sábado, janeiro 15, 2022

O sentido da frente ampla brasileira




Não se sairá da enorme crise atual, a maior desde o final do regime militar, sem um pacto de reconstrução nacional

Por Fernando Abrucio* (foto)

Para ganhar as eleições de 2022 e governar o país no dia seguinte, reconstruindo o que foi destruído nos últimos três anos, será necessário montar uma coalizão política e social bem maior do que a erigida pelo bolsonarismo. Essa constatação deveria ser um mantra para os que desejam vencer o presidente Bolsonaro. Por essa razão, é provável que o termo frente ampla apareça frequentemente ao longo deste ano. Tal ideia vale tanto para alianças comandadas pela esquerda em direção ao centro, quanto o agrupamento da centro-direita democrática com forças diferentes dela. Em outras palavras, não se sairá da enorme crise atual, a maior desde o final do regime militar, sem um pacto de reconstrução nacional.

Frente ampla é apenas uma das denominações mais usuais para momentos políticos que exigem grandes alianças entre grupos diferentes com o intuito não só de ganhar eleições, mas de reconstruir a ordem política e social. Isso já aconteceu em situações como o fim de uma guerra, de um regime autoritário ou quando se quer enfrentar um sistema político tradicional muito duradouro e avesso a mudanças.

O caso brasileiro tem suas peculiaridades, sendo a principal a existência de um grupo que governa o país - a aliança entre o bolsonarismo autoritário e o Centrão patrimonialista - por meio de um projeto de destruição das principais instituições e valores criados a partir da redemocratização. O resultado da distopia bolsonarista é a ausência de qualquer perspectiva positiva de futuro, seja na economia, na política, nas questões sociais e na inserção do Brasil no mundo.

Para quem discorda deste diagnóstico sombrio, coloque-se na posição de um jovem brasileiro neste momento: se for pobre, temerá pela própria sobrevivência; se for de classe média, acredita que terá uma vida pior do que a de seus pais; e se for rico, já está programando sua vida no exterior. Na escala e intensidade atuais, trata-se de um fenômeno novo e perverso para o sentido da nação.

Neste quadro geral de destruição bolsonarista, o tema da frente ampla é fundamental tanto no plano eleitoral como no governativo. Em relação às eleições de 2022, será difícil ganhar de Bolsonaro sem uma aliança maior do que a usualmente pensada pelas agremiações partidárias. Luiz Inácio Lula da Silva percebeu isso e, mesmo liderando as pesquisas com ampla margem, sabe que a campanha será muito difícil, de maneira que precisará acenar para o centro partidário e, importante frisar, para grupos sociais que vão além do lulismo, como parcelas do empresariado e setores da classe média que perderam status social, quando não o próprio emprego. O desenho dessa coalizão não será simples de se montar, mas ela é essencial seja no cenário de vitória no primeiro turno, seja num mais provável (por ora) segundo turno. Os petistas que reclamam disso não entenderam que o país está numa situação bem pior e mais complexa do que em 2002.

Raciocínio similar deveria ser feito pelos demais candidatos que pretendem vencer o bolsonarismo. Será preciso chegar às classes D e E, às parcelas mais jovens e a eleitores nordestinos que tiveram ascensão social durante o lulismo. É uma questão matemática: hoje, o eleitorado mais pobre está ou com Lula ou, em menor medida, mas ainda de forma significativa, com Bolsonaro. Por enquanto, os assuntos priorizados por João Doria e Sergio Moro, e da maneira como têm sido tratados no plano do discurso, interessam a uma parcela de eleitores mais das classes A e B, especialmente aos que vivem mais no Centro-Sul do país, tendo pouco apelo à maioria da população, que mora nas áreas periféricas dos centros urbanos.

Uma coalizão do centro para a direita não tem um Plano Real para apresentar, que, para além de ter sido uma reforma estrutural da economia, foi principalmente um projeto com enorme apelo popular. Fiar-se apenas no discurso contra a corrupção ou na ideia de que uma terceira via é melhor do que Lula e Bolsonaro não irá convencer a maioria do eleitorado, que é mais pobre, negra e urbana. Para essa parcela majoritária, o que importa hoje são as condições sociais e econômicas que lhe afetam brutalmente, em termos de crise na saúde e na educação, perda de emprego ou redução de renda, aumento vertiginoso do custo de vida, falta de perspectiva para os mais jovens, maior vulnerabilidade em termos de moradia e segurança.

A cara do espectro atual que vai da direita democrática para o centro, excluindo aí o bolsonarismo, é muito pouco popular em termos de linguagem, temáticas e apoiadores. Se quiser ter chances eleitorais reais, precisa ampliar sua pauta de propostas e os grupos inseridos neste projeto, para depois não reclamar das decisões do povo e escolher a via fácil e covarde do absenteísmo no segundo turno. Fizeram isso ou pior em 2018, e o país está pagando muito alto por isso, sobretudo os mais pobres.

Já o lulismo é bastante popular, mas necessita incorporar outros apoios partidários e sociais se deseja vencer no primeiro turno ou ter uma vitória mais tranquila no segundo turno - até porque, ao final, poderá enfrentar um outro candidato que não Bolsonaro. Cabe recordar que o petismo nas duas últimas eleições já tinha perdido grande parte do apoio da centro-esquerda e esquerda. A vantagem nas pesquisas é boa, mas claramente insuficiente para adotar uma visão soberba do “já ganhou”.

Para finalizar a importância da ideia de frente ampla no plano eleitoral, deve-se ressaltar que Bolsonaro, por enquanto, não é cachorro morto. Ele tem chances reais de ficar entre 20% e 25% dos votos, o que pode lhe garantir a ida ao segundo turno - Serra foi ao segundo turno em 2002 com 23% dos votos. E se chegar à rodada final, mesmo com uma dianteira folgada de Lula, Bolsonaro jogará pelo tudo ou nada. Se não houver alianças mais amplas entre os democratas, o país poderá cair no caos - seja a desordem que produza o Capitólio brasileiro, seja a vitória apertada de Bolsonaro por meio de métodos escusos e autoritários de se fazer política.

Tão ou mais importante do que uma perspectiva de frente ampla no momento eleitoral é sua necessidade para se governar o Brasil em 2023. O tamanho da destruição bolsonarista é muito grande e nenhuma força política relacionada a um espectro ideológico será capaz sozinha de reconstruir o país. O governo Bolsonaro teve um efeito danoso e disruptivo sobre cinco dimensões essenciais da nação. A primeira diz respeito às instituições democráticas, com a anulação da Procuradoria-Geral da República, a tentativa de aparelhar e deslegitimar o Judiciário, a construção de maioria política por verbas secretas e o enfraquecimento do federalismo cooperativo em prol de um centralismo autocrático. É verdade que em parte a democracia reagiu ao bolsonarismo, mas também é verdadeiro que ela se tornou bem mais frágil do que era antes.

Uma segunda dimensão da destruição está na economia. Por mais que se louvassem ao início do mandato os planos liberais de Paulo Guedes, o saldo final, visto de forma empírica e não ideológica, é o baixo crescimento, o desemprego, a inflação e, o mais importante, a ideia de que qualquer lógica econômica deve se subordinar aos desígnios populistas do presidente. A PEC dos Precatórios é uma quebra de contratos sociais e intergeracionais que não se fazia desde o governo Collor. Voltamos várias casas na institucionalização da estabilidade econômica.

Outra implosão institucional grave foi a da destruição da maioria das políticas públicas do país. O debate brasileiro, infelizmente, é dominado pelo economicismo, o que tem nos impedido de ver que o desmonte das políticas de saúde, educação, assistência social, cultura e meio ambiente, para ficar nas principais, tem efeitos tão nefastos quanto a crise econômica. O Brasil não vai reduzir a desigualdade e pobreza, nem se desenvolverá plenamente, sem recuperar suas principais políticas públicas, algo impossível de ser feito por um segundo mandato de Bolsonaro.

A perda de importância geopolítica é um dos piores legados do bolsonarismo. O Brasil precisa dialogar com o mundo e produzir parcerias para ampliar seu desenvolvimento. Viramos párias ambientais e no campo dos direitos humanos, e o próximo passo frente a isso serão sanções econômicas e perda de oportunidades de investimento. E para finalizar essa hecatombe, a lógica política bolsonarista implodiu a convivência social entre os brasileiros. O sonho de Bolsonaro é produzir algo similar ao que fez Trump nos EUA, dividindo de tal maneira o país que não há hoje qualquer negociação e acordo entre os diversos atores sociais. Só resta a guerra e a ameaça de um domínio autocrata por parte dos autoritários.

