domingo, abril 17, 2022

O manto diáfano da fantasia




Por Carlos Brickmann (foto)

Tudo que se faz na campanha eleitoral, hoje, relembra o excelente Eça de Queiroz, em A Relíquia: “sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia”. Começa que, para boa parte dos partidos e de seus dirigentes, não faz a menor diferença quem ganhará as eleições: quem vai governar, ganhe quem ganhar, será o Centrão. O Centrão governou com Dilma, o Centrão governou com Lula, o Centrão governa com Bolsonaro.

Às vezes é engraçado. Geraldo Alckmin, sempre discretíssimo em seus discursos, agora grita “Viva Lula, Viva Lula!” E qual é a graça? É que deixou o PSDB, mas o PSDB não o deixou. No discurso dirigido a trabalhadores, deu vivas também “à luta de vocês”. Um dia ele acorda e fala em “nós”.

Há também o Paulinho da Força, que se diz indignado por ter sido vaiado num evento petista. Paulinho cresceu na política sindical como adversário do PT e de Lula, cansou de ser vaiado por petistas. Agora, de tão indignado, pensa em transferir o apoio de seu partido, o Solidariedade, de Lula para Bolsonaro. Talvez não queira dizer que seu velho amigo Ciro Nogueira, chefe de fato do governo Bolsonaro, lhe mostra bons e abundantes argumentos para mudar de lado.

Não falta, claro, um general: Augusto Heleno, que cantava “Se gritar Pega, Centrão/não fica um, meu irmão”. O general anda quieto, ultimamente. Como ele mesmo disse, antes de cantar contra o Centrão, “foda-se!”

Petrofake

Bolsonaro demitiu o general que ele mesmo tinha nomeado para presidir a Petrobras e o substituiu por um profissional do ramo, José Mauro Ferreira Coelho. Como na época em que nomeou o general, declarou-se indignado com o preço dos combustíveis. Dependendo da evolução do preço mundial do petróleo, continuará indignado. Finge que não sabe que a Petrobras tem ações negociadas em Bolsa, no Brasil e nos Estados Unidos. Se resolver dar uma acochambrada nos preços para facilitar a vida do Governo brasileiro, tomará processos milionários dos acionistas prejudicados. Perfeito: ele finge que tomou providências e tudo continua como está. O preço da gasolina no Brasil, em média, é de R$ 7,498 o litro, no posto. É o mais alto, corrigida a inflação, que já houve no país. E se o preço do petróleo cair no Exterior? O combustível não vai baixar, não. Servirá “para cobrir prejuízos passados”.

Terceira via

A história do Brasil mostra que eleições com dois candidatos fortes são a forma predominante: Dutra x Brigadeiro, Getúlio x Brigadeiro, Juscelino x Juarez Távora, Jânio x Lott. Em 1989, houve três nomes: Collor, Brizola e Lula. Depois, Fernando Henrique x Lula, Fernando Henrique x Lula, Lula x Serra, Lula x Alckmin, Dilma x Aécio, Bolsonaro x Haddad. Terceira via? Não seria impossível – mas como imaginar que João Doria e Simone Tebet, com seus partidos estilhaçados, consigam se firmar? Quem conhece Janones e Luciano Bivar?

Todos os partidos da terceira via têm o mesmo objetivo: eleger parlamentares e com isso garantir uma boa parcela dos bilionários fundos públicos destinados à política. E, como objetivo paralelo, bancadas grandes ajudam a negociar participações no futuro governo, seja qual for.

O nosso dinheiro

Financiamento público de campanha deu nisso: não é importante ganhar, porque a farta verba de subsistência cobre bem os gastos; E, como este é o pensamento predominante, o importante é saber que o presidente eleito precisará alugar apoios não apenas para governar, mas também para não ser derrubado.

Mais ainda: quando alguém se exceder muito na rapina e for surpreendido, terá a proteção dos cem anos de perdão (desculpe! dos cem anos de sigilo) para que as investigações sejam muito dificultadas.

Pesquisa – e daí?

Lula melhorou bem na pesquisa PoderData encerrada nesta semana. Sua rejeição caiu 6% em um mês. Na pesquisa anterior, de março, 44% disseram que não votariam nele de jeito nenhum. Este número agora é de 38%. E daí?

Daí, nada. Alexandre Cordeiro, presidente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica, Cade, foi colocado na autarquia numa negociação de Ciro Nogueira com o Governo Dilma Rousseff. Ciro já era o poderoso chefão dos Progressistas e disse, em gravação de 2017, a Joesley Batista, da JBS, que Cordeiro era “seu menino” e que tinha “botado ele lá”.

Função do Cade: investigar acusações de cartel e decidir sobre fusões de empresas. O presidente do Conselho, que Ciro aponta como “seu menino”, é o fiscal mais poderoso do país. Ciro manda com Bolsonaro, como mandava com Dilma.

Uma boa notícia

A Folha de S.Paulo está lançando nova edição de 100 anos de capas do jornal. Um pouco de marketing pessoal: este colunista, em pouco menos de dez anos de Folha, é responsável por algumas das reportagens assinadas de primeira página que aparecem no livro das 100 mais.

Acho que vale a pena.

Brickmann.com.br

Governo alemão pede que população economize energia para 'irritar' Putin

 




Alemanha está sob pressão para reduzir sua dependência do combustível russo

O vice-chanceler (premiê) da Alemanha Robert Habeck pediu à população de seu país que economize energia e evite usar carros para ajudar a reduzir a dependência alemã do petróleo e gás importado da Rússia.

