domingo, abril 17, 2022

O PT deixou o poder, mas nunca perdeu o Poder.




O governo Bolsonaro acaba de indicar como candidato do Brasil para dirigir a Opas um dos criadores do Programa Mais Médicos.

Por Leonardo Coutinho 

Um dos eventos mais marcantes da eleição do presidente Jair Bolsonaro, em outubro de 2018, foi a reação imediata do regime cubano, que encerrou de forma abrupta a participação no Programa Mais Médicos e chamou de volta mais de 8 mil profissionais que estavam no Brasil. Cuba sabia que a partir de janeiro do ano seguinte, quando o novo presidente assumisse, perderia uma fonte de receita bilionária, proveniente do confisco de 75% do salário dos médicos. Bolsonaro havia prometido cortar o dolarduto que conectava o bolso dos contribuintes brasileiros ao dos ditadores do regime cubano e pagar diretamente aos profissionais. Seria um ponto final em uma sociedade entre o governo petista, a ditadura cubana e a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), que muito se assemelhava à escravidão.

Passados quase quatro anos, o governo Bolsonaro acaba de indicar como candidato do Brasil para dirigir a Opas um dos criadores do Programa Mais Médicos. Nunca é demais relembrar que este programa ajudou Cuba a escravizar no Brasil mais de 15 mil cubanos, usando-os de fachada para o envio de bilhões de reais dos brasileiros para os cofres da ditadura. O escolhido pelo governo é o médico sanitarista Jarbas Barbosa, afilhado político do senador petista Humberto Costa.

Barbosa defendeu com unhas e dentes, interna e publicamente, que os cubanos recebessem no Brasil salários idênticos aos que eram pagos em Cuba. Naquele momento, menos de R$ 1 mil mensais. O resto dos R$ 10 mil que eram desembolsados mensalmente pelo governo brasileiro por médico eram de direito da ditadura cubana. Uma ideia tão absurda que não resistiu muito tempo, para o desagrado dos cubanos e de Barbosa.

Para quem não se lembra, em 2013 o governo da presidente Dilma Rousseff anunciou o Programa Mais Médicos para justificar a entrada dos médicos cubanos no Brasil, cujo objetivo original não tinha nada, ou quase nada a ver com o oferecimento de atenção médica ao povo brasileiro. A raiz do programa está muito bem descrita em um áudio vazado meses depois, no qual os envolvidos confessaram que a razão era atender um desejo do Planalto e de Cuba para o envio de recursos para a ilha, driblando os canais oficiais e a lei.

O truque era tão sinistro que envolveu uma organização internacional, a Opas, como testa de ferro para limpar toda a operação que, além de monetária, tinha um caráter clandestino e possivelmente criminosos, pois colocou em situação análoga à escravidão mais de 15 mil cubanos que passaram pelo Brasil entre 2013 e 2018.

Esta mesma Opas, que foi instrumentalizada como uma sessão de interesses cubanos em Washington, D.C., agora tem como candidato do governo Bolsonaro um dos artificies da escravidão dos cubanos, que o próprio Jair Bolsonaro denunciou quando ainda era candidato e também depois de eleito.

Sendo assim, não dá para não supor que tem alguém aconselhando muito mal o presidente nesta campanha pela Opas e, por que não?, em outros temas que acobertam o petismo raiz no governo.

Um outro exemplo: Bolsonaro levou três anos para descobrir que uma organização fundada e dirigida por petistas administra, sem licitação, programas de microcrédito no Nordeste. Caso tão esdrúxulo que, nesta semana, desaguou em uma arbitrariedade da Polícia Federal que intimidou o jornalista que tem denunciado as irregularidades. Sem mandado judicial, dois agentes ameaçaram funcionários do edifício onde mora o jornalista cearense Donizete Arruda e entraram em seu apartamento, em Fortaleza, para inquiri-lo sobre quais eram suas fontes no caso. Uma fila de violações contra direitos constitucionais não só do jornalista (sigilo de fonte) como de qualquer cidadão que tem a inviolabilidade de seu lar garantida.

O PT deixa o poder, mas nunca perde o Poder.

Este ano, completam-se dez anos que o governo da presidente Dilma Rousseff se tornou parte de uma infâmia. Nos últimos dias de dezembro de 2012, o então diretor da Opas no Brasil, o cubano Joaquim Molina, protocolou no Ministério da Saúde o documento que daria origem ao Programa Mais Médicos.

A manutenção ou não da candidatura de Jarbas Barbosa na Opas será um bom exemplo para nos mostrar quem mudou. Ou foi Jair Bolsonaro, ou foi Cuba

A Justiça brasileira tentou por várias vezes barrar. Em uma ação movida pela Procuradoria da República em Brasília chegou-se a pedir o ressarcimento dos recursos pagos pelo Brasil a Cuba, por meio da Opas. Embora o juiz tenha reconhecido a legitimidade do pedido, não pode fazer muito sob o argumento de que a entidade goza de imunidade.

No mês passado, entretanto, a Justiça dos Estados Unidos deu sequência a uma ação movida por médicos que processam a Opas por terem sido escravizados no Brasil. A corte entendeu que a Opas não tem imunidade para escravizar. Ou seja, não existe imunidade absoluta para extrapolar o papel definido da organização. O exemplo deveria servir para o Brasil, que tenta reaver os bilhões de reais que foram roubados dos médicos por meio da triangulação entre governo federal (leia-se PT), Opas e o regime cubano.

Nesta eleição para direção da Opas, Bolsonaro tem em suas mãos o poder de deixar tudo como está elegendo o petista Barbosa. Ou pode se esforçar para tentar mudar a entidade que tem funcionado há décadas sob influência cubana.

A manutenção ou não da candidatura de Barbosa na Opas será um bom exemplo para nos mostrar quem mudou. Ou foi Jair Bolsonaro, ou foi Cuba.

É esperar para ver.

Gazeta do Povo (PR)

Kiev estima morte de 3 mil soldados ucranianos na guerra




Cerca de 100 mil civis ainda vivem em Mariupol, que está sitiada há duas semanas

Zelenski afirma ainda que 10 mil militares ucranianos foram feridos e diz temer o uso de armas nucleares e químicas pelos russos. Moscou intensifica ataques após naufrágio de navio de guerra.

A Ucrânia estima que entre 2,5 mil e 3 mil soldados ucranianos morreram e cerca de 10 mil ficaram feridos desde o início da guerra, afirmou o presidente do país, Volodimir Zelenski, em uma entrevista à emissora americana CNN, que teve alguns trechos divulgados nesta sexta-feira (15/04).

Entre os feridos, de acordo com Zelenski, é difícil saber quantos sobreviverão. Na entrevista, ele também afirmou que até 20 mil militares russos já teriam morrido no conflito. A estimativa ucraniana de baixas russas é bem maior do que o confirmado por Moscou. A Rússia admitiu recentemente que perdeu cerca 1.350 soldados na guerra.

