domingo, abril 17, 2022

Uma história exemplar: Mitterrand, costas tão largas quanto intenções estreitas.




Os custos da fragmentação da direita estão à vista. Não sem ironia, os do partido socialista também. A hegemonia socialista acabou há muito tempo e o golpe de misericórdia foi Macron quem o desferiu. 

Por Eugénia de Vasconcellos (foto)

Da imprensa espero informação, opinião, escrutínio. Porque é um dos braços da democracia ou não fora sempre a sua infiltração e controlo um dos objectivos iniciais dos regimes autocráticos – isto para não particularizar o caso dos media em Portugal e das suas instrumentalizações super-evidentes. Parece, portanto, saudável a tendência de efectiva redução no seu meio, de políticos no activo quer no comentário quer na opinião ou na análise. Na verdade, o que acontece, salvo raríssimas excepções, é pouco mais do que propaganda e trabalho de moços de recados alocados nas colunas ou nas cadeiras de comentário. E não serve ao pluralismo colocar dois afiliados de correntes opostas em debate quando este é meramente partidário. Não estão ao serviço da democracia, estão ao serviço do poder em causa própria. Sérgio Sousa Pinto, a despeito do muito que dele discordo em conteúdo tanto quanto no tom, tem sido uma das excepções e por isso tem prestado um serviço não apenas ao PS mas à democracia.

Esclarecidos os pontos prévios, ao assunto: a saber, a largura das costas de Mitterrand. Porque o Expresso saiu mais cedo, vi-o chegar ao ecrã onde estava a trabalhar. E li, como sempre leio a opinião primeiro e assim o texto de Sérgio Sousa Pinto, que decerto sabe tão bem quanto qualquer um de nós, não haver uma razão para o crescimento do nacionalismo em França, como na Europa ou nos Estados Unidos. Há uma constelação de razões a propiciá-lo. E negar o papel de Mitterrand nesse crescimento, em França, não faz dele um estadista maior, mas faz de nós piores democratas.

A França tem um forte sentimento nacionalista, ora mais aflorado ora mais subterrâneo, mas sempre presente, pelo menos desde a Terceira República (1875-1940), na segunda metade do século XIX. Desde 1875 até ao fim da Quarta República (1946-1958), as forças ditas conservadoras foram obliteradas pelos movimentos republicanos a pretexto tanto da verdade quanto da mentira subsistindo a ideia de que o conservadorismo apoiara tudo quanto a república combatera, desde a monarquia ao bonapartismo, à igreja católica e ao fascismo. Como se os conservadores fossem uma massa indistinta.

Não fora assim e De Gaulle não teria implantado um sistema eleitoral tendencialmente centrista, centro direita, centro esquerda, afastando do parlamento a extrema direita assegurando-se de que esta poucas ou nenhumas possibilidades teria de assento parlamentar. Sistema que Mitterrand alterou em 1986 ao introduzir a representatividade proporcional e por onde, inequivocamente, a extrema direita entrou na cena política e deu início à pretendida fragmentação do centro direito e direita da social democracia e enquanto favorecia a manutenção do poder do lado esquerdo da mesma social democracia. O clássico dividir para reinar. E não é relevante que o sistema eleitoral tenha voltado a ser reformulado depois. Basta o pé na porta para que ela não se feche e exista a possibilidade de a escancarar. Também foi Mitterrand, em 1982, então recentemente eleito presidente, e a pretexto do pluralismo, quem criou espaço para Jean-Marie Le Pen nos media de maior audiência. E fê-lo com o claro objectivo de conter Chirac e garantir, posteriormente, a sua reeleição – o papão da extrema-direita tinha de ser combatido pela esquerda, toda a esquerda, pas d´ennemis à gauche, slogan que por aqui já pagámos na anterior legislatura. E como se não fosse suficiente o pagamento, agora o agravamento com 12 deputados do Chega. Jean-Marie Le Pen foi o degrau para vinte anos de poder socialista em França. Veremos quantos anos o Chega consegue dar ao PS.

Os custos da fragmentação da direita estão à vista. Não sem ironia, os do partido socialista francês também. A hegemonia socialista acabou há muito tempo e o golpe de misericórdia foi Macron quem o desferiu – Édipo tem destas coisas… Se calhar é por isso que António Costa tem vários filhos na calha.