"Se você puder usar trem ou bicicleta durante a Páscoa, é bom também: é bom para o bolso e irrita (o presidente russo Vladimir) Putin", afirmou Habeck, que é também ministro da Economia e colíder do Partido Verde.

A Alemanha tem resistido a apelos europeus por um veto à importação de energia russa por conta da guerra da Ucrânia.

Isso tem gerado críticas por parte do governo ucraniano, que argumenta que a compra de combustível da Rússia ajuda a financiar a invasão no país.

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, disse em entrevista à BBC achar que a Rússia não precisa levar a sério negociações de paz por causa dos bilhões de dólares que recebe de suas exportações de petróleo.

Embora as importações alemãs tenham caído neste ano, o país ainda recebe da Rússia 25% de seu suprimento de petróleo e 40% de seu gás. E 90% dos carros na região de Berlim são abastecidos com combustível da refinaria Schwedt, de posse russa.

No início desta semana, institutos econômicos alemães advertiram que vetar imediatamente as importações vindas da Rússia causaria uma recessão na maior economia europeia em 2023.

Mas, em meio à pressão, o chanceler (premiê) alemão Olaf Scholz indicou que a Alemanha pode acabar decidindo pela suspensão até o final deste ano. O governo alemão também suspendeu a abertura de um grande gasoduto russo, o Nord Stream 2, em resposta à guerra.

No entanto, alguns membros de sua coalizão o acusam de não estar demonstrando liderança suficiente.

Em entrevista à imprensa alemã, o ministro Habeck afrimou que cada alemão pode fazer a sua parte na resistência à Rússia, reduzindo seu consumo de energia em 10%.

Talvez isso cause desconforto no aquecimento, mas ninguém vai congelar, afirmou ele - já que os meses de frio mais rigoroso já se passaram.

'Pagando o preço com as vidas das pessoas'

Alguns parceiros da coalizão de Scholz também o pressionam para que mande mais armamento pesado aos ucranianos.

O ministro de Relações Exteriores da Ucrânia, Dmytro Kuleba, fez um apelo a Berlim para que decida rapidamente quanto a enviar essa artilharia. "A Alemanha tem um papel de liderança na Europa e estamos contando com isso", disse ele à uma emissora alemã. "Estamos pagando o preço com a vida das nossas pessoas."

No entanto, o governo alemão afirmou que já enviou tudo o que podia sem afetar a própria capacidade militar de suas tropas.

A fabricante alemã Rheinmetall ofereceu o envio de tanques de batalha do tipo Leopard 1, mas Habeck afirmou que eles teriam de ser reformados, o que levaria meses.

BBC Brasil

A (in)tolerância segundo Umberto Eco




Por Umberto Eco (foto)

Fundamentalismo, integrismo, racismo pseudocientífico são posições que pressupõem uma doutrina. A intolerância coloca-se antes de qualquer doutrina. Nesse sentido, a intolerância tem raízes biológicas, manifesta-se entre os animais como territorialidade, baseia-se em relações emocionais, muitas vezes superficiais — não suportamos os que são diferentes de nós porque têm a pele de cor diferente, porque falam uma língua que não compreendemos, porque comem rãs, cães, macacos, porcos, alho, porque são tatuados…

A intolerância em relação ao diferente ou ao desconhecido é natural na criança, tanto quanto o instinto de se apossar de tudo o que deseja. A criança é educada para a tolerância pouco a pouco, assim como é educada para o respeito à propriedade alheia — antes mesmo do controle do próprio esfíncter. Infelizmente, se todos chegam ao controle do próprio corpo, a tolerância permanece um problema de educação permanente dos adultos, pois na vida cotidiana estamos sempre expostos ao trauma da diferença. Os estudiosos ocupam-se com frequência das doutrinas da diferença, mas não o suficiente da intolerância selvagem, pois esta foge a qualquer definição e abordagem crítica. No entanto, não são as doutrinas da diferença que produzem a intolerância selvagem: ao contrário, estas desfrutam de um fundo de intolerância difusa preexistente. Pensemos na caça às bruxas. Ela não foi produto de épocas obscurantistas, mas da era moderna. O martelo das feiticeiras (Malleus Maleficarum) foi escrito pouco antes da descoberta da América, é contemporâneo do humanismo florentino; La Démonomanie des sorciers, de Jean Bodin, deve-se à pena de um homem do Renascimento, que escreveu depois de Copérnico. Não pretendo explicar aqui por que o mundo moderno produziu justificativas teóricas para a caça às bruxas. Quero apenas recordar que essa doutrina conseguiu se impor porque já existia uma desconfiança popular em relação às bruxas. É possível encontrá-la na Antiguidade clássica (Horácio), no Édito de Rotário, na Summa Theologica de São Tomás. Era considerada uma realidade cotidiana, assim como o código penal leva em consideração a existência dos ladrões. Mas sem essas crenças populares, uma doutrina da bruxaria e uma prática sistemática da perseguição não teriam condições de difundir-se.

O antissemitismo pseudocientífico surge no decorrer do século XIX e transforma-se em antropologia totalitária e prática industrial do genocídio apenas em nosso século. Porém, não poderia ter nascido se não existisse há séculos, desde os tempos dos Pais da Igreja, uma polêmica antijudaica e, no seio do povo comum, um antissemitismo prático que atravessou os séculos em qualquer lugar onde houvesse um gueto. As teorias antijacobinas do complô judaico, no início do século passado, não criaram o antissemitismo popular, mas exploraram um ódio pelo diferente que já existia.