Na entrevista, que deve ir ao ar no domingo, Zelenski expressou ainda seu temor de que o presidente russo, Vladimir Putin, recorra ao uso de armas nucleares ou químicas na guerra. "Não apenas eu, mas todos os países do mundo deveriam estar preocupados", destacou. "Ele pode usar armas químicas, pois para ele nossas vidas não valem nada. Não devemos pensar que temos medo, mas sim estar preparados", acrescentou.

Em sua tradicional mensagem de vídeo à população, Zelenski disse nesta sexta-feira que a Ucrânia está diante do enorme desafio de reconstruir os locais recuperados que foram destruídos na ofensiva russa. O presidente também afirmou ser difícil estimar o número de civis mortos no conflito, pois algumas regiões estão sob controle russo e há cidades sitiadas.

Em Mariupol, que é alvo de intensos bombardeios e está sitiada há duas semanas, autoridades locais estima que até 20 mil civis já morreram. De acordo com a ONU, nenhum comboio de ajuda humanitária foi autorizado a entrar na cidade, que quase não tem mais suprimento de alimentos e medicamentos e onde 100 mil pessoas ainda estariam vivendo.

Rússia intensifica ataques em Kiev

Depois do ataque que afundou o cruzador de mísseis russo Moskva, no Mar Negro, a Rússia intensificou os bombardeios na região de Kiev. Neste sábado, o Ministério da Defesa russo afirmou que destruiu um fábrica de munições militares.

Segundo a imprensa local, além de Kiev, forte explosões na madrugada de sábado foram ouvidas em várias regiões do país e também em Lviv. Os aviões que atacaram a cidade no oeste da Ucrânia teriam partido de um aeroporto em Belarus.

O prefeito de Kiev, Vitaliy Klitschko, disse que equipes de resgate e socorristas foram enviados para as regiões atingidas pelo ataque no distrito de Darnytsia, onde vivem mais de 1 milhão de ucranianos. Ele pediu que a população não ignore as sirenes de alerta e evitem retornar à capital.

No início de abril, tropas russas se retiraram da região ao redor da capital ucraniana, deixando um rastro de morte e destruição. Depois da retirada, centenas de ucranianos que fugiram da região começaram a retornar para suas casas, pois os bombardeios haviam diminuído significativamente até o naufrágio do Moskva.

A guerra já causou o maior êxodo de civis na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Mais de 5 milhões de refugiados já fugiram da Ucrânia desde o início da invasão russa, no final de fevereiro, segundo a ONU.

Deutsche Welle

Polarização faz o Brasil regredir




Sérgio Pardellas entrevista Maria Cristina Pinotti

"O país regrediu no processo civilizatório, graças ao ‘nós contra eles’ estimulado por Lula e à estridência da extrema direita, sob Jair Bolsonaro". Coautora de um alentado diagnóstico sobre o Brasil que acaba de ser oferecido como sugestão à terceira via, a economista Maria Cristina Pinotti diz que o país não sairá do lugar se permanecer refém da polarização. 

O cenário de desalento em razão da perspectiva de o país passar os próximos quatro anos sob o comando de Lula ou de Jair Bolsonaro foi o que motivou a elaboração, pelos economistas Maria Cristina Pinotti, Affonso Celso Pastore e Renato Fragelli, de um meticuloso estudo com ideias a serem seguidas por um candidato alternativo, de fora da polarização que domina a cena política do país. O trabalho, intitulado Desenvolvimento inclusivo, sustentável e ético, foi iniciado para servir de base a um possível plano de campanha para o ex-juiz Sergio Moro. Como, nos últimos meses, as chances de ele disputar o Planalto foram praticamente reduzidas a pó, os autores o colocaram à disposição da autodenominada terceira via.

“Estamos indo para um caminho que tende a piorar. Não enxergamos nesse cenário atual nada que nos tire automática e milagrosamente dessa rota de trombadas nas quais nós estamos insistindo há tantos anos”, diz Cristina Pinotti nesta entrevista a Crusoé. Graduada em administração pública pela Fundação Getúlio Vargas, a FGV, e doutora em economia pela USP, Pinotti afirma que o “nós contra eles” semeado por Lula, de um lado, e a estridência da extrema direita comandada por Jair Bolsonaro de outro, levaram o Brasil a um retrocesso civilizatório. Como consequência, a economia estagnou, a indústria parou de crescer e a responsabilidade fiscal foi esquecida. A solução, defende ela, passa pela diminuição da desigualdade e pela recuperação do papel do estado como provedor de serviços públicos de qualidade. “Sem isso, a população permanecerá sendo usada como massa de manobra de governantes populistas”, afirma. “É uma contribuição para o país sem filtro político. Não é para atrair voto para ninguém. Não temos vontade de fazer política nem campanha”, prossegue. Eis os principais trechos:

O que os levou a fazer esse trabalho?

O ex-juiz Sergio Moro queria se inteirar sobre as grandes questões do país, como política fiscal, monetária e câmbio, e acabamos elegendo os principais temas. Começamos em meados de novembro. Foi prazeroso, e o trabalho mais extenso que fizemos. Antes, já tínhamos ajudado a elaborar o Agenda Perdida (diagnósticos e propostas para a retomada do crescimento feita em 2002 em parceria com os economistas Marcos Lisboa e José Alexandre Scheinkman). É importante dizer que esse novo trabalho é a nossa visão sobre o país. É uma contribuição e a gente não quer que se discuta nomes, mas ideias, para tirar o país dessa coisa horrorosa em que está. Não existiu filtro político no que nós escrevemos. Estamos aqui para falar a verdade. Não para atrair voto para ninguém. Ninguém pensou em ganhar o eleitor. Nossa experiência indica que estamos indo para um caminho que tende a piorar. Não enxergamos nesse cenário atual nada que nos tire automática e milagrosamente dessa rota de trombadas nas quais nós estamos insistindo há tantos anos. O país regrediu no processo civilizatório, por causa do ‘nós contra eles’ estimulado por Lula e à estridência da extrema direita, sob Jair Bolsonaro. Honestidade, espírito público, respeito à lei e ao próximo viraram valores escassos na vida pública. Com isso, a economia estagnou, a indústria parou de crescer e a responsabilidade fiscal foi abandonada. Então, respondendo à sua pergunta, foi essa constatação que nos norteou para fazer essa ampla análise.

Esse conjunto de sugestões foi colocado à disposição de nomes da terceira via. Alguém já procurou vocês?