Este último legado é o mais preocupante, porque mesmo que perca a eleição, o bolsonarismo fará de tudo para inviabilizar o próximo governo, seja de Lula ou de uma força de centro-direita. Diante disso e da necessidade de reconstruir o país, a lógica da frente ampla, adaptada às nossas circunstâncias, deveria estar na cabeça de todos os presidenciáveis que são adversários de Bolsonaro. Afinal, reformas como a tributária, a administrativa, a fiscal, a trabalhista e das políticas sociais exigirão muita negociação entre diferentes. Do contrário, fracassarão, como tem ocorrido em geral com o país desde 2013, quando se perdeu a capacidade de se governar por coalizões políticas e sociais amplas.

*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e professor da Fundação Getulio Vargas.

Valor Econômico

Entrevista: Conflito entre ficção e realidade: "O que vai definir a eleição são as narrativas".




Para o professor e ensaísta Fernando Schüler, as retóricas eleitorais ‘aplainam” a complexidade do mundo político e econômico e, no fim, uma delas se torna hegemônica e ganha o pleito. 

Por José Fucs

O cientista político e comentarista Fernando Schüler, também professor do Insper, uma escola de negócios de São Paulo, é um dos raros acadêmicos da área no País que procura analisar o cenário político de um ponto de vista independente.

Nesta entrevista ao Estadão, Schüler diz que é uma “ilusão” imaginar que as grandes questões nacionais vão pautar a campanha eleitoral neste ano. Segundo ele, a contradição existente entre a complexidade das políticas públicas e o déficit de informação dos cidadãos comuns se manifesta de forma acentuada nas eleições, levando os candidatos a simplificar os discursos, para atingir a massa do eleitorado. “No momento das eleições, toda a complexidade do mundo político é aplainada e substituída por grandes narrativas que competem entre si”, afirma. “No fim, uma delas termina sendo hegemônica e ganha as eleições.”

De acordo com Schüler, os candidatos da terceira via têm de encontrar uma narrativa que fale aos corações e mentes da maioria dos eleitores e consiga se contrapor aos enredos adotados pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, centrado na ideia de que “nós já fomos mais felizes no passado”, e pelo presidente Jair Bolsonaro, focado em argumentos como “não me deixaram governar” e “eu sou a chance de a agenda conservadora ter algum avanço”.

Na avaliação de Schüler, as narrativas do ex-juiz e ex-ministro Sérgio Moro – que tem como um dos pilares a necessidade de o Brasil retomar o combate à corrupção – e do governador de São Paulo, João Doria – que se concentra na agenda “gerencialista”, de modernização do Estado, também encampada, em boa medida, por Moro – não têm apelo popular para levar um dos dois ao segundo turno. “A agenda ‘gerencialista’ é forte no mundo empresarial, no mercado financeiro, entre os economistas e em uma certa elite intelectual, mas tem um alcance menor na sociedade”, diz. “Hoje, a luta contra a corrupção não é a grande pauta brasileira.”

Além de ter de enfrentar a pandemia, o Brasil vive hoje um quadro complicado tanto na economia quanto na política. Neste cenário, como o sr. vê eleições de 2022?

Acredito que a grande pergunta neste início de ano é qual será a pauta que vai, de alguma maneira, presidir as eleições. Em 2018, havia problemas estruturais e econômicos tanto quanto nós temos hoje. Acho, inclusive, que desatamos alguns nós, embora tenhamos criado outros. Fizemos um pedaço da tarefa de casa com a reforma da Previdência. Houve um processo de austeridade e hoje temos o menor número de funcionários federais na ativa, desde 2011. Mas obviamente deixamos muita coisa pra trás. O governo abdicou desde o início de promover uma reforma do Estado, as reformas administrativa e tributária não andaram. Não apenas pela falta de convicção do governo, mas também em razão da pandemia e da procrastinação do Congresso. Não dá para fazer uma análise simplista disso. Em 2021, mesmo com a gambiarra produzida com a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) dos Precatórios, a expansão de gastos aprovada no fim do ano, para custear o Auxílio Brasil e outros projetos de interesse do governo, chegamos a um resultado das contas públicas muito melhor do que apontavam as projeções de mercado.

Que nós o sr. diz que foram criados nos últimos anos e que não existiam em 2018?

Hoje, temos uma inflação mais alta e em 2018 tínhamos um processo descendente de inflação. Estávamos num processo de redução da taxa de juro e agora estamos num processo de aumento. Estávamos num processo de reequilíbrio fiscal e hoje temos uma enorme interrogação sobre a política fiscal, apesar do bom resultado alcançado no ano passado. Em 2018, o teto de gastos havia sido aprovado há dois anos, e demandava um conjunto de reformas para lhe dar sustentação. O País vinha de um ciclo de crescimento baixo e as reformas haviam sido paralisadas no fim do governo Temer. Ainda assim, a pauta econômica não foi o tema central na campanha eleitoral. O que a gente discutiu? Guerra cultural, kit gay, redução da maioridade penal, escola sem partido, um certo discurso moralista. Mesmo no terreno da corrupção, não discutimos nada muito objetivo, projetos concretos para enfrentar a questão, mas apenas as grandes bandeiras, que tem um certo simbolismo e são mais fáceis de entender, como prisão em segunda instância, o balanço da Lava Jato ou se alguém era a favor ou contra o foro privilegiado. E, por aí, ficamos. Essas questões estão muito longe de ser as mais importantes, mas surgem na epiderme da política e pautam o debate público.

Como, afinal, esse quadro que o sr. descreveu deve afetar as eleições deste ano?

É muito difícil saber qual será a pauta da campanha. No momento das eleições, toda a complexidade do mundo político é, de certa forma, aplainada e substituída por grandes narrativas que competem entre si. No fim, uma delas termina sendo hegemônica e ganha as eleições. É uma ilusão imaginar que haja uma conexão entre o que se passa nas eleições e a pauta que mobiliza uma certa camada afluente na sociedade, nos terrenos da economia, do jornalismo, das políticas públicas ou no meio empresarial. Embora o País precise de uma reforma administrativa, isso não será pauta da campanha. Isso vale para a reforma tributária e para a discussão sobre o que fazer com a educação pública. As eleições trituram a complexidade que é própria das políticas públicas. Há uma contradição, que faz parte da natureza da democracia, entre a complexidade dos temas envolvidos nas escolhas públicas e o permanente déficit de informação das pessoas. Muita gente imaginou que a abundância de informação oferecida pela internet poderia resolver isso, mas não resolveu.

É interessante que o sr. fala em déficit de informação por parte das pessoas e de abundância de informação ao mesmo tempo.

Esse é o paradoxo. Com a revolução tecnológica, há uma enorme massa de informação disponível, um overload de informações, que se apresentam de maneira caótica. Mas as pessoas têm pouco incentivo para buscar informação relevante, separar o joio o trigo, verificar o que é verdadeiro e o que é fake, e agir com responsabilidade. Não é à toa que o grande tema contemporâneo são as fake news, porque você não consegue distinguir exatamente o que é verdadeiro e o que é falso. Em muitos sentidos, o mundo em que vivemos confirma a profecia de Jean Bauldrillard (1929-2007), o filósofo da hiper-realidade, de que é cada vez mais difícil distinguir com clareza entre a ficção e a ealidade. É como se o mundo virtual colonizasse o mundo real. Esse fenômeno é amplificado pelo ingresso de milhões de pessoas no ativismo político, pela via digital. Os indivíduos adquiriram poder, mas tiveram nenhum incentivo a mais para agir com responsabilidade no mundo político.

O sr. poderia dar um exemplo concreto para ilustrar o que está falando?

Há alguns dias, por exemplo, houve uma operação pela Polícia Federal que atingiu os irmãos Ciro e Cid Gomes (respectivamente pré-candidato à Presidência pelo PDT e senador pela mesma sigla), por suspeitas de irregularidades em obras do estádio Castelão, em Fortaleza. Imediatamente, o que se viu foi uma pequena guerra de narrativas. Opositores de Ciro aplaudiram a operação; seus apoiadores ou potenciais aliados sugeriram que ela tinha “motivação política”. É previsível que os agentes políticos ajam desta maneira. Muita gente da própria mídia ou da academia, sem dispor de nenhuma informação objetiva sobre o que efetivamente aconteceu, chancelou uma ou outra visão sobre a natureza “política” – ou não – da operação. Escutei gente garantindo que a operação era a “prova” de que há uma polícia política no Brasil. Sempre a partir de um raciocínio de tipo impressionista, no qual se supõe que um punhado de episódios dispersos, reunidos a partir de uma certa “lógica”, sirvam como prova de alguma coisa.