Os fundamentos teóricos de Mein Kampf podem ser refutados com uma bateria de argumentos bastante elementares, mas se as ideias que propunha sobreviveram e sobreviverão a qualquer objeção é porque se apoiam em uma intolerância selvagem, impermeável a qualquer crítica.

[Q]ualquer teoria torna-se inútil diante de uma intolerância crescente, que ganha terreno a cada dia. A intolerância selvagem baseia-se num curto-circuito categorial que posteriormente pode ser emprestado a qualquer doutrina racista: se alguns entre os albaneses que entraram na Itália no[s] ano[s] passado[s] tornaram-se ladrões ou prostitutas (e é verdade), todos os albaneses seriam, então, ladrões e prostitutas. É um curto-circuito terrível porque constitui uma tentação constante para cada um de nós: basta que nos roubem a mala no aeroporto de um país qualquer para que voltemos para casa dizendo que é bom desconfiar das pessoas do tal país.

Os intelectuais não podem lutar contra a intolerância selvagem, porque diante da animalidade pura, sem pensamento, o pensamento fica desarmado. E é sempre tarde demais quando resolvem lutar contra a intolerância doutrinária, pois quando a intolerância se faz doutrina é muito tarde para vencê-la, e aqueles que deveriam fazê-lo tornam-se suas primeiras vítimas.

A intolerância selvagem deve ser, portanto, combatida em suas raízes, através de uma educação constante que tenha início na mais tenra infância, antes que possa ser escrita em um livro, e antes que se torne uma casca comportamental espessa e dura demais.

O Estado de São Paulo

Voltar à antiga e simples separação entre os poderes




O STF pode intervir nas questões ambientais? De todo modo, penso que deveria avaliar se de fato é função da Corte estabelecer juízos subjetivos, de natureza tão claramente política. 

Por Fernando Schüler (foto)

Segundo a ministra Cármen Lúcia, o Brasil vive um tipo de caquistocracia na questão ambiental. Caquistocracia vem do grego e significa o “governo dos piores”. Alguns dizem que melhor seria dizer “idiocracia”, ou o governo dos idiotas. Dos desqualificados, de um modo geral. Seu oposto seria algo próximo ao que Jason Brennan chama de epistocracia, ou o governo dos sábios. Estaríamos longe disso, do que depreendo da recente decisão da ministra. Algo me diz que ela acharia o mesmo sobre muitas outras áreas do atual governo, mas não vem ao caso aqui.

A ministra também diz que atravessamos uma fase de “cupinização” da administração pública. Está lá, na sua longa decisão, sobre a política ambiental do governo. Teríamos uma gestão pública hoje infestada pelo “cupim do autoritarismo, cupim do populismo, cupim dos interesses pessoais, da ineficiência administrativa”. Além desses bichos todos, haveria a “cupinização normativa”. Um decreto de 2019, por exemplo, quando o governo extinguiu um “comitê orientador do fundo Amazônia”, que contava com representantes da sociedade civil. A cupinização implicaria na “destruição por dentro”, por vezes disfarçada, feita pelo próprio governo, da política ambiental, a exemplo do que ocorreria nas “instituições democráticas”. É o que pensam os partidos de oposição, Rede, PT, PSOL, PCdoB, que ingressaram com as ações contra o governo.

Por fim, a ministra diz que vivemos em um “estado de coisas inconstitucional” na área ambiental. Vai aí a questão central do debate. A ideia vem do Tribunal Constitucional da Colômbia e confere às cortes uma missão muito mais ampla do que avaliar objetivamente a constitucionalidade das leis e procedimentos. O juiz constitucional não pode permanecer “indiferente”, diz a juíza colombiana Clara Vargas, diante de “situações estruturais” que atingem “direitos inerentes ao ser humano”. Quando leio algo assim lembro da frase de um velho professor: “Cabe muita coisa atrás de grandes palavras”. Dispondo de uma Constituição repleta de enunciados genéricos sobre direitos, o STF pode, em tese, intervir em qualquer política pública, fixando metas, determinando liberação de recursos e vetando escolhas políticas por parte do governo.

Isso fere o princípio da separação dos poderes? A AGU tentou argumentar nessa direção, mas a ministra foi clara: “A separação dos poderes não pode ser usada como biombo para o descumprimento da Constituição”. Se a materialização de princípios constitucionais exige certa política pública, na visão de algum ministro do STF, como a participação de membros da “sociedade civil” em um conselho, mesmo sem previsão legal, ou a aplicação de recursos, qual seria o problema? No caso da política ambiental, o argumento da ministra gira em torno do que diz o artigo 225 da Constituição. Haveria omissão do Executivo quanto ao “direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado”. Ademais, haveria também agressão ao “direito à vida”, “direito à saúde”, aos “direitos fundamentais dos povos indígenas”, e mesmo ao das “crianças e adolescentes”. Considerando-se todos esses direitos em conjunto, dizer que uma política pública foi malfeita é quase o mesmo que dizer, em qualquer área, que há ofensa constitucional. A partir daí, e com alguma liberalidade, por que não seria responsabilidade do STF?