A missão da esquerda, e vimo-lo com a nossa própria campanha eleitoral, é assustar o eleitorado com o perigo da direita, uma actualização da tal força conservadora sobre a qual recaem os pecados do mundo. A direita ficcional e totalizante que os socialistas portugueses usaram para se eleger atira para a tal massa indiferenciada o centro e centro direita da social democracia e a direita nacionalista e anti-democrática – tarefa facilitada pela desadequada «oposição» de Rui Rio por junto com o papel dos media e as empresas de inconcebíveis sondagens. Serviu a Mitterrand, serviu a António Costa. Com duas ressalvas. A primeira, Portugal, ao contrário de França, é um país pobre. A segunda, o PS de Costa está bem mais à esquerda do que Mitterrand e o PSD não é tão à direita quanto a direita de Chirac. Mas esse é o vício português. E a propósito de umas botas «despropositadamente compridas», Eça usa-o nos Maias para explicar todo o Portugal contemporâneo: «mas sem originalidade, sem força, sem carácter para criar um feitio seu, um feitio próprio, manda vir modelos do estrangeiro – modelos de ideias, de calças de costumes, de leis, de arte, de cozinha, (…) exagera o modelo, deforma-o, estraga-o até à caricatura.»

As razões sociais do crescimento da extrema direita estão enunciadas e sumarizadas um pouco por todo o lado, mas não é por isso, nem pela extraordinária competência política de Mitterrand, que se estende de Vichy à Quinta República, e apesar das costas largas que se anula a estreiteza das suas intenções de eficaz linha recta: conseguir o poder, manter o poder.

Observador (PT)

Macron tenta buscar voto verde para derrotar Le Pen




Presidente, que concorre à reeleição, prometeu tornar a França "primeira grande nação" a abandonar uso do petróleo, após pauta do meio ambiente ter ficado em segundo plano durante a primeira fase da campanha.

O presidente da França, Emmanuel Macron, prometeu neste sábado (16/04) tornar a França a "primeira grande nação" a parar de usar petróleo, carvão e gás como fontes de energia. O discurso foi especialmente direcionado a eleitores "verdes" e jovens, que a campanha de Macron teme que possam se abster no segundo turno das eleições, marcado para 24 de abril. Macron disputa o segundo turno com a extremista de direita Marine Le Pen.

"A política que vou promover nos próximos cinco anos será ecológica ou não haverá" política, disse Macron.

Em um comício na cidade mediterrânea de Marselha, na qual o político de esquerda Jean-Luc Mélenchon foi o mais votado no primeiro turno, Macron procurou ampliar o que as pesquisas de opinião vêm apontando como uma pequena vantagem sobre sua rival Le Pen. Antes do primeiro turno, analistas apontaram que o tema do meio ambiente esteve ausente dos debates, com pautas como poder de compra e economia dominando as discussões.

Macron disse que colocará seu próximo primeiro-ministro diretamente no comando do que chamou de "planejamento verde". "A missão desse primeiro-ministro será tornar a França a primeira grande nação a sair do gás, petróleo e carvão. É possível, e nós faremos isso", disse Macron. "Entre carvão e gás de um lado e nuclear do outro, eu escolho nuclear."

Nesta segunda fase da campanha, entre Macron e Le Pen, ambos os candidatos têm tentado conquistar eleitores de Mélenchon, que ficou em terceiro lugar na disputa. Como parte da estratégia, Macron tem tentado vender um discurso pró-ecológico e abordando com mais ênfase questões sociais. Em Marselha, ele também falou de investimentos nos bairros mais pobres e na renovação das habitações sociais. Le Pen, por sua vez, tem deixado em segundo plano sua agenda anti-imigração e focado em críticas à perda do poder de compra dos franceses e ao aumento da idade de aposentadoria.

Em Marselha, Macron também criticou Le Pen, que viajou neste sábado para uma cidade a oeste de Paris. Em um evento de campanha, Le Pen afirmou que liderará o país como "mãe de família" e defenderá "os mais vulneráveis".

As mais recentes pesquisas de opinião na França apontam Macron com vantagem sobre a candidata de extrema direita Marine Le Pen. Segundo o Instituto Ipsos Sopra Steria, que divulgou os resultados de intenção de voto na quarta-feira (13/04), Macron estaria dez pontos à frente da rival: 55% a 45%.

Protestos contra Le Pen

Ainda neste sábado, milhares de franceses se manifestaram em várias cidades contra Le Pen. Os protestos ocorreram não só em Paris, mas também em cidades como Rennes, Lyon, Nantes e Besançon e mais 50 localidades de todo o país. As manifestações foram convocadas por sindicatos e organizações como a SOS Racismo, sob o lema "Contra a extrema-direita e pela Justiça e a Igualdade" e também "Nem um voto para Le Pen".