É provável que isso tenha a ver com todas as trocas que houve na Polícia Federal nos últimos tempos, influenciadas pelo presidente Jair Bolsonaro...

Uma operação da Polícia Federal é autorizada pelo Poder Judiciário. Então, deveríamos não apenas ter uma polícia política, mas um Judiciário político também. Conhecendo as instituições de Estado no Brasil, acho improvável isso acontecer. É evidente que instituições de Estado erram. Recentemente, escrevi um texto sobre aquela operação contra o ex-reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em 2017, que acabou com o suicídio dele. Para mim, aquilo foi um erro. Agora, isso não significa que uma instituição de Estado, como a Polícia Federal, ou qualquer outra, esteja corroída em sua estrutura, funcionando com finalidade política, sem que ninguém – o Ministério Público ou a própria mídia – denuncie isso com base em informações objetivas. Não estou dizendo que isso, em tese, não esteja ocorrendo. Apenas que não temos informações suficientes para dizer se está ou não, ainda que as pessoas se comportem como tivessem.

O sr. poderia citar algum outro exemplo desse conflito entre a ficção e a realidade hoje?

Há inúmeros casos nesta direção, que atingem tanto a direita quanto a esquerda. São interpretações fantasiosas e irresponsáveis sobre acontecimentos reais, cujo efeito prático pode ser muito mais grave do que o de uma fake news. De certa forma, se a gente fizer um balanço do que falaram contra o Bolsonaro no ano passado, vamos ver que muita coisa não tinha base real. Disseram, por exemplo, que teria havido uma tentativa de golpe na manifestação de 7 de setembro e que haveria uma invasão do STF (Supremo Tribunal Federal) e do Congresso. Era pura fantasia, um exercício do que o (escritor italiano) Umberto Eco chamaria de ‘irrealidade’. Agora, pergunta se dois, três dias depois alguém disse ‘olha, nós nos enganamos’. É claro que não.

Agora, voltando ao tema da pauta das eleições, alguns analistas dizem que ela vai se concentrar nas grandes questões da economia. como o sr. analisa isso?

Isso é o que eu chamo de wishful thinking (pensamento positivo). As pessoas sempre acham que é lógico que esta seja a pauta, porque cada um tem um certo viés. Agora, uma pesquisa recente que eu analisei mostrou que, no campo das pessoas que dão suporte ao Bolsonaro, a pauta vai ser “não nos deixaram governar”, “não conseguimos fazer o que era preciso para derrotar o sistema”, “a pandemia foi usada pelo sistema político para parar a grande transformação que seria feita pelo capitão”, “ele merece mais um mandato para terminar sua obra restauradora”. Do outro lado, você vai ter uma grande narrativa em torno do Lula, na linha de que “já fomos mais felizes no passado”, “com o Lula, o Brasil viveu um grande momento, havia quase pleno emprego”, “o Brasil ocupava um lugar de destaque no mundo, era a bola da vez”, e “só o Lula para reconstruir tudo que foi destruído nos últimos anos”. É previsível que isso aconteça. Os marqueteiros de campanha sabem como lidar com essas narrativas. Então, acredito que é otimismo demais imaginar que alguma discussão econômica séria vai pautar o grande debate eleitoral, especialmente no caso de medidas duras que o País precise tomar. Oxalá isso acontecesse. A campanha seria muito mais positiva.

Agora, entre os candidatos da chamada terceira via, qual deve ser a pauta, de acordo com essa pesquisa que o sr. mencionou?

Do lado da terceira via, você tem uma narrativa do (ex-juiz e ex-ministro da Justiça e Segurança Pública) Sergio Moro (pré-candidato pelo Podemos) dizendo “o Brasil precisa retomar o combate à corrupção”, “a Lava Jato foi um movimento inédito na história do Brasil, que levou à condenação de grandes políticos e empresários, mas foi abortado, em boa medida, pelo sistema político, e é preciso retomar o seu fôlego”. Agora, na faixa da terceira via, haverá também uma narrativa tradicional, que eu chamaria de “gerencialista”, típica do chamado centro liberal, cujo principal representante é o (governador paulista) João Doria, do PSDB, ainda que não só ele. O partido Novo também apresenta esse viés. A narrativa “gerencialista” retoma de certo modo a lógica de que “Brasil precisa de um choque de capitalismo”, que foi a bandeira levantada pelo (ex-senador e ex-governador de São Paulo) Mário Covas (1930-2001), na campanha de 1989.

O que exatamente seria essa narrativa “gerencialista” associada ao Doria e ao partido Novo?

Seu foco são os temas de modernização do Estado e de eficiência das políticas públicas. A equipe econômica de Doria, já na arrancada da campanha, dá sinais claros de que suas propostas vão seguir nesta direção, reforçando a responsabilidade fiscal e a necessidade de se avançar no programa de reformas e de abrir a economia. É uma agenda forte no mundo empresarial, no mercado, entre os economistas e em uma certa elite intelectual, mas tem um alcance menor na sociedade – e tem alguns problemas. É uma agenda que diz: “É preciso adotar medidas duras e impopulares para o Brasil deslanchar”. Além de mexer com interesses corporativos bem estabelecidos na sociedade, não é propriamente uma agenda sexy e mobilizadora. O (ex-presidente Michel) Temer implementou essa pauta, porque não tinha ambições eleitorais e podia correr o risco de adotar medidas consideradas “impopulares”, ainda que fundamentais para a modernização do País.

O que leva o sr. a dizer que essa agenda “gerencialista” não é “sexy” e é pouco atraente para a sociedade?

Nossa experiência eleitoral recente, as pesquisas e a simples observação do debate pré-eleitoral indicam isso. A agenda “gerencialista” é, sem dúvida, a pauta necessária para o Congresso Nacional. Diria que ela é central para a retomada da economia, dentro de visão de longo prazo para o País, mas envolve temas complicados e notícias duras no curto prazo. São questões difíceis de abordar numa campanha de massas. Em 2018, foi assim. O Bryan Caplan, autor do livro The Myth of The Rational Voter (O mito do eleitor racional), mostra que muitos dos temas da agenda “gerencial” ou de mercado vão contra as intuições do eleitor médio. Um dos vieses tradicionais dos eleitores é a tendência de sempre desconfiar ou não entender bem os ganhos de médio e longo prazos da economia de mercado. Outro é achar que a tecnologia destrói empregos. Ou que a economia está sempre piorando. Imagine o quanto é difícil dizer numa campanha eleitoral que “precisamos ir além na reforma trabalhista, flexibilizando mais alguns pontos da legislação, para estimular a competição e a produtividade, mas no longo prazo todos irão ganhar”. Ou então “vamos abrir a economia e será ótimo que as nossas empresas concorram com o pessoal que vem de fora”. Será que esse tipo de discussão está na cabeça das pessoas? Eu me lembro do (ex-governador de São Paulo) Geraldo Alckmin, do Henrique Meirelles (ex-presidente do Banco Central e ex-ministro da Fazenda) e do João Amoêdo (fundador do partido Novo) tentando colocar essa discussão na pauta em 2018. Não vingou. A pergunta é: será que neste ano vai ser diferente? Provavelmente, não.

Agora, quando falei que alguns analistas estão dizendo que as questões econômicas vão pautar as eleições, estava me referindo a coisas mais básicas, como salário mínimo, renda, desemprego, inflação, preços de alimentos, juro alto, e não a aspectos de política econômica macro, coisa de economista.

