domingo, dezembro 18, 2022

Não culpem Mercadante ou Haddad, é Lula que está espalhando insegurança no mercado

Publicado em 18 de dezembro de 2022 por Tribuna da Internet

Não culpem Mercadante - Ascânio Seleme

Ilustração reproduzida de O Globo

Ascânio Seleme
O Globo

Não culpem Aloizio Mercadante pelos solavancos do mercado. Muito menos Fernando Haddad. Este, aliás, só tem feito apaziguar ânimos e injetar otimismo e confiança nos mais reticentes quanto à responsabilidade que quer empregar na condução da economia. O problema é outro, maior, mais complexo e atende pelo nome de Luiz Inácio Lula da Silva.

O presidente eleito pode até governar em outra direção, e é razoável acreditar nessa hipótese, mas quando fala aponta um caminho que gera insegurança. Talvez porque se empolgue demais com a plateia ou com os acontecimentos prévios.

TOM DE DESAFIO – O anúncio de Mercadante para o BNDES teve estes dois componentes. Primeiro, Lula estava irritado com a baderna terrorista da véspera em Brasília e abriu aquele discurso atacando Bolsonaro, parecia ainda em campanha. Depois, reagiu empolgado. Disse que ouviu críticas ao companheiro e boatos de que ele iria para o banco. E, então, num rompante, anunciou:

“Não é mais boato, Mercadante será presidente do BNDES”. Não precisava desse tom, que pareceu um desafio. E ainda avisou que não haverá privatizações no seu governo, uma permanente expectativa do mercado brasileiro. Claro que haveria solavancos.

Além do presidente do BNDES, Lula já nomeou alguns ministros e deixou pistas bem claras sobre outros nomes do primeiro e do segundo escalões. O leitor pode até ter algumas restrições a um ou outro nome, mas não pode negar que este elenco é algumas dezenas de vezes melhor, mais comprometido com a causa pública, mais ilibado, mais competente e bem mais patriota do que o time que vai sair de campo no fim do ano.

DESENVOLVIMENTISTA – Mesmo diante dessa avalanche de bons nomes, o mundo veio abaixo quando Lula anunciou Mercadante. Faz até sentido o temor do mercado com o ex-senador, considerado um desenvolvimentista, o que soa como palavrão no dicionário liberal.

O mundo é outro, moderno, tecnológico, digital, não cabe mais basear o crescimento econômico na produção industrial. Mercadante foi de fato formulador econômico do PT nos anos 90, mas só entrou para o governo com Dilma, quando ocupou os ministérios da Ciência e Tecnologia, Educação e Casa Civil.

Não foi, nem de longe, responsável pela política econômica desastrosa de Dilma, cuja elaboração coube a Guido Mantega.

HADDAD TRANQUILIZA – O mercado até se tranquilizou em razão de entrevistas onde Haddad reiterou que vai perseguir o equilíbrio, o controle e a previsibilidade na economia. Para a GloboNews, disse que “responsabilidade fiscal é parte da responsabilidade social”. Significa que sem a primeira não se alcança a segunda. Não dava para ser mais claro.

Mesmo com a absurda mudança da Lei das Estatais, que atende tanto ao Centrão quanto ao novo governo, o episódio Mercadante parecia superado. Aí veio o Lula. Outra vez.

O presidente eleito reiterou numa reunião com catadores de papel em São Paulo, quinta-feira, que, embora tenha sido eleito para governar todos os brasileiros, sua preferência será pelos mais pobres. Não poderia ser diferente. Trinta milhões de miseráveis devem ter mesmo prioridade em qualquer governo, petista ou não. O problema é que Lula fala mais rápido do que pensa. No encontro, empolgado, disse que não dá para cuidar de pobre “olhando a política fiscal”. Justamente o contrário do enunciado por Haddad na véspera. Está claro que não dá para culpar Mercadante.


