sábado, setembro 10, 2022

Charles 3°, o príncipe que esperou a vida toda para ser rei




Antes tarde do que nunca. Aos 73 anos, filho mais velho da rainha Elizabeth 2ª finalmente assume o trono britânico, com a missão de conquistar a mesma popularidade da mãe.

Por Robert Mudge

Como filho mais velho da rainha Elizabeth 2ª e, portanto, próximo na linha sucessória ao reino britânico, Charles passou os 70 anos do reinado da monarca se preparando para ser rei. Ele foi o herdeiro do trono britânico que mais esperou para assumi-lo. Após a morte da mãe, ele é também o herdeiro mais velho a iniciar um reinado, aos 73 anos, passando a ser chamado de rei Charles 3º.

À frente da coroa, Charles 3° terá pela frente a missão de conquistar a mesma popularidade da mãe, que por sete décadas foi encarada como um símbolo de estabilidade e unidade, ajudando a manter a instituição da monarquia sem muitos questionamentos decisivos.

Para Charles, não deve ser uma tarefa tao simples. Uma pesquisa divulgada no primeiro semestre apontou que 75% dos britânicos avaliavam positivamente Elizabeth. A porcentagem foi de 42% para Charles, mais baixa que a do seu filho William, que aparece com 66%.

Pesquisa do YouGov do segundo trimestre deste ano mostra que, enquanto 75% dos britânicos tinham uma opinião positiva de Elizabeth 2ª, o índice para Charles é de 42%. Seu filho William, primeiro na linha de sucessão, tem 66%.

"A posse é cuidadosamente planejada, assim como os preparativos para o funeral da rainha, então de início a transição será suave. Depois, muito dependerá da reação do público à coroação, de como o próprio Charles se comporta, e do apoio que o governo lhe der", avalia Robert Hazell, professor de governo e Constituição no University College London.

O novo rei do Reino Unido teve bastante tempo para se acostumar à vida no foco do interesse público. Nos últimos anos, ele já vinha assumindo várias funções protocolares da mãe, conforme a saúde de Elizabeth entrava em declínio. Agora, a esposa de Charles, Camilla, deve receber o título de rainha consorte.

Filantropo e defensor do clima

Charles se formou no Trinity College de Cambridge em 1970, antes de embarcar numa carreira militar que culminou com o comando do navio caça-minas HMS Bronington.

No verão de 1981, casou-se com Diana Spencer, na época com 20 anos de idade, em parte de sangue real, em meio a enorme fanfarra midiática e entusiasmo popular. Lady Di, como ficou conhecida, era intensamente popular e acompanhada com curiosidade.

Anos de fofocas e escândalos levaram ao divórcio em 1996. Na época, consta que Charles haveria lhe dito: "Você seriamente espera que eu seja o primeiro príncipe de Gales a não ter uma amante?" – uma referência a seu amor de longa data, Camilla Parker Bowles, com quem se casaria em 2005. Diana morreu num acidente de automóvel em 1997.

Para além da vida amorosa, Charles se destaca como filantropo: ao lado da The Prince's Trust, ele tem apoiado diversas outras instituições de caridade, patrocinado programas educacionais e fundado iniciativas de arte. Como rei, espera-se que seguirá promovendo diversidade religiosa e a natureza cultural da Inglaterra moderna. 

Sua principal paixão, contudo, é o meio ambiente e o combate à mudança climática. Em 2007, fundou o Prince's Rainforest Project, uma iniciativa global para conscientizar e promover ações contra o desflorestamento tropical, com o respaldo de corporações, políticos e celebridades.

Envolvimento na política

Charles não herdou da mãe, a rainha Elizabeth 2ª, o instinto para se manter imparcial em questões políticas e sociais – o que tem suas vantagens e desvantagens: no passado ele não fez segredo de suas opiniões. A neutralidade política voou janela afora, por exemplo, no caso dos memorandos "aranha negra" – assim chamados devido à escrita garranchada do príncipe.

Publicados em 2015 pelo jornal The Guardian, após longa batalha legal, os documentos revelaram como ele praticara lobismo intenso com os ministros e políticos do governo britânico, em assuntos que iam da preservação de espécies de peixes ameaçadas e encomendas de equipamento militar para as tropas no Iraque, a pressionar pelo abate de texugos, a fim de sustar a propagação da tuberculose bovina.

Como rei, Charles terá que conter tais inclinações, antecipou Hazell. "O monarca deve ser escrupulosamente neutro em todos os assuntos políticos, como tem sido a rainha."

"Charles terá ocasião de expressar seus pontos de vista na audiência semanal com o primeiro-ministro, exercendo seu trio de direitos, de acordo com [Walter] Bagehot [autor da Constituição britânica]: ser consultado, encorajar e advertir." Caso vá além disso, "conto com que o governo lhe vá recordar os deveres de um monarca constitucional", comenta o professor do University College.

Escândalos passados

Em 2017, Charles se viu envolvido no vazamento dos assim chamados "Paradise Papers", que revelaram nomes de personalidades mundiais implicadas em investimentos offshore duvidosos. Seu caso supostamente envolvia negócios realizados nas ilhas Bermudas.