Cerca de 22.000 pessoas participaram nas manifestações em toda a França, 9.200 das quais em Paris, segundo números do Ministério do Interior. "Mais vale um voto que fede que um voto que mata", dizia uma das faixas da concentração na capital.

Muitos manifestantes afirmaram que votarão em Macron, mesmo que não concordem com as políticas do presidente, para evitar que Le Pen seja eleita.

No entanto, outras faixas exibiram a rejeição de muitos eleitores em organizar uma "frente republicana" ou "cordão sanitário", como ocorreu em 2002 e 2017, quando diferentes segmentos políticos da França se uniram em torno de candidatos de direita ou centro para derrotar a extrema direita.

"Nem Macron nem Le Pen" diziam os slogans de alguns manifestantes.  Em Paris também ocorreu um protesto anti-Macron, organizado pelo ex-número dois de Marine Le Pen, Florian Philippot, que assegurava nas redes sociais que os organizadores esperavam "um milhão de pessoas". No final, no entanto, só algumas centenas compareceram.

Deutsche Welle

A frente ‘ampla’ que só tem o PT - Editorial




O mundo político não caiu no engodo petista da tal frente ampla pela democracia. Não é ampla nem democrática. É apenas Lula sendo Lula, com sua pretensão de hegemonia

Segundo o conto lulopetista, Lula da Silva estaria liderando uma formidável “frente ampla” da sociedade brasileira a favor da democracia e contra o autoritarismo de Jair Bolsonaro. A realidade, no entanto, é bem diferente. Chega a ser embaraçosa. Apesar de seu pré-candidato à Presidência da República aparecer na frente nas pesquisas de intenção de voto, o PT tem fracassado, até aqui, na empreitada de convencer outras legendas a aderir ao seu projeto eleitoral. Até o momento, o partido de Lula obteve apenas os apoios de sempre: PCdoB, PV e PSB.

O panorama não muda muito quando se olham não os partidos, mas os políticos. Até agora, Lula conseguiu atrair Geraldo Alckmin. Longe de representar uma tendência, o apoio do ex-governador de São Paulo tem o tom de “exceção que confirma a regra”. A adesão do ex-tucano é um bom termômetro do entusiasmo com que foi recebida a tal frente ampla do PT a favor da democracia. Quais lideranças e setores que embarcaram no engodo petista? Por ora, apenas Alckmin. 

À primeira vista, o fenômeno pode suscitar perplexidade: o líder nas pesquisas de intenção de voto não consegue obter apoio de outros partidos. E, a agravar o caráter paradoxal da situação, essa resistência das legendas ocorre num cenário político-partidário marcado pelo oportunismo, sem especiais pudores de caráter ideológico ou programático. A princípio, era de esperar, portanto, que muitos partidos tivessem total interesse em aliar-se ao PT.

A perplexidade desfaz-se, no entanto, quando se recorda quem é o PT. Sua pretensão de hegemonia sobre a política e a vida nacional é constitutiva da identidade da legenda, estando presente ao longo de toda sua história. Vale lembrar que o PT foi o partido que, no primeiro mandato de Lula, preferiu comprar deputados por meio do mensalão a ter de compartilhar o poder com outras legendas.

A composição dos Ministérios durante os governos de Lula e de Dilma, com predominância absoluta de nomes petistas, é outro reflexo desse modo de entender a política, que, a rigor, é a rejeição da própria política. Não negocia, impõe.

Com o PT, não há partidos aliados. Em sua concepção hegemônica da vida política, não existe relação de igualdade possível com outras legendas. Para estar junto do PT, há sempre uma condição inflexível: ser submisso aos interesses de Lula. Engana-se, portanto, quem pensa que o lulopetismo despreza apenas os adversários políticos, com sua lógica do “nós contra eles”. O PT desconsidera, sobretudo, os aliados.

De tal forma constitutiva da natureza do PT, a pretensão de hegemonia aparece nas mais diferentes situações. Um exemplo é o discurso de “golpe” a respeito do impeachment de Dilma Rousseff. O PT nunca reconheceu que Michel Temer foi eleito na mesma chapa da candidata petista. Sempre o tratou como um presidente sem votos. Além de negacionismo histórico, a atitude petista explicita o modo como o PT encara as outras legendas – como meras marionetes para seus interesses.

Sendo assim, compreende-se o baixo entusiasmo dos partidos em aderir à campanha de Lula. No início do ano, noticiou-se a resistência de políticos com um pouco mais de experiência, que já experimentaram o modus operandi lulopetista, a apoiar o projeto do PT. Agora, fica explícito que não são apenas alguns nomes que têm dificuldade com o partido de Lula. É a grande maioria do cenário político.

