quarta-feira, dezembro 16, 2020

2ª Turma do STF arquiva inquérito contra Eunício Oliveira acusado de receber propina da Odebrecht

Publicado em 16 de dezembro de 2020 por Tribuna da Internet

Para a maioria do colegiado não ficou comprovada a acusação

Matheus Teixeira
Folha

A Segunda Turma do STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu nesta terça-feira, dia 15, arquivar inquérito que investigava se o ex-presidente do Senado Eunício Oliveira (MDB-CE) recebeu vantagens indevidas da Odebrecht. A investigação foi instaurada em 2017 com base na delação premiada de executivos da empreiteira e apurava se o ex-senador recebeu recursos ilegais para ajudar na aprovação de legislações de interesse da empresa.

Os ministros Gilmar Mendes, Kassio Nunes e Ricardo Lewandowski afirmaram que a apuração se baseia apenas na palavra de delatores e que o excesso de prazo para conclusão do inquérito representa “flagrante ilegalidade”. Assim, a maioria do colegiado votou para rever decisão do relator, ministro Edson Fachin, de remeter o caso à Justiça Federal do Distrito Federal.

FORO ESPECIAL – Fachin havia determinado a declinação de competência em 20 de maio de 2019 devido à perda de foro especial de Eunício, que não se reelegeu senador em 2018. Em 16 de agosto do ano passado, a Segunda Turma começou a analisar recurso da defesa do emedebista pelo arquivamento do inquérito.Na ocasião, Gilmar pediu vista e, agora, o julgamento foi concluído em favor de Eunício.

A PGR (Procuradoria-Geral da República) apurava a veracidade das delações que apontaram que o emedebista recebeu R$ 2,1 milhões para atuar em favor da medida provisória que disciplinou o chamado Regime Especial da Indústria Química (REIQ). Com a MP, foi aprovada a desoneração fiscal que beneficiou diretamente a Braskem, braço empresarial do Grupo Odebrecht no setor petroquímico.

Gilmar disse que trata-se de “inquérito natimorto que perdura quase três anos em evidente prejuízo ao paciente”. “Já foram produzidas praticamente todas as provas possíveis, de modo que a PGR postula reiteração de diligência que se demonstraram infrutíferas, como cópia de email que Claudio Melo Filho se comprometeu em apresentar 2017”, disse, em referência a um dos ex-diretores da Odebrecht que firmou acordo de delação.

ACUSAÇÕES “GENÉRICAS” – Gilmar ressaltou que as acusações são “excessivamente genéricas” e que inexiste descrições precisas das circunstâncias do suposto crime. “A referida norma foi efetivamente aprovada e depois convertida em lei. Contudo, inexistem os alegados indícios de obstrução ou de atuação indevida do agente na aprovação da referida lei”, observou.

Kassio Nunes seguiu a mesma linha e disse que a investigação “não conseguiu reunir um lastro probatório mínimo” para que tenha continuidade. “Foi apenas balizada em depoimentos de colaboradoras em planilhas com anotações produzidas unilateralmente, sem a devida corroboração com os demais elementos informativos colhidos até então, e que sobretudo não foram suficientes para formação da opinião delitiva do MPF, representando uma flagrante ilegalidade”, afirmou.

EVIDÊNCIA SEGURAS – Lewandowski, por sua vez, ressaltou que não conseguiu “identificar evidências seguras para justificar a continuação” de investigação iniciada em abril de 2017. Fachin, porém, defendeu a manutenção de sua decisão e disse que seria adequado dar prosseguimento

“Há colaboração premiadas, elementos de corroboração, informações prestadas e relatórios de análises que, somados à minuciosa manifestação da PGR, no meu modo de ver, permitiram o prosseguimento das investigações”.


Piada do Ano ! Após semanas, Bolsonaro reconhece derrota de Trump e diz que mandou mensagem para o ‘presidente Biden’

Publicado em 16 de dezembro de 2020 por Tribuna da Internet

Bolsonaro esgotou suas desculpas e agora ensaia “aproximação”

Victor Farias e Daniel Gullino
O Globo

 Quase seis semanas depois de a vitória de Joe Biden na eleição americana ter sido projetada, em 7 de novembro, o presidente Jair Bolsonaro finalmente reconheceu em público que o democrata derrotou seu aliado, o presidente Donald Trump. Bolsonaro disse nesta terça-feira, dia 15,  em entrevista à Band que mandou mensagem a Biden e que pediu ao ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, para fazer a comunicação oficial do reconhecimento do governo brasileiro ao democrata.