Aos 90 anos, Janio de Freitas é demitido pela Folha por “contenção de despesas”

Publicado em 18 de dezembro de 2022 por Tribuna da Internet

O jornalista Janio de Freitas, 90, que deixa de escrever coluna semanal na Folha

Jânio de Freitas, o decano dos jornalistas brasileiros

Deu na Folha

O jornalista Janio de Freitas, 90 anos, deixa de publicar sua coluna semanal na Folha a pedido do jornal, por contenção de despesas. Referência no jornalismo brasileiro, nos últimos anos dedicou-se a denunciar em seus textos os desmandos do ainda presidente Jair Bolsonaro (PL) e a conivência golpista dos militares.

Atuando na área desde 1954, ele acumula feitos em uma carreira com ampla investigação, furos de grande importância e textos com impacto na política brasileira.

AVIAÇÃO CIVIL – Exercendo o jornalismo num lance de acaso, Janio fez curso de aviação civil e pretendia ingressar no ramo, mas lesionou-se em uma partida de basquete, o que o fez recalcular rota e ingressar no Diário Carioca —inicialmente como auxiliar de edição e depois circulando para a diagramação e o reportariado.

Migrou para a revista Manchete em 1955 e, quatro anos depois, liderou a reforma gráfica e jornalística do Jornal do Brasil, tornando as páginas do periódico mais claras e modernas, com maior alinhamento de textos, títulos mais chamativos e maior fluidez na leitura.

As alterações mudaram todo o mercado editorial, seguindo as tendências inauguradas pelo jornal carioca.

OUTROS JORNAIS – Após, passou pelo Correio da Manhã e Última Hora, em cargos de direção, até a década de 1970, quando a ditadura militar o forçou a deixar o jornalismo. Com isso, tornou-se sócio de uma gráfica, dedicada à impressão de livros.

Dez anos depois, a Folha o chamou de volta à imprensa, e Janio tornou-se colunista, capaz de embaralhar os espaços opinativos e informativos com avidez na escrita e fatos de grande relevo, dados exclusivamente por ele.

Dono de grandes furos, incomodou os governantes de plantão. Em maio de 1987, revelou que o processo para a construção da ferrovia Norte-Sul havia sido fraudulento. Cinco dias antes do anúncio oficial, a Folha tinha publicado, de maneira cifrada e em meio aos anúncios classificados, os 18 vencedores. Ou seja, já se conheciam de antemão os resultados da licitação.

OUTROS FUROS – Janio, porém, não considera essa a sua reportagem mais relevante entre as publicadas pelo jornal. Cita uma informação de junho de 1983 em sua coluna: os médicos do presidente João Batista Figueiredo cogitavam a hipótese de uma cirurgia cardíaca.

A saúde do presidente está “muito boa”, reagiram o líder do governo na Câmara dos Deputados e o porta-voz do Planalto. “Levei pau de todos os lados.” Uma semana depois, no entanto, o segredo em torno da cardiopatia implodiu. “Coração faz Figueiredo pedir licença” foi a manchete da Folha.

Em 16 de julho, um dia após a cirurgia nos EUA, Janio escreveu uma coluna em tom de desforra. Listava as contestações à informação publicada por ele e concluía: “Ao general Figueiredo, pronta recuperação. Aos outros citados, também”.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – É inacreditável e inconcebível que a Folha tenha feito “contenção de despesas” cortando justamente seu decano. É um dia muito triste para o jornalismo brasileiro e vergonhoso para uma corporação como a Folha de S. Paulo. Mas não faltará espaço para Jânio de Freitas escrever, logo estará de volta(C.N.)

Viva a Argentina! Viva Messi! Viva o técnico Scaloni e o futebol-arte da América Latina!


Torcedor argentino previu título de Messi em 2022 há 7 anos. Entenda | O TEMPO

Messi, um líder de verdade, levou a Argentina à vitória

Carlos Newton

Um jogo eletrizante, digno de uma superfinal entre dois campeões do mundo, ambos em busca do tricampeonato, e com total merecimento. Argentina e França realmente foram as duas melhores seleções deste mundial, com técnicos de verdade, que buscavam a vitória e colocavam em campo os melhores jogadores.

Como previu o comentarista Tostão antes da Copa, este mundial estava na medida para o supercraque Lionel Messi, porque era a última oportunidade de ser campeão. E ele lutou como um gigante, mostrou tudo o que sabe sobre futebol, soube liderar seu time.