Tudo isso escancara a farsa de uma frente pluripartidária promovida pelo PT. A legenda não sabe sequer fazer alianças, em relação de igualdade, com outras forças políticas. Fica também em evidência, uma vez mais, que, ao falar em democracia, o PT não se refere ao regime constitucional de liberdade e igualdade, de participação e negociação, de respeito e diálogo. Para o PT, democracia é Lula no poder. Afinal, é apenas isso o que sua frente pretensamente ampla, com o neossocialista Alckmin e agregados, “em favor da democracia” busca: o retorno do PT ao senhorio da administração federal, restando a seus aliados o papel de figurantes no projeto lulopetista de poder.

O Estado de São Paulo

Guerra na Ucrânia: por que o naufrágio do Moskva é um duro golpe para a moral e para a força naval russa




Vladimir Putin e o presidente egípcio Abdel Fattah al Sisi durante uma visita ao Moskva em agosto de 2014

Um duro golpe para os russos, "um dano que foi mais psicológico do que material". Assim tem sido classificado o naufrágio do cruzador de mísseis Moskva, principal navio da frota russa do Mar Negro.

A embarcação afundou após ser profundamente danificada por uma explosão na quarta-feira (13/04), confirmou o Ministério da Defesa russo.

O navio estava sendo rebocado para o porto quando "mares tempestuosos" o fizeram afundar, segundo as autoridades russas.

O governo da Ucrânia afirma que a explosão foi causada por um ataque executado por suas forças. Segundo as Forças Armadas ucranianas, eles teriam utilizado um míssil Neptune, fabricado nacionalmente após a anexação da Crimeia pela Rússia em 2014.

No entanto, Moscou não relata nenhum ataque e afirma que o navio afundou em decorrência de um incêndio causado pela explosão de munições que estavam na embarcação.

Os Estados Unidos descreveram o naufrágio do navio como um "grande golpe", mas não conseguiram confirmar se os mísseis ucranianos Neptune foram os responsáveis por isso.

Com 12.490 toneladas, o Moskva é o maior navio de guerra russo afundado em combate desde a Segunda Guerra Mundial.

'O Moskva era um símbolo da supremacia russa no Mar Negro'

A embarcação com capacidade para 510 tripulantes era um símbolo do poder militar da Rússia e liderou a parte naval do ataque russo à Ucrânia.

Agora a Rússia terá que continuar a batalha sem a sua principal embarcação, o que tem sido apontado como uma tarefa difícil.

Uma perda "humilhante"

Os especialistas concordam que esse é um grande revés para as forças russas, tanto por razões militares quanto morais.

A maioria não duvida que isso complicará ainda mais as ambições do Kremlin na Ucrânia.

"O desaparecimento do outrora poderoso Moskva é visto como justiça poética na Ucrânia", explica Frank Gardner, correspondente de segurança da BBC.

"É provável que esse incidente faça com que os navios de guerra russos tenham que se distanciar mais da costa por questões de segurança", acrescentou.

Jenny Hill, correspondente da BBC em Moscou, diz que o naufrágio do Moskva é uma perda "significativa e humilhante" para o presidente russo Vladimir Putin.

Golpe ao orgulho nacional

Putin insiste em várias ocasiões que sua "operação militar especial" na Ucrânia avança com sucesso, "conforme planejado".

Mas Hill afirma que o naufrágio do Moskva é algo como "um golpe ao orgulho nacional".

"O que antes era um símbolo do poder e da ambição da Rússia, agora está no fundo do mar", acrescenta a jornalista.

Na Rússia, os boletins matinais de televisão se limitaram a repetir brevemente, na manhã de sexta-feira (15/4), a declaração emitida pelo Ministério da Defesa russo.

Alguns comentaristas argumentam que o sistema de combate a incêndios a bordo do navio de guerra de quarenta anos era antigo e ineficiente.

Para Mykola Bielieskov, do Instituto Nacional de Estudos Estratégicos da Ucrânia, o dano é "mais psicológico do que material".

"(O naufrágio do navio) não vai acabar completamente com o bloqueio naval da Rússia à Ucrânia", disse à BBC.

"Mas é um símbolo poderoso de que armas sofisticadas podem ser usadas de forma eficaz", acrescentou.

Russos mais vulneráveis agora

Bielieskov, que assessora o governo ucraniano em estratégia militar, afirmou que "os navios russos agora serão forçados a se afastar da costa ucraniana, onde não podem mais se sentir seguros".

O Moskva não disparou mísseis contra alvos terrestres ucranianos, mas especialistas militares disseram à BBC que a embarcação forneceu apoio crucial a outras embarcações que fizeram isso.

