responsável pela Lava Jato.

Na gaveta

O processo de Palocci chegou a 1ª Zona Eleitoral do TRE-DF em julho de 2022 e, sete meses depois, pouco andou.

Caducando

A 13ª Vara curitibana mandou ofício ao TRE-DF destacando que prazos legais “já estariam esgotados há muito tempo”, cobrando providências.

Não dar em nada

A Lava Jato destacou que o caso de Palocci corre risco de prescrever e a fortuna devolvida, o que pode gerar “sensação de impunidade”.

Na marra

Caso a Justiça do DF não ande com a papelada, a ameaça da força tarefa é levar o caso ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Pacheco, roda-presa, engaveta projetos relevantes

Apesar da gaveta recheada de projetos de interesse nacional, como o que estabelece prisão após condenação em segunda instância e fixa mandato para ministros do STF, ou projetos urgentes, como medidas para mitigar o desastre no litoral paulista, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, resolveu que os senadores vão discutir uma medida provisória que trata de impostos sobre gastos de brasileiros no exterior.

Prioridade zero

Para Pacheco, é prioridade analisar a MP que trata da alíquota sobre a renda retida na fonte em operações financeiras de brasileiros no exterior.

Agora, nem um pio

A MP editada por Bolsonaro reduziu de 25% para 6% a alíquota (inclusive de empresas) sobre gastos fora do Brasil.

‘Esforço’

Apontada como a “principal” pauta do Senado no início do novo governo, a reforma tributária está longe do radar. Já gastos no exterior...

Cresce apoio a CPI

A lista para a CPI do Dino no Senado, puxada por Soraya Thronicke (União-MS), ganhou mais uma assinatura: professora Dorinha Seabra (União-TO). O requerimento já conta com 39 parlamentares.

Dia 8 ainda rende

Além da CPI do Dino no Senado, o governo já monitora outra dor de cabeça sobre a quebradeira em Brasília no dia 8 de janeiro. A criação da CPMI com o mesmo tema precisa de apenas 11 assinaturas.

Realidade comum

Bolsonaro criticou os ministros de Estado de Lula, mas também admitiu: “vários partidos políticos ficam em cima de você, porque querem a indicação para eles, como sempre foi no Brasil! Como está sendo agora”.

Desempenho paraense

Desde 2018, os estados do Amazonas, Rondônia, Acre e Roraima somados não desmataram tanto quanto o Pará do governador Hélder Barbalho (MDB): 21.194 quilômetros quadrados da Amazônia Legal.

Risco dos amigos

O “risco” de a Venezuela dar calotes em investidores é tão grande que supera até Cuba, que tem nota “Ca”, a segunda pior da Moody’s, que prevê “pouco prospecto de recuperação” de um país em “default” (falido).

Saldão

A loja de souvenirs do PT resolveu promover um saldão com produtos da ex-presidente Dilma, de baixa procura. Caneca com imagem da petista é vendida por salgados R$63,90. Era mais cara, cobravam R$88.

Incompetentes S/A

A oposição apertou no ministro das Comunicações, Juscelino Filho, e cobrou explicações sobre os mil chips da Correios Celular que foram enviados para o comitê que acompanha a situação dos Yanomamis.

Primeira de 2023

A CNI anunciou missão internacional para empresários brasileiros, em abril. Comitiva em parceria com o Sesi e Senai será levada a Hannover, na Alemanha, para participar de uma feira de tecnologia para a indústria.

Pensando bem...

...agora sob nova gestão, o tal “gabinete do ódio” ganhou status de primeiro escalão: Ministério de Vinganças e Retaliações.

Diário do Poder

O papel da oposição na democracia brasileira




O pressuposto de que defender as instituições democráticas implica apoiar o governo Lula, abster-se de criticar seus erros, não se sustenta

Por José Augusto Guilhon Albuquerque* (foto)

A vitória eleitoral de Lula no segundo turno provocou, em parte, um alívio depois de quase quatro anos de desgoverno do ex-presidente Bolsonaro e, sobretudo, diante de um final de mandato sem governo nenhum. O alívio também proveio de uma expectativa de cumprimento do compromisso, assumido pelo novo presidente, de formar um governo de frente ampla, com participação relevante das lideranças e do eleitorado de centro, sem cujo voto Lula teria sido derrotado.