“Alguns minutos antes de entrar no ar eu já dei um start para o nosso ministro Ernesto Araújo, para ele fazer essa comunicação nossa, nas redes oficiais do governo. Depois, nas minhas redes particulares. Posso te mandar agora aqui, desligando o telefone, qual foi a mensagem que eu mandei para o presidente Biden. Da minha parte, e da parte dele com toda certeza, o americano é pragmático, nós vamos fazer um trabalho de cada vez mais aproximação”, disse.

VITÓRIA DE BIDEN – Na segunda-feira, o Colégio Eleitoral confirmou a vitória do democrata, mas a maioria dos líderes internacionais já o havia cumprimentado depois que a apuração indicou que ele venceria o pleito. Só restavam, além de Bolsonaro, o russo Vladimir Putin e o mexicano Andrés Manuel López Obrador, que parabenizaram Biden hoje mais cedo. Agora, o único dirigente internacional de expressão que não o fez foi o norte-coreano Kim Jong-un.

Em uma rede social, Bolsonaro mandou saudações a Biden e disse que está disposto a trabalhar com o novo governo, dando continuidade à “construção de uma aliança Brasil-EUA, na defesa da soberania, da democracia e da liberdade em todo o mundo, assim como na integração econômico-comercial em benefício dos nossos povos”.

Em nota de quatro parágrafos curtos, o Itamaraty repetiu a mensagem postada na rede social pelo presidente, acrescentando que ele mandou a Biden “os melhores votos e a esperança de que os EUA sigam sendo ‘a terra dos livres e o lar dos corajosos'”.

ELOGIOS – Na entrevista à Band, o presidente brasileiro fez elogios a Trump, que permanece no cargo até 20 de janeiro, quando Biden toma posse. O republicano, no entanto, ainda não reconheceu a derrota para Biden, mas está cada vez mais isolado, uma vez que seus principais aliados no Congresso já o fizeram hoje.

“Eu espero que tudo dê certo com o Biden, agora, já que os delegados reconheceram lá que ele realmente foi eleito. Não vamos discutir mais a questão se houve ou não uma eleição tranquila. Não cabe eu falar absolutamente mais nada. Esperei o reconhecimento e nós aqui já fizemos o comunicado, agora há pouco, ao presidente Joe Biden”, comentou Bolsonaro.

FORMALIDADE – Na segunda-feira, delegados dos 50 estados americanos ao Colégio Eleitoral confirmaram a vitória de Biden na eleição para a Presidência dos Estados Unidos. O processo, que geralmente é uma mera formalidade, ganhou atenção neste ano devido às ações judiciais em que o republicano, sem sucesso, contestava sua derrota.

O presidente brasileiro e o deputado federal Eduardo Bolsonaro, seu filho, chegaram a mencionar publicamente que teria ocorrido fraude nas eleições presidenciais americanas, apoiando as falsas alegações de Trump, derrotadas em mais de 50 ações judiciais, incluindo na Suprema Corte. O presidente também já afirmara que era necessário ter “pólvora” para se contrapor às posições de Biden sobre as queimadas e o desmatamento na Amazônia.

Maia tenta conter avanço de Lira e articula para manter a esquerda ao seu lado para disputa da eleição na Câmara

Publicado em 16 de dezembro de 2020 por Tribuna da Internet

Maia pode dar um tiro no pé ao não ter pressa em fechar um nome

Danielle Brant e Thiago Resende
Folha

Para barrar o flerte entre o deputado Arthur Lira (PP-AL) e a oposição, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), reuniu os partidos de esquerda nesta terça-feira, di 15,  com o objetivo de evitar dissidências que possam fortalecer a candidatura do nome apoiado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Maia convidou para uma conversa na residência oficial da Câmara líderes e dirigentes de PT, PSB, PDT e PC do B. Também estiveram presentes os dois nomes apoiados por Maia: o deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), líder da Maioria, e Baleia Rossi (SP), presidente do MDB.

ESFORÇO – A reunião ocorreu após um encontro entre partidos de oposição na qual, apesar de não ter sido batido o martelo sobre apoio definitivo a quem for indicado por Maia, ficou decidido que a esquerda vai se esforçar para aderir ao mesmo bloco e respaldar a mesma candidatura.