Os navios restantes da frota russa do Mar Negro agora estarão mais vulneráveis ​​a ataques aéreos, embora não esteja claro se as forças da Ucrânia, que sofreram inúmeras baixas desde o início da guerra, têm recursos para tirar proveito da situação.

"O Moskva era o único navio da frota a ter defesas aéreas de longo alcance a bordo", explicou Sidharth Kaushal, especialista em energia marítima do Royal United Services Institute, em Londres.

"Enquanto navios menores bombardearam cidades ucranianas, o Moskva forneceu cobertura aérea em uma área ampla", completou.

"Muito vergonhoso"

O cruzador de mísseis Moskva foi usado anteriormente por Moscou no conflito da Síria, onde forneceu proteção naval para as forças russas no país.

É o segundo grande navio que a Rússia perdeu desde o início da invasão da Ucrânia.

O almirante Alan West, ex-chefe do Estado-Maior Naval do Reino Unido, diz que além de ser um golpe sob o aspecto militar, a perda do navio é "muito vergonhosa".

"Tem um grande impacto", disse West em entrevista à emissora BBC Radio 4 antes de a Rússia confirmar que o Moskva havia afundado.

"Putin ama a marinha. Quando chegou ao poder, a marinha foi a primeira área das forças soviéticas em que ele se esforçou. Ele sempre teve uma certa preferência pela marinha".

O navio de guerra foi, por muitos anos, um "símbolo do poder naval russo no Mar Negro", segundo Michael Petersen, do Instituto Russo de Estudos Marítimos.

"O Moskva foi uma pedra no sapato dos ucranianos desde o início desse conflito", disse Petersen à BBC, antes de acrescentar que ver a embarcação destruída seria "um verdadeiro impulso moral para os ucranianos".

No início do conflito, o Moskva ganhou notoriedade depois que sua tripulação ordenou que as tropas de fronteira ucranianas que defendiam a Ilha da Cobra no Mar Negro se rendessem.

Os guardas recusaram, transmitindo pelo rádio uma mensagem de rejeição memorável que se traduz vagamente em "vá para o inferno".

Originalmente construído na era soviética, o Moskva entrou em serviço no início dos anos 80 e era o navio mais temido da região. Seja por um incêndio, como alega Moscou, ou por um míssil Neptune, como Kiev alega, a batalha pelo controle da Ucrânia arrancou esse título da embarcação.

BBC Brasil

Bombardeio russo contra outra fábrica de armas perto de Kiev deixa um morto e muitos feridos

 





A Rússia bombardeou neste sábado (16) uma nova fábrica militar perto de Kiev, a capital da Ucrânia, deixando um morto e vários feridos, enquanto o presidente ucraniano, Volodimir Zelensky, advertiu que a "eliminação" de seus soldados em Mariupol, no sul do país, acabaria com as negociações de paz com Moscou.

Nessa cidade portuária estratégica do sudeste do país, assediada há mais de um mês pelas forças russas, "não há alimentos, nem água, nem remédios", assinalou o líder ucraniano em uma entrevista. Zelensky também acusou os russos de "recusar" o estabelecimento de corredores humanitários.

Em relação às mortes, "Mariupol pode ser dez vezes mais que Borodianka", uma pequena cidade nos arredores de Kiev destruída pelos soldados russos e onde foram cometidas supostas violações dos direitos humanos, afirmou Zelensky.

Nesse sentido, o líder ucraniano advertiu que "a eliminação" por parte das forças russas dos militares ucranianos que ainda estão em Mariupol, "colocaria fim a qualquer negociação de paz" com a Rússia.

"Os remanescentes [do grupo de combatentes] ucranianos [em Mariupol] estão, atualmente, completamente presos na usina metalúrgica da Azovstal. A única possibilidade de eles salvarem suas vidas é depondo voluntariamente as suas armas e se render", declarou, por sua vez, o porta-voz do Ministério da Defesa da Rússia, Igor Konashenkov.

No dia 11 de abril, o exército ucraniano anunciou que estava se preparando para "uma batalha final" na cidade, situada às margens do Mar de Azov.

- Novo ataque perto de Kiev -

Pelo menos uma pessoa morreu e muitas outras tiveram que ser hospitalizadas depois de um bombardeio russo contra uma fábrica militar no complexo industrial do distrito de Darnytsky, na periferia de Kiev, informou o prefeito da capital, Vitali Klitschko.

O complexo industrial fabrica principalmente tanques e muitos militares e socorristas foram enviados ao local.