No que diz respeito ao seu compromisso com uma ampla frente de defesa da democracia, não creio que seja injusto afirmar que ele tem deixado muito a desejar. E, se fosse injusto, motivado por discordâncias morais ou ideológicas, não teríamos o direito democrático de discordar?

Infelizmente, o alívio por termos evitado as ameaças golpistas do ex-presidente – graças, repito, ao voto do eleitorado de centro – provocou no jornalismo brasileiro e em parte da opinião pública uma quase unanimidade nacional. Mas a unanimidade não é apenas burra, como queria Nelson Rodrigues, ela é inimiga da democracia representativa.

Não basta se intitular democracia, nem apenas permitir a existência de partidos políticos, apenas tolerados, mas sem relevância e sem garantia de fato de disputar o poder. Para Robert Dahl, a principal referência na teoria democrática, além da igualdade do direito de participação política, a democracia pressupõe a garantia da liberdade de oposição.

O pressuposto de que defender as instituições democráticas implica apoiar o governo Lula, abster-se de criticar seus erros, aceitar indiscriminadamente sua falta de empenho em estabelecer uma política econômica coerente, ou sua insistência em manter-se permanentemente em campanha e perpetuar a polarização, não se sustenta. O pressuposto correto é de que defender a democracia implica apoiar as instituições democráticas e avaliar o desempenho de seus responsáveis e, em caso de discordância, valer-se do direito de oposição. A melhor maneira de contribuir positivamente para o bom desempenho de um governo do qual discordamos é fazer-lhe oposição, uma oposição programática, coerente em seus princípios e fiel ao Estado Democrático de Direito.

Minha primeira objeção ao atual presidente diz respeito a seu descaso quanto à principal prioridade de um governante, a de começar a governar com objetivos e projetos bem determinados, apoiado numa equipe governativa experiente, e com apoio de uma maioria congressual fiel e estável. Durante o mês de transição e no primeiro depois de empossado, Lula se distinguiu mais pelo que não fez do que por seus feitos em matéria de governo.

Empenhou-se em primeiro lugar em obter, a todo custo, apoio suficiente para livrar-se de qualquer âncora fiscal. A nova âncora, se levarmos em conta o princípio, por ele estabelecido, de que o equilíbrio fiscal é inimigo do povo, está fora de cogitações, uma vez que ficou postergada para o segundo semestre e seria atrelada à reforma tributária – a qual, por sua vez, poderia ser parcelada!

Como não é possível avaliar apenas o que não se fez, atenho-me, aqui, a iniciativas do governo Lula que considero arriscadas, para dizer o mínimo. Trata-se, por exemplo, das iniciativas de cerceamento da livre expressão de opiniões discordantes do governo com a criação de uma Procuradoria Nacional de Defesa da Democracia em recente decreto da Advocacia-Geral da União (AGU), que, como sabemos, advoga supostamente em defesa da União, e não da “democracia”. Entre os objetivos citados pelo novo advogado-geral da União, em seu discurso de posse, o novo órgão deverá combater informações inverídicas “com o objetivo de prejudicar a adequada execução de políticas públicas”. Desde quando manifestar opinião contra a execução de políticas públicas que não sejam aceitas por um grupo de interesse pode ser considerado ilegal?

Outra iniciativa – esta diretamente tomada por Lula – talvez seja a mais arriscada. Trata-se do que podemos chamar de reconversão da polarização: com o enfraquecimento da base congressual do bolsonarismo, torna-se cada vez menos crível a iminência de um golpe capitaneado pelo ex-presidente. Isso parece tornar urgente, para o lulopetismo, encontrar outro polo a ser demonizado.

É o que se pode depreender dos ataques repetidos de Lula aos militares. Quaisquer que fossem as circunstâncias, seria fora de propósito o presidente da República tornar pública sua desconfiança de toda uma categoria de servidores do Estado. Dadas as circunstâncias, em que Bolsonaro e seu entourage militar ameaçaram constantemente desencadear um golpe de Estado com o apoio das Forças Armadas, trata-se de pura provocação.