Não. Ninguém procurou a gente. É importante dizer que, desde o começo das conversas com o ex-juiz Sergio Moro, imaginávamos que iam sair dois documentos. Nunca pensamos em fazer um programa de governo propriamente dito. Dizíamos ao Moro o seguinte: ‘Se você virar candidato, vai precisar de umas vinte pessoas para fazer um detalhamento maior de cada tema’. Nossa ideia era fazer um panorama geral para discussão. Então, ia ter o documento e, depois, o programa de governo. Era o que estava acertado. Com a indefinição da candidatura, depois que ele foi para a União Brasil, decidimos em comum acordo divulgar o trabalho que fizemos. Se o Moro conseguir viabilizar a candidatura, aí sim ele vai divulgar o programa de governo dele, aproveitando ou não as nossas sugestões.

Vocês já falaram que não pretendem participar de campanhas eleitorais. E se, futuramente, aparecer o convite de algum governo?

Não participamos de governos. Isso é muito claro entre nós, Affonso (Pastore, ex-presidente do Banco Central e marido da economista Maria Cristina Pinotti) e eu. Não temos a intenção de fazer parte de nenhum governo. Nosso lugar é na sociedade civil. Não temos vontade de fazer política nem de fazer campanha. Nosso lugar é do lado de fora, onde achamos que podemos contribuir mais.

Como a sra. analisa esse cenário de dificuldades para que Moro construa sua candidatura e transite no meio político, que quase que por instinto o repele?

O Sergio Moro trafega, de fato, num terreno minado. E não é só o Moro. Qualquer outsider que não compactue com os valores da atual classe política não entra no jogo. É um instinto de autopreservação. Quanto mais o Executivo se enfraquece, mais ele depende do Legislativo. Talvez, o presidente mais fraco de todos seja Jair Bolsonaro. Por isso, o Centrão hoje manda mais do que mandou em qualquer outro momento da história do país. Olha o que aconteceu com o fundão eleitoral, com as emendas de relator… Então, eles não vão querer alguém que colocou integrantes do grupo deles na cadeia. Logo, seria surpreendente um partido tradicional indicar o Sergio Moro. Claro, não quero dizer que Moro está fora. Ele ainda está tentando viabilizar sua candidatura. Mas não há dúvidas de que precisamos de regras partidárias que permitam e facilitem a entrada de pessoas de fora na política.

Uma das linhas mestras do trabalho é o combate à desigualdade. A esquerda fala em distribuir renda, enquanto a direita diz que basta ter eficiência econômica. Qual é a solução?

Não existe incompatibilidade entre distribuir renda e fazer a economia se tornar eficiente. Isso só está na cabeça de quem quer dividir o mundo em dois. Isso é maniqueísmo. Olha, custa muito barato cuidar da pobreza. Falta é vontade política. Um estudo feito na Jamaica diz o seguinte: que uma família com criança pequena que recebeu por dois anos a visita de um assistente social durante uma hora por semana, e esse profissional orientou a mãe no que ela precisava fazer, quais cuidados deveria ter com a saúde, como deveria estimular o desenvolvimento da criança, vinte anos depois os filhos tinham salários pelo menos 50% maiores do que os filhos criados por famílias em condições socioeconômicas parecidas que não receberam a ajuda de nenhum assistente social.

O PT ficou 14 anos no Planalto. Sucedeu o PSDB, depois de oito anos de governo FHC. Somados, são 22 anos no poder da centro-esquerda, que sempre se vangloriou de ter um olhar social mais acurado. A tomar isso por verdade, a questão desigualdade já não era para estar praticamente resolvida?

E vou acrescentar: ainda aumentaram a carga tributária e a dívida pública. Ou seja, dinheiro não faltou. Os gastos sociais estão indo cada vez mais para os não pobres do que para os pobres. Em 2018, o Bolsa Família, por exemplo, custou 30 bilhões de reais, ao passo que a aposentadoria rural, ou seja, aquele benefício para pessoas que nunca contribuíram com a Previdência, custou 124 bilhões de reais. No Brasil, só 30% das transferências de renda vão para os 10% mais pobres. De novo, cuidar da pobreza é barato, caro é dar dinheiro para os ricos. O dinheiro público é do cidadão que pagou imposto. Isso precisa vir para o centro da discussão política. Precisamos recuperar o papel do estado como provedor de serviços públicos de qualidade. Essa espécie de contrato social entre o estado e a cidadão pagador de impostos se quebrou. Sem isso, a população permanecerá sendo usada como massa de manobra de governantes populistas.

No conjunto de sugestões que o estudo traz há a defesa da unificação dos cinco impostos sobre bens e serviços em um IVA nacional, com alíquota única, cobrado no destino. Com tantos interesses em jogo e muita pressão sobre o Congresso, isso é possível?

A gente precisa falar a verdade para a população. Contar quem está pagando mais imposto no país. No Brasil, é a folha salarial e a indústria, o que inviabiliza o crescimento da economia, porque torna o produto brasileiro não competitivo no exterior. Com isso, desincentiva o investimento e a exportação. A sociedade civil é que vai empurrar o Congresso para a decisão certa. Então, precisamos ser claros na mensagem se quisermos aprovar a reforma tributária.

Durante a pandemia, quando se discutiu muito sobre o papel do SUS, criou-se o clima para a flexibilização do teto de gastos. É possível furar o teto e manter a disciplina fiscal?

Ninguém quer cortar. O Brasil precisa fazer escolhas. Definir o que é prioritário. Enquanto isso não for enfiado na cabeça das pessoas, não teremos futuro como país. Precisamos do teto dos gastos porque o investidor, seja nacional ou internacional, precisa saber que o estado não vai quebrar. Estamos com uma dívida pública de 80% do PIB. É muito alta. Temos que ter limite de gastos.

Ao falar em suposta “frente ampla pela democracia” e se aliar ao ex-tucano Geraldo Alckmin, Lula tenta se apresentar como um candidato capaz de costurar um entendimento nacional. A sra. acredita que ele seja capaz de cumprir esse papel?

Se olharmos para o histórico do Lula, vamos ver que sempre aconteceu o oposto. Ele lançou uma Carta aos Brasileiros para se eleger em 2002 na qual prometeu tudo e depois foi desmontando o que ele próprio havia prometido, como o arcabouço fiscal. Por exemplo, não fossem a imprensa e a sociedade civil, o PT teria aprovado o controle social da mídia. Quem defendia isso era o ex-ministro Franklin Martins, que agora está ao lado do Lula de novo. Temos que mudar o tecido social para não ficarmos propensos a ter pessoas autoritárias no poder. Democracia não cai do céu e não basta escrever na Constituição. Ela é construída no dia a dia por cada um de nós.

Do início do governo Jair Bolsonaro para cá, houve uma série de decisões do STF no sentido não só de anular condenações de políticos, como impor travas ao combate à corrupção. Fala-se em criminalização da política, mas não está havendo uma criminalização da Lava Jato?

Foi um desastre o que aconteceu no governo Jair Bolsonaro. Ele foi o cavalo de Troia que entrou para acabar com a Lava Jato. Prometeu uma coisa e fez outra. Foi a reedição das Mãos Limpas, na Itália. É importante dizer que não existe isso de criminalizar a política. Não cometa crimes que você não vai ser criminalizado. É simples. Não destruíram o legado da Lava Jato, mas houve um grande movimento contra a operação. E a corrupção aumentou.