Em Moscou, o Ministério da Defesa confirmou o ataque. "Armas ar-terra de longo alcance e alta precisão destruíram edifícios de uma planta de produção de armamento em Kiev", informou o ministério em comunicado difundido no aplicativo de mensagens Telegram.

Este não é o primeiro ataque da Rússia contra uma fábrica. Na sexta, Moscou bombardeou outra planta na região de Kiev, que produzia os mísseis Neptune, usados pelo exército ucraniano para afundar o cruzador russo Moskva, segundo a Ucrânia.

A Rússia, por outro lado, insiste que o Moskva foi danificado por um incêndio provocado pela explosão de suas próprias munições, e que a tripulação - cerca de 500 homens segundo as fontes disponíveis - tinha sido evacuada.

Essas afirmações, no entanto, foram desmentidas por uma oficial militar ucraniana. "Uma tempestade impediu o resgate da embarcação e a retirada da tripulação", declarou Natalia Gumeniuk, porta-voz do comando militar do sul da Ucrânia.

Porém, neste sábado, o Ministério da Defesa russo divulgou um vídeo, de cerca de 30 segundos, em que supostamente aparece o chefe da marinha, Nikolai Yevmenov, junto com a tripulação resgatada do cruzador.

Estas são as primeiras imagens divulgadas de supostos tripulantes do Moskva desde que o navio naufragou na última quinta-feira.

Os ataques russos contra Kiev têm sido escassos desde o fim de março, quando Moscou retirou suas tropas da capital e anunciou que concentraria sua ofensiva no leste da Ucrânia.

Não obstante, a perda do Moskva provocou a ira de Moscou, que afirmou na sexta-feira que voltaria a intensificar os ataques contra a capital ucraniana pelas "agressões" sofridas em seu território.

Ante essa advertência, o prefeito de Kiev pediu, mais uma vez, que os moradores que deixaram a capital não retornem ainda e permaneçam em um "lugar seguro".

Contudo, em um sábado bonito de sol, os moradores da capital saíram às ruas para passear e, inclusive, tomar uma bebida em espaços abertos.

"Esta é a primeira vez que viemos ao centro, queríamos ver se os transportes estavam funcionando e ver gente. Ver as pessoas me faz muito bem", contou Nataliya Makrieva, uma veterinária de 43 anos.

- Bombardeio contra refinaria -

Mais de 5 milhões de pessoas fugiram da Ucrânia desde o início da invasão russa e mais de 7 milhões se tornaram em refugiados internos, de uma população total de 37 milhões de habitantes, segundo a ONU.

No leste da Ucrânia, a quatro quilômetros de Lisichansk, as forças russas bombardearam uma refinaria de petróleo, segundo as autoridades locais.

O local está próximo da linha de frente e, neste sábado, os jornalistas da AFP puderam observar uma enorme coluna de fumaça preta e várias partes da refinaria que ainda estavam em chamas.

A Ucrânia também afirmou ter destruído quatro mísseis de cruzeiro disparados por aviões russos, que decolaram da vizinha Belarus, sobre a região oeste de Lviv.

Já no sul, em Odessa, "a defesa antiaérea russa derrubou, em pleno voo, um avião de transporte militar ucraniano que entregaria um grande lote de armas fornecidas à Ucrânia pelos países ocidentais", informou hoje o Ministério da Defesa russo.

- Ameaça nuclear? -

Zelensky voltou a pedir que o mundo se "prepare" para o possível uso de armas nucleares por parte da Rússia.

Precisamos de "medicamentos [contra a radiação], abrigos antiaéreos", disse, durante uma entrevista a vários meios de comunicação ucranianos.

Segundo Zelensky, cerca de 3.000 soldados ucranianos morreram e dezenas de milhares ficaram feridos desde o início da guerra, em 24 de fevereiro.

Por sua vez, a vice-primeira-ministra da Ucrânia, Iryna Vereshchuk, ressaltou que a Rússia mantém retidos 1.000 civis ucranianos e 700 prisioneiros militares, enquanto a Ucrânia capturou cerca de 700 soldados russos.

Em uma nova mensagem de vídeo, Zelensky reiterou aos países ocidentais que eles podem "tornar a guerra muito mais curta" se forneceram a Kiev as armas que solicita.

Em uma conversa telefônica com o chefe do Estado-Maior do exército dos Estados Unidos, Mark Milley, seu colega ucraniano, Valery Zaluzhny, também destacou a necessidade urgente de armas e munições.