Lula precisa entender rapidamente duas coisas: primeiro que, se ele deve ao eleitor de centro sua vitória eleitoral, ele deve à maioria legalista dos militares a recusa a cumprir os delírios ditatoriais do seu chefe supremo. Segundo, que seu principal dever é o de governar e, quanto mais adiar o cumprimento desse dever, mais ele será cobrado.

*Professor titular de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP)

O Estado de São Paulo

Desafio de regular inteligência artificial não tem paralelo - Editorial




Sistemas que simulam atividades criativas terão impacto profundo nos negócios, na política e na vida

É uma piada antiga entre cientistas da computação traduzir a sigla IA por “imbecilidade automatizada”. Nos últimos tempos, a brincadeira perdeu a graça, tamanho o avanço nos sistemas de “inteligência artificial”. É verdade que não é muito adequado chamar um software de “inteligência”. Mesmo assim, nos últimos anos a IA ultrapassou barreiras críticas que a tornaram mais acessível — e se tornou o ramo mais promissor e desafiador da tecnologia digital.

A principal das barreiras é um teste atribuído ao matemático britânico Alan Turing: a partir do momento em que um observador não seja mais capaz de distinguir respostas do computador e dos humanos, dizia Turing, será possível afirmar que a máquina é dotada de inteligência. Tal questão filosófica ainda deverá permanecer sem solução por um bom tempo, mas vários sistemas de inteligência artificial lançados recentemente são hoje capazes de enganar os observadores desavisados.

É o caso do robô de bate-papo ChatGPT, desenvolvido pela californiana OpenAI e incorporado pela Microsoft a seu mecanismo de busca Bing. Ou de concorrentes desenvolvidos pelo Google e pela Meta. Ou ainda do Dall-E, programa que gera imagens a partir de descrições em textos. Cada um desses sistemas oferece resultados com um grau desconcertante de semelhança aos produzidos por humanos e levanta questões sobre como o mercado e as leis lidarão com o avanço da IA. Tais questões não são novas. Povoam a ficção científica e as discussões acadêmicas há décadas. O que a nova onda da IA fez foi torná-las urgentes.

Nos anos 1990, ficou claro que não haveria páreo para os computadores em jogos como o xadrez, onde a vitória depende apenas da análise exaustiva de uma quantidade gigantesca, mas finita, de possibilidades. Mas havia ainda um ceticismo fundamentado sobre a capacidade de máquinas suplantarem seres humanos em atividades criativas, como artes visuais, composição de música, de textos ou a própria programação dos computadores.

A inovação determinante para a evolução da IA nas duas últimas décadas foi uma técnica conhecida como “rede neural”. Por meio dela, os sistemas podem ser treinados com quantidades enormes de exemplos e aperfeiçoam suas respostas aos desafios. É como se as máquinas pudessem aprender. Foi esse “aprendizado de máquina” que permitiu aos computadores derrotar seres humanos em jogos de estratégia mais sofisticados, como o Go, e aventurar-se em atividades criativas, como produção de textos e imagens.

A simulação da criatividade oferecida pelo ChatGPT e correlatos se baseia em sistemas capazes de aprender e reproduzir linguagens naturais, conhecidos como “modelos de linguagem ampla” (LLM na sigla em inglês). Eles trazem ao alcance dos computadores todo tipo de manipulação simbólica, em terrenos tão díspares quanto desenho, escrita, programação, música ou projetos de moléculas para a indústria farmacêutica. O tempo da “imbecilidade automatizada” ficou definitivamente para trás.

Os resultados impressionam. Desde que o ChatGPT foi lançado ao público, em novembro passado, escolas e universidades enfrentam dificuldades para lidar com o uso da IA em redações, provas e trabalhos. Um repórter do New York Times foi surpreendido com um diálogo atordoante em que o robô simulava estar apaixonado por ele. A quantidade de informações falsas e erros flagrantes cometidos em várias respostas levou a própria Microsoft a limitar seu uso. Autoridades do mundo todo estão perplexas, preocupadas com o uso da IA em campanhas de desinformação.