Emergiram relatos de que, ao pressionar por reformas na política de combate à mudança climática, em 2007, Charles se abstivera de divulgar que lucraria com as emendas através de seus empreendimentos no exterior. De sua parte, afirmou não ter qualquer envolvimento na conta offshore.

Mais recentemente, novas revelações sobre o escândalo real de "cash-for-honors" (dinheiro por honrarias). Alega-se que ricaços estrangeiros teriam obtido títulos de nobreza em troca de contribuições para The Prince's Foundation, instituição benemerente criada por Charles.

Em um dos casos, um magnata saudita teria sido ordenado cavaleiro por suas doações; em outro, um encontro com o príncipe teria sido prometido a um banqueiro russo. As revelações resultaram nas renúncias de três funcionários-chave da fundação, enquanto o príncipe nega ter tido conhecimento de tais práticas.

Segundo observadores, enquanto rei, será importante que Charles evite armadilhas desse tipo se deseja ter a opinião pública do seu lado.

Deutsche Welle

O que acontece no Reino Unido após a morte da rainha




Prontos há tempos, planos secretos para o protocolo a ser seguido durante os dez dias seguintes à morte de Elizabeth 2ª são agora colocados em prática. Entenda o passo a passo da chamada Operação "London Bridge".

Por Silke Wünsch

O dia da morte da rainha Elizabeth 2ª chegou nesta quinta-feira (08/09), e com ele, foi colocado em prática um protocolo minuciosamente elaborado.

"London Bridge is down" ("A Ponte de Londres caiu"). Com esta frase em código e por meio de uma linha telefônica segura, o secretário particular da rainha informou a primeira-ministra britânica, Liz Truss, sobre a morte da monarca.

Em seguida, prosseguiu-se com uma longa cadeia de comunicação, com o secretário de gabinete e os principais ministros sendo notificados, com o pedido de manterem a informação confidencial.

Somente então o anúncio oficial foi para a imprensa. Em 10 minutos, todas as bandeiras em edifícios públicos foram baixadas a meio mastro, e sinos tocaram.

O Palácio de Buckingham e os canais de mídia social do governo anunciaram, então a morte da ranha, e exibiram um comunicado de luto sobre um fundo preto.

Dez dias até o funeral

Enquanto isso, o herdeiro do trono, o agora rei Charles 3º, se prepara para um discurso à nação como novo chefe de Estado, seguido de um serviço memorial na Catedral de São Paulo, em Londres.

Pelos próximos dez dias, até o funeral da rainha, todos os órgãos do governo entram em recesso. O protocolo "London Bridge", no entanto, continua, com uma programada sequência de dias após o chamado Dia D, o dia da morte da rainha, segundo documentos vazados e publicados pelo site Politico no ano passado. Os dias seguintes são chamados de Dia D+1, Dia D+2 e assim por diante

No entanto, como a morte da rainha foi anunciada somente na noite desta quinta-feira, esta sexta-feira é considerada o Dia D ou D+0, de acordo com o jornal britânico The Guardian, quando o novo rei deve fazer um pronunciamento à nação.

Dia D+1 e um novo rei

O príncipe Charles será oficialmente proclamado rei neste sábado, o Dia D+1. A coroação tem o codinome Operation Spring Tide (Operação Maré de Primavera). O novo monarca então terá sua primeira audiência com a primeira-ministra britânica e o gabinete de governo.

No dia seguinte, o caixão de Elizabeth 2ª será levado ao Palácio de Buckingham para ser recebido pela premiê e membros do governo. Como a monarca morreu em Balmoral, na Escócia, a Operation Unicorn (Operação Unicórnio) será acionada, o que significa que seu corpo será transportado até Londres num trem real.

Se isso não for possível, a Operação Overstudy (Operação Estudo Reforçado, em tradução livre) entra em vigor, o que significa que o caixão será transportado por avião.

No terceiro da, o novo rei deve receber condolências em Westminster pela manhã. À tarde, ele parte numa jornada pelo Reino Unido, com a primeira parada na Escócia.

Dia D+4 até o Dia D+9, Operações Leão e Pluma

Enquanto o novo soberano visita a Irlanda do Norte, a Operation Lion (Operação Leão) será ensaiada em Londres. Trata-se da procissão do caixão real do Palácio de Buckingham até o Palácio de Westminster, a sede do governo.

Depois que o caixão chegar ao Palácio de Westminster, haverá uma missa. O corpo da rainha ficará durante quatro dias do Salão de Westminster, na chamada Operation Feather (Operação Pluma), quando cidadãos poderão se despedir pessoalmente da rainha.

Enquanto isso, os procedimentos do funeral de Estado serão ensaiados, e o rei Charles 3º visitará o País de Gales.

Da D+10, funeral de Estado

O funeral oficial da rainha será realizado na Abadia de Westminster. Em todo o Reino Unido, haverá dois minutos de silêncio ao meio-dia. O dia do funeral deve ser um "Dia de Luto Nacional". Empregadores poderão dar folga a seus funcionários.

Após o funeral de Estado, haverá uma procissão até a Capela de São Jorge, no Castelo de Windsor, com uma última despedida durante uma missa.