ERAM ARGENTINOS – Ao contrário da maioria das seleções, a Argentina se apresentou com uma equipe verdadeiramente nacional, não havia naturalizados no time, enquanto a França colocava em campo uma equipe que quase nada tinha de francesa, uma tendência que já vinha desde a época de Platini e Zidane, pois o time que venceu o Brasil na final em 1998 e já tinha diversos jogadores  naturalizados franceses.

De toda maneira, quem saiu vitorioso foi o futebol-arte que o Brasil exibiu nas cinco oportunidades em que venceu a Copa. E ficam lições para a CBF, que já venceu com técnicos medrosos e retranqueiros do tipo Tite, mas isso não pode se tornar praxe. Devem ser escalados os melhores jogadores, como ensinou João Saldanha, na Copa de 70, ao escalar o melhor time da História.

Vamos torcer para que a CBF tenha aprendido a lição. Esta foi uma Copa que favorecia o Brasil, mas Tite não soube aproveitar a oportunidade. E vida que segue, como dizia Saldanha, apelidado de “João Sem Medo” por Nelson Rodrigues.

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P.S.
 – Já ia esquecendo. O time da França, que a gente pode até chamar de “Legião Estrangeira”, também exibiu um futebol-arte da melhor qualidade, é preciso reconhecer(C.N.)

Corrida para salvar o orçamento secreto




A corrida para liberação das emendas de relator pode interferir na votação da PEC da Transição

Por Adriana Fernandes (foto)

Antes do veredicto do julgamento do STF, o governo Jair Bolsonaro correu para acelerar a liberação do saldo total de cerca de R$ 1,9 bilhão de emendas do orçamento secreto na área de Saúde. Essa liberação a jato ajuda o presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL), nos compromissos de distribuição das emendas de relator, antes da decisão do STF.

É uma verdadeira corrida para salvar as emendas de relator de 2022 do modo como elas funcionam hoje, sem transparência nenhuma.

O roteiro até chegar a esse desfecho teve os seguintes passos: o governo acelerou a concessão de benefícios previdenciários antes da eleição, motivo de seguidas queixas ao longo da semana do futuro ministro da Fazenda, Fernando Haddad.

O Orçamento ficou insuficiente para fechar o ano, e Bolsonaro teve de fazer o bloqueio das despesas discricionárias (as de livre destinação). O governo, então, pediu ao TCU para editar uma medida provisória para a edição de crédito extraordinário (fora do teto de gastos).

O TCU autorizou. Uma MP de R$ 7,5 bilhões foi editada por Bolsonaro para abrir esse espaço no teto. O governo alegou um aumento extraordinário da procura por benefícios previdenciários no pós-pandemia para pedir mais recursos e apontou riscos para o funcionamento do INSS.

Correu, então, imediatamente para liberar o limite, incluindo as RP9, até pelo receio da decisão do STF.

Este é o resumo.

Há um entendimento de que, mesmo que o modelo do orçamento secreto seja alterado, o que já tiver empenhado fica valendo.

É certo que Bolsonaro poderia ter utilizado todo o espaço aberto com a MP aos ministérios, deixando as RP9 para depois. O Orçamento de 2022 está com R$ 15,4 bilhões de despesas bloqueadas. Cerca de R$ 7,9 bilhões desse valor são emendas do orçamento secreto.

O resultado desse enredo é que a corrida para liberação das emendas de relator, permitida com a MP, pode interferir na votação da PEC da Transição, prevista para semana que vem.

Os parlamentares já vão estar abastecidos pelas suas emendas de relator, o que diminui o atrativo que consta na PEC que permite liberar até R$ 23 bilhões de despesas bloqueadas do Orçamento de 2022. Não foi à toa que Rodrigo Pacheco (PSD-MG), presidente do Senado, cobrou o compromisso de Lira com a votação.

O ponto central é o governo correndo para pagar as RP9. Parte é a incerteza em relação ao resultado do STF. Mas parte, não. É o compromisso mesmo de Bolsonaro com Lira.