Alguns partidos já rechaçaram oficialmente a possibilidade de apoiar Lira ou outro nome apoiado por Bolsonaro. É o caso do PSB, cujo diretório nacional emitiu, na sexta-feira, dia 11, resolução orientando a bancada a não votar no líder do centrão ou em qualquer outro candidato que tenha o aval do Palácio do Planalto. No entanto, há integrantes da sigla que querem apoiar Lira.

Nesta terça, ao deixar o encontro na residência oficial da Câmara, o presidente do PSB, Carlos Siqueira, defendeu a união dos partidos de esquerda e centro-esquerda com o bloco de Maia para encontrar um nome de consenso que consiga “derrotar o candidato oficial do presidente Jair Bolsonaro”.

POSICIONAMENTO POLÍTICO –   “O nome é o que melhor unir, eu disse a ele [a Maia]”, afirmou Siqueira. “Eu não tenho preferência pessoal porque não se trata de pessoas, se trata de uma posição política”, afirmou. Siqueira disse ainda estar tentando convencer integrantes do partido que já sinalizaram apoio a Lira a seguir a orientação do partido e votar no candidato de Maia.

“Evidentemente, como o voto é secreto, a gente não pode controlar o voto de ninguém. Mas o PSB vai para o bloco em que estiverem os partidos de esquerda e centro-esquerda e vai votar no candidato que seja contra o candidato oficial do Palácio do Planalto”, ressaltou.

O ex-ministro Ciro Gomes (PDT), candidato à Presidência em 2018, também afirmou que a intenção da esquerda é construir uma alternativa para barrar o nome de Bolsonaro. “O que nós podemos fazer, minoria que somos, é exponencializar nossa força pelo diálogo político com outras forças que tenham conosco pontos de afinidade”, afirmou. O PDT, afirmou Ciro, deve se esforçar para conter “os danos” “nessa agenda antipovo, antinacional e antiliberdades democráticas que representam o governo Bolsonaro”.

“JÁ GANHOU”– Na avaliação de Ciro, criou-se “uma espécie de clima de já ganhou da candidatura mais vinculada ao Bolsonaro” que “desestabilizou um pouco psicologicamente” os partidos alinhados a Maia. “Nós precisamos restaurar essa psicologia para mostrar o que é evidente, que o jogo ainda está sendo jogado. Ele não está definido. E o gesto que nós formos capaz de produzir aqui vai reequilibrar esse jogo, com certeza”, ressaltou.

PT e PC do B também sinalizaram intenção de apoiar o candidato de Maia. Apesar do discurso de união, há pelo menos um partido com a intenção de lançar nome próprio no primeiro turno da disputa. O PSOL insiste na candidatura de oposição por divergir da agenda econômica de Maia, embora não descarte compor um bloco e ter independência na candidatura nessa etapa inicial da corrida pela sucessão.

Nos bastidores, integrantes da esquerda criticam a postura do PSOL e avaliam que não vale a pena ter uma votação inexpressiva apenas para marcar posição em vez de compor um bloco que possa efetivamente derrotar o candidato de Bolsonaro.

NOME PRÓPRIO – Nesta terça, Maia concedeu entrevista coletiva e contemporizou a decisão da sigla de lançar candidatura independente. “Naturalmente, o histórico do PSOL faz com que eles trabalhem com nome próprio”, disse. Depois de vários adiamentos, a definição do nome de Maia deve sair até esta quinta-feira, dia 17. O deputado minimizou a demora. “A eleição é em fevereiro”, disse. “Não acho ruim o presidente da República estar falando sozinho neste momento sobre a Câmara dos Deputados.”

Maia disse não ter pressa em fechar um nome e afirmou que isso pode ajudar a atrair mais partidos e apoio em torno de seu bloco. “As decisões, quando são coletivas, quando não são a imposição de ninguém, que são a construção de uma agenda mínima, que garanta a independência da Câmara, às vezes vai atrasar o nome.”

“Estou confiante de que a Câmara no dia 2 de fevereiro continua independente, livre de qualquer instituição e de uma agenda atrasada, retrógrada e que não vai levar o Brasil a lugar nenhum”, afirmou.