Considero estas questões como sociais. Elas estão no radar das pessoas, porque a eleição vai acontecer ainda num cenário de inflação e de juros altos, embora eventualmente em declínio. O problema é que há um certo risco aí de o debate enveredar pelo populismo, de um candidato dizer que isso está acontecendo por causa desta ou daquela reforma, que precisa ser revista, ou prometer um programa de transferência de renda ainda mais robusto que o que temos hoje. Não digo que isso irá acontecer, mas é um risco. O Lula, obviamente, é o candidato que tem a sua história mais associada a esses temas e uma narrativa econômica vinculada a conceitos como crescimento, salário mínimo, trabalhador, renda, pobreza. Isso remonta a sua história no sindicalismo e à memória positiva de seu governo. Ele não é um personagem da guerra cultural e fala com um País que a esquerda hoje tem dificuldade em falar. Diria que a pauta social, em sentido amplo, é uma espécie de chão da fábrica do Lula, tanto quanto a agenda conservadora no plano comportamental é para o Bolsonaro. Ele se sente bem falando de armas, do combate às políticas de gênero, da soberania nacional, do risco das reservas indígenas, da “nossa” Amazônia. A defesa que ele passou a fazer mais recentemente das “liberdades” e mesmo a agenda econômica liberalizante ficam estranhas em Bolsonaro. Soam distantes de suas convicções, além de ter um apelo eleitoral duvidoso, como falei há pouco.

Como o sr. vê as perspectivas dessas narrativas nas eleições de 2022? Quais devem se sobressair?

Acredito que, neste início de ano, três grandes narrativas surgem como as mais potentes. Uma, como falamos, é a que olha para trás, que é a narrativa do Lula, dizendo “nós precisamos retomar algo que perdemos, precisamos de uma liderança que em algum momento entregou algo positivo para o País”. O Lula tem 45% ou 48%, nas pesquisas, sem deixar claro o que vai fazer no governo. Há muita gente preocupada com o teto de gastos, horrorizada com a quebra feita pela PEC dos Precatórios, apreensiva com a continuidade das reformas, mas não dá lá muita bola quando o Lula diz que é contra o teto e que vai reverter a reforma trabalhista. Muita gente faz o seguinte raciocínio: “O Lula já disse muito coisa nessa linha, mas depois teve aquela boa gestão econômica com o (Antonio) Palocci (ex-ministro da Fazenda), lá atrás”. O Lula é um extraordinário estrategista e sabe lidar bem com a ambiguidade. Acena para a esquerda na segunda-feira e na terça, para o Geraldo Alckmin. De certo modo, entende a complexidade brasileira. Ele pode até manter seu apoio a ditaduras latino-americanas, porque sabe que, no fundo, ninguém está preocupado com isso. Seu governo está fortemente associado a um momento positivo da vida brasileira, independentemente de ele ter se beneficiado do ciclo de alta das commodities no mercado internacional. Acredito que o Lula também venceu o jogo no tema da corrupção. As decisões do Supremo equivalem, de modo geral, no debate público mais amplo, a um atestado de idoneidade para ele. Não entro no mérito se a decisão foi certa ou errada, mas é um fato. Esse cenário, evidentemente, pode mudar com o debate eleitoral. É o que nós vamos ver nos próximos meses.

Fora a narrativa do Lula, que outras devem se destacar e ter mais alcance na campanha?

Outra narrativa que surge com potência é a do Bolsonaro. Além de privilegiar pontos como “não me deixaram governar” e “houve a pandemia, o sistema, o Supremo, e eu preciso de mais uma chance”, a narrativa do Bolsonaro deve focar no argumento clássico de qualquer candidato à reeleição: “Quatro anos estão longe de ser o suficiente, preciso completar a minha obra”. Obviamente, haverá a tradicional apresentação das “conquistas” do governo, centrada na agenda de infraestrutura e de parcerias com o setor privado, coordenada pelo ministro Tarcísio (Gomes de Freitas, da Infraestrutura), e em alguns ganhos regulatórios, como os marcos do saneamento e das ferrovias. É previsível também que ele se volte ao público conservador e ao chamado “bolsonarismo identitário”, que é o público que esteve nas ruas, nas motociatas, nos aeroportos e nas manifestações de 7 de setembro. É a sua base de segurança, que ele considera como sendo suficiente para ir ao segundo turno. O sinal de que ele deve seguir esse caminho foi a indicação do André Mendonça (ex-advogado-geral da União) para o STF, que representou um momento de reconexão do Bolsonaro com o público conservador. Teve um simbolismo aí. A oposição satirizou a vibração da Michelle Bolsonaro, mas isso tem um significado para o público evangélico. A rigor, a grande entrega do Bolsonaro para o público conservador foi o André Mendonça. Ele vai dizer “olha, fiquem comigo, porque sou a melhor chance de vocês terem mais ministros no Supremo”, “eu sou a chance dessa agenda conservadora ter algum avanço, mesmo que seja pequeno”, “a gente já viu que o Congresso é difícil, que o País é difícil, mas do outro lado tem o Lula”. O grande problema de Bolsonaro é ir além disso. Sua rejeição, hoje, está acima dos 60%. Ele perdeu o eleitor médio, ou grande parte dele. No momento, parece um candidato forte para ir ao segundo turno, mas frágil para ganhar a eleição. De novo, o debate eleitoral pode alterar isso, mas é o quadro que está aí.

Na economia, qual deve ser a narrativa do Bolsonaro, já que ficou claro que ele não se identifica de fato com a agenda liberalizante defendida pelo ministro Paulo Guedes?

Uma questão relevante é saber se Bolsonaro irá manter ou não o Paulo Guedes como formulador da política econômica e seu interlocutor com o mercado. Será que, hoje, o Paulo Guedes tem condições de ser e será o avalista do programa econômico do Bolsonaro? A minha impressão é de que o Bolsonaro não tem alternativa. É difícil que ele disponha de um economista da estatura do Paulo Guedes para cumprir essa missão. Agora, se isso se confirmar, acredito que o Paulo Guedes terá de ir ao mercado e dizer: “Olha, as nossas privatizações não deslancharam, as reformas administrativas e tributárias não andaram, mas agora tudo isso irá andar”. Não será um trabalho fácil, mas acho que ele vai dizer que, apesar das dificuldades, o governo conseguiu aprovar a Lei da Liberdade Econômica, a reforma da Previdência, a autonomia do Banco Central e o novo marco do saneamento. Deverá ressaltar também a aceleração das PPPs (Parcerias Público Privadas) e retomada da economia no pós-pandemia. A esquerda dirá que tudo foi uma política neoliberal irresponsável e o centro liberal dirá que foi uma agenda pífia, que deixou para trás reformas importantes, que nenhuma privatização relevante foi entregue e coisas do gênero. O governo, provavelmente, vai responder dizendo “nós fomos atropelados pela maior pandemia dos últimos 100 anos, que perdura até hoje”. Mas a verdade é que o próprio governo perdeu a crença na agenda de reformas e a pauta de Paulo Guedes nunca foi, de fato, a pauta do governo.

E, entre as narrativas da terceira via, qual deverá ser a dominante, na sua avaliação?

Uma das incógnitas da campanha é saber se a agenda ética e moralizadora, que põe a corrupção no centro do jogo e é herdeira da Lava Jato, está viva o suficiente e será capaz de alterar o cenário eleitoral. Disso vai depender muito do futuro da candidatura do Moro. Ele está fazendo um esforço para ampliar a sua pauta, na direção do centro liberal. O convite ao economista Affonso Celso Pastore é um sinal importante desta estratégia. É um aceno para uma parcela do eleitorado que historicamente seguiu o PSDB. Um dos grandes problemas da terceira via, hoje, é o fato simples de que Lula vem ocupando boa parte de seu espaço. Vem, literalmente, encurtando o seu terreno. O namoro com o Alckmin cumpre esse papel. A perspectiva de uma chapa Lula-Alckmin lança a seguinte questão para os eleitores que estão mais ao centro: “Se eu tenho a chance de votar nesse sujeito aqui, que fez uma aliança com o PSDB histórico, com setores reformistas representados pelo Alckmin, por que vou apostar em um candidato que aparece com 3% ou 5% nas pesquisas, cuja viabilidade eleitoral é remota? Então, acredito que a gente caminha para mais uma eleição polarizada. Só que, desta vez, o Lula está sabendo ocupar os espaços ao centro, coisa que Bolsonaro terá muita dificuldade em fazer.

Olhando para o cenário hoje, então, o sr. não vê muita chance de o Moro ou o Doria chegar ao segundo turno?