O Estado de São Paulo

Benedito Gonçalves lidera apostas para o STF




O ministro Benedito Gonçalves, do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), desponta como favorito na corrida pela próxima vaga de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Competente e de atuação discreta, Gonçalves ganhou holofotes a partir de palavras que cochichou a Lula, na posse do presidente do TSE, recebendo como resposta um tapinha camarada na bochecha. A imagem ganhou as redes sociais, com reações indignadas de bolsonaristas.
Por Cláudio Humberto

Missão cumprida

Há dias, na diplomação, microfones captaram uma frase enigmática de Gonçalves a Alexandre de Moraes: “Missão dada, missão cumprida”.

Falta negro no STF

Gonçalves é o favorito não apenas pela lealdade e o saber jurídico: Lula, que pôs Joaquim Barbosa no STF, acha que falta um negro na Corte.

Zanin na parada

A vaga é a de Ricardo Lewandowski, que se aposentará aos 75 anos em maio, e tem candidatos fortes como o jovem advogado Cristiano Zanin.

Correndo por fora

Também batalham pela vaga Bruno Dantas, do TCU, e Pierpaolo Bottini, advogado da JBS flagrado com o então PGR Rodrigo Janot num boteco.

Pacheco segura Lei das Estatais para esvaziar Lira

O núcleo duro do futuro governo se convenceu de que o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, faz corpo mole para votar a mutilação da Lei das Estatais para não colocar azeitona na empadinha do presidente da Câmara, deputado Arthur Lira, cujo prestígio junto a Lula cresceu após a aprovação do texto com 314 votos favoráveis em apenas 40 minutos. Sem confirmar a votação no Senado, nada feito. A exemplo de dezenas de outras iniciativas da Câmara engavetadas por Pacheco, o roda-presa.

Disputa de egos

Rodrigo Pacheco trava uma disputa de egos contra Arthur Lira, cuja liderança na Câmara é bem mais expressiva que a sua, no Senado.

Ciúmes alagoanos

Pesou também no corpo-mole de ocasião de Pacheco a pressão do clã Calheiros, enciumado com a aproximação de Lula e Arthur Lira.

Jogada salvadora

Com o adiamento, Pacheco ganha tempo para encontrar uma jogada que o fortaleça na disputa pela reeleição, como Lira conseguiu na Câmara.

Peduzzi manda bem

Em mais uma decisão corajosa e necessária, a ministra Maria Cristina Peduzzi, do Tribunal Superior Trabalho (TST), deu a resposta adequada à chantagem anual de aeronautas e comissários de bordo, ameaçando greve às vésperas do Natal. A ordem é garantir 90% do serviço.

Malas Prontas

Josué Gomes, presidente da poderosa Fiesp, se mandou do Brasil. Só volta depois do réveillon. Não quer estar por aqui na assembleia que vai descer o sarrafo em sua gestão, no próximo dia 21.

Vaca muy Muerta

Chama-se Vaca Muerta a região onde começa o gasoduto a ser bancado com R$3,7 bilhões do BNDES prometidos por Lula a Alberto Fernández, presidente da Argentina. Dinheiro que o Brasil jamais terá de volta.

Rápido no gatilho

Sobre a final da Copa do Mundo, Lula perguntou no Twitter a torcida dos brasileiros no próximo domingo. Um tuiteiro não perdoou: para você voltar para a cadeia, respondeu.

Deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) sobre as lágrimas da despedida de Simone Tebet

Custo x benefício

Mais de cem mandados do TSE em cinco Estados contra supostos “atos antidemocráticos” renderam apreensão pela PF de “arsenal” menor que um dia normal de armas apreendidas pela polícia do Rio de Janeiro.

Parece que foi ontem

Há 33 anos, em 17 de dezembro de 1989, o ex-governador de Alagoas Fernando Collor de Mello se tornava o primeiro presidente eleito democraticamente no Brasil em três décadas, derrotando o petista Lula.

Coincidência, claro

No mesmo dia em que o STF decidiu adiar para 2023 a votação sobre o orçamento secreto, foi apresentada ao Senado a proposta de mudanças na Lei de Impeachment, liderada pelo ministro Ricardo Lewandowski.

Quase inédito

A Bolsa de Valores e o dólar reagiram positivamente à inação da Câmara dos Deputados no caso da PEC Fura-Teto de Lula, que dá um cheque em branco de quase R$170 bilhões ao governo e aos parlamentares.