Quando li isso, me veio à mente tanta coisa que nossa Constituição determina. Que o salário mínimo, por exemplo, cubra as “necessidades vitais básicas” do trabalhador e sua família, da habitação ao lazer. Nosso atual mínimo, por óbvio, não dá conta disso. Não teríamos aí um claríssimo “estado de coisas inconstitucional”? No capítulo sobre educação, leio que nosso sistema de ensino deveria dar “formação plena ao ser humano” e “preparar nossos estudantes para o mercado de trabalho”. Opa. Tiramos a cada três anos os últimos lugares no Pisa, e basta dar uma olhada nas redes estaduais de ensino para saber que há pouca coisa parecida com “formação para o trabalho”. Não teríamos aí um mais que claríssimo “estado de coisas inconstitucional”? Por que os partidos não agem, e o STF não alega “omissão”, nesses e em tantos outros casos? Talvez porque se reconheça que políticas públicas evoluam com o tempo; talvez porque o tema seja politicamente irrelevante; ou quem sabe menos urgente (seria o caso da educação?). É difícil saber. Quando se abre a caixa de pandora da subjetividade analítica, tudo pode ser, deixar de ser, ou quem sabe vir a ser, não é mesmo?

É algo curioso que se preste atenção a questões bastante abertas à interpretação, mas temas perfeitamente objetivos, determinados pela Constituição, são solenemente ignorados. Em seu artigo 41, a Constituição determina que seja regulamentado, por lei, a avaliação de desempenho dos servidores públicos. Isso está lá, dormindo na Constituição, há 24 anos. Foi incluído na emenda 19, de 1998, junto com a inclusão do princípio da “eficiência”, aliás corretamente citado pela ministra Carmem em sua decisão recente. A pergunta é: ninguém fará nada a respeito? Não há aí um ainda mais claríssimo “estado de coisas inconstitucional”? Haveria algum tipo de preferência por esta ou aquela política pública? Confesso não ter uma resposta cabal a todas essas questões. Nem é meu estilo oferecer esse tipo de resposta. Talvez por formação, gosto de provocar alguma reflexão. Talvez o país esteja demandando um órgão de Estado supervisor de políticas públicas. Seria meio estranho isso, pois já temos o Legislativo, que tem a missão de acompanhar as ações do governo.

De todo modo, penso que nosso STF deveria avaliar se de fato é função da Corte estabelecer juízos subjetivos, de natureza tão claramente política, como “caquistocracia” e “cupinização”, e tantos outros que se escutou nos tempos recentes, para definir um governo. Tento imaginar juízes “progressistas” emitindo juízos sobre governos “conservadores”, e em um futuro qualquer, ministros “conservadores” fazendo o mesmo, com governos “progressistas”. Confesso que nenhuma dessas imagens me soa bem. O STF é um órgão de Estado. Governos se sucedem, como é próprio nas democracias. Juízos políticos cabem aos cidadãos e ao Congresso, em especial. E aos eleitores, em última instância, no debate da sociedade, e nas eleições.

Quanto às políticas públicas, desconfio que deveríamos voltar à antiga e mais simples lição das democracias constitucionais: a separação entre os poderes. É evidente que tudo pode ser misturado, usando-se as palavras adequadas e a devida interpretação. A pergunta, porém, é outra: isso deve ser feito? Deixo a resposta à reflexão de todos.

*Fernando Schüler é cientista político e professor do Insper

Revista Veja

Os extremos ideológicos e o ‘centro’




Numa antevéspera de eleições gerais, a indagação é quem seriam os responsáveis pela crise política, econômica e social do Brasil?

Por Ney Lopes (foto)

A lúcida e competente entrevista dada pelo cientista político Antônio Lavareda alerta sobre a responsabilidade dos verdadeiros democratas fazerem um “mea culpa” e tentarem salvar as liberdades política, econômica, religiosas etc.

Tudo isso porque, com a pandemia, as sucessivas crises, a necessidade de preservação do meio ambiente e a guerra da Ucrânia, a democracia terá que se adaptar ao novo mundo que surge.

Na sua entrevista, o cientista político Antônio Lavareda deixou claro que a eleição de 2022 será diferente das demais.

Antecipou a mudança de posição do eleitor, que desejará candidatos com experiência comprovada e “ficha limpa”.

O voto será dado em função de avaliações, inclusive de cargos eventualmente ocupados anteriormente pelos candidatos e os resultados positivos obtidos.

Sem dúvida, um bom prognóstico.

As dificuldades na reconstrução da democracia são os extremos ideológicos, que geram fanatismos e incompreensões.

Torna-se muito difícil ter posição doutrinária de equilíbrio e de centro.

Os extremos da direita e esquerda, interpretam como sinônimo de mediocridade, não ter opinião e apelidam de “centrão”, o que, além de estar em cima do muro, significaria práticas de corrupção. Acusam até de comunismo e nazismo.

Em artigo passado nesta TN, analisei a conjuntura sócio-política do Chile e opinei que as revoltas populares lá ocorridas tiveram como origem o país ter descuidado da prioridade social e concentrar-se na obsessão de adotar medidas extremas para o controle inflacionário, através de privatizações em massa (inclusive na saúde, educação e previdência social) , sem critérios, abertura ao mercado externo e ações correlatas.

A afirmação feita jamais significou, que o governo deveria adotar políticas do “estado gastador”, descuidar do controle da inflação e avalizar a chamada esquerda bolivariana da América Latina, cujo fracasso é notório. O equilíbrio fiscal é absolutamente necessário.

O que se defende é a máxima do professor Ladislas Dowbor, titular da PUC de São Paulo, de que se impõe resgatar a função social da economia, como questão prioritária de respeito à dignidade humana.

Essa meta se alcança, a partir dos ensinamentos do filósofo grego Aristóteles, que na sua obra analisa a ética, moralidade e aponta a virtude do homem como justa medida entre os extremos, os chamados “vícios de excesso”.