O Moro teve um crescimento quando lançou a candidatura, mas vem tendo dificuldades para continuar crescendo. Não estou dizendo que ele não possa crescer. Mas é difícil. Ele precisa de estrutura partidária, de uma aliança política grande, de um argumento mais abrangente do que esse de ter sido o juiz da Lava Jato. A pauta anticorrupção é insuficiente para alavancar uma candidatura. Não é a grande pauta brasileira hoje. Então, o Sérgio Moro vive esse dilema. Ele é um quadro preparado e sua candidatura tem charme, apelo, história, mas a campanha presidencial exige mais do que isso. No caso do Doria, vejo um desafio ainda maior. Como já falamos, ele terá de encontrar uma forma de mostrar para um eleitorado de massa, que não é o de São Paulo, que o Brasil precisa de um gestor e de uma agenda modernizante. Seus argumentos mais forte são “eu fiz a vacina, nós temos o Butantan" e "São Paulo cresce mais do que o Brasil”. O problema é que isso pode parecer algo arrogante. O Doria também quebrou pontes com o eleitorado conservador e vai precisar desse eleitorado se quiser tirar o Bolsonaro do jogo e ir para o segundo turno. Ele tem estrutura, discurso e coisas para mostrar. Será um desafio e tanto.

O sr. disse que a pauta “gerencialista” não tem apelo eleitoral, mas em 2018 o grupo que a defende acabou sendo o fiel da balança, ao apoiar o Bolsonaro no segundo turno.

E pode fazer a diferença de novo agora. O chamado mercado, um amplo conjunto de forças econômicas, empresas, operadores dos mais variados setores da economia, talvez até preferisse o Doria: Mas o pessoal diz o seguinte: “O Doria tem mais a nossa cara, defende as nossas pautas, sem a instabilidade e as vacilações de Bolsonaro. Só que ele tem apenas 5% nas pesquisas”. O mercado, em geral, tem uma percepção muito pragmática da política. Isso significa que eles vão pesar dois fatores. De um lado, algum compromisso com as reformas; de outro, a viabilidade eleitoral. Não é um voto ideológico. Se o Doria tivesse 15% nas pesquisas, o candidato do mercado seria ele. Como não tem, uma parte pensa: “O Bolsonaro tem 25% e bem ou mal tem o Paulo Guedes lá, que fez a reforma da Previdência e deu autonomia para o Banco Central”. Outra parte tenta imaginar um Lula moderado, com alguém como o Meireles no comando da economia. Então, é difícil quebrar a polarização, pois ela realimenta a “fuga do centro” e alimenta a si mesma. A gente tem de lembrar também que o chamado centro liberal, no Congresso, votou quase sempre com o governo, na agenda econômica. Apoiou a nova Lei das Ferrovias, a autonomia do Banco Central, a reforma da Previdência, o marco regulatório do saneamento e outras medidas liberalizantes. O desafio de Moro e Doria agora é mostrar são competitivos. Ultrapassar a barreira dos dois dígitos nas pesquisas, e a partir dai entrar no jogo de verdade. Mas não vai ser fácil romper essa polarização. Durante vinte anos, nós ficamos numa polarização PT/PSDB. Foi muito difícil quebrar isso. Quem quebrou foi o Bolsonaro, porque o clima do País mudou, porque o PSDB, assim como o PT, também cansou, por causa dos escândalos que atingiram o Aécio Neves (ex-governador de Minas e ex-presidente do PSDB), por “n” razões. Mas durou seis longas eleições. Quem é mais à direita, antipetista, pode até achar o Bolsonaro inviável. Mas, quando olha para o outro lado e vê o Lula, o Bolsonaro volta a se tornar uma “bola de segurança”. Com o Lula, acontece isso também, mas em escala bem menor.

Em 2018, o Bolsonaro se colocou contra a “velha política” e no governo acabou se aliando ao Centrão. Até que ponto isso também deve afetar a narrativa do Bolsonaro nestas eleições?

O Bolsonaro sempre foi um integrante do sistema. Ele se apresentou como um candidato do anti-establishment, mas foi rapidamente reabsorvido, no plano operacional da política, mas também no plano simbólico. O ápice disso foi o ingresso no PL, um partido do Centrão. Hoje, objetivamente falando, quem sustenta politicamente o governo Bolsonaro é extrato mais tradicional do sistema político brasileiro. Por aí, ele realmente perdeu o charme. Acho que, nestas eleições, aqueles fenômenos das grandes candidaturas alternativas, do qual o (ex-governador Wilson) Witzel (que sofreu impeachment), no Rio de Janeiro, talvez tenha sido o exemplo mais notório, mas houve muitos outros, como o (governador mineiro Romeu) Zema e vários parlamentares, na Câmara dos Deputados, terão mais dificuldade para se eleger. De alguma forma, o sistema retomou o controle do jogo, no interesse do governo e em certa medida sob o comando do próprio governo. No sistema político brasileiro quem comanda a agenda política do Congresso é o governo. O presidente é o príncipe do sistema. Esse é o nosso modelo de “presidencialismo de coalização”. O Bolsonaro iniciou o governo contrariando essa norma e está terminando perfeitamente ajustado a esse padrão. O governo começou sem base no Congresso e está terminando com base. É uma base um tanto disforme, mas ela existe, está lá. Tem sido majoritária. Seu grande operador hoje é o (deputado) Arthur Lira presidente da Câmara. Nós voltamos a um padrão de coalizão majoritária no Congresso, a um custo muito alto. Acho que o maior símbolo disso são as emendas de relator, o fundão eleitoral. Mas está lá a coalizão governamental. O governo ganhou o comando das duas casas, especialmente a Câmara dos Deputados.

Uma última pergunta: neste cenário que o sr. traçou aqui, que é bem complicado, dá para enxergar uma luz no fim do túnel? O que pode surgir de bom desse caldeirão de narrativas?

Eu não vejo nenhuma razão para um otimismo exagerado nem para um pessimismo exagerado. Acredito que o País fez algumas reformas importantes nos últimos anos, deixou de fazer outras reformas importantes, e assim vamos. Nós não somos a Nova Zelândia nos anos 1980. Não somos um país que está dando um salto, como a Coréia do Sul deu. Somos um país em que é difícil fazer reformas. Mas estamos muito longe também de ser uma Venezuela. Estamos mais próximos do grupo que tem o Peru, o México, a Colômbia e o Chile, que são países que, em maior ou menor escala, têm uma política fiscal relativamente arrumada, banco central independente, programas de natureza social relativamente robustos. Na minha visão, o Brasil soube dar conta da tarefa democrática, fez um pacto nos anos 1980, fez uma Constituição, vai para a sua nona eleição, com todos os problemas que a gente conhece. Nenhuma democracia é perfeita, muito menos a nossa, que é jovem. Mas, de alguma maneira, nós soubemos lidar com a tarefa democrática nesses 35 anos. Só que, em relação à modernização do País, acho que não. Esse é o grande desafio brasileiro, a chamada tarefa de modernização. O Brasil é um país que fracassou socialmente. Nós ainda temos 13% da população vivendo abaixo da linha de extrema pobreza. Nós temos uma das piores educações públicas dos países medidos pelo Pisa, que é um teste da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) com alunos de 15 anos.

A que o sr. atribui essa dificuldade toda para o País avançar?

O (economista) Marcos Mendes, meu colega no Insper, tem razão. O Brasil é um país difícil para fazer reforma, porque tem uma classe dirigente atrasada, um Estado grande, regulador, intervencionista, que gera corporações fortes. Nós temos o Judiciário e o Congresso mais caros do mundo em relação ao PIB (Produto Interno Bruto). Um parlamentar no Brasil custa 528 vezes a renda média do País. Em segundo lugar, vem a Argentina, com 228 vezes, e a média das grandes democracias é 40. O Brasil é esse país. Até hoje, não conseguimos botar um teto de verdade nos vencimentos do funcionalismo público. A grande questão é se o Brasil vai entrar num processo mais acelerado de reformas ou vai continuar patinando. O Brasil não decidiu ainda se quer ser um país capitalista, aberto, moderno e competitivo. Esse é o ponto. Essa decisão não foi tomada. O Brasil patina nessa discussão. Essa deveria ser a grande discussão das eleições.

O Estado de São Paulo

Barra Torres: o militar que peitou Bolsonaro.




Ele é conhecido por respeitar a hierarquia da caserna, mas não costuma levar desaforo para casa. Crusoé conta a história do contra-almirante Antonio Barra Torres, chefe da Anvisa, que desafiou o presidente da República e ganhou. 