Por fim, o caixão da rainha será depositado na Capela Memorial do Rei George 6º, no Castelo de Windsor – ao lado do marido da monarca, o príncipe Philip, que morreu em abril de 2021, e que agora será transferido da cripta real para um túmulo da família.

Deutsche Welle

Donald Trump anuncia apoio à reeleição de Bolsonaro




Em sua plataforma de mídia social, republicano chama brasileiro de "homem maravilhoso". No mesmo dia, comparação entre os dois estampa capa da "Economist", que vê Bolsonaro como ameaça à democracia.

O ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump declarou nesta quinta-feira (08/09) apoio "completo e total" à reeleição do presidente Jair Bolsonaro, dizendo considerar o brasileiro "um cara formidável".

"O presidente Jair Bolsonaro do Brasil, 'o Trump Tropical' como é carinhosamente chamado, fez um GRANDE trabalho para o povo maravilhoso do Brasil", escreveu Trump em sua plataforma de mídia social, Truth Social. "Ele é um homem maravilhoso e tem meu completo e total apoio!", acrescenta.

Bolsonaro é um admirador de Trump. E o americano é, assim como o ex-capitão, conhecido por contestar a validade de resultados eleitorais.

O governante brasileiro costuma alegar, sem provas, que o sistema eleitoral brasileiro é propenso a fraudes, assim como Trump denunciou supostas irregularidades na última eleição presidencial em seu país, na qual perdeu para o democrata e atual presidente dos EUA, Joe Biden.

As críticas de Bolsonaro às urnas eletrônicas que o Brasil utiliza desde 1996 geraram rumores de que o chamado "Trump tropical" seguirá os passos do ex-presidente americano ao não reconhecer resultados se a votação não sair como ele deseja.

Em 2021, apoiadores de Trump invadiram o Capitólio em Washington em uma tentativa fracassada para impedir que o Congresso confirmasse a derrota eleitoral do magnata republicano para Biden.

A similaridade entre as ações chegou a ser objeto de comparação do The New York Times, um dos jornais mais importantes dos EUA, que afirmou que Bolsonaro estaria usando o mesmo método de Trump para quando for derrotado.

Capa da "Economist"

O apoio de Trump foi divulgado no mesmo dia em que a prestigiada revista britânica The Economist estampa em sua capa Bolsonaro junto com Donald Trump. O americano aparece atrás da imagem do perfil do brasileiro, como se fosse sua sombra, projetada sobre a bandeira do Brasil. O título da publicação: "O homem que queria ser Trump". Abaixo da manchete vem a frase: "Bolsonaro prepara sua Grande Mentira no Brasil”.

A reportagem de capa tem como título a frase: "Ganhe ou perca, Jair Bolsonaro representa uma ameaça à democracia no Brasil". Em seguida, o texto diz: "Todos os sinais são de que ele vai perder a eleição e vai dizer que não".

O texto ressalta que o presidente está em segundo lugar nas pesquisas e afirma ser provável que ele perca a votação. A reportagem frisa que Bolsonaro tem repetido que aceitará o resultado, contanto que a eleição seja "limpa e transparente". A publicação diz, entretanto, que as alegações sobre eventuais irregularidades não têm fundamento e que ele não apresentou provas para sustentar suas suspeitas.

"Eis o ponto: Bolsonaro continua dizendo que as pesquisas estão erradas e que ele está a caminho de vencer. Ele continua insinuando, também, que a eleição pode de alguma forma ser manipulada contra ele. Ele não oferece nenhuma evidência confiável, mas muitos de seus apoiadores acreditam nele. Ele parece estar lançando as bases retóricas para denunciar fraude eleitoral e negar o veredicto dos eleitores", afirma a reportagem.

Deutsche Welle

Antes de estarmos inteiramente despertos




Para sobreviver a uma crise profunda há que dar significado ao sofrimento, à dor, às perdas, e intervir para conter os danos e dar direcção ao futuro, ou abrir-se-á o tempo a convulsões imprevisíveis. 

Por Eugénia de Vasconcellos (foto)

Mesmo para quem tem a sua raiz no ensaio e na poesia, a ficção tem dias salvíficos, até a ficção de ecrã, seja a partir de Tolkien ou R.R. Martin. E de certeza absoluta a de Houellebeq. E ele próprio também sabe disto, não por ser escritor, mas por ser leitor, afinal, que faz Paul Raison, em Anéantir, para sobreviver à duração das horas de quimioterapia? Lê. Para ser outra pessoa, noutra vida, noutro lugar.

O Primeiro Ministro português num gesto de grandeza anacrónica apresentou o pacote de medidas «Famílias Primeiro», depois de outros países o fazerem, ou de estarem já a apresentar segundas ou terceiras intervenções para apoiar as famílias na perda do poder de compra, a conter a inflação, porém, e ao que parece, chegou quando ele disse que chegaria e, a nós, isso deveria chegar-nos também – não chega: os contribuintes, raça de ingratos, pagadores contrariados, donos deste dinheiro que o executivo gere e redistribui, querem mais e sabem que podem tê-lo sem aumentar a dívida pública.