É o establishment tentando se reorganizar?

Sem dúvida. É uma reação do sistema ao baque que ele levou lá atrás. Mas não acho que dura para sempre. Se durar, o país vai definhar. Corrupção e pobreza caminham juntas. País corrupto não cresce. Enquanto houve corrupção na Itália, o país não cresceu, estagnou. Estamos seguindo os mesmos passos. Estou rouca de tanto falar isso há sete anos. (O preço de) uma obra pública na Itália era três vezes maior do que na França por causa da corrupção. Sem Justiça eficiente não podemos ter desenvolvimento econômico. É a Justiça que vai coibir a corrupção. É preciso um sistema judiciário eficiente que não permita a impunidade. E a pena tem que vir com rapidez, não depois da prescrição.

Há esperança diante de um cenário aparentemente tão desalentador?

Tento me emocionar o mínimo para manter a serenidade. Gostaria de ver algo muito diferente. Até três meses atrás, estava mais confiante numa solução pela terceira via. E acho que boa parte dos eleitores vê isso ainda. Mas o interesse partidário quer manter o que está aí e não ver alguém de fora para acabar com a festa.

Significa que o Brasil está fadado aos extremos?

Política é uma coisa que muda. Já tivemos situações nesse sentido. Não quero fazer um prognóstico fechado. Se formos para isso, teremos um trabalho muito maior na sociedade civil. Corremos o risco de ver uma perpetuação do encruamento do país. O Brasil está involuindo do ponto de vista econômico, social e político. Vivi o regime militar, sei o que é você viver num regime fechado, o que é censura e aquela coisa asfixiante de imaginar que aquilo nunca vai acabar. Mas a sociedade foi às ruas e a ditadura foi vencida. Então, temos que acreditar.

Revista Crusoé

'Estamos caminhando para um mundo bipolar, mas muito diferente da Guerra Fria', diz pesquisador




Por Carlos Serrano 

A guerra na Ucrânia e a pandemia estão acelerando uma tendência perigosa de consolidação dos Estados Unidos e da China como os dois países mais poderosos do mundo.

Essa é a visão do pesquisador Michael Schuman, que sustenta que a coincidência desses dois eventos catastróficos está empurrando o mundo para um cenário em que ambas as potências acentuam sua rivalidade.

Segundo Schuman, as sanções que os EUA impuseram à Rússia por sua invasão da Ucrânia servem de alerta para a China caso ela decida apoiar os russos na guerra.

E isso pode estar levando a China a acelerar seu projeto para diminuir sua dependência do Ocidente, diz Schuman, que é pesquisador não-residente do centro de estudos Atlantic Council China.

Por outro lado, a estratégia de covid zero adotada pela China está colocando pressão no comércio mundial. A incerteza gerada pelos confinamentos em massa na China gerou uma pressão maior para que os países busquem fornecedores diferentes.

Nesse panorama, sustenta Schuman, China e EUA estão se afastando do mundo globalizado que se esperava após a queda da União Soviética, e estão a caminho de se consolidarem como duas esferas de poder.

Em entrevista à BBC News Mundo (serviço de notícias em espanhol da BBC), Schuman explica em que consiste esse panorama e os perigos que ele representa para o mundo.

Michael Schuman é o autor dos livros Superpower Interrupted: The Chinese History of the World e The Miracle: The Epic Story of Asia's Pursuit of Wealth.

BBC: O mundo está caminhando para uma nova Guerra Fria?

Schuman: Acho que a comparação com a Guerra Fria não é precisa.

Há, é claro, algumas semelhanças gerais relacionadas a alguns elementos do que está se tornando a competição ideológica entre uma esfera centrada nos EUA e uma esfera centrada na China.

E é possível ver elementos de democracia versus autoritarismo. Mas em vários aspectos tudo é muito mais complexo do que a Guerra Fria.

Os EUA e a Europa obviamente tiveram alguma interação com a União Soviética e seus aliados, mas não estavam particularmente integrados, especialmente economicamente. O que tínhamos eram praticamente dois mundos, um de frente para o outro.

Com a China e os EUA é uma história muito diferente, não só porque a China e os EUA estão muito integrados, mas porque todos os aliados estão integrados e são extremamente importantes um para o outro economicamente.

Além disso, há essa troca cultural enorme, a tecnologia é diferente e as pessoas estão mais conectadas.

Acho que, embora estejamos caminhando para um mundo que lembra o mundo bipolar da Guerra Fria, os relacionamentos nesse mundo bipolar serão muito mais complicados.

Essas duas esferas vão estar conectadas de uma certa maneira no nível econômico simplesmente por causa da maneira como a economia global funciona, por causa da importância da China na economia global e vice-versa, a importância da economia global para a China.

Será um mundo bipolar, mas muito diferente daquele da Guerra Fria.

BBC: Como seriam esses dois pólos de poder?

Schuman: Veremos diferentes sistemas políticos e sociais.

De um lado estarão os EUA e seus aliados que geralmente são democracias abertas e economias capitalistas liberais. A outra esfera será baseada na China, com normas e valores diferentes.

Eles também serão separados por tecnologia. Já existe uma desconfiança crescente em várias partes do mundo em relação à tecnologia chinesa. Vemos o que acontece com a Huawei, por exemplo.

E a China obviamente tem uma tremenda desconfiança da tecnologia que vem dos EUA ou de outros lugares, e é por isso que eles bloqueiam tantas redes sociais e empresas de internet americanas.

Então acho que veremos duas esferas baseadas em tecnologias diferentes.

E também veremos, especialmente por parte da China e seus aliados como a Rússia, um desejo de reduzir sua dependência e seus laços econômicos com os EUA e a Europa.

Uma campanha de autossuficiência está em andamento na China.

Então, embora eles não sejam completamente separados, acho que haverá um movimento na direção de ter conexões econômicas mais próximas dentro de cada esfera.

BBC: Como os demais países se alinhariam nesse mundo bipolar?

Schuman: É difícil saber, depende dos cálculos de cada país.

O Vietnã, por exemplo, não é que tenha um bom histórico com os EUA e se trata de um governo comunista, não democrático.

Mas os vietnamitas estão muito preocupados com o crescente poder da China. Eles estavam em guerra com a China em 1979, eles têm disputas no Mar da China Meridional. Então se vê uma certa reaproximação entre o Vietnã e os EUA. Entre o Vietnã e os EUA há um fortalecimento dos laços econômicos.

O Paquistão é outro exemplo. É tecnicamente uma democracia e foi aliada dos EUA durante a Guerra Fria, mas economicamente está cada vez mais ligada à China. Portanto, não será fácil saber como as duas esferas se formarão.