Por Fábio Leite

O staff palaciano se preparava para uma visita de Jair Bolsonaro às obras de um hospital de campanha em Goiás, em abril de 2020, bem no início da pandemia, quando um assessor saiu à caça de um colete do SUS. O presidente queria participar da cerimônia paramentado com a peça, para chamar mais atenção. Luiz Henrique Mandetta, que seria demitido do Ministério da Saúde na semana seguinte, entendeu que não era uma boa ideia. Ao ouvir o pedido do auxiliar presidencial, disse que não tinha um colete para emprestar ao chefe. Antonio Barra Torres, diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, estava pronto para atender a demanda. Ele já havia levado consigo para o evento um colete da própria Anvisa personalizado com o nome do presidente. Bolsonaro, então, seguiu o ritual de sempre: ignorou o protocolo, tirou a máscara e cumprimentou apoiadores.

Embora pareça trivial, o episódio é simbólico para quem repete como mantra a necessidade de “vestir a camisa” da instituição a que serve. É o caso de Barra Torres, de 57 anos. Contra-almirante da reserva da Marinha, ele foi escolhido por Bolsonaro para dirigir a Anvisa por ser, além de médico, um militar. Desde que ascendeu ao comando da agência como interino, no fim de 2019, Barra Torres tem feito questão de defender publicamente as decisões do órgão, que está no centro de polêmicas desde o início da pandemia, por deliberar sobre vacinas e medicamentos contra a Covid-19. Foi assim, por exemplo, nas críticas feitas por opositores do governo quando a Anvisa suspendeu os testes da Coronavac, a vacina patrocinada pelo governador paulista João Doria, no fim de 2020. E foi assim nas críticas feitas por aliados do Planalto por causa da rejeição ao imunizante russo Sputnik V, encampado pelo bolsonarismo. Nenhuma das respostas, porém, teve o tom duro usado por Barra Torres para rebater os recentes ataques proferidos contra a agência pelo próprio presidente da República.

Na noite do último sábado, 8, o chefe da Anvisa divulgou uma nota dura cobrando uma retratação de Bolsonaro pelas insinuações de que haveria algum interesse escuso por trás da decisão da agência de liberar a vacinação infantil contra a Covid. “Qual o interesse da Anvisa por trás disso aí? Qual o interesse das pessoas taradas por vacina?”, havia dito Bolsonaro dois dias antes, durante uma entrevista a uma emissora de rádio do Nordeste. “Se o senhor dispõe de informações que levantem o menor indício de corrupção sobre este brasileiro, não perca tempo nem prevarique, senhor presidente. Determine imediata investigação policial sobre a minha pessoa, aliás, sobre qualquer um que trabalhe hoje na Anvisa, que com orgulho eu tenho o privilégio de integrar”, reagiu Barra Torres. “Agora, se o senhor não possui tais informações ou indícios, exerça a grandeza que o seu cargo demanda e, pelo Deus que o senhor tanto cita, se retrate. Estamos combatendo o mesmo inimigo e ainda há muita guerra pela frente”, completou. Foi a primeira vez, desde o início do governo, que um militar enfrentou o presidente de peito tão aberto e de maneira tão eloquente, e em público.

Barra Torres passou a tarde de sábado discutindo com os outros quatro diretores da Anvisa o teor da resposta que deveria dar a Bolsonaro. Havia um consenso de que era preciso repelir publicamente as insinuações do presidente depois que os próprios dirigentes da agência passaram a ser alvo de ameaças por causa da liberação da vacina da Pfizer para crianças de 5 a 11 anos, aprovada em dezembro – as ameaças estão sendo investigadas pela Polícia Federal. Algumas versões da nota foram rascunhadas, mas Barra Torres considerou o conteúdo técnico demais. Ele quis dar um peso mais político ao texto e, por isso, redigiu uma carta de cunho pessoal, destacando sua trajetória com valores defendidos pelo bolsonarismo: a formação militar, a família e a religião. Ao assinar a nota, Barra Torres faz questão de pontuar que, além de presidente da Anvisa, é médico e contra-almirante da Marinha, o que ressaltou o feito inédito.

O tom surpreendeu o Planalto e os funcionários da Anvisa, que já esperavam um posicionamento do chefe em defesa da instituição. Bolsonaro, por óbvio, não gostou. O presidente se queixou da carta dizendo, primeiro, que ela era “agressiva” e que “não tinha motivo para aquilo” porque “ninguém acusou ninguém de corrupto”. Depois, criticando Barra Torres por desrespeitar valores que são caros aos militares. “Aqui não é um quartel, mas devemos ao máximo zelar pela hierarquia e disciplina, senão não funciona. Não briguei com o presidente da Anvisa. Questionei sobre um assunto que tinha de ser questionado”, afirmou, durante discurso no Palácio do Planalto. O presidente também disse que Barra Torres “ganhou luz própria” após assumir mandato na Anvisa e que “se tivesse tido convivência” com ele, “talvez não o tivesse indicado”. No fim das contas, Bolsonaro “afinou”. Foi obrigado a recuar porque, se mantivesse viva a suspeita, poderia ser instado judicialmente a provar o que disse. Alternativamente, se houvesse algum elemento concreto que embasasse a afirmação, restaria a pergunta: como autoridade pública, por que ele não agiu antes? Se não agiu, prevaricou. O xeque-mate de Barra Torres deu certo.

Para militares da reserva ouvidos por Crusoé, a “independência” assegurada pelo mandato de cinco anos na agência deu a Barra Torres a segurança necessária para destoar do comportamento padrão de integrantes das Forças Armadas com cargos no governo e rebater Bolsonaro — o mandato do contra-almirante vai até dezembro de 2024. “Creio que esse posicionamento esteja mais ligado até à natureza do cargo que ele ocupa, com mandato estabelecido e do qual não pode ser demitido, do que ao fato de ele ser da Marinha, que sempre foi uma força mais discreta e diplomática que o Exército, onde o presidente tem mais influência porque foi onde ele fez a carreira militar”, afirma um general da reserva que já atuou no governo.

A relação entre Barra Torres e o presidente teve início em 2013, quando Bolsonaro ainda era deputado federal e visitou o Hospital Naval Marcílio Dias, onde o contra-almirante era diretor, no Rio de Janeiro, para acompanhar a entrega de equipamentos comprados com dinheiro de emendas parlamentares. Bolsonaro estava acompanhado dos três filhos políticos na ocasião e a ótima impressão deixada por Barra Torres fez com que o clã passasse e prestigiá-lo com menções nos inúmeros eventos militares nos quais eles se encontrariam dali em diante. Em fevereiro de 2019, o oficial entrou para a reserva remunerada da Marinha, depois de trinta anos na força, e comunicou a Bolsonaro em um encontro da corporação que estava à disposição para assumir qualquer “missão” no governo. Meses depois, veio o convite para assumir o cargo de diretor da Anvisa. Ao ser sabatinado no Senado, o contra-almirante foi questionado sobre como agiria sob pressão. “Pressão a gente recebe, depura e continua trabalhando”, respondeu.

Àquela altura não havia a pandemia, mas a Anvisa já estava sob forte pressão. Os bolsonaristas estavam inconformados com a tentativa do então presidente da agência, William Dib, indicado por Michel Temer, de aprovar a liberação do plantio de maconha para fins medicinais no Brasil. Eles queriam emplacar um dos seus na estrutura do órgão. Referenciado pela cúpula militar, Barra Torres foi nomeado por Bolsonaro e, meses após assumir o cargo, ajudou a barrar a medida, cacifando-se para assumir o comando do órgão em 2020, após o término do mandato de Dib. Pesou a favor a formação religiosa de Barra Torres, que é cavaleiro da Ordem de Malta, uma organização que surgiu no século XI como um braço militar da Igreja Católica e hoje promove ações humanitárias. Vez ou outra, ele usa uma máscara de proteção contra a Covid com a insígnia do grupo religioso.

Rotulado como o “diretor bolsonarista da Anvisa”, Barra Torres causou desconfiança interna ao recrutar outros militares para o seu gabinete – seus dois principais auxiliares são oficiais do Exército. O trabalho na agência exige conhecimento e atuação eminentemente técnicos, e havia receio de que ele agisse guiado pelos interesses políticos do Planalto. O temor se agravou depois que Barra Torres participou, sem máscara, de uma manifestação a favor de Bolsonaro e contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal, em Brasília. Na ocasião, a associação que representa os funcionários da Anvisa divulgou uma nota de repúdio, manifestando “consternação” com a atitude, que contrariava as orientações da Organização Mundial da Saúde, a OMS.