A virtude está no meio, sem autodenominar-se centrismo. O desafio é o discurso sensato e moderno, que preserve a “responsabilidade social e a austeridade fiscal” e demonstre que o equilíbrio das contas públicas pode ser alcançado juntamente com as políticas responsáveis de redução das desigualdades sociais e investimento público, que incentivem a iniciativa privada e gerem empregos.

Tais diretrizes, ao invés de populistas, buscariam a estabilidade econômica e a distribuição justa da renda. Biden age assim.

Está provado, que a “mão invisível” do mercado de Adam Smith não é suficiente para equilibrar eficiência econômica e equidade econômica.

A recomendação do capitalismo americano é adotar a regulação econômica, de forma a permitir que os interesses público e privado busquem a forma de guiar, controlar e direcionar a “mão invisível” de Adam Smith.

As agências reguladoras, pessoas jurídicas de Direito Público, ocupam-se não só da regulação econômica, mas também da proteção dos direitos fundamentais dos cidadãos.

Dessa forma são corrigidas as falhas da economia e criadas condições, que incentivem a concorrência, com o objetivo do crescimento econômico, redistribuição da renda e redução da pobreza.

Essa concepção não é direita, nem de esquerda. Traduz o caminho a ser seguido, por quem realmente acredite numa democracia estável, com paz social.

A resposta sobre quem é responsável pela crise brasileira, resume-se na classe dirigente ter coragem de reconhecer a “mea culpa, mea culpa, mea máxima culpa” e corrigir a prática dos “vícios de excesso” (extremismos), de que falou Aristóteles.

Na correção de rumos, inclui-se o eleitor estar consciente de ter em mãos um importante instrumento de “mudança”, que é o seu voto.

Sem decisão madura e refletida nas urnas de outubro próximo, a consequência inevitável será a continuidade da crise política, econômica e social do Brasil.

Não haverá como evitar!

*Ney Lopes – jornalista, advogado, ex-deputado federal; ex-presidente do Parlamento Latino Americano (PARLATINO); e- Presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara; procurador federal; professor de Direito Constitucional da UFRN

Diário do Poder

Ciência ou panfleto ideológico?




O ataque às políticas ambientais foi impulsionado por um esforço velado de um pequeno grupo para desinformar a sociedade. 

Por José Maria da Costa (foto)

Acadêmicos brasileiros publicaram recentemente numa revista holandesa um artigo em que atacam diversas pessoas e entidades. Dentre as muitas acusações, falam que “um pequeno grupo de pesquisadores brasileiros” produziu “controvérsias falsas” que impactaram seriamente “a conservação ambiental, sobretudo em questões relacionadas ao desmatamento e às mudanças climáticas”. Além disso, com indevidas “credenciais científicas e desconsideração da literatura”, fabricaram “pseudofatos” que se esforçam para aparecer fatos científicos.

Com esses pretextos, propõem-se examinar essas supostas “falsas controvérsias que surgiram no Brasil nas últimas décadas”. E, nesse afã, acusam de roldão a Embrapa, a Embrapa Territorial, seu pesquisador Evaristo de Miranda, deputados, senadores e presidentes da República — de José Sarney a Bolsonaro —, e os responsabilizam por um “desmonte das políticas de conservação ambiental no Brasil”, o que resultou em “adiar ações ou desmantelar políticas-chave de conservação”. Por fim, afirmam escrever o artigo para analisar “a presença e a influência desse grupo de pesquisadores e de seu coordenador nos Poderes Executivo e Legislativo do governo federal brasileiro”.

Este autor não tem procuração para defender os presidentes da República. Mas diga-se que o confuso artigo chama a atenção, quando pretende enredá-los todos, sem distinção, como marionetes da Embrapa Territorial sob a batuta de seu maestro, Evaristo de Miranda, alçado pelos articulistas à condição de verdadeiro Rasputin dos trópicos, tanto na influência exercida sobre eles, quanto na suposta invenção de dados — e tudo para afrouxar as regras das políticas ambientais.

Também não tem procuração para refutar as acusações aos deputados e senadores, que teriam votado, durante muitos anos, quase que sob o poder da hipnose lançada sobre eles pela mesma equipe e por seu bruxo maior. Mas, também aqui, chega a ser ofensivo e pueril pensar que os integrantes de nosso Parlamento teriam aprovado medidas jurídicas e o próprio Código Florestal de 2012 (CF-2012) apenas porque o Dr. Evaristo lhes teria apontado a direção em que votar.

Por fim, não pretende este autor debater critérios, metodologia e pretensas premissas científicas do trabalho sob análise. Mas é preciso dizer que o artigo é confuso e peca pelo principal: busca desacreditar a metodologia dos contrários, mas isso parece apenas servir para esconder a realidade efetiva, que é o fato de não conseguirem contraditar ou provar a falsidade ou o desacerto dos dados que constam oficialmente nas publicações e nos trabalhos realizados por eles.

O Código Florestal

Dificilmente se vai encontrar lei mais discutida na história do Congresso Nacional que o Código Florestal. Foram mais de 200 audiências públicas e privadas com ambientalistas, organizações não governamentais, agricultores, criadores, pesquisadores, juristas e gestores. No plano político, resultou sua tramitação em um placar representativo de enorme apoio parlamentar: na votação original do projeto na Câmara dos Deputados, 410 votos favoráveis contra 63. No Senado, 59 contra 7. E, em todo esse processo legislativo, contou-se com o apoio dos principais partidos, quer de governo, quer de oposição.