A tarifa regulada, onde e como, entrou nas conversas de café por junto com os malabarismos percentuais das facturas de electricidade e a incredulidade ante a desfaçatez da subtração das pensões. É ilegal? Mude-se a lei e está resolvido. Combustíveis? Transportes? Ande-se a pé e trate-se da saúde cardio-vascular enquanto se poupa no orçamento mensal.

Na HBO estreou House of The Dragon. Na Amazon The Rings of Power. Ainda bem. Temos uma dose dupla de fantasia para adormecimentos variados e necessários, a saber, e para além do adormecimento da realidade, o da pós-verdade: Gorbatchov foi um traidor; a culpa dos aumentos no preço da energia é das sanções impostas à Rússia. Do outro lado do Atlântico, a partir da Cidade do Kansas, não sei se por efeito de eco, se de coro, mas em perfeita simetria com Jerónimo de Sousa, Roger Waters, numa carta aberta a Olena Zelenska, pede à Ucrânia que se renda, ceda os territórios, e deixe de estar ao serviço dos interesses anti-democráticos e totalitários da extrema-direita que conduziram à guerra. Haja streaming para isto tudo.

O 200º dia de guerra aproxima-se. Em duzentos dias teve de se olhar para o que já se sabia existir, mas se tinha a liberdade de não ver. Pelo menos até 24 de Fevereiro teve-se. A decadência europeia. A Europa desinvestiu na sua própria defesa. Desinvestiu na sua própria indústria e na sua base, a energia, que passou a ser maioritariamente russa – o gás é mais limpo do que o carvão, menos controverso do que o nuclear e mais barato do que as renováveis. Desinvestiu na democracia. Desinvestiu na sua força política e económica. E, por fim, desinvestiu na sua cultura quando a entregou à esquerda. Desinvestir favorece a entropia.

O nosso passado ilude-nos: o ocidente é uma civilização em queda. A Europa vai à frente. Quem nos parará?

Para sobreviver a uma crise profunda é preciso dar significado ao sofrimento, à dor, às perdas, no curto prazo, e intervir para conter os danos e imprimir uma direcção ao futuro, inventar o futuro, ou abrir-se-á o tempo a convulsões imprevisíveis no longo prazo. Não foi isto o que aconteceu durante a Segunda Grande Guerra e mesmo durante a Guerra Fria? Foi claro, então, o alinhamento. Os valores à cabeça de um e de outro lados. Porque é diferente agora? Não estamos a viver duas guerras, uma económica e outra por proxy, onde a frente é ucraniana, e estes valores se jogam e com eles as vidas e um modo de vida?

Amanhã, todos o percebemos, o BCE anunciará a subida das taxas de juro a pretexto da contenção da inflação. Quem beneficia? A moeda?

No Reino Unido, a cada dia, a presença da rainha, o garante da estabilidade, é mais rarefeita. Liz Truss continua na senda de polarização dentro do seu próprio partido, adivinha-se, portanto, o futuro sem recurso a qualquer bola de cristal, ou melhor, palantir já que a antevisão é feita a partir do passado – as pedras usadas no Pequeno Conselho não se prestam à visão bidirecional do tempo, servem de relógio de ponto, nada mais… enfim, são as diferenças entre a Terra Média e Westeros.

Façamos uma hora de pausa para um sono de ficção. Quando acordarmos, a realidade será, porque a poesia tem boca de Cassandra, como no verso de Yeats: Violence upon the roads: violence of horses, o tempo em que as coisas más só dão lugar a coisas piores.

Observador (PT)
Postado há  por 

Não há paz como esta




Os comunistas insistem que o problema não são os 200.000 soldados que Putin lançou contra a Ucrânia, eram os menos de 5.000 que a NATO tinha enviado para os Estados membros ameaçados pelo expansionismo russo. 

Por Bruno Cardoso Reis (foto)

Têm-se multiplicado os apelos à paz nas páginas da imprensa portuguesa nos últimos tempos. Um partido importante na história política portuguesa, o PCP, tem liderado uma campanha pelo fim dos apoios à Ucrânia em nome da paz já. Com a chegada do inverno e o acumular de dificuldades económicas é provável que esta tendência ganhe peso na Europa. Agora que todos começam a perceber que mesmo uma guerra distante significa que teremos de pagar um preço por defender os nossos valores e os nossos interesses, proliferam os autodesignados defensores da paz. Muitos são na verdade defensores de “não me peçam sacrifícios a mim”, quando não são defensores das mais violentas e militarizadas ditaduras do Mundo, desde que estejam alinhadas com uma visceral aversão aos Estados Unidos. Perante a falta de argumentos válidos, esta posição só pode ser defendida com muita indignação e a aposta em criar uma confusão embrulhada num suposto pacifismo. Importa, por isso, esclarecer alguns pontos fundamentais.

Paz, mas não a qualquer preço

Quem, perguntam estes pseudopacifistas, pode ser contra a paz? Eu não sou certamente. Sou sim contra uma paz a qualquer preço. Sou contra uma cínica manipulação do valor da paz para se defender a rendição perante o regresso da guerra de conquista à Europa. Sou contra a ideia errada de que fornecer armas à Ucrânia é um obstáculo a negociações. Sou contra o facto de se esquecer que a principal causa desta guerra é a ambição imperial de Vladimir Putin, que escolheu invadir um país vizinho, apesar de ter sido repetidamente avisado de que isso teria um custo, desde logo em termos de sanções. Sou sobretudo contra normalizar-se o regresso das guerras de conquista e anexação.