Antes disso, Barra Torres já havia aconselhado Bolsonaro a desautorizar o então ministro Luiz Henrique Mandetta e determinar a revogação da ordem que impedia a saída de cruzeiros no país para tentar frear a disseminação do coronavírus. De pronto, foi atendido. O presidente também explorou politicamente outras decisões da agência, como a que suspendeu temporariamente os testes da Coronavac, no fim de 2020, após a ocorrência de um “evento adverso grave não esperado” — depois registrado como suicídio de um voluntário, sem qualquer relação com o imunizante. Na ocasião, Barra Torres convocou uma coletiva para reafirmar que a decisão era “técnica” e negar que tenha havido qualquer interferência política. A atuação à frente da agência rendeu um convite para participar da live semanal que Bolsonaro promove em suas redes sociais. Na transmissão, no início de 2021, as primeiras divergências envolvendo a vacinação começaram a ficar mais explícitas. “Você vai vacinar?”, perguntou Bolsonaro. “Eu vou, é claro. A vacina que tiver no posto”, respondeu o chefe da Anvisa. “Eu vou te acompanhar”, emendou o presidente. “Já é um começo”, completou Barra Torres.

Bolsonaro começou a live ressaltando a autonomia da Anvisa. “Deixo bem claro que a Anvisa é um órgão independente, não faz parte do meu governo”, disse. Considerado “metódico” e “regimentalista” pelos colegas de trabalho, Barra Torres levou a blindagem garantida pela lei ao pé da letra, como deve ser. Seu desprendimento do bolsonarismo foi escancarado na CPI da Covid no Senado. A percepção de senadores de oposição que viam o contra-almirante com ressalvas mudou assim que ele assumiu o microfone e confirmou a existência de uma reunião revelada também em depoimento pelo ex-ministro Mandetta, na qual integrantes do chamado “gabinete paralelo” discutiram alterações na bula da cloroquina para usar o medicamento contra a Covid. Aos senadores, Barra Torres disse ter sido contra a ideia defendida pelos bolsonaristas porque os estudos mostram que o remédio não tinha eficácia comprovada.

“Foi um divisor de águas para os olhos do G7 (grupo majoritário da CPI) por uma série de fatores”, avaliou Omar Aziz, que presidiu a CPI. “Ele contou ter sido ‘deselegante’ ao rejeitar a ideia de mudança da bula da cloroquina para a prescrição a pacientes com Covid. Falou em favor do isolamento. Nos explicou de forma didática o ‘não’ da Anvisa a algumas das vacinas. Eu, que havia perguntado por que a Sputnik não seria boa se até Vladimir Putin havia tomado a vacina, tive o esclarecimento de que a agência não poderia atestar a segurança do imunizante por não ter informações de todos os doze laboratórios que o fabricavam. Naquele momento, vimos que ele não priorizava mais o alinhamento com o Planalto”, completou o senador. Desde então, Aziz estreitou laços com Barra Torres. No dia em que o chefe da Anvisa cobrou uma retratação de Bolsonaro, Aziz havia lhe mandado um vídeo em que demonstrava apoio à equipe técnica da agência. Recebeu um agradecimento pela solidariedade.

Para um ex-colega de trabalho, Barra Torres percebeu rapidamente que, se não se vacinasse contra as sandices bolsonaristas, sofreria um dia as mesmas consequências que hoje pesam sobre o general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde que foi alvo de um pedido de indiciamento da CPI e é investigado pelo Ministério Público Federal. Entre a credencial de “amigo do presidente” e o colete da Anvisa, Barra Torres optou pelo segundo.

Revista Crusoé

A China pode unir ou contagiar o Ocidente




A existência de um inimigo comum faz com que as pessoas coloquem de lado as diferenças e se unam contra a ameaça. O risco aqui é combater o rival e ficar como ele.

Por Adriano Gianturco

O historiador romano Salústio acreditava que o metus hostilis (medo do inimigo) fomentasse a coesão social e que sua ausência gerasse discórdias internas. Segundo ele, a vitória de Roma sobre Cartago gerou um vácuo que levou ao seu declínio. É o two-level game de Putnam.

A existência de um inimigo comum faz com que as pessoas coloquem de lado as diferenças, foquem nas semelhanças e se unam contra a ameaça. Como notoriamente falou Condoleezza Rice: “Precisamos de um inimigo comum para nos unir”. Somos seres tribais, “o inimigo do meu inimigo é meu amigo!”.

Estudos psicológicos mostram que atitudes negativas contra terceiros criam uma ligação maior que atitudes positivas (Bosson, 2006). A identidade se cria na contraposição.

O que uniu os nazistas foram os judeus, o que uniu os Aliados foram os nazistas, o que uniu comunistas e socialistas foram os ricos, o que uniu os EUA foram os comunistas e a URSS.

A guerra das Falklands fez aumentar a popularidade de Margaret Thatcher, e a guerra no Kosovo, a de Bill Clinton. É o efeito rally ‘round the flag: durante uma guerra, não se troca de comandante. E, ao contrário, depois da queda do Muro de Berlim, mais presidentes dos EUA passaram por processos de impeachment do que nos dois séculos precedentes. Mas, com a implosão da URSS, o escritor John Updike se pergunta: “Sem Guerra Fria, qual sentido de ser norte-americano?”.

O historiador Rossiter já escreveu: “Nada como um inimigo para acelerar uma nação no caminho da autoidentificação”.

Mas nem sempre. Depois do 11 de setembro, o número de norte-americanos que colocaram a bandeira fora de casa subiu vertiginosamente para 82%, mas, no longo prazo, a Guerra ao Terror não gerou maior coesão social, nem tendo sido atacados em pátria. O inimigo não era um país oficial e definido, era disperso demais. A Guerra Fria nos uniu, mas a Guerra do Vietnã nos dividiu. Não há garantias.

Mas a falta de um inimigo comum faz com que se olhe para dentro, e inevitavelmente se notarão diferenças intragrupais. Essa falta foi um dos fatores que contribuíram para as recentes divisões e a polarização no Ocidente. A ausência de inimigos externos incentiva a encontrar inimigos internos. A ausência de guerras (externas) permite o surgimento de guerras civis. E já se fala de woke civil war.

A geração dos anos 1920 teve os nazistas da Segunda Guerra Mundial, seus filhos tiveram os comunistas na Guerra Fria e seus netos, sem inimigos nem guerras, encontraram uma causa maior (as pessoas não aceitam a pequenez da própria vida) na desigualdade, no racismo, no machismo e outros problemas dos EUA. Politicamente correto, social justice warriors, apropriação cultural, mansplaining, racismo estrutural, teoria de gênero foram os meios usados e as bandeiras ao redor das quais se uniram contra uma parte da sociedade norte-americana. A primeira geração da História criada sem bullying canalizou suas frustrações nos linchamentos virtuais e cancelamentos seriais. Há algo de catártico no linchamento: se gera coesão social, as pessoas se sentem boas e desafogam os próprios instintos negativos. Alguns falam de “necessidade de ter aliados e inimigos”.

O inimigo pode ser real ou imaginário, ou até criado intencionalmente (a “hipótese do bode expiatório”), mas com certeza há sempre uma discussão a respeito.

Antes da eleição de Trump, os EUA viam como maior inimigo a Rússia de Putin. Foi Trump a entender de onde vinha a maior ameaça e direcionar os holofotes para Pequim. E hoje sempre mais se fala de “Segunda Guerra Fria”, com a China. Faltam ainda as guerras periféricas. O dinamismo e o protagonismo de Xi Jinping (veja a relação com Hong Kong, Taiwan, Austrália e Suécia, a ação no Mar do Sul da China, etc.) também ajudaram muito a entender quem é o verdadeiro maior rival da superpotência norte-americana. Trump denunciou a crescente influência chinesa nas organizações internacionais (a estratégia de deixar o PCC entrar na governança global multilateral para que aprendesse as regras e os hábitos das democracias liberais não funcionou, vide OMS), e a estratégia foi abandoná-las. Mas isso deixou ainda mais espaço ao adversário. Em lugar de isolar o rival, se autoisolou! O diagnóstico estava certo, o remédio, errado.