A Rússia, por outro lado, advertiu, em uma nota diplomática, os Estados Unidos e a Otan contra o envio de armas "mais sensíveis" à Ucrânia, ao assinalar que esses equipamentos militares colocariam "mais gasolina na fogo" e poderiam provocar "consequências imprevisíveis", segundo o jornal americano Washington Post.

No âmbito diplomático, Moscou também anunciou que proibirá a entrada em seu território do primeiro-ministro britânico Boris Johnson e de outros integrantes do primeiro escalão de seu governo, como resposta às sanções impostas contra a Rússia.

AFP / Estado de Minas

Rússia diz que todas as áreas urbanas de Mariupol estão tomadas




Não houve reação imediata de Kiev à declaração do ministério russo

Por David Ljunggren  

MARIUPOL - O Ministério da Defesa russo anunciou neste sábado (16) que liberou toda a área urbana de Mariupol das forças ucranianas e disse que apenas alguns combatentes permanecem na siderúrgica Azovstal, palco de vários confrontos.

Em uma publicação online, o ministério disse que até 16 de abril as forças ucranianas na cidade portuária sitiada haviam perdido mais de 4 mil pessoas.

Os combatentes russos tentam há várias semanas tomar o porto, que fica no Mar de Azov, a nordeste do Mar Negro.

"Toda a área urbana de Mariupol foi completamente liberada... os remanescentes do grupo ucraniano estão completamente bloqueados no território da usina metalúrgica Azovstal", disse o ministério.

"A única chance de eles salvarem suas vidas é abaixar voluntariamente suas armas e se render."

Não houve reação imediata de Kiev à declaração do ministério russo, que também disse que 1.464 militares ucranianos se renderam até agora.

Reuters / Agência Brasil

Ampliando ofensiva, Rússia ataca Kiev e Lviv




Defesa ucraniana abateu quatro mísseis de cruzeiro em Lviv

Por Pavel Polityuk 

MARIUPOL - Aviões de guerra russos bombardearam Lviv e mísseis atingiram Kiev e Kharkiv neste sábado (16), conforme Moscou cumpre a ameaça de lançar mais ataques contra cidades ucranianas.

Na sitiada Mariupol, cenário dos combates mais pesados da guerra e da pior catástrofe humanitária, as tropas russas colocaram pressão sobre os avanços recentes, esperando compensar o fracasso em capturar Kiev.

Moscou informou que seus aviões atingiram uma fábrica de reparos de tanques na capital, onde pôde ser ouvida uma explosão no distrito de Darnytskyi, no sudeste de Kiev. O prefeito da capital da Ucrânia disse que pelo menos uma pessoa morreu e que os médicos estão lutando para salvar outras vidas.

O exército da Ucrânia disse que os aviões de guerra russos que decolaram de Belarus também dispararam mísseis na região de Lviv, perto da fronteira com a Polônia, onde quatro mísseis de cruzeiro foram abatidos por defesas aéreas ucranianas.

Em Mariupol, jornalistas da Reuters nas partes da cidade controladas pelos russos chegaram à siderúrgica Ilyich, que Moscou alegou ter capturado na sexta-feira (15). O local abriga uma das duas gigantescas fábricas de metal onde defensores têm resistido em túneis subterrâneos e bunkers.

Os ataques seguiram o anúncio da Rússia ontem, de que o país intensificaria a ofensiva de longo alcance em retaliação a atos não especificados de "sabotagem" e "terrorismo", horas depois de confirmar o naufrágio de seu navio almirante no Mar Negro, o Moskva.

Reuters / Agência Brasil

Os cadáveres e os ‘vladimínions’




Discurso pró-Putin se disseminou em grupos de esquerda apesar do massacre nas ruas de Bucha

Por João Gabriel de Lima (foto)

A fotografia de crianças em desespero, fugindo de um bombardeio de napalm, ajudou a mudar a opinião do mundo sobre a Guerra do Vietnã. O flagrante, de 1972, foi captado por Nick Ut, que cobria o conflito em Trang Bang, aldeia próxima a Saigon. Ele trabalhava para a agência Associated Press, responsável por várias outras imagens icônicas do conflito – entre elas a da execução de um soldado, que foi parar na capa do jornal The New York Times.

É possível fazer um paralelo entre a foto de Nick Ut e as imagens de cadáveres de civis ucranianos espalhados pelas ruas de Bucha. Em vez de uma aldeia próxima a Saigon, temos um subúrbio de Kiev. No lugar do flagrante estático, imagens em movimento. Elas são tão chocantes que o YouTube exige senha e cadastramento aos usuários que tentam acessá-las.