'Na China, foi implementada uma política de "covid zero"

BBC: Haverá países não alinhados com nenhuma das duas esferas?

Schuman: É como na Guerra Fria, mesmo os países que preferiram permanecer não alinhados acabaram sendo levados a se inclinar em uma direção ou outra.

Alguns deles conseguirão, mas é inevitável que, à medida que a competição entre essas duas esferas cresça, haja pressão sobre os países para pelo menos se inclinarem para um lado ou para o outro.

Para muitos países será difícil saber de que lado ficar, como foi o caso durante a Guerra Fria. Haverá muitos países que não vão querer tomar partido e tentarão trabalhar com ambas as esferas.

Para alguns países será difícil tomar essa decisão.

A Índia, por exemplo. A Índia e os EUA estão começando a se alinhar cada vez mais em sua atitude em relação à China, mas os indianos historicamente têm sido cautelosos em se aproximar demais dos EUA.

Na África há vários países que estão se aproximando da China, estão se tornando grandes aliados econômicos. Mas, ao mesmo tempo, os países, doadores e instituições ocidentais são extremamente importantes para alguns desses países africanos.

BBC: Por que você diz que esse mundo bipolar é perigoso?

Schuman: Com o fim da União Soviética, nós pensávamos que a competição de grandes potências havia acabado, pelo menos por um tempo.

Acreditávamos na natureza da economia global, na crescente integração entre os países, na forma como a tecnologia unia os países, que haveria mais interação entre as pessoas. Pensávamos que teríamos um mundo com valores, normas e interesses econômicos compartilhados.

Na década de 1990 e nos primeiros anos do século 21, achávamos que estávamos caminhando nessa direção. E pode-se dizer que este mundo possivelmente seria menos conflituoso e com maiores benefícios econômicos.

Mas se o mundo vai se dividir novamente em dois, então temos o retorno da competição entre as potências, com tudo o que isso implica. Mesmo que isso não implique uma guerra entre as duas potências, estamos falando de um alto nível de tensão e menor integração econômica.

Veja o que a China está fazendo com a internet, eles basicamente isolaram sua internet do resto do mundo, o que significa menos trocas entre as pessoas na China e no resto do mundo.

Nada disso é positivo para a estabilidade e a prosperidade.

BBC: O que a China está fazendo para diminuir sua dependência dos EUA?

Schuman: A China considera que o país é muito vulnerável às sanções que os EUA e seus aliados podem impor.

Acho que a China está olhando para o que está acontecendo com a Rússia agora, a maneira como os EUA e seus aliados se uniram para impor sanções duras e dolorosas à Rússia.

A China vê isso e diz que "é exatamente disso que temos medo".

Então eles querem se proteger dessa vulnerabilidade, querem controlar sua própria cadeia de suprimentos, querem ter alternativas à tecnologia estrangeira. Vemos, por exemplo, o que estão fazendo com os semicondutores, que representam grandes importações para a China.

Se você não tiver acesso a esses chips, é um grande prejuízo para o seu futuro econômico. Eles também estão, por exemplo, tentando desenvolver sua própria indústria de aeronaves comerciais para competir com a Boeing e a Airbus.

Assim, a China está se reorientando. Eles não vão fechar completamente, querem continuar exportando e aumentar seus laços econômicos com países como a Rússia, mas em outros aspectos estão tentando se retirar do mundo como forma de se defender.

BBC: E o que os EUA estão fazendo para depender menos da China?

Schuman: Os EUA não têm planos nesse sentido, é um lugar muito mais descentralizado.

O que há é um movimento entre empresários e governantes para ter mais cadeias produtivas locais, como é o caso da indústria de carros elétricos, por exemplo.

Os empresários americanos acham imprudente ter sua cadeia de suprimentos dependente de um país com o qual têm tensão econômica. Isso ficou evidente durante a pandemia, quando os EUA precisavam de certos produtos e perceberam que precisavam trazê-los da China.

Há também uma crescente pressão regulatória para que as empresas americanas não incluam empresas que praticam trabalho forçado entre seus fornecedores, como é o caso da região de Xinjiang.

Mas ainda existem empresas americanas que investem pesadamente na China, que têm grandes negócios lá, e não têm intenção de mudar isso.

Em geral, os chineses estão se esforçando mais para diminuir sua dependência dos EUA do que os EUA da China.

BBC: É possível reverter essa tendência para um mundo bipolar?

Schuman: Nada é inevitável.

Em algum momento haverá um novo líder na China. Xi Jinping tentará garantir um terceiro mandato, então há uma boa chance de ele ficar no cargo por um longo tempo, mas ele não pode ficar lá para sempre.

Em algum momento, haverá outro governo na China que poderá ter outra visão do papel da China no mundo e seu relacionamento com os EUA. E nos EUA já vimos diferenças entre a abordagem do governo Trump e do governo Biden.

Nada é inevitável, em ambos os países pode haver mudanças em que se afastam da concorrência, estreitam laços e melhoram suas relações. Mas acho que se as tendências que estamos vendo agora continuarem, é menos provável que o mundo não se divida em dois.

BBC Brasil

O Cafezinho

 


Bolsonaro acumula casos sob suspeita de corrupção

por Ranier Bragon e Fabio Serapião | Folhapress

Bolsonaro acumula casos sob suspeita de corrupção
Foto: Gustavo Moreno / Metrópoles

Jair Bolsonaro (PL), familiares e o seu governo acumulam uma série de casos de suspeita de corrupção, além de colecionarem ações no sentido de barrar investigações e esvaziar instituições de fiscalização e controle.
 

Veja abaixo uma lista de episódios envolvendo o presidente da República e pessoas próximas a ele.
 


 

AS SUSPEITAS DE CORRUPÇÃO SOB BOLSONARO
 


 

Funcionários fantasmas e rachadinhas nos gabinetes da família
 

O caso: Embora seja de período anterior à sua chegada à Presidência, há diversos relatos, investigações e documentos que levantam a suspeita de que Jair Bolsonaro e dois de seus filhos parlamentares, Flávio e Carlos, tenham mantido por anos funcionários fantasmas e esquema de "rachadinha" (apropriação de parte dos salários de servidores) em seus gabinetes. Em março, o Ministério Público do DF apresentou à Justiça uma ação pedindo a condenação do presidente por improbidade administrativa no caso Wal do Açaí, revelado em reportagem da Folha de S.Paulo de 2018. Outras reportagens da Folha e de outros órgãos de comunicação como as revistas Época e Veja e o jornal O Globo também mostraram fortes indicativos de funcionários fantasmas e rachadinhas nos gabinetes da família.
 

O que Bolsonaro disse e fez? Os Bolsonaros sempre negaram irregularidades, mas quase nunca responderam de forma direta às evidências dos supostos esquemas. Flávio e a família trabalharam também para barrar as investigações sobre o esquema das rachadinhas.
 