Além disso, contrariamente à eventual acusação de manobras da direita em prol do agronegócio em todo esse processo, deve-se lembrar que o relator do projeto na Câmara dos Deputados era do PCdoB (Aldo Rebelo); e, no Senado, do PT (Jorge Viana). Assim, longe de ser desacreditado, o CF-2012 deve ser valorizado como a conquista do possível no difícil momento em que foi votado no Congresso Nacional.

Antes

O Código Florestal de 1934 (CF-1934) não nasceu de ideias de proteção ambiental, e sim da preocupação com a rápida derrubada das florestas nativas para exploração de madeira. Preocupava-se o governo com os desmatamentos causados pela produção do café e pela criação de gado no Vale do Paraíba (SP e RJ) e em outras regiões, com a consequente escassez dos recursos naturais.

Ainda sem maior preocupação ambiental, o CF-1965 veio como “instrumento para organizar o setor madeireiro e conservar as reservas de florestas necessárias para o seu desenvolvimento”. É, de igual modo, “um diploma legal com o intuito de disciplinar a atividade econômica”. Sua “discussão central diz respeito às medidas de conservação nos espaços destinados à atividade econômica”.

Hoje

Tanto pelas discussões em que se envolveu, quanto pelos debates das ideias em confronto e pela participação maciça de parlamentares dos diversos partidos em ambas as Casas do Congresso, o Supremo Tribunal Federal concluiu que o CF-2012 “ostenta legitimidade institucional e democrática”.

Além disso, quando se analisam as discussões nas Casas legislativas, vê-se que ele se caracteriza como um real avanço e constitui o que se pode ter como um regramento do que era factível. Nasceu do meio-termo, do “pacto possível”, tanto para “assegurar aos produtores rurais a legalização de suas atividades”, então mergulhadas num cipoal de medidas e normas ilegais, como para dar “as respectivas garantias de proteção do meio ambiente e da natureza”.

Ante essa realidade, se alguém disser que o CF-2012 é imperfeito, a resposta será positiva; se indagar se há pontos a serem corrigidos, acrescentados ou aperfeiçoados, a resposta será a mesma; mas qualquer tentativa de desmerecer seu processo legislativo, de desacreditar as normas nele constantes, de diminuir os agentes envolvidos em sua aprovação ou, ainda, de desestabilizar sua aplicação deverá merecer o mais veemente repúdio.

Já de início se pode voltar contra os próprios articulistas o argumento de “uso indevido de credenciais científicas” levantado por eles para atribuir à Embrapa Territorial e a seu pesquisador-chefe a criação de “falsas controvérsias”. Feitiço virando contra os feiticeiros. É que, pelo conceito deles, o “uso indevido de credenciais” se tipifica quando “a autoridade científica é empregada para falar sobre questões que o cientista não domina”. Talvez, no caso, seja essa a causa de vários dos equívocos, já que pessoas de formação em outras áreas se põem a discutir questões legislativas e jurídicas. Tivessem consolidada formação no Direito, e talvez não criassem, eles, sim, as “falsas controvérsias” que tentaram fazer passar por princípios consolidados e premissas estáveis no plano da Ciência do Direito, como se verá em minúcias.

É verdade que, por serem maciçamente alheios a essa ciência específica, não se pode exigir deles tal raciocínio técnico. Se, porém, isso serve de alguma explicação para o infeliz artigo que cometeram, mesmo assim não podem ficar sem advertência. Por isso, como consequência de seu ato, talvez seja o caso de repetir-lhes a admoestação do pintor Apeles na Grécia antiga, quando um sapateiro, após criticar um detalhe na sandália de um quadro em exposição e ver prontamente corrigido o equívoco, quis também censurar algum detalhe na parte superior, e foi quando ouviu do pintor a seguinte resposta: “Sapateiro, não suba além do sapato!”.

Os argumentos

Num primeiro aspecto, vejam-se as seguintes afirmações do artigo: (a) “o Código Florestal enfraqueceu as políticas ambientais”; (b) esse enfraquecimento “começou com a aprovação, pelo Congresso Brasileiro, de uma versão revisada do Código Florestal”; (c) a atitude dos pesquisadores “se opôs ao consenso científico sobre o assunto, ao afirmar o Dr. Evaristo de Miranda, em um vídeo popular no YouTube, que o Brasil é o país que mais preserva sua floresta e que suas práticas agrícolas são as mais sustentáveis do mundo”.

Ora, sem espaço para discutir em profundidade cada um desses argumentos (que também — é preciso lembrar — foram lançados por eles sem maior fundamentação), resume-se assim o comentário: (i) várias das medidas anteriores ao CF-2012 eram ilegais, de modo que está longe de ser pacífico afirmar que era firme, consolidada e indiscutível uma suposta política de proteção ambiental; (ii) além disso, essa afirmação de enfraquecimento da proteção ambiental — embora não se detalhe em que pontos isso teria ocorrido — costuma passar por um tripé de argumentos não discutidos, mas sempre alegados nessas situações, a começar pela suposta novidade do art. 15 do CF-2012, que admite “o cômputo das Áreas de Preservação Permanente no cálculo do porcentual da Reserva Legal do imóvel”; (iii) esquecem-se de que o CF-1965 já admitia tal cômputo, de modo que esse assunto não é novidade do atual código; (iv) como segundo elemento, essa afirmação de enfraquecimento da proteção ambiental costuma passar pelo ataque à suposta novidade do art. 68 do CF-2012; (v) esquecem, porém, mais uma vez, que tal dispositivo dispensou de fazer reserva legal aqueles que o fizeram respeitando os porcentuais permitidos pela “legislação em vigor à época em que ocorreu a supressão”. Por fim, os articulistas afirmam, mas não trazem elementos para contestar os dados das publicações, ou mesmo para desmentir as duas afirmações dos pesquisadores, a primeira, de que “o Brasil é o país que mais preserva sua floresta”, e a segunda, de que “suas práticas agrícolas são as mais sustentáveis do mundo”.