Agora Biden, com o Summit for Democracy, está tentando fazer o contrário: unir as democracias e isolar a China. Não é tarefa fácil, até quando a China continuar a representar uma série de incríveis oportunidades econômicas, muitos países continuarão a escolhê-la como parceiro. China, Japão, Coreia do Sul, Austrália e outros acabaram de assinar um novo acordo comercial (RCEP). Ou seja, não depende só de nós.

Ao mesmo tempo, do ponto de vista político, a China está gerando sempre mais inimizades ao redor do mundo (Índia, Chile, Suécia, Austrália, Japão, Coreia do Sul), exatamente como consequência dessa atitude mais “ativa e altiva”. Afinal, seus aliados atuais parecem ser só Coreia do Norte e Venezuela.

O cenário mais provável é que esse Summit acabe em nada de concreto. Mas, ao mesmo tempo, iniciativas como essa, QSD (ou Quad), Aukus, ou a vacina da diplomacia entre EUA, Índia e Austrália, mostram, pelo menos, uma tomada de consciência. Nos principais países, esquerda e direita concordam. Alguns ainda não entendem, mas campos de concentração/reeducação, trabalho escravo, censura, desigualdade, racismo, xenofobia, machismo, direitos humanos das minorias étnicas e religiosas, direitos das mulheres e dos gays, falta de democracia, rule of law, privacidade são temas caros a todos, e, se focar nisso, eles também podem convergir.

Sun Tzu sugeriu que, “para entender o inimigo, você precisa ficar como ele”; Nietzsche e Marco Aurélio alertam exatamente contra esse perigo.

Na pandemia, as democracias liberais ocidentais imitaram os lockdowns do regime totalitário chinês; os Bancos Centrais norte-americanos e ingleses estão já estudando a hipótese de criar criptomoedas estatais, como a Yuan Digital; Biden já sugeriu a Boris Johnson que deveriam elaborar uma iniciativa similar à Nova Rota da Seda; o crescimento do PIB per capita chinês fascina a opinião pública de alguns países pobres. O risco aqui é combater o rival e ficar como ele: planejamento central compulsório, totalitarismo high-tech e falta de liberdade, o que o historiador escocês Niall Ferguson chama de “osmose de guerra”. Uma vitória assim não seria uma vitória.

*Adriano Gianturco é professor de Relações Internacionais do IBMEC-MG

Revista Oeste

Duelo retórico Rússia-Ocidente em meio a tensões na Ucrânia




Negociações entre Moscou e potências ocidentais não trazem alívio ao conflito envolvendo Kiev. Especialistas preveem uma escalada promovida por Moscou, que aposta em esticar a corda cada vez mais.

Por Roman Goncharenko e Alexander Savitsky

A reunião da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) desta quinta-feira (13/01), em Viena, marcou o fim da primeira rodada de negociações entre a Rússia e o Ocidente.

A semana começou com uma reunião bilateral entre Washington e Moscou, em Genebra, seguida de conversas com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan )em Bruxelas. Antes, no fim de 2021, houvera aberturas diplomáticas inesperadas por parte da Rússia.

As agendas giraram em torno da política de segurança na Europa e da potencial adesão à Otan de ex-Estados soviéticos, como Ucrânia e Geórgia. Em 2008, a Otan ofereceu a ambos a perspectiva de ingressar no bloco, sem, no entanto, fixar uma data. A Rússia ameaçou recorrer a "medidas técnico-militares", nas palavras do presidente Vladimir Putin, se o Ocidente continuar nesse caminho.

Mostrando os músculos

Uma semana de negociações não levou à aproximação das partes, nem reduziu as tensões na crise com Kiev: desde novembro, a Rússia vem reunindo tropas em larga escala nas fronteiras com a Ucrânia. Os EUA e a Otan rejeitaram a exigência de Moscou de ter direito a veto em relação à adesão de novos membros à aliança militar. No entanto, ainda levará alguns dias até Washington enviar a Moscou sua resposta oficial por escrito.

Outras conversas não estão planejadas no momento. O Kremlin anunciou repetidamente que não está interessado em discussões prolongadas e quer resultados rápidos, mas não foi estabelecido um prazo.

De qualquer forma, foi uma semana histórica. Nunca houve tantos encontros, de tantos tipos diferentes, em tão curto espaço de tempo, entre Moscou e o Ocidente. A Rússia também vem aumentando sua aposta retórica, com seus principais diplomatas comparando o conflito atual à crise de Cuba.

No início das negociações, Moscou anunciou novos exercícios militares na fronteira com a Ucrânia. Os EUA reagiram elaborando um projeto de lei que imporia sanções pessoais ao presidente Vladimir Putin. O projeto de lei – apresentado em Washington enquanto as negociações estavam em andamento em Bruxelas – seria, dizem os EUA, aplicado no caso de uma escalada da situação no país vizinho.

'Putin ameaça recorrer a medidas "técnico-militares"

Diplomacia russa estridente

Mesmo antes do início das negociações, o tom estridente e grosseiro da diplomacia russa impressionava. O chefe da delegação russa em Genebra, Sergey Ryabkov, exortou a Otan "a fazer as malas e retirar-se para as linhas de 1997". Naquele ano, a Polônia, República Tcheca e Hungria, ex-Estados do Pacto de Varsóvia, receberam pela primeira vez a perspectiva de adesão à Otan, seguidas por mais países do Leste Europeu nos anos seguintes.

A Rússia pediu a retirada das tropas da Otan e dos sistemas de armas estacionados na área depois de 1997. Mais tarde, fontes próximas aos negociadores russos disseram que Moscou "mastigou" as coisas com Washington, e reclamaram da "mentalidade estreita" dos EUA.

Essa é realmente a linguagem de quem quer conquistar seu adversário? Será um sinal de que Moscou nunca acreditou que as negociações dariam frutos?

"O ultimato que a Rússia deu aos Estados Unidos e ao Ocidente não tinha perspectiva de sucesso desde o início", comentou o ex-vice-ministro do Exterior da Rússia, Georgiy Kunadze, à DW. A retórica grosseira de Moscou era mais para o público russo. Por outro lado, palavras duras não significam que o tiroteio está para começar, ressalvou.

Rüdiger von Fritsch, o ex-embaixador alemão em Moscou, vê as coisas de forma semelhante. "O que estamos vendo atualmente é uma linguagem forte como parte de uma demonstração muito agressiva. A Rússia está tentando elevar ao máximo a pressão para mudar unilateralmente a ordem de paz europeia e suas regras, acordadas em conjunto, às custas de terceiros."

Ele não descarta totalmente que a situação se acirre – também à luz das "enormes expectativas na frente doméstica russa", que são "preocupantes". Para Von Fritsch, a liderança russa deveria considerar como se livrar dessa situação. Ele não acredita, entretanto, que essas palavras fortes sejam necessariamente seguidas por um conflito militar. "Não precisa ver dessa forma, isso já faz parte da performance toda."

'Tensão continua alta na Ucrânia após negociações fracassarem de fato'

Kiev quer mais armas do Ocidente

Especialistas em assuntos ucranianos têm uma outra visão da situação, e contam que haverá um aumento da agressão, após o fracasso de fato das negociações entre Moscou e o Ocidente.

"Meu prognóstico é que o próximo passo da Rússia será uma escalada", diz o analista de política externa Jevhen Mahda, segundo quem Kiev deve estar preparado para o pior. O ex-ministro do Exterior da Ucrânia Volodymyr Ohrysko pediu ao Ocidente que forneça armas adicionais a seu país.

E que sinais Moscou está enviando? Alexander Grushko, chefe da delegação russa nas negociações com a Otan, ofereceu a perspectiva de uma desescalada apenas sob certas condições: implementação completa do Acordo de Minsk, fim do fornecimento de armas e dos programas de treinamento para o exército ucraniano.

Observadores em Kiev acreditam ser bastante improvável que a Ucrânia e o Ocidente aceitem essas demandas. O especialista em política externa Fyodor Lukyanov, que é próximo do Kremlin, descreveu de forma pessimista, no jornal oficial Rossiyskaya Gazeta, como a situação poderá se desenvolver.

Ele descreve as diferenças como "aparentemente irreconciliáveis": a lacuna de percepção entre a Rússia e o Ocidente é tão grande, que uma "nova e perigosa escalada seria necessária ou poderia ocorrer", para "forçar" as partes a novas formas de acordo. Para Lukyanov, contudo, não está ainda claro o que exatamente acontecerá.

Deutsche Welle

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