Há que reconhecer que existem questões sérias e difíceis que a ampla simpatia na opinião pública pela Ucrânia não deve ocultar. É verdade que uma completa derrota da Rússia está longe de estar garantida, por muitos problemas que tenham sido revelados pelas Forças Armadas russas. Uma guerra é o reino da incerteza, e estamos a falar de uma potência nuclear e de um regime cada vez mais autocrático que esmaga a oposição. É verdade que um conflito prolongado terá um custo elevado para todo o Mundo. Mas a história mostra que muitas vezes na política internacional não existem boas opções, apenas menos más. E a opção menos má neste caso é continuar a fazer pagar um preço elevado à Rússia pela sua invasão, é apoiar militar e economicamente a Ucrânia enquanto quiser continuar a combater, é procurar criar condições mais favoráveis para negociações em condições aceitáveis para Kiev e que ajudem a dissuadir futuras agressões.

O falso e o verdadeiro pacifismo

No contexto atual apelar à paz já e ao fim imediato dos apoios à Ucrânia e das sanções à Rússia significa defender a rendição perante o expansionismo de Putin. Isto não é uma questão de opinião minha, são declarações dos próprios responsáveis da Rússia, do MNE Sergei Lavrov até ao inefável Dimitri Peskov, que têm deixado claro, com louvável clareza, ser a rendição de Kiev a condição de Moscovo para paz já com Ucrânia. Defender isto está muito longe de ser verdadeiro pacifismo.

Eu não sou pacifista, confesso. A minha leitura da história leva-me a concluir que a guerra é um mal, mas muitas vezes é um mal menor inevitável para defender valores maiores. Também não me parece que tenha perdido validade a velha máxima romana da dissuasão da agressão: se queres a paz, prepara a guerra, e fá-lo com credibilidade suficiente para convencer um potencial inimigo de que atacar não valerá a pena. Num Mundo onde são cada vez mais os Estados que reforçam o investimento nas Forças Armadas, onde proliferam as ditaduras fortemente armadas, a paz e a defesa da liberdade implicam manter uma força credível. Seja força própria, seja força em conjunto com aliados fiáveis como é o caso na Aliança Atlântica. Dito isto, tenho genuíno respeito pelos verdadeiros pacifistas.

O verdadeiro pacifismo vai de par com a aposta corajosa na não-violência e é o oposto do que tenta passar por pacifismo nos últimos meses em Portugal. Pacifismo não é recusa egoísta de sacrifícios ou ignorar os valores que estão ameaçados, é a aceitação inclusive dos maiores sacríficos, da liberdade e da própria vida, por uma causa. É, como dizia Ghandi, estar disposto a morrer por uma causa, mas não a matar por ela. Portanto criticar apelos egoístas ou cínicos à paz não é ser inimigo da paz ou do pacifismo, é defender estes últimos duma apropriação indevida.

Não ao anticomunismo

Dizer isto também não é ser anticomunista. Desde logo numa democracia qualquer partido pode ser criticado pelas suas posições. Já repararam que ninguém fala em antissocialismo ou antiliberalismo ou anti-PSDismo? O anticomunismo é uma invenção do PCP e dos seus aliados para tentar condicionar a crítica normal a qualquer partido num regime pluralista. É também mais um sinal de que o PCP não aceita ser um partido normal numa democracia pluralista, e não tem uma verdadeira cultura democrática. Os comunistas continuam a ver-se como uma autodesignada vanguarda do povo, qualquer crítica de que sejam alvo é transformada num ataque ilegítimo.

Ainda mais curiosa é a posição de uma certa esquerda complexada à portuguesa que parecer crer que defender o PCP é uma forma de mostrar o seu amor à causa. O que é tanto mais irónico quanto acaba geralmente numa defesa de que não devemos dar grande importância ao que PCP diz a respeito da Ucrânia. Eu tenho demasiado respeito pelo PCP – que como eu acha que a pobreza continua a ser um problema sério, que a raça não substitui a classe, e nunca temeu tomar posições impopulares – para adotar esse parternalismo condescente.

É verdade que durante muito tempo os recorrentes elogios do PCP às piores ditaduras do Mundo – da Síria de Asad à Venezuela de Maduro – não pareciam muito relevantes. Hoje a questão da Ucrânia é incontornável, nela joga-se o futuro da paz, da liberdade, da prosperidade na Europa. E a tendência comunista para defender os regimes mais repressivos desde que sejam suficientemente antiamericanos leva o PCP a defender a rendição perante o regresso das guerras de conquista à Europa. É justo reconhecer que o PCP até ataca Putin, mas só quando este critica a sagrada União Soviética. Sobre a invasão da Ucrânia o PCP e os seus aliados insistem que o problema não são os 200.000 soldados que Putin lançou contra esse país, eram os menos de 5.000 soldados que a NATO tinha enviado a partir de 2017 para os seus Estados membros mais diretamente ameaçados pelo expansionismo russo. É impossível deixar passar em claro estas posições ou deixar que passem por uma forma de pacifismo.