Pensando bem...

...Minas e Energia com o MDB, Saúde com o PP e o PT em tudo... voltamos a 2008.

Diário do Poder

PT vota em peso para garantir manutenção do orçamento secreto




O partido do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva votou em peso, na Câmara, a favor do projeto de resolução que altera as regras de aplicação das emendas de relator, a base do chamado orçamento secreto – mecanismo adotado pelo governo Jair Bolsonaro para obter apoio de parlamentares, como revelou o Estadão. A iniciativa foi aprovada nesta sexta, 16, no Congresso para assegurar uma vitória no Supremo Tribunal Federal (STF), que está para encerrar um julgamento que questiona a constitucionalidade do instrumento.

Dos 49 deputados do PT presentes à sessão, 44 votaram a favor da resolução, três contra e dois se abstiveram. Somente divergiram da orientação da liderança Vander Loubet (MS), Henrique Fontana (RS) e Maria do Rosário (RS). Já no Senado, foram três votos favoráveis ao projeto, um contra e duas abstenções. Fabiano Contarato (ES) foi o único a rejeitar o projeto em plenário.

Na campanha, Lula não poupou críticas ao orçamento secreto. Classificou a prática como “bandidagem”, “excrescência política” e afirmou que Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara, exercia o poder como um “imperador do Japão”. Após vencer a eleição, porém, o petista foi mudando o discurso, até evitar qualquer polêmica sobre o tema, desde que houvesse “transparência” e alinhamento com prioridades do governo.

O partido de Lula foi criticado ontem. “Eu acho que é uma incoerência brutal do PT”, disse no plenário o senador Renan Calheiros (MDB-AL). “Até o PT votou a favor do que Lula em campanha criticou e prometeu acabar”, afirmou no Twitter o deputado Alexandre Frota (PROS-SP), que apoiou o petista no segundo turno.

O placar foi de amplo apoio à aprovação do texto, tanto na Câmara como no Senado. Entre os deputados, o projeto recebeu 328 votos a favor – 20 a mais do que o necessário para aprovar uma proposta de emenda à Constituição (PEC) – e 66 contra. No Senado, o placar ficou em 44 a 20.

Ao discursar, o deputado Marcel van Hattem (Novo-RS) chamou a atenção para o volume de recursos sob controle de Lira e do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG). “Eu quero saber, Vossa Excelência Rodrigo Pacheco, o que Vossa Excelência quer com R$ 1,5 bilhão? O que o presidente da Câmara, Arthur Lira, quer com R$ 1,5 bilhão?”

‘Coerência’

O líder do PT no Senado, Paulo Rocha (PA), disse não ver incoerência. “Quebramos o secreto do orçamento secreto”, afirmou. “Agora, o que acontece? Estamos em um momento em que a gente tem de aprovar um processo de adaptar o Orçamento da União para a gente poder começar o governo com o que nós propusemos a governar. Estamos dedicados a isso. Por isso que nós queremos a condição de discutir a PEC (da Transição) para resolver o problema”, disse o líder.

De acordo com Rocha, com a resolução, os parlamentares dão “o mínimo de transparência” e ficam com a prerrogativa de indicar gastos apontados pelos presidentes das Casas e líderes, cabendo ao Executivo aceitar ou não as sugestões. Procurado, o líder do PT na Câmara, Reginaldo Lopes (MG), não foi localizado até a publicação deste texto.

Estadão / Dinheiro Rural

Não imite Biden, Lula!




Presidente eleito não precisa repetir os erros do americano que recolocaram a direita radical no jogo

Por Demétrio Magnoli (foto)

Como Joe Biden, Lula derrotou nas urnas um presidente extremista –e, como Biden, enfrentou a contestação golpista do resultado eleitoral. Mas o brasileiro não precisa reproduzir os erros seguintes do americano, que recolocaram a direita radical no jogo do poder.

Biden venceu no voto popular por 4 pontos percentuais e os democratas conquistaram maiorias na Câmara e no Senado. Daí, concluíram erradamente que dispunham de um mandato político irrestrito.