As empresas, em contrapartida, estão animadas com a perspectiva trazida a seus negócios. De acordo com a consultoria McKinsey, mais de 50% das corporações já incorporaram robôs de IA em suas operações. No ano passado, grandes companhias americanas adquiriram 52 empresas emergentes do setor, e a quantidade de postos de trabalho para especialistas no aprendizado de máquina foi dez vezes maior que em 2020. O temor é que a IA tenha sobre as atividades criativas o mesmo efeito que outras tecnologias tiveram sobre empregos de natureza mecânica e repetitiva.

Há, é certo, tarefas em que os robôs de IA ainda deixam muito a desejar — instado a produzir o texto de um editorial para esta página, o ChatGPT entregou um resultado impublicável sob qualquer ponto de vista. Mas outras ocupações estão prestes a passar por um período profundo de transformação — o mesmo robô produziu programas de computador corretos, capazes de resolver problemas de complexidade razoável. O mais provável é que, uma vez que evoluam e os riscos sejam mitigados, os robôs de IA sejam auxiliares facilitando o trabalho de profissionais que lidam com conhecimentos técnicos. Não só programadores de computador, mas também médicos, engenheiros, advogados ou jornalistas.

A nova realidade tornará mais salientes os dilemas éticos inerentes à IA. Que acontecerá se ela for usada para cometer crimes? A quem devem pertencer os direitos sobre o que for produzido? Como zelar por um ambiente competitivo que não reproduza a ameaça dos monopólios digitais? Como garantir a evolução da tecnologia com o mínimo de riscos para seus usuários, para a sociedade e para as instituições? Essas são apenas as questões mais evidentes. Juridicamente, será preciso adotar critérios sensatos para regular os direitos autorais, a responsabilidade civil (e mesmo criminal) e o modelo de negócios subjacente ao uso dos robôs. Tal regulação impõe um teste inédito para a inteligência humana.

O Globo

Os limites do poder




A história se repete como farsa, mas embute sérias lições. 

Por Murillo de Aragão (foto)

Quando Jânio Quadros pousou na Base Aérea de Guarulhos, esperava que seu gesto despertasse uma multidão de eleitores que, poucos meses antes, o haviam conduzido ao Palácio do Planalto. Não aconteceu nada. João Goulart esperou que as ruas e as manifestações lhe dessem poder sobre o Congresso, foi derrubado. Fernando Collor, pelo seu lado, acreditou na narrativa e no seu voluntarismo. Quando quis “comprar o painel”, era tarde. Sofreu impeachment. Dilma Rousseff, também, testou os limites do poder. Deixando de cumprir acordos, não dialogando com as forças políticas e tampouco atendendo aos requerimentos e demandas do Legislativo. Encontraram uma justificativa, aceita pelo Tribunal de Contas da União e pelo Supremo Tribunal Federal, para o seu impeachment.

Jair Bolsonaro sacudiu o bote para ver se conseguia uma nova alvorada institucional. Tentou em 2021 e deixou tentarem em 2022. Atacou o Judiciário, foi controlado pelo Congresso. Não conseguiu a imposição pela imposição. Ficou pelo caminho e perdeu densidade política.

A história se repete como farsa, mas embute sérias lições. Em todos os casos mencionados existem lições que devem perdurar. Em todos os casos mencionados fica claro que o presidente pode muito, mas não pode tudo. E, em Brasília, o presidente da República pode ser cuspido do poder antes mesmo de perceber que está sendo mastigado.

Observando os casos da história política, todos os presidentes mencionados tentaram testar os limites das fronteiras institucionais e foram derrotados. João Goulart foi mais longe e — em sendo derrubado — propiciou o regime militar. O divórcio entre o Executivo e o Legislativo no governo Goulart foi aprofundado pelo desempenho trágico na economia.

Não há como fugir dos exemplos da história, ainda que a política seja movimento em múltiplas dimensões. A diferença, no caso brasileiro, é que o ambiente institucional segue crescentemente complexo e fragmentando. Assim, o voluntarismo presidencial — mostrado por Quadros, Goulart, Collor e Dilma — tem cada vez menos espaço.

O voluntarismo de Bolsonaro, por exemplo, esbarrou na incapacidade de se promover uma ruptura institucional por falta de apoio na sociedade, na imprensa, nos agentes econômicos e mesmo nas Forças Armadas. Ficou no campo da utopia desconectada do mundo real.