Observador (PT)

A direita que grita




Bolsonaro reafirma seu poder de arrebatar multidões e deve continuar influindo na política mesmo que perca as eleições. 

Por Carlos Graieb (foto)

Durante o 7 de Setembro, Jair Bolsonaro conseguiu levar, mais uma vez, multidões de apoiadores para as ruas de Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo e outras capitais. Essa exibição de força política levanta duas questões. A primeira diz respeito às eleições que se aproximam; a segunda, ao futuro do bolsonarismo.

Na noite de quarta-feira, o QG de Bolsonaro estava exultante. A campanha tem dados mostrando que, quando critica o sistema eleitoral e as urnas eletrônicas, ou insulta ministros do STF e do TSE, Bolsonaro faz sucesso entre os seus seguidores fanáticos, mas exaspera os eleitores indecisos.

Nos dias que antecederam o 7 de Setembro, um grande esforço foi feito para convencer Bolsonaro a evitar esses assuntos. Com o microfone na mão, ele ainda incentivou suas plateias a vaiar integrantes do STF e ameaçou “enquadrar quem joga fora das quatro linhas da Constituição”. Mas Bolsonaro não disse nada que se equiparasse, em virulência, ao seu discurso na mesma data, em 2021. Daí a comemoração dos assessores.

Não espantar o eleitorado, no entanto, não é o mesmo que conquistá-lo. Quais outros benefícios Bolsonaro pode extrair das celebrações do Bicentenário da Independência?

Ao contrário do que seria de esperar numa data histórica, os discursos do presidente em Brasília e no Rio de Janeiro não lançaram nenhuma luz sobre o passado, nem projetaram uma imagem inspiradora do futuro – daquilo a que o Brasil pode aspirar.

As poucas frases ditas sobre economia não serão lembradas por aqueles que mais precisam da ajuda do governo – os 33 milhões de esfaimados do país – nem pelo imenso contingente de eleitores com renda entre dois e cinco salários mínimos que ainda não têm firmeza em sua escolha de candidato.

As mulheres que se decepcionaram com o trabalho de Bolsonaro – especialmente durante a pandemia, quando ele deixou escancarada sua falta de empatia – dificilmente encontrarão em suas palavras qualquer motivo para reelegê-lo.

De tudo que Bolsonaro disse ao longo do dia, já se sabe o que ficou marcado: o coro de “imbrochável” que o ele puxou, exaltando a si próprio e à sua – suposta – potência sexual.A maneira como Bolsonaro sequestrou as comemorações do Bicentenário, transformando-as em um evento de campanha, também pode acabar se voltando contra ele.

Na própria quarta-feira, diversos partidos acionaram o TSE, alegando que o desfile cívico-militar de Brasília e as apresentações de navios e paraquedistas no Rio de Janeiro se confundiram completamente com os comícios que vieram em seguida, configurando abusos de poder político e uso de recursos públicos em proveito próprio. O que se pretende obter é a inelegibilidade de Bolsonaro.

Ainda que esse desfecho jurídico não aconteça, a demonstração de que o presidente não teve nenhum escrúpulo em usar a máquina pública em seu favor pode prejudicá-lo. As imagens falam por si próprias. Não é difícil para ninguém perceber que, ao contrário de qualquer outro ano, cidadãos que não rezam pela cartilha do bolsonarismo não se sentiriam à vontade, nem seriam bem-vindos, nos festejos nominalmente “públicos” de 2022.

Na verdade, as imagens de multidões vestidas de verde e amarelo, exibindo faixas e entoando gritos de apoio a Bolsonaro, são mesmo o único troféu que sua campanha conquistou no 7 de Setembro.

Não existem estimativas oficiais para o tamanho das reuniões de bolsonaristas nas três principais capitais onde elas aconteceram. Usando fotos aéreas e modelos de ocupação do espaço em grandes eventos, pesquisadores da Universidade de São Paulo estimaram em 32 mil pessoas a presença em São Paulo e em 64 mil, a presença no Rio de Janeiro.

Com método semelhante, o site Poder 360 calculou que o número de apoiadores de Jair Bolsonaro na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, foi um pouco maior do que cem mil pessoas. Os bolsonaristas acham pouco.

Na quarta-feira, o locutor de rodeios Cuiabano Lima, convocado para animar o comício de Bolsonaro na capital federal, foi instruído a multiplicar por dez o número de presentes (assista o vídeo, acima). “Aqui hoje na Esplanada, mais de 100 mil pessoas”, disse Lima, com seu chapelão de cowboy. Imediatamente, um militar emergiu do fundo do palco – era o coronel Mauro Cid, ajudante de ordens do presidente – e sussurrou algumas palavras no ouvido do locutor. Que logo mudou o discurso: “Aqui na minha frente, cem mil. Mas, em toda a Esplanada, chegaram os dados, um milhão de pessoas! Um milhão de brasileiros, levantem as mãos!”