De saída, o presidente articulou dois pacotes fiscais: um de infraestrutura, negociado com os republicanos, de US$ 1,2 trilhão, e outro social e ambiental, combatido pelos republicanos, de US$ 1,9 trilhão. Poderia aprovar logo o primeiro, selando um mega triunfo parlamentar, e fatiar o segundo, passando suas iniciativas mais relevantes.

A húbris não deixou. Contrariando o discurso de reconciliação nacional empregado na campanha presidencial, os democratas transformaram o pacote bipartidário em refém do pacote controverso, exigindo a aprovação simultânea de ambos. Previsivelmente, fracassaram: numa batalha de meses, que consumiu o capital político do presidente, o estímulo fiscal maior foi derrotado.

Dali em diante, o governo Biden desceu a ladeira da popularidade. Nas eleições parlamentares de meio de mandato, os republicanos venceram o voto popular por 3 pontos percentuais e recuperaram a maioria na Câmara. A derrota só não foi esmagadora porque, hipnotizados por Trump, os republicanos alinharam fileiras de candidatos lunáticos para as duas casas do Congresso. Hoje, o favorito para as presidenciais de 2024 é Ron DeSantis, republicano da direita dura que evita os excessos teatrais trumpianos.

Lula venceu Bolsonaro por menos de 2 pontos percentuais e os partidos de esquerda somam apenas 27% das cadeiras da Câmara. Mas, à sombra da húbris, o presidente eleito negociou com Arthur Lira a PEC da Transição para, em seguida, designar uma equipe econômica sob controle petista.

Por essa via, o novo presidente contraria seu discurso de campanha sobre a economia ("previsibilidade, estabilidade e credibilidade") e sua promessa de um governo de unidade democrática antibolsonarista. A nomeação de Mercadante para o BNDES, defendida por Nelson Barbosa, ex-ministro da Fazenda de Dilma Rousseff, sob o argumento de que "o PT venceu as eleições", serviu como senha para a blitzkrieg contra a Lei das Estatais conduzida em conjunto pelo centrão e pelo PT. A "base aliada" já pode, novamente, colonizar a Petrobras.

A desculpa do improviso não se aplica ao discurso lido por Lula na cerimônia de diplomação. Nele, a húbris explode como cogumelo atômico em duas falsas equivalências.

"Eu sei quanto custou ao povo brasileiro essa espera para que a gente pudesse reconquistar (sic!) a democracia": aqui, Lula sugere que experimentamos quatro anos de ditadura e identifica sua própria eleição como um retorno à democracia.

"Poucas vezes na nossa história a vontade popular teve que vencer tantos obstáculos para enfim ser ouvida": aqui, Lula desenha um sinal de igual entre ele mesmo e a vontade popular. São sentenças de quem já esqueceu o que disse nos meses de campanha.

Biden mobilizou sua frágil maioria parlamentar para votar o programa máximo de seu partido, colhendo uma derrota desastrosa. Lula firma um pacto faustiano com a direita fisiológica para montar uma maioria espúria e aprovar o que lhe dá na telha. Nesse passo, traça um rumo econômico insustentável e aliena o eleitorado que acreditou na frente democrática.

Vitórias condicionais não devem ser tomadas como triunfos absolutos. Nos EUA, Biden restaurou a perspectiva de poder da facção republicana direitista. Aqui, Lula ameaça reconstruir uma maioria eleitoral inclinada à extrema direita. Ainda é tempo de dar meia-volta, desistindo da PEC e do pacto com o centrão.

Folha de São Paulo

Saudades de não saber quem seriam os ministros




Dos outros ministérios – Casa Civil, Defesa, Cultura – não tenho nem autoridade e nem estatura para dizer nada: sou a última flor do Brás, e pois sou, como o meu idioma, inculto e belo. Mais inculto do que belo, como percebe qualquer leitor atento. 

Por Orlando Tosetto

Apareceram os nomes de alguns dos futuros ministros. Já não era sem tempo, dirá o amigo afoito; mas eu, que sou zen e vi os nomes, preferia que tivesse demorado um pouquinho mais, que tivessem continuado escondidos por um bocado mais de tempo.