Num segundo aspecto, vejam-se estes trechos: com as “controvérsias falsas”, os acusados municiaram os congressistas, e os “números questionáveis foram fundamentais para promover os interesses da bancada do agronegócio e decisivos para flexibilizar a lei”; com isso, “forneceram o conveniente argumento técnico necessário para justificar as mudanças, oferecendo e justificando uma anistia de 58% do desmatamento ilegal ocorrido antes até 2008”; depois, “o governo Bolsonaro drasticamente diminuiu o número de multas ambientais relacionadas a desmatamento”.

Ainda tentando ser breve, alinham-se os seguintes pontos: os articulistas não listaram os componentes do porcentual que alegaram como desmatamento, nem conceituaram o que é para eles “desmatamento ilegal”; o certo, porém, é que o vocábulo anistia tem sido utilizado, em discussões como esta, sem precisão jurídica alguma. Assim, alguns consideram como anistia o que diz o art. 15 do CF-2012 — que permite o cômputo das áreas de preservação permanente no cálculo da reserva legal; muitos esquecem, porém, a parte final do dispositivo, que manda “excetuar os casos previstos no art. 68”, e este exonera de fazer reserva legal aqueles que removeram vegetação nativa respeitando os porcentuais permitidos pela “legislação em vigor à época em que ocorreu a supressão”.

A bancada do agronegócio

Passando a um terceiro aspecto, registra o artigo que “a bancada do agronegócio do Congresso aumentou a pressão para relaxar o CF”.

Ora, quem assim afirma ou desconhece na totalidade o que está falando, ou está de má-fé, ou ambos. Quando se considera o número de membros da Frente Parlamentar da Agropecuária, vê-se que ela detém, em última análise, a maior bancada do Congresso e, assim, é integrada por um número de parlamentares mais do que suficiente para aprovar o que quiser.

Além disso, como o voto não exige justificativas, provas ou argumentos, seus integrantes não precisam de números, estudos ou justificativas. Se os buscam, é por zelo que o fazem. Se quisessem aprovar de outro modo, simplesmente votariam no sentido desejado. Não precisariam fazer pressão alguma para relaxar qualquer estrutura legal; bastaria produzir os projetos de lei reputados de seu interesse, pôr em votação e aprovar.

O enfraquecedor de normas ambientais

Notem-se as seguintes passagens: (a) “evidências da influência” desse grupo “podem ser encontradas em diferentes governos”; (b) “ao longo de sua carreira, Miranda manteve laços estreitos diretamente com presidentes eleitos, muitas vezes atuando como consultor em questões agrícolas e ambientais em governos de direita e esquerda”; (c) “a desinformação apresentada por Miranda e colaboradores teve papel central no enfraquecimento do CF ao criar uma falsa polêmica sobre os potenciais limites para o crescimento da agricultura brasileira sob a legislação vigente”. O que é menos conhecido no caso do Brasil é que o ataque às políticas ambientais foi impulsionado por um esforço sistemático e velado de um pequeno grupo de contrários para desinformar os tomadores de decisão e a sociedade

Fazem-se breves ponderações, a começar pela observação de que o artigo confunde convocação para fornecer subsídios com “influência” capaz de distorcer decisões, a qual seus autores entendem exercida para “desinformação”, muito embora não forneçam elemento algum que comprove a incorreção dos elementos supostamente levados aos governantes.

Ao depois, a par dos ataques genéricos e sem provas científicas e adequadas, não há no artigo “desinformação” comprovada, conceituada esta como efetiva informação inverídica. Note-se que o reconhecimento da contribuição do Dr. Evaristo de Miranda e equipe para o Legislativo, Executivo e até mesmo Judiciário, em todo esse tempo, longe de constituir demérito, apenas vem em seu favor, respaldados que estiveram sempre por estudos que aprofundam e atualizam ao longo do tempo, contra cuja autenticidade e correção os articulistas não conseguem lançar objeção séria alguma ou número comprovado.

É ingenuidade pensar que, sendo chamado para fornecer subsídios pela confiança adquirida, o Dr. Evaristo exerceria influência em tal grau, que seria possível levar os governantes a tomarem medidas contrárias à vontade deles, e que tudo aconteceria no reino da política ambiental pela simples vontade do suposto plenipotenciário da Embrapa Territorial.

Por fim — e isso espanta num artigo pretensamente respaldado em metodologia científica —, vê-se que é gratuita a afirmação de que teria havido, ao longo dos anos, um “ataque às políticas ambientais […] impulsionado por um esforço sistemático e velado de um pequeno grupo”. Tudo conduz à conclusão de que seus autores, num ambiente e época em que já se encontra sedimentada a posição do CF-2012, apenas buscam requentar debates para espalhar desconfiança a seu respeito, com base em uma típica teoria da conspiração.

O uso de fogo nos canaviais

Num último aspecto, o artigo busca conectar a atuação do Dr. Evaristo à continuidade do emprego do fogo na colheita da cana. Entre os argumentos, está o de que o “pedido do Ministério Público para parar de queimar cana-de-açúcar foi negado por um juiz com base no estudo de Miranda, atrasando em duas décadas a proibição dessa prática no Estado de São Paulo”.