Lula começa o seu governo com narrativas voluntaristas. Seu entorno, dividido entre pragmáticos e dogmáticos, reage de forma diferente. Uns vibram com a agenda de transformação. Outros se preocupam com os limites do consenso.

Claramente, as intenções do novo governo ainda não cabem no figurino institucional do Brasil. As roupas do novo governo estão apertadas. Para dar certo, deve existir um regime de intenções, adequá-las ao horizonte próximo e construir o consenso para realizá-las.

No final das contas, os limites do poder são dados pela capacidade de viabilidade da agenda do governo. A imposição de agendas é uma quase impossibilidade nos tempos atuais do Brasil. O sucesso do atual governo vai depender da capacidade de construir consensos.

Revista Veja

O poder da máquina




Putin não quer o Nobel da Paz, quer vencer os separatistas, que são uma ameaça à Federação Russa.

Por Merval Pereira (foto)

Na marca de um ano da invasão da Rússia na Ucrânia, nada melhor para conhecer as intrincadas razões do primeiro-ministro russo Vladimir Putin para desencadear essa ação irresponsável, do que ler “O Mago do Kremlin”, do cientista político italiano Giuliano Da Empoli, lançado no Brasil no final do ano passado, premiado com o Grand Prix da Academia Francesa. Putin é um homem que não se interessa em ganhar o Prêmio Nobel da Paz, mas em vencer os separatistas, que representam uma ameaça à Federação Russa.

Autor do essencial “Engenheiros do Caos”, livro no qual descreve a ação de extremistas de direita no uso das ferramentas digitais para provocar rebeliões pelo mundo afora, e interferir na política de outros países, Da Empoli faz a ligação de seu novo livro com o anterior, mostrando como o uso político das redes sociais na internet teve papel fundamental para Putin, reforçando as suspeitas de que a Rússia teve participação direta na eleição de Donald Trump nos Estados Unidos em 2016 e, possivelmente, na de Bolsonaro em 2018 no Brasil.

Foi na produção do primeiro livro que ele se deparou com a figura de Vladislav Sukov, “O Mago do Kremlin”, que no romance foi identificado como Vladimir Baranov, o principal assessor de Putin durante anos, que engendrou a política baseada nos algoritmos que usaria os novos meios digitais para impor sua visão de mundo. No livro anterior, Da Empoli falava de Steve Bannon, o guru da extrema-direita dos Estados Unidos e da família Bolsonaro.

Deixou o mago do Kremlin para um livro próprio, e fez bem. Na concepção de Sukov, como os instrumentos digitais foram inicialmente concebidos para a utilização militar nas guerras, não seriam dedicados à liberdade individual. Ao contrário, seriam meios estratégicos para indução das populações às vontades de um governo central. O objetivo seria “fazer com que fiquem enraivecidos. Todos. Cada vez mais”.

Ou, como diz Vladimir Baranov, o alter-ego de Vladislav Sukov, alguns valores que são básicos nos países democráticos ocidentais, como o livre arbítrio, os direitos individuais, a própria democracia, ficaram obsoletos diante do novo mundo digital, que “transformou a humanidade em um único sistema nervoso”. É a definição do espírito de manada que ele identifica com “configurações padronizadas”.

Sukov seria uma espécie de versão atual, usando algoritmos, de Rasputin, o monge místico que exercia forte influência sobre Alexandra Feodorovna, a mulher do último czar Nicolau II, estimulando a visão de Putin de reunificação da Grande Rússia. Desde a criação da imagem forte e atlética de um Putin que, saindo da KGB, sucedeu a Ieltsin, um líder fraco e bêbado. Para ressurgir, a Grande Rússia precisava de um líder que espelhasse o poder do país. O que o povo russo exige de seu comandante, diz Putin, é ordem interna, além de poder externo.

O pacote de “image laudering” do regime incluiu a realização das Olimpíadas de Inverno e da Copa do Mundo de futebol. A invasão da Ucrânia, precedida do incentivo a radicais russos na região do Donbass, é um dos efeitos de sua atuação, assim como a guerra da Tchetchênia . Quando se fala de “teatro político”, não é uma figura de linguagem, no caso de Sukov/Baranov. Ele foi ator e trabalhou na televisão, e tinha o objetivo de transformar a Rússia num grande teatro, onde a vontade do Czar Putin deveria prevalecer sempre.