Veja o caso da Fazenda. Eu confesso que não sei muito bem o que deve fazer um ministro da Fazenda, de modo que só me resta confiar na sabedoria do luminar. Mas moro em São Paulo, e sei de pelo menos uma coisa que o novo ministro gosta e tem enorme expertise em fazer: pintar ciclovias. Estou, portanto, convicto de que teremos um Ministério da Fazenda muito empenhado em passar quatro anos pintando ciclovias no solo pátrio. Da minha parte, até vejo com bons olhos a possibilidade de alguém conseguir pedalar de Ferraz de Vasconcelos até Caracas, seja pela integração regional, seja pela integração ideológica. E há ainda o incentivo à indústria: pintar uns dois milhões de quilômetros de ciclovias em estradas de terra gasta tinta, colega. Ainda que tudo isso pareça muito auspicioso, os que entendem de Fazenda, ao que parece, não acharam tão bom. Não era melhor ter segurado a informação um pouco mais?

Outra coisa: eu talvez ande lendo os livros errados, vendo os filmes e documentários errados, etc., mas me pergunto se um ministro da Justiça tão aberta, tão orgulhosa, tão rutilantemente comunista não proporia uma péqui amenizando esse negócio de proibir a pena de morte no Brasil. Me pergunto isso porque, segundo os tais livros, filmes e documentários de que falo, todo país que comunistou adotou a prática penal de enforcar ou fuzilar compatriotas por certos crimes. O amigo, querendo me tranquilizar, argumentará que não se pode fazer isso, pois as péquis não alcançam as cláusulas pétreas; e eu argumentarei que cortes tão supremas e tão criativas, inovadoras e proativas (e tão obviamente atentas às necessidades do novo governo velho) quanto as nossas não vão achar muito difícil fazer brita com qualquer coisa pétrea que se lhes apresente. Aliás, enquanto conversamos, talvez já estejam fazendo. Em seguida, o amigo argumentará que a pena de morte não consta do Código Penal; mas eu argumentarei que, aprovada a péqui, o resto se resolve com um bom almoço, uma boa caneta, um sambinha e a companhia risonha dos bons amigos. De novo: ainda que a farra seduza, os que manjam um pouquinho de justiça ficaram desassossegados; não era melhor continuar moitando? Pelo menos até depois do Natal?

Dos outros ministérios – Casa Civil, Defesa, Cultura – não tenho nem autoridade e nem estatura para dizer nada: sou a última flor do Brás, e pois sou, como o meu idioma, inculto e belo. Mais inculto do que belo, como percebe qualquer leitor atento.


Perguntas retóricas são aquelas que a gente faz por fazer, seja porque já sabe a resposta, seja porque a resposta, se houver, não interessa. Aqui apresento uma ao amigo: por que é que político eleito é diplomado? Não é como se ele tivesse se formado em medicina, é? Não é como se ele tivesse obtido grau em alguma coisa oceânica como a “gestão de projetos”, que vai da ponte pênsil à ergonomia das caixas de fósforo, ou terminado um curso online de “como ler os livros clássicos”. Essas coisas dão diplomas, certificados que seja, porque correspondem a um certo empenho, duvidoso que pareça, em aprender.

Mas um – digamos – deputado? É como se o mero fato de ele ter sido eleito lhe concedesse conhecimentos especializados ou fora do comum, conhecimentos que o autorizam a ser diplomado. Tá aqui o Beldroegas: antes da eleição era uma besta, não sabia fazer um “o” com um copo, mas agora que é deputado federal, ah, agora…! Assim, se o engenheiro engenheira, se o médico medica, se o leitor de livros clássicos lê livros clássicos, o deputado deputa. E tá aqui um diploma, ó, pra te mostrar que ele não é nada leigo em deputanças, que ele está plenamente apto e qualificado para deputanças. Ou deputações. Ou deputagens. Ou lá o que quer que os deputados façam.

Bom, aceitemos, vá, não vamos reclamar: o Brasil é terra pródiga em diplomações. Não passa dia sem que eu, por exemplo, receba uns três ou quatro de idiota. Por que então negar a uns vivaldinos seus atestados de esperteza?

Revista Crusoé

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