O bolsonarismo deve se agarrar a esse número inflado. Ele dará suporte à narrativa prevista para as próximas três semanas: a de que o “datapovo”, baseado no olhômetro e nas conversas entre amigos, diz a verdade, enquanto os institutos de pesquisa – pelo menos aqueles que continuarem mostrando Bolsonaro atrás de Lula em intenções de voto – mentem.

É preciso reconhecer, contudo, que, ainda que não lhe garantam uma vitória em outubro, essas imagens de gente nas ruas dão a Bolsonaro algo que nenhum outro político brasileiro – nem mesmo Lula – tem atualmente: uma prova de que ao seu redor se articula um movimento político coeso, sempre pronto a responder a um chamado e com alguns objetivos claros.

Por muitos anos, Lula e o PT é que puderam se gabar disso. A situação começou a mudar durante as manifestações de 2013, quando ficou claro que o partido e seus satélites (especialmente os sindicatos) já não podiam se apresentar como porta-vozes exclusivos da vontade popular. A eclosão da Lava Jato, em 2014, e as grandes passeatas que se repetiram dali em diante, até o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, desbancaram de uma vez por todas a esquerda dessa posição de que ela julgava ser dona.

O fato de que grandes sindicados, depois de algum tempo, precisaram oferecer sanduíches aos participantes de seus eventos de apoio a Dilma, para convencê-los a comparecer, adicionou uma expressão ao nosso léxico político: “mortadelas”, em referência aos militantes de esquerda. A reforma trabalhista empreendida por Michel Temer, que pôs um fim à contribuição sindical obrigatória, fez com que até mesmo manobras como essas se tornassem difíceis. As bandeiras de sindicatos estavam presentes tanto no lançamento da candidatura de Lula, em maio deste ano, quanto no seu primeiro evento de campanha, em agosto. Mas os dois eventos empalidecem diante a lembrança de outros comícios, nos tempos áureos do PT.

O bolsonarismo, atualmente, conta com apoio financeiro de alguns empresários como Luciano Hang, que ocupou um espaço de honra no palanque oficial de Brasília, desalojando inclusive o presidente de Portugal Marcelo Rebelo de Souza, que ali estava. Conta, principalmente, com o apoio de líderes evangélicos. Foi o pastor Silas Malafaia, por exemplo, quem pagou pelo carro de som de onde Bolsonaro discursou na quarta-feira, no Rio de Janeiro. Mesmo assim, o presidente não dispõe de estruturas como os ricos sindicatos dos anos 1990 e 2000, para ajudar a organizar seus seguidores.

As redes sociais são as ferramentas de que ele necessita para mobilizar uma base social que, apesar de heterogênea, responde aos mesmos estímulos, como a defesa da família, das armas como meio de autodefesa e da pátria contra globalistas, comunistas e o que mais for.

Bolsonaro tem hoje algo entre 32% e 35% nas pesquisas de intenção de voto. Ainda que sua base fiel seja bem menor, da ordem de 20% ou 15% do eleitorado, trata-se de uma força política incontornável. Como mostrou mais uma vez o 7 de Setembro sequestrado, quando Bolsonaro chama, o seu povo acode. Pode ser que ele perca as eleições em outubro. Mas nem ele, nem o bolsonarismo deverão perder a voz – e nesse caso, o Brasil vai descobrir o que significa tê-los na oposição.

Revista Crusoé

A monarquia britânica tem futuro? A maioria dos fatores joga contra




Charles não é muito popular, as correntes históricas não favorecem e o valor de uma instituição milenar pode ser desgastado rapidamente. 

Por Vilma Gryzinski

Um dos maiores orgulhos de Elizabeth II era ter garantido três herdeiros na linha de sucessão – filho, neto e bisneto -, um feito raro, com o único precedente da rainha Vitória, no século XIX.

Mas ter a sucessão estabilizada não significa garantia de que ela vá acontecer.

Numa das pesquisas feitas por ocasião do jubileu de platina da falecida rainha, 62% dos britânicos eram a favor da monarquia e apenas 22% contra. Seria bom para o novo rei Charles III, exceto por um detalhe: 37% prefeririam que a coroa, depois de Elizabeth II, passasse diretamente para seu filho William, muito mais popular junto à opinião pública.

É claro que isso nunca aconteceria: seguir a linha da sucessão é um dos sustentáculos de um sistema baseado no princípio da hereditariedade e da hierarquia.

Como é possível que algo tão anacrônico sobreviva a tantas mudanças do mundo contemporâneo?

Nas monarquias escandinavas, os ventos históricos parecem calmos. O papel de reis e rainhas é, comparativamente, pouco contencioso e nos postos avançados do estado de bem-estar social não faz muito sentido consertar algo que não está quebrado. Na Espanha, o maior problema do rei Felipe VI é o seu pai, Juan Carlos, que detonou o prestígio da monarquia com contatos e negócios suspeitos.

Sem contar que Felipe poderá ser o rei que verá a Espanha perder um pedaço preciosíssimo, a Catalunha, onde predomina o separatismo.

O mesmo sentimento separatista pode arrancar do Reino Unido a Escócia e, eventualmente, a Irlanda do Norte. O reino se tornaria desunido, desmanchando um projeto consolidado há mais de 300 anos, perspectiva tão ruim que, por ocasião do plebiscito de 2014, Elizabeth fez uma uma rara e cautelosa declaração pública, aconselhando os eleitores a “pensar cuidadosamente” em suas escolhas.