RISCO – Na oposição, a avaliação também é de que a demora pode fortalecer a candidatura do escolhido, em vez de prejudicar. Segundo líderes partidários, com um nome pactuado entre os partidos não haveria risco tão grande de cisão no bloco de apoio de Maia.Um novo encontro entre líderes e dirigentes de partidos de esquerda está previsto para esta quarta-feira.

Entre Aguinaldo Ribeiro e Baleira Rossi, há uma tendência maior em apoiar Ribeiro. Ele, por sua vez, é do PP, mesmo partido de Lira, e portanto não tem respaldo do PP para se candidatar. O bloco de Maia é formado por seis partidos (PSL, MDB, PSDB, DEM, Cidadania e PV), que reúnem 159 deputados. No entanto, calcula-se que apenas metade da bancada do PSL esteja alinhada a esse grupo. O restante, aliados de Bolsonaro, deve apoiar Lira.

VOTOS – Além do PP, a campanha de Lira afirma ter votos de PL, PSD, Solidariedade, Avante, PSC, PTB, PROS e Patriota. Juntos, eles somam 170 deputados. Mas também contam com dissidentes da oposição e do PSL. Cobiçada por Lira e Maia, a oposição soma cerca de 130 deputados, decisivos na eleição.

O voto é secreto. Por isso, a adesão de partidos a blocos não significa a garantia de votos. São necessários 257 do total de 513 para eleger, em fevereiro, quem comandará os deputados pelos próximos dois anos.

Com fracasso do Aliança pelo Brasil, Bolsonaro agora diz que se filiará a algum partido até março

Publicado em 16 de dezembro de 2020 por Tribuna da Internet

Após décadas na política, Bolsonaro finge desconhecer a burocracia

Victor Farias
O Globo

O presidente Jair Bolsonaro admitiu nesta terça-feira que acredita que o Aliança pelo Brasil não será formado e que irá escolher uma partido para se filiar até março do ano que vem. Ele disse que está negociando com uma legenda, mas não informou qual.  Mais de um ano depois, o partido que o presidente tenta criar não conseguiu reunir nem 10% das 492 mil assinaturas necessárias para o registro junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

“Eu tenho falado que mais ou menos em março eu defino. Eu acho que o partido que nós começamos a formar vai ser difícil a formação, é muito burocratizado, é complicado fazer um partido. Se fosse cinco ou seis anos atrás, se tivesse pensado isso lá atrás, eu teria um partido para mim”, afirmou em entrevista à Band.

“TUDO PODE ACONTECER” – Questionado se estaria negociando com alguma sigla, Bolsonaro afirmou que sim, mas não mencionou qual “porque tudo pode acontecer”. Em seguida, citou o PP, partido que foi filiado até 2016, o PTB, de Roberto Jefferson, e “partidos pequenos”.

“Não posso falar o nome do partido porque tudo pode acontecer. Então em março eu devo definir o partido para mim. Tenho vários partidos que estão me convidando. Tem meu ex-partido o Progressistas me convidando, fiquei muito honrado, o PTB também me convidou, estou muito honrado também, e tem outros partidos pequenos”, disse.

Passada a ressaca pós-eleições municipais, interlocutores do presidente Jair Bolsonaro deram início a estratégia para reorganizar uma estrutura partidária que acolha o chefe do Executivo rumo à disputa a uma reeleição em 2022.

DESORGANIZAÇÃO – Assessores de Bolsonaro avaliam que a maior lição do pleito municipal foi perceber quão desorganizados estão conservadores e ideológicos e que, sem uma nova estrutura, o presidente pode patinar na corrida à sucessão presidencial daqui a dois anos. Legendas que integram o Centrão e que estão alinhadas ao governo, como PP, PR e Republicanos, estão entre as opções.

Na Câmara dos Deputados, esses partidos têm dado sustentação à base aliada do governo e auxiliado na aprovação de temas importantes para a área econômica. Apesar das antigas críticas do presidente e de seus apoiadores aos partidos do Centrão, o governo Bolsonaro se aproximou desse grupo em meados de junho deste ano.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – Em manifesto divulgado há cerca de um ano, o Aliança foi apresentado como o “sonho e a inspiração de pessoas leais ao presidente Jair Bolsonaro”. E a meia dúzia de gatos pingados que tentou erguer a palhoça partidária, apelou para mutirões catando assinaturas, buscou manobras para tirar o projeto do papel e acabou morrendo na praia. Bolsonaro dá uma de inocente e culpa a “burocracia”, ignorando as três décadas que adormeceu no Legislativo e que necessariamente o respaldaria em conhecimentos sobre o assunto. Mas prefere dar uma de vítima, apostando na ingenuidade de seus seguidores. Um fato que chama a atenção em seu discurso é a sua lamentação sobre o passado: “se tivesse pensado isso lá atrás, teria um partido para mim”. Mais egocêntrico, impossível. E louco, também ! (Marcelo Copelli)