O exército russo nega ter perpetrado um massacre em Bucha, e a imprensa internacional foi cautelosa nos primeiros relatos sobre o fato. Passadas duas semanas, multiplicam-se as evidências de crimes de guerra. A revista The Economist atesta que em pelo menos nove cadáveres examinados por seus repórteres há indícios flagrantes de execuções: mãos amarradas nas costas, e tiros no peito ou na cabeça.

No Brasil, surpreendeu que tal discurso se disseminasse em algumas redes sociais da esquerda não-institucional – no mini-podcast da semana, o sociólogo Pablo Ortellado constata e explica o fenômeno. Segundo ele, há tanto nostalgia dos tempos da Guerra Fria quanto influência de um movimento stalinista jovem. Os esquerdistas que defendem o ditador russo receberam nas redes o apelido de “vladimínions”.

Vídeos chocantes como o de Bucha tornam mais difícil a vida da extrema-direita europeia. Le Pen mudou seu discurso sobre Putin para não perder votos na França. A opinião pública do continente se une cada vez mais contra o ditador russo. O único chefe de estado europeu que ainda manifesta simpatia por Putin é o húngaro Viktor Orbán. Com isso, perdeu influência no “grupo de Visegrado”, o clube de autocratas do leste. Polônia, Eslováquia e República Checa se afastam cada vez mais da esfera russa. 

É o caso de aguardar a reação dos “vladimínions” brasileiros diante dos cadáveres de Bucha.

O Estado de São Paulo

O coquetel da direita populista na França




A receita: ideias tradicionais e propostas “esquerdizoides”. 

Por Vilma Gryzinski 

Reindexar as aposentadorias à inflação, reverter a privatização das estradas para diminuir a tarifa dos pedágios (e como são caros na França!) e ter um estado indutor do crescimento econômico são algumas das propostas que levaram Marine Le Pen ao segundo turno da eleição presidencial, com uma projeção de conseguir inéditos 45% dos votos. Nenhuma delas evidentemente constaria do programa de qualquer político conservador no sentido tradicional, de defesa do estado menor e menos interventor.

As tradições estão sendo atiradas pela janela pelos populistas de direita, denominação que abarca desde Marine Le Pen, com o passado de fascismo à francesa repaginado, até Viktor Orbán, o líder que os progressistas adoram odiar e chamar de “autocrata”, na falta de uma ideia melhor para defini-lo. Orbán ganhou no começo do mês uma quarta vitória na Hungria, “tão grande que pode ser vista da lua”. A ironia vai na conta dos prognósticos insistentemente repetidos de que a oposição unida, a afinidade com Putin em plena guerra na Ucrânia e uma poderosa expressão de desejos progressistas bastariam para encerrar a carreira do primeiro-ministro. Seis de cada dez húngaros têm uma ideia diferente: gostam da política de direita não tradicional, que mistura impostos baixos para as empresas e remunerações reduzidas para os desempregados com controles das tarifas de energia e incentivos às indústrias locais nos setores onde podem ser competitivas. Laissez-faire e protecionismo, uma combinação esquizofrênica, criaram um coquetel húngaro que não tem similar no panorama político atual. Marine Le Pen provou dessa mistura.

A direita partidária do protecionismo e do Estado interventor não é exatamente uma novidade, em especial no Brasil, onde estes foram fundamentos constitutivos da ala dominante do regime militar. O toque de populismo do século XXI é a preocupação zero com a clonagem de propostas tiradas do ideário esquerdista tradicional. Outro componente fundamental é o apelo a pulsões nacionais em sociedades que se sentem ameaçadas pela imigração em massa. Foi assim com Donald Trump nos Estados Unidos, com a ideia do muro que nunca foi construído na fronteira com o México, onde o descontrole atual é um dos fatores que podem custar uma derrota catastrófica para o Partido Democrata em novembro próximo. Foi assim com Viktor Orbán, quando grandes massas humanas vindas de países orientais ameaçaram a estabilidade da Europa.

E está sendo assim com Marine Le Pen, cujo clã se ergueu com base na rejeição aos imigrantes muçulmanos não integrados à sociedade francesa. Agora, com as consequências econômicas da pandemia e a pancada do aumento de preços no bolso das camadas onde o salário acaba antes do mês, ela reajustou o foco. Numa de suas tiradas famosas, Charles de Gaulle dizia que “a pior calamidade depois de um general burro é um general inteligente”. A candidata precisar demonstrar até o dia 24 se ganhou inteligência política para conquistar os poucos pontos que fazem a diferença entra derrota honrosa e vitória espantosa junto a um eleitorado onde o nome Le Pen tem sido visto, majoritariamente, como uma calamidade sem tamanho.

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