O voto pela independência perdeu, com 44%, mas o separatismo é uma corrente forte. O atual governo é formado pelo principal partido independentista. A forte identificação da família real com a Escócia, realçada pelo uso de kilts quando os homens estão em território escocês, o farto emprego de gaitas de fole e pela própria morte da rainha em seu castelo particular em Balmoral, desabaria a partir do momento em que o “sim” vencesse.

A monarquia sobreviveria num país encolhido e até mesmo nem nele.

“Na medida em que a Grã-Bretanha se torna mais diversa, mais secular, mais insistentemente igualitária e menos conectada com seu passado, a própria ideia de uma monarquia hereditária cristã embasada na tradição e ha história se torna menos inteligível. O apoio à instituição tem caído entre as faixas etárias mais jovens”, escreveu Niall Gooch no UnHerd.

“A popularidade pessoal de Elizabeth II pode não se traduzir em afeição duradoura pela Coroa como instituição e tudo o que representa”.

Charles sabe muito bem disso e dedicou as últimas décadas a construir uma imagem positiva e deixar no passado o repúdio provocado pela forma como tratou e traiu Diana, a primeira mulher rejeitada.

Nesse sentido, a morte de Diana, há 25 anos, ajudou Charles a tornar aceitável, ao longo do tempo, seu casamento com Camilla e o tratamento que ela assumiu desde ontem, o de rainha consorte.

Tornar-se rei aos 73 anos não é exatamente entusiasmante e todo o trabalho sistemático de relações públicas não conseguiu o prodígio de transformar uma personalidade pouco inspiradora num herdeiro e agora rei popular.

As revelações recentes de que aceitou sacolas de dinheiro vivo para sua fundação, doados por um xeque do Catar, e outra contribuição de irmãos de Osama Bin Laden, não ajudaram em nada a torná-lo mais admirado.

Charles também tem que administrar dois problemas familiares extremamente incômodos.

Um é de seu filho Harry, que saiu batendo a porta para ir morar – e ganhar dinheiro – com a mulher nos Estados Unidos.

Harry e Meghan vivem de soltar inconfidências – falsas e verdadeiras – sobre a família real. Não vão se tornar mais contidos. Para dar uma ideia do clima de animosidade: eles estavam por acaso na Inglaterra quando a rainha morreu e foi anunciado que viajariam a Balmoral, mas depois a informação foi corrigida. Harry acabou indo sozinho.

O outro problema ficou menos espinhoso com a morte da rainha: Andrew, o filho que foi totalmente cortado dos compromissos oficiais da família real por causa dos contatos com o pedófilo suicida Jeffrey Epstein, não pode mais apelar à mamãe para restaurar seu status.

Depois do período de luto, que vai ser bem longo, todos os próximos passos terão que ser cuidadosamente coreografados. Quando Charles for coroado, terá que conciliar a tradição da cerimônia – que tem partes que remetem ao período anterior à conquista normanda, no começo do século XI – a adaptações inevitáveis.

Não poderá protagonizar um ato idêntico ao da mãe, que tinha apenas 27 anos quando entrou em Westminster usando a coroa de estado de 1 quilo e 280 gramas e manto de veludo ornado com peles de arminho de 6,5 metros. Sem contar a cerimônia de unção , com uma cruz feita no peito com uma mistura secreta de óleos e essências perfumadas, simbolizando algo que não existe há muito tempo: a monarquia por direito divino.

Foi por promover este conceito que o xará mais famoso – ou infame – do novo rei, Charles I, acabou decapitado em 1649 – um regicídio que só se repetiria quase 150 anos depois na França. A revolução inglesa durou pouco. Depois de uma década, ao longo da qual Oliver Cromwell, o homem que derrotou as forças leais ao rei em nome do Parlamento rebelado, foi ficando excessivamente poderoso, assumiu atribuições ditatoriais e acabou nomeando o filho como sucessor. Entre um rei plebeu, e inepto, e um rei por hereditariedade, o país acabou pendendo pela restauração da monarquia, com o filho do rei executado, Charles II, retornado do exílio na França. Seu avô materno Henri IV da França, tinha sido assassinado por um fundamentalista católico e a avó, a formidável Maria de Médici, terminou a vida confinada por conspirar contra um filho.

A época dos tronos disputados em batalhas passou há muito tempo e o campo de confronto hoje está nas redes sociais. Uma pesquisa recente mostra que Kate, a mulher de William, está acima até do marido em popularidade, com 68% de aprovação.

Quando se tornar a princesa de Gales, o título que ficou adormecido desde Diana (Camilla poderia usá-lo depois que se casou com Charles, o príncipe de Gales, mas foi prudentemente aconselhada a usar o segundo da lista, de duquesa da Cornualha), Kate se consolidará como um dos trunfos mais valiosos da monarquia.

Um casal jovem, bonito, dedicado à família e a boas causas, criando com afeto e cuidado um futuro reizinho, só ajuda a promover uma causa que parece historicamente perdida.

Só é preciso que Charles III não atrapalhe muito.

Revista Veja

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