 

O caso Queiroz e o cheque na conta da primeira-dama
 

O caso: Em dezembro de 2018, o jornal O Estado de S. Paulo revelou documento do Coaf apontando movimentação atípica de R$ 1,2 milhão na conta de Fabrício Queiroz, assessor de Flávio Bolsonaro na Assembleia do Rio, além do depósito de R$ 24 mil na conta da futura primeira-dama, Michelle Bolsonaro.
 

O que Bolsonaro disse e fez? A família Bolsonaro e Queiroz sempre deram evasivas ou afirmações desencontradas para tentar explicar a história, cujas idas e vindas incluíram a prisão de Queiroz quando ele se escondia na casa do advogado dos Bolsonaros Frederick Wassef, além da versão de Queiroz de que o dinheiro era proveniente da compra e venda de carros. Michelle nunca se manifestou sobre o caso. Bolsonaro disse que o cheque era parte do pagamento de uma dívida de R$ 40 mil com Queiroz, embora nunca tenha mostrado documentos ou extratos bancários comprovando isso. Quebra de sigilo revelada pela revista Crusoé mostrou que os depósitos de Queiroz na conta da primeira-dama somaram R$ 89 mil.
 


 

A multiplicação do patrimônio na política
 

O caso: Em 2018, ainda na pré-campanha, a Folha de S.Paulo mostrou que Bolsonaro e seus três filhos que têm mandato parlamentar apresentaram uma expressiva evolução patrimonial atuando quase que exclusivamente na política, com um total de 13 imóveis que somavam R$ 15 milhões em preço de mercado, a maioria em pontos altamente valorizados do Rio de Janeiro. Em 2021, Flávio comprou uma mansão em Brasília por R$ 6 milhões.
 

O que Bolsonaro disse e fez? Presidente e seus filhos sempre se recusaram a dar explicações sobre como reuniram esse patrimônio apenas com o salário parlamentar.
 


 

As candidaturas laranja
 

O caso: Conforme revelado em reportagens da Folha de S.Paulo, o PSL —partido pelo qual Bolsonaro se elegeu e hoje se chama União Brasil (após fusão com o DEM)— promoveu esquema de desvio de recursos públicos por meio de candidaturas laranjas (simulação do lançamento de mulheres na disputa, apenas com o objetivo de desviar verba da cota de gênero para outros fins), nas eleições de 2018.
 

O que Bolsonaro disse e fez? Presidente manteve por quase dois anos em sua equipe o ministro Marcelo Álvaro Antônio (Turismo), que foi indiciado pela Polícia Federal e denunciado pelo Ministério Público em decorrência do caso.
 


 

Chefe da Secom recebia dinheiro de emissoras e agências contratadas pelo governo
 

O caso: O então chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, Fabio Wajngarten, recebia por meio de uma empresa da qual era sócio dinheiro de emissoras de TV e de agências de publicidade contratadas pela própria secretaria, ministérios e estatais do governo Bolsonaro. A PF abriu inquérito em janeiro de 2020 após reportagem da Folha de S.Paulo revelar o caso, mas não há notícia de conclusão.
 

O que Bolsonaro disse e fez? Pouco depois de o caso vir à tona, disse que Wajngarten não era criminoso e seguia firme no cargo. No mês seguinte, demitiu o chefe da Secom.
 


 

Obras suspeitas e sem licitação no Ministério da Saúde, no Rio
 

O caso: reportagem do Jornal Nacional, da TV Globo, mostrou que militares tentaram fazer na Superintendência do Ministério da Saúde no Rio obras de reforma sem licitação, firmadas com empresas suspeitas. Usaram a pandemia como justificativa para a dispensa de licitação. A AGU barrou os contratos e o coronel da reserva George George Divério perdeu o cargo de superintendente do Ministério no Rio.
 

O que Bolsonaro disse e fez: não se manifestou
 


 

Ministério do Meio Ambiente e madeireiras suspeitas
 

O caso: Ricardo Salles pediu demissão do Ministério do Meio Ambiente em junho de 2021, um mês após ser alvo de operação da Polícia Federal nas investigações sobre madeireiras suspeitas de contrabando no Pará.
 

O que Bolsonaro disse: reagiu à operação da PF dizendo que Salles era um ministro excepcional e que era vítima de setores aparelhados do Ministério Público.
 


 

Importação da vacina Covaxin para a Covid-19
 

O caso: Bolsonaro não adotou nenhuma providência comprovada após receber em março de 2020 relato do deputado federal Luis Miranda (União Brasil-DF) de corrupção envolvendo a importação da vacina indiana Covaxin. Inquérito policial foi instaurado mais de um ano depois, em meados de 2021, somente após as suspeitas virem à tona durante a CPI da Covid. Em depoimento ao Ministério Público revelado pela Folha de S.Paulo, o servidor da área técnica do Ministério da Saúde Luis Ricardo Miranda, irmão do deputado, relatou ter sofrido pressão atípica para tentar garantir a importação da vacina. O Ministério da Saúde suspendeu o contrato para obtenção de 20 milhões de doses da vacina, ao preço de R$ 1,61 bilhão.
 

O que Bolsonaro disse e fez? Ele disse ter repassado a denúncia de Miranda ao ministério, mas nunca apresentou comprovação disso. A investigação só foi aberta por pressão da ministra do STF Rosa Weber sobre a Procuradoria-Geral da República, que na gestão de Augusto Aras tem adotado uma linha amistosa em relação a Bolsonaro. Em março deste ano, Rosa negou pedido de Aras de arquivamento do inquérito e determinou que a investigação prossiga.
 


 

Compra de outras vacinas contra a Covid-19
 

O caso: Houve vários episódios nebulosos no processo de aquisição, pelo governo brasileiro, de vacinas contra a Covid. Em caso revelado pela Folha de S.Paulo, o cabo da PM e lobista Luiz Paulo Dominghetti acusou o então diretor de Logística do Ministério da Saúde Roberto Dias de cobrar US$ 1 de propina por dose da vacina AstraZeneca. Roberto Ferreira Dias foi exonerado no mesmo dia e hoje processa Dominghetti por crimes contra a honra. Em outro episódio, também revelado pela Folha de S.Paulo, o então ministro da Saúde Eduardo Pazuello prometeu a um grupo de intermediadores comprar 30 milhões de doses da vacina chinesa Coronavac oferecidas por quase o triplo do preço negociado pelo Instituto Butantan. Em outro caso, documento da área técnica do TCU (Tribunal de Contas da União) obtido pela Folha aponta "indícios robustos" de fraude em licitações por parte da empresa que forneceu ao Exército o insumo necessário à produção de cloroquina, em 26 licitações feitas entre 2018 e 2021.
 

O que Bolsonaro disse e fez? O governo sempre adotou o discurso de que não houve corrupção afirmando que as negociações sob suspeita não foram adiante.
 