Aplicação da vacina contra a covid-tornou-se escândalo, algo que parece inevitável no Brasil


Desenhos do Nando - Rússia anuncia vacina contra COVID19! Charge em fundo branco. Um homem de pele clara usa sapatos cinzas, meias brancas na altura das canelas, bermuda azul e camiseta amarela

Charge do Nando Motta (Arquivo Google)

J. R. Guzzo
Estadão

Há dez meses a tragédia do vírus tem sido objeto de uma deslavada, ininterrupta e maciça campanha de exploração política por parte de governantes obcecados pelas vantagens materiais que podem tirar da desgraça comum. Não são apenas os homens públicos. É também o sistema de interesses que vive em torno deles – e todo o bloco de militantes e de bem intencionados que, como de costume, se aproveita ou se deixa conduzir pelos ruídos que combinam melhor com os seus desejos e com aquilo que imaginam ser as suas ideias.

A vacinação contra a covid, obviamente, deveria ser um tema de concórdia, de harmonia e de cooperação entre todos os que têm alguma responsabilidade em relação às questões mais elementares da saúde pública. No Brasil, até este momento, tem ocorrido exatamente o oposto – o que deveria ser um alívio virou uma guerra.

GUERRA DE VACINAS – A rixa se resume, para encurtar essa conversa, à “vacina federal” e a “vacina do Doria”. Uma e outra são boas, ou ruins, dependendo de que lado o sujeito está: quem está a favor do presidente Jair Bolsonaro é a favor da primeira vacina e contra a segunda: quem está contra o presidente acha precisamente o contrário.

A “vacina federal”, até agora, pode ser qualquer uma, menos “a do Doria”. A vacina do governador de São Paulo também pode qualquer uma, desde que seja a chinesa – a “coronavac”, fruto de um acordo entre ele, via Instituto Butantan, e o laboratório Sinovac, da China.

A partir daí, está valendo tudo. Que os departamentos de marketing pessoal do presidente e do governador tenham uma briga de foice em torno da covid não é novidade para ninguém.

LICENÇA DA ANVISA – Mas também é fato que qualquer medicamento, pela lei, só pode ser aplicado no Brasil se for aprovado pela Anvisa – e o governo federal exige que a “coronavac”, ou qualquer outra vacina, receba essa licença para ser utilizada. Não há, realmente, divergências sérias sobre a necessidade legal e científica da autorização da Anvisa.

O problema é que ela não licenciou até agora nenhuma das três vacinas que solicitaram a homologação – a americana da Pfizer, a britânica da AstraZeneca, em parceria com a Universidade de Oxford, e a chinesa da Sinovac.

Não é uma atitude isolada. A mais bem reputada das agências de controle de remédios em todo o mundo, a FDA americana, só autorizou até agora a utilização de um imunizante: na sexta-feira, o órgão permitiu o uso emergencial da vacina desenvolvida pela Pfizer – ou seja, temporário, gratuito e sujeito a ser cancelado a qualquer momento.

APENAS UMA EXCEÇÃO – O único país que começou a vacinação em massa, a Inglaterra, está utilizando a vacina da Pfizer, que foi licenciada pela agência de controle britânica. O certo é que a vacina chinesa, fora a própria China e o governador Doria, não interessou a mais ninguém no planeta.

Não recebeu a homologação de nenhum país com um mínimo de tradição em saúde pública. Seu desenvolvimento não foi acompanhado por qualquer organismo científico independente. É, certo, enfim, que a Sinovac já confessou em juízo a prática de crimes de corrupção e que suas ações foram excluídas em 2019 da Bolsa de Nova York.

O governador, apoiado pela oposição, a esquerda e os inimigos de Bolsonaro, já começou a envasar a vacina chinesa, e quer que ela seja aplicada sem a aprovação da Anvisa. Bastaria, para tal, que fosse liberada pelas agências de controle dos Estados Unidos, da Europa, do Japão, que até agora não homologaram vacina nenhuma – e, é claro, da China, a única que aceita a “vacina do Doria”. Como se vê, é guerra, e guerra grosseira.