Utilizando-se de uma citação de Constantin Stanislavski, Putin é descrito como o ator que coloca a si mesmo em cena, que não precisa atuar porque está tão impregnado por seu papel que o roteiro da peça se tornou sua própria história.

Em tempos de inteligência artificial tomando o lugar de pessoas, Sukov/Baranov imagina que um dia um homem apenas dominará o mundo, mas, na verdade será a máquina que dominará o mundo, colocada a funcionar por um homem.

O Globo

Escondam os livros, vigiem as redes!




A direita norte-americana que quer proteger a infância ao custo da liberdade de expressão lembra a esquerda brasileira que cobra o mesmo preço para "defender a democracia". 

Por Jerônimo Teixeira (foto)

Metade da prateleira de livros está coberta de cima a baixo com papel azul. Na outra metade, as três fileiras de livro estão expostas, com lombadas de várias cores convidando ao manuseio e à leitura. Mas ali perto há um rolo grande do mesmo papel azul, indicando que o trabalho não foi concluído, que o objetivo é esconder todos os livros. A prateleira é baixa, e a parede acima dela está coberta por um painel no qual se destacam gravuras coloridas acompanhadas de texto. A resolução da foto não permite discernir as letras pequenas, mas alguns títulos estão bem legíveis: “myth”, “legend”, “fantasy”, “fairy tale”. Mito, lenda, fantasia, conto de fadas: provavelmente, o professor está ensinando seus pequenos alunos a reconhecer esses gêneros narrativos. Não se veem alunos nem professores na foto, mas está claro que esta é uma sala de aula: no primeiro plano da foto, há uma carteira escolar vazia.

Em julho do ano passado, entrou em vigor uma lei sobre bibliotecas escolares, proibindo que estas ofereçam pornografia e material “inapropriado” para a faixa etária dos alunos. Abriu-se até a possibilidade legal de multas e penas de prisão para professores que transgridam esses parâmetros. Como os termos da lei ainda não foram esclarecidos, professores de algumas escolas do estado decidiram esconder os livros que mantinham em sala de aula, ou esvaziar as estantes.

E assim chegamos à imagem desoladora de uma sala de aula na qual os livros devem permanecer embalados em papel azul, inacessíveis a crianças que estão se iniciando na leitura. Uma representação nítida e sólida do estreitamento de horizontes produzido pela censura.

Censura? Ora, dirá alguém, desde quando proibir pornografia na escola é censura?

Bem, a pornografia é a parte negligenciável da lei, pois não carrega ambiguidades. Sequer precisamos de uma definição formal de pornografia para identificá-la. “Eu sei o que é quando eu vejo”, como bem disse Potter Stewart, juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos, em um julgamento de 1964 sobre um episódio de censura a Os Amantes, filme de Louis Malle (que, aliás, não é pornográfico). Mas estou certo de que os livros que estão sendo escondidos com papel azul não são pornográficos. Pornografia só entrou nessa história para suscitar pânico moral.

É na vaga categoria de “adequação etária” que a porca torce o rabo censório. O estado da Florida ainda está por esclarecer os critérios para decidir que livros seriam apropriados para cada idade (a reportagem do Washington Post informa que essa indefinição atrasou as aquisições de novos livros para bibliotecas escolares). O bom senso é o parâmetro mínimo, e acredito que os professores saberiam exercê-lo. Para citar duas obras que passariam pelo teste do juiz Potter Stewart mas nem por isso devem ser lidas por meninos e meninas: alguém imagina que uma escola pública recomendaria a leitura de História do Olho ou de História de O?

Desconfio que as novas leis da Flórida têm em mente critérios que vão além (ou ficam aquém?) do bom senso. Critérios ideológicos, ditados pela guerra cultural que hoje tudo permeia e a todos perverte.