 

Suspeitas contra os líderes do governo na Câmara e no Senado
 

O caso: Tanto Ricardo Barros (PP-PR), na Câmara, como Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), no Senado, foram objetos de suspeitas. Em setembro de 2021, a Polícia Federal fez operação que mirou funcionários do Ministério da Saúde e a empresa Global na gestão de Barros (2016-2018). A suspeita era de fraudes na aquisição de medicamentos de alto custo. Em outro episódio, o deputado Luiz Miranda (União Brasil-DF) afirmou que, na conversa em que relatou a Bolsonaro as suspeitas de corrupção na aquisição da Covaxin, o presidente disse a ele que isso "era coisa do Ricardo Barros". Fernando Bezerra, que deixou a liderança do governo em dezembro, foi indiciado pela PF em junho de 2021 por suspeita de receber propina em troca de obras no Ministério da Integração, comandado por ele no governo de Dilma Rousseff (PT). A PGR, comandada por Augusto Aras, pediu o arquivamento, mas o STF enviou o inquérito para a Justiça de Pernambuco. A Folha de S.Paulo também mostrou que emendas do senado viraram moeda de troca política e financiaram obras de má qualidade em seu reduto eleitoral.
 

O que Bolsonaro disse e fez? No caso de Barros, o presidente jamais negou a conversa com Miranda nem o seu relato. Afirmou ainda que não tem com saber o que acontece em seus ministérios. Sobre Bezerra, não se manifestou.
 


 

Emendas sem transparência
 

O caso: A prática de direcionamento de verbas pelas chamadas emendas de relator, em relação às quais há baixíssima transparência, ganhou fôlego de bilhões no governo Bolsonaro. Essas emendas, sobre as quais inicialmente reportagens do jornal O Estado de S. Paulo jogaram luz, alimentam redutos dos parlamentares e não obedecem a quase nenhum critério técnico ou de políticas públicas.
 

O que Bolsonaro disse e fez? "Ajuda a acalmar o Parlamento. O que eles querem, no final das contas, é mandar recursos para a sua cidade", afirmou em 11 de abril.
 


 

A aliança com o centrão e a blindagem a processos de impeachment
 

O caso: Apesar de sempre ter integrado partidos desse grupo, Bolsonaro conseguiu emplacar na campanha de 2018 o discurso de que representava a luta contra tudo o que há de pior na política, em especial o centrão. No poder, logo se aliou ao grupo, o que lhe permitiu se ver livre da ameaça dos mais de cem pedidos de impeachment que hoje estão na gaveta do presidente da Câmara e líder do centrão, Arthur Lira (PP-AL). Em troca dessa blindagem e da sustentação no Congresso, o centrão avançou sobre ministérios e diversas áreas do governo, entre elas o FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) e a Codevasf, além de controlar a distribuição de R$ 16,5 bilhões das emendas de relator.
 

O que Bolsonaro disse e fez? Presidente mudou completamente o discurso sobre o centrão e, inclusive, se filiou ao PL de Valdemar Costa Neto, com quem agora divide o palanque eleitoral.
 


 

Dinheiro na cueca e maços de dinheiro supostamente desviados da saúde
 

O caso: em dois episódios rumorosos, a PF apreendeu em outubro de 2020 dinheiro escondido nas nádegas do então vice-lider do governo Bolsonaro no Senado, Chico Rodrigues (RR). A suspeita era de desvio de dinheiro do combate à Covid. Em dezembro de 2021, a PF flagrou o deputado Josimar de Maranhãozinho (PL-MA), do partido de Bolsonaro, manuseando uma grande quantidade de maços de dinheiro. Ele é suspeito de desviar recursos da Saúde viabilizados por meio de emendas parlamentares.
 

O que Bolsonaro disse e fez? Disse, no caso de Chico Rodrigues, que a operação é uma prova que seu governo combate a corrupção. Sobre Maranhãozinho, não se manifestou.
 


 

O balcão de negócios do MEC
 

O caso: Sete dias após a Folha de S.Paulo publicar áudio em que Milton Ribeiro disse que privilegiava pastor evangélico a pedido de Bolsonaro, o ministro da Educação perdeu o cargo, em 28 de março. O balcão de negócios no MEC, cuja existência foi revelada inicialmente pelo jornal o Estado de S. Paulo, era operado por dois pastores evangélicos sem qualquer vínculo formal com a pasta e que participaram de 35 reuniões no Palácio do Planalto. De acordo com prefeitos, um deles chegou a cobrar propina em barra de ouro.
 

O que Bolsonaro disse e fez? O presidente disse que botava a cara no fogo por seu ministro. Quatro dias depois, foi publicada a exoneração de Milton Ribeiro.
 


 

O kit de robótica com ágio de 420%
 

O caso: Reportagem da Folha de S.Paulo mostrou que o governo enviou verba a prefeituras para compra de kit de robótica para escolas com gravíssimos problemas de infraestrutura, como falta de sala de aula, de computadores, internet e até de água encanada. A empresa que intermediou o negócio é de um aliado do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL) que controla a distribuição das verbas usadas na compra dos kits. Em nova reportagem, A Folha mostrou que os kits foram vendidos às prefeituras com ágio de 420%.
 

O que Bolsonaro disse e fez? "Vai botar a culpa em mim? Não tenho nada a ver com isso", disse, apesar dos recursos serem do governo federal.
 


 

Empreiteira campeã de recursos na Codevasf ganhou licitações usando empresa de fachada
 

O caso: A Folha de S.Paulo mostrou que a empreiteira Engefort, que lidera contratos recentes da estatal federal Codevasf para pavimentação, ganhou diferentes licitações nas quais participou sozinha ou na companhia de uma empresa de fachada registrada em nome do irmão de seus sócios. O governo já reservou cerca de R$ 620 milhões do orçamento para pagamentos à empresa, sendo que R$ 84,6 milhões já foram desembolsados. A gestão Bolsonaro passou ainda a usar em larga escala uma manobra licitatória —em especial na Codevasf, sob controle do centrão— para dar vazão aos recursos, deixando em segundo plano o planejamento, a qualidade e a fiscalização, e abrindo margem para serviços precários e corrupção.
 

O que Bolsonaro disse e fez? Não se manifestou
 


 

Compra de ônibus escolares sob suspeita de superfaturamento
 

O caso: O Tribunal de Contas da União suspendeu no dia 5 a homologação de um pregão eletrônico para a compra de até 3.850 ônibus escolares para avaliar a suspeita de sobrepreço. Reportagem do jornal O Estado de S. Paulo informou que o processo ignorou alertas de superfaturamento de técnicos do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento de Educação) e da CGU (Controladoria-Geral da União).
 