Resume-se essa refutação do seguinte modo: em fins de 1992 ou começo de 1993, proferi aquela que foi considerada a primeira sentença sobre queima de palha de cana-de-açúcar no país. Contrariamente ao pedido do Ministério Público, não proibi a queima. A sentença foi confirmada pelos Tribunais Superiores e fez jurisprudência, em diretriz que foi obedecida ao longo dos anos, até a chegada do CF-2012. As causas para continuar permitindo a queimada foram muito mais complexas e abrangentes do que pretendem os articulistas. Em primeiro lugar, a queima era legal “se peculiaridades locais ou regionais” justificassem. Em segundo, os contratos coletivos dos trabalhadores que atuavam no corte manual, por imposição dos sindicatos da categoria, continham cláusula específica que obrigava os produtores a queimarem previamente os taliões oferecidos ao corte, de modo que estes não poderiam ser apresentados crus aos cortadores — a justificativa para essa exigência era a baixa produtividade com a colheita da cana crua, o perigo cortante da folha da cana não queimada, além da presença de cobras e animais peçonhentos, que eram afugentados pelo fogo. Além disso, ainda não haviam sido desenvolvidas colhedeiras para cana crua, o que só aconteceu anos mais tarde.

A esta altura, o ideal será que o leitor, primeiramente, busque e leia o artigo alvo desta análise, para se inteirar do que lá se afirmou. E, então, cotejando ambos os trabalhos, conclua por si mormente quanto à seguinte indagação: o que se fez naquele artigo foi ciência ambiental, ou configurou apenas um panfleto ideológico para espalhar desconfiança contra diversos segmentos, pessoas, entidades e assuntos, e, sobretudo, para desestabilizar o Código Florestal de 2012?

*José Maria da Costa é advogado, doutor e mestre em Direito pela PUC-SP

Revista Oeste

Milhares de pessoas saem à rua em França contra a extrema-direita




Milhares de pessoas manifestaram-se, este sábado, nas ruas de muitas cidades de França contra a líder da extrema-direita, Marine Le Pen, candidata às eleições presidenciais contra o atual chefe de Estado, o centrista Emmanuel Macron.

Os protestos decorreram não só em Paris, mas também em cidades como Rennes, Lyon, Nantes e Besançon e mais 50 localidades de todo o país, convocados por sindicatos e organizações como a SOS Racismo, sob o lema "Contra a extrema-direita e pela Justiça e a Igualdade" e também "Nem um voto para Le Pen".

Cerca de 22 mil pessoas participaram nas manifestações em toda a França, 9200 das quais em Paris, segundo números do Ministério do Interior.

"Mais vale um voto que fede que um voto que mata", lia-se numa das faixas da concentração na capital.

Muitos manifestantes afiançavam que votarão em Macron, embora sejam contra as suas ideias, para evitar que Le Pen seja eleita.

Mas outras faixas mostravam, por outro lado, a rejeição de muitos eleitores em recorrer à chamada "frente republicana", ou seja, em votar no candidato que se opõe à extrema-direita para impedir a chegada desta ao poder.

"Nem Macron nem Le Pen" era um desses "slogans", numa jornada na qual também houve, em Paris, um protesto anti-Macron, organizado pelo ex-número dois de Marine Le Pen, Florian Philippot, que assegurava nas redes sociais que era esperado "um milhão de pessoas". Afinal, foram apenas algumas centenas de pessoas.

Mélenchon

Este sábado à noite, termina a consulta realizada pelo partido França Insubmissa, do esquerdista Jean-Luc Mélenchon - candidato eliminado na primeira volta das presidenciais, a 10 de abril - para perguntar aos seus simpatizantes qual deve ser a posição do partido: votar em Macron para impedir a eleição de Le Pen ou abster-se ou votar em branco.

De acordo com as últimas sondagens, publicadas na revista "L'Obs" e que dão ao candidato liberal a vitória por uma estreita margem, até 40% dos eleitores de Mélenchon estão dispostos a abster-se ou votar em branco na segunda volta, a 24 de abril, cerca de 29% votarão em Le Pen e cerca de 31% em Macron.

Mélenchon obteve na primeira volta mais de 7,7 milhões de votos, o que corresponde a 22%, atrás dos 23,1% de Le Pen e dos 27,8% de Macron.

Ao contrário de outros líderes de esquerda, Mélenchon apelou para o voto contra Le Pen, embora não tendo pedido diretamente o voto em Macron.

Ecologia

A ecologia ocupou boa parte do discurso mediático de hoje, também no comício de Macron, em Marselha, que dedicou a sua intervenção a anunciar políticas que, indicou, multiplicarão as ações ambientalistas nos próximos cinco anos.

Contra ele, Le Pen, que prometeu desmantelar todos os geradores de energia eólica porque "destroem a paisagem", classificou os anúncios do seu adversário como uma "ecologia punitiva", em contraste com o seu programa de "ecologia nacional" que, segundo várias organizações não-governamentais, "faz temer o pior".

Às primeiras horas da manhã, registaram-se também bloqueios numa das principais artérias da capital francesa, os grandes "boulevards", onde uma centena de ativistas do grupo ecologista Extinction Rebellion iniciou uma ação de três dias de corte do trânsito para denunciar "a inação" dos líderes políticos perante o aquecimento global.

Jornal de Notícias (PT)

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