Toma lá, dá cá: Governo Bolsonaro sinaliza com cargos para tentar influenciar eleições do Legislativo

Publicado em 16 de dezembro de 2020 por Tribuna da Internet

Charge do Adnael (Arquivo do Google)

Julia Lindner e Paulo Cappelli
O Globo

Com o processo de sucessão na Câmara e no Senado a todo vapor, o governo tem feito acenos para tentar influenciar nas eleições do Legislativo. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), foi sondado para ocupar um cargo de ministro no próximo ano, após o Supremo Tribunal Federal (STF) barrar sua reeleição. Já o vice-presidente da Câmara, Marcos Pereira (Republicanos-SP), que se coloca na disputa na outra Casa, recebeu um sinal de que também poderia ir para a Esplanada caso desista em favor de Arthur Lira (PP-AL), o preferido do presidente Jair Bolsonaro na disputa.

Algumas indicações já estão sendo efetivadas. Correligionário de Alcolumbre e favorito para receber o seu apoio na disputa, o senador Rodrigo Pacheco (MG) conseguiu emplacar na semana passada um aliado na Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) por indicação de Bolsonaro. O ex-deputado estadual Arnaldo Silva Júnior trabalha no escritório de apoio de Pacheco como secretário parlamentar.

INDICAÇÃO EXPLÍCITA – Ao ser sabatinado anteontem, Silva Júnior agradeceu ao padrinho de sua indicação cumprimentando Pacheco “de forma muito especial, pela confiança e pela indicação do meu nome”. A senadora Kátia Abreu (PP-TO) questionou a indicação.

“Eu fico sinceramente constrangida com a sua declaração de indicação de um único senador da República, que é Rodrigo Pacheco, que merece toda a nossa consideração, é um senador que tem mostrado todo o seu conhecimento jurídico, mas isso é o fim do republicanismo neste Senado. Isso nunca foi posto, um assessor do gabinete de um senador, uma indicação explícita e reconhecida para todo o Brasil. Não foi isso que Bolsonaro prometeu quando se candidatou e se elegeu a presidente da República, que ele iria, na parte política, esvaziar toda essa indicação e a captura de todos os indicadores das agências reguladoras. E eu o aplaudi por isso, embora não tenha votado nele”, disse Kátia, ressaltando não ser contra indicações políticas, desde que o escolhido tenha experiência para o cargo.

ATAQUE – Na semana passada, o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, foi demitido depois de vir a público uma mensagem com ataques ao titular da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos — um dos trechos dizia que o Planalto estava oferecendo cargos em troca de apoio aos candidatos preferidos na disputa em curso no Congresso.

Procurado pelo O Globo, Pacheco disse que a indicação cabe ao Ministério da Infraestrutura) e que se trata de um nome apto a exercer a função. “Seu currículo é vasto na área do Direito Administrativo”, respondeu, por meio de nota. Silva Júnior foi aprovado na comissão por 11 votos a 2 e ainda aguarda a chancela do plenário.

Bolsonaro também indicou o advogado Paulo Roberto Vanderlei Rebello Filho, ligado ao PP, partido do centrão, para assumir a presidência da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Rebello assumiu cargo de diretor da ANS em 2018. Antes, foi chefe de gabinete do então ministro da Saúde Ricardo Barros (PP-PR), atual líder do governo na Câmara. A sabatina de Rebello e de outros indicados estava prevista para ontem, mas foi cancelada.

MUDANÇAS – Em meio às articulações políticas, o governo prevê mudanças no primeiro escalão. Alcolumbre foi sondado por integrantes do Executivo para assumir a vaga de Ramos na Secretaria de Governo. A pasta é responsável pela articulação política junto ao Congresso. De acordo com aliados de Alcolumbre, ele ainda não respondeu se aceitará ou não a proposta.

Se Alcolumbre topar, Ramos assumiria a Secretaria-Geral após a saída de Jorge Oliveira, que vai em janeiro para o Tribunal de Contas da União (TCU). Após a sondagem inicial, Alcolumbre se reuniu no Planalto com Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ). Na ocasião, eles também combinaram que o atual presidente do Senado iria tentar