O que Bolsonaro disse e fez? Cobrou a realização da licitação. "Veja o que vai acontecer, para ver o preço de cada ônibus. Esperar acontecer para a gente comentar sobre isso daí"
 


 

Jair Renan e a suspeita de tráfico de influência
 

O caso: Polícia Federal apura suspeita de tráfico de influência e lavagem de dinheiro na doação de um carro elétrico avaliado em R$ 90 mil por empresas do Espírito Santo a um projeto parceiro da empresa de Jair Renan, a Bolsonaro Jr. Eventos e Mídia. O empresário que fez a doação ao filho "04" foi recebido por Bolsonaro no Palácio do Planalto.
 

O que Bolsonaro disse e fez? Disse que Jair Renan vive com a mãe (uma de suas ex-mulheres), está longe dele "há muito tempo" e que não sabe se o filho está certo ou errado nesse caso.
 


 

Ciro Nogueira indiciado por corrupção
 

O caso: A PF afirmou neste mês que o ministro da Casa Civil de Bolsonaro cometeu os crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro por ter recebido propina da JBS para que o PP apoiasse a reeleição de Dilma Rousseff (PT) em 2014.
 

O que Bolsonaro disse e fez? Não se manifestou.
 


 

Contratos com ONGs de prateleira
 

O caso: O governo Jair Bolsonaro (PL) autorizou o repasse de R$ 6,2 milhões a duas ONGs até então inativas e recém-assumidas pelo ex-jogador Emerson Sheik e por Daniel Alves, lateral-direito da seleção brasileira de futebol. Após a publicação da reportagem pela Folha de S.Paulo, o Ministério da Cidadania disse que Sheik desistiu do convênio.
 

O que Bolsonaro disse e fez? Não se manifestou ?
 


 

?AÇÕES CONTRA INVESTIGAÇÕES E ÓRGÃOS DE FISCALIZAÇÃO E CONTROLE
 


 

Augusto Aras, o PGR "excepcional"
 

Em uma atitude inédita, Bolsonaro ignorou a lista tríplice eleita pela ANPR (Associação Nacional de Procuradores da República) e escolheu em setembro de 2019 Augusto Aras para o comando da Procuradoria-Geral da República. O presidente nunca escondeu que buscava um aliado para a chefia do Ministério Público Federal, que tem como uma de suas principais atribuições investigar e denunciar políticos com foro, incluindo o presidente da República.
 

No dia da escolha, Bolsonaro chegou a dizer que estava fazendo "um bom casamento". Meses depois, chamou a conduta de Aras de "excepcional". O atual procurador-geral tem sido um dos principais responsáveis por barrar investigações e processos contra Bolsonaro e integrantes do governo.
 


 

'Acabei com a Lava Jato'
 

Mesmo surfando desde a eleição no discurso anticorrupção, Bolsonaro e Aras trabalharam para sepultar a Força Tarefa da Lava Jato de Curitiba, responsável pelo maior abalo ao mundo político nos últimos anos. "É um orgulho, uma satisfação que eu tenho dizer a essa imprensa maravilhosa nossa que eu não quero acabar com a Lava Jato. Eu acabei com a Lava Jato porque não tem mais corrupção no governo", disse Bolsonaro em outubro de 2020.
 

Meses depois, em fevereiro de 2021, Aras dissolveu formalmente o grupo, que já estava completamente esvaziado diante da pressão política e da chefia do Ministério Público, de decisões contrárias do STF e do vazamento de mensagens que mostraram um conluio entre os procuradores e o juiz Sergio Moro.
 


 

Trocas na Polícia Federal
 

Bolsonaro fez diversas mudanças na estrutura da Polícia Federal após reunião ministerial em abril de 2020 que —soube-se depois, quando o Supremo Tribunal Federal determinou a publicação do vídeo—? deixou claro que iria interferir na Polícia Federal e não iria esperar "f." alguém de sua família para poder tomar providências.
 

Em menos de quatro anos de mandato, Bolsonaro já trocou quatro vezes o diretor-geral da corporação. Maurício Valeixo foi substituído após demissão de Sergio Moro. Seu substituto, Rolando de Souza, foi trocado novamente por Paulo Maiurino. Este último deixou o cargo com menos de 10 meses no comando e deu lugar a Márcio Nunes.
 

A primeira troca de comando, após as acusações de interferência feitas por Moro, resultou em um inquérito. O caso foi arquivado em março e PF concluiu não ter havido interferência.
 


 

Pacote anticrime desfigurado
 

No final de 2019, Bolsonaro sancionou o chamado "pacote Anticrime" de Sergio Moro (Justiça) nos moldes aprovados pelo Congresso, que alterou praticamente toda a proposta elaborada pelo então ministro e incluiu vários pontos para esvaziar a Lava Jato.
 


 

Afrouxamento da Lei de Improbidade e de outras normas
 

O centrão aprovou e Bolsonaro sancionou em outubro de 2021 sem vetos lei que esvazia as regras de investigação contra improbidade administrativa, exigindo que se comprove a intenção de lesar a administração pública para que haja crime. No mês anterior, havia sancionado lei que afrouxa a Lei de Inelegibilidades. Bolsonaro também editou em maio de 2020 medida provisória para proteger agentes públicos de responsabilização por atos tomados durante a crise do novo coronavírus.
 


 

Flávio Bolsonaro e a cruzada contra as investigações da "rachadinha"
 

Flávio Bolsonaro acionou a estrutura do governo do pai para tentar reunir elementos que lhe permitissem barrar as investigações do caso das rachadinhas. Entre outros órgãos, a Folha de S.Paulo mostrou que servidores da Receita Federal foram mobilizados por quatro meses para investigar colegas do órgão que, supostamente, teriam municiado investigadores com dados fiscais de Flávio e de familiares.
 

Em novembro de 2021, o STJ (Superior Tribunal de Justiça) anulou as todas as decisões tomadas pela primeira instância da Justiça do Rio no caso das "rachadinhas". O argumento principal foi o de foro privilegiado, recurso que sempre foi execrado pela família Bolsonaro —até o caso de Flávio.
 


 

Sigilo de visitas ao Planalto de pastores do 'balcão de negócios' do MEC
 

O governo colocou em sigilo a lista de vezes que pastores suspeitos de transformar o MEC em um balcão de negócios foram ao Palácio do Planalto. Bolsonaro chegou a ironizar um internauta que questionava se ele estaria querendo esconder alguma coisa. "Em 100 anos saberá."
 

Após a repercussão do caso, o governo recuou e liberou a lista nesta quinta-feira (14), mostrando que os pastores suspeitos frequentaram o Palácio do Planalto durante todo o governo Bolsonaro, em 35 ocasiões.
 


 

?Controladoria-Geral da União
 

Órgão tem tido atuação bem menos incisiva do que em anos anteriores. Em agosto, por exemplo, recebeu denúncia sobre irregularidades envolvendo pastores e a liberação de verbas do MEC, mas só encaminhou as suspeitas à PF após o caso ser noticiado pela imprensa.

Bahia Notícias

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