Essas novas leis são patrocinadas pelo governador republicano Ron DeSantis, com apoio da maioria que seu partido conquistou no legislativo estadual. Cotado para ser o candidato à presidência em 2024, DeSantis cacifou-se junto à parcela reacionária do eleitorado – que ele deve disputar com Trump nas primárias do Partido Republicano – com a “Lei dos Direitos dos Pais sobre a Educação”, que proíbe professores de falarem sobre orientação sexual e identidade de gênero em sala de aula. O movimento LGBT batizou-a de “Lei Não Diga Gay”. Os conservadores rebatem alegando que a lei não é censória, pois se restringe à fase que vai do jardim de infância ao terceiro ano do fundamental (quando aparentemente as crianças ainda não sabem que existem gays). Ocorre que isso não é verdade: esses temas estão vetados também nos anos seguintes, se forem ensinados de forma “não apropriada à idade” dos alunos – a mesma formulação vaga e imprecisa da lei sobre bibliotecas infantis.

Crianças pequenas são curiosas. Questionam todos sobre tudo. Às vezes, fazem perguntas ingênuas que podem constranger adultos. Claro que há formas corretas e modos desastrados de responder à curiosidade infantil. Mas deixar a garotada sem qualquer resposta pode ser a pior alternativa. É por isso que não se admite simplesmente banir um tópico sexual – ou qualquer outro tópico – da sala de aula. Isso é, sim, censura. E a censura com frequência representa uma resposta simplista para problemas complicados.

As leis de DeSantis fariam sucesso com a direita brasileira que se encantou com as propostas censórias do movimento Escola Sem Partido. Nos Estados Unidos como no Brasil, esses cruzados investem contra os mesmos infiéis: a esquerda identitária e o progressismo woke. O reacionário é sempre um paranóico e, por isso, desenha tais inimigos com formas tentaculares e os pinta com as cores berrantes da conspiração. Mas não dizem que o paranoico às vezes tem razão?

Políticos como DeSantis são validados por uma esquerda que propõe relativizações extremas da biologia, traduzidas em expressões canhestras e redutoras como “pessoa com útero” ou “pessoa que menstrua”. A prescrição indiscriminada de bloqueadores de hormônios para adolescentes ou pré-adolescentes que se sentem desconfortáveis com o próprio corpo é realmente uma tendência preocupante; no entanto, médicos, cientistas e jornalistas sérios que acusam esse problema são estigmatizados como “transfóbicos”. Criando e reforçando novos tabus, interdições e proibições, a cultura da nova esquerda se mostra tão ou mais censória do que os republicanos que governam a Flórida.

Só que não se confronta esse estado de coisas banindo a discussão. Em uma coluna recente em Crusoé, André Marsiglia Santos criticou o primeiro-ministro britânico, Rishi Sunak, por seu projeto de indicar um “czar da liberdade de expressão” (assim chamado pela imprensa britânica) para coibir a censura woke nas universidades. É má ideia, argumenta Marsiglia, indicar um cão de guarda para morder o calcanhar dos censores: “Sempre que alguém assume um papel de vigia, passa imediatamente a necessitar ser vigiado, sob pena de exercer poderes arbitrários”. Acrescento que a vigilância é particularmente venenosa no ambiente educacional. Um professor que se sente vigiado não exercerá bem sua função.

À direita e à esquerda, os censores hoje raramente se reconhecem como censores. No Brasil, não temos mais o Departamento de Censura da dona Solange: temos uma Procuradoria Nacional da Defesa da Democracia. Como Crusoé informou na semana passada, a sanha vigilante do governo petista desejava criar, por Medida Provisória, uma nova lei para limitar a circulação de fake news e de conteúdo antidemocrático nas redes sociais. O Congresso, que já discute um Projeto de Lei das Fake News, mandou o governo sossegar o facho. É bom que tenha sido assim, mas devo dizer que tampouco confio nos nossos parlamentares para legislar sobre o assunto.

A desinformação e a pregação golpista nas redes são, sim, problemas sérios, para os quais não encontro solução fácil no bolso do colete (ou da bermuda, pois escrevo em casa, em um dia de calor). Só não acredito que exista legislação capaz de incrementar a convicção na democracia e a tolerância entre os contrários de que tanto necessitamos.

Livros escondidos não despertam a imaginação das crianças. Censura não salva democracias.

Revista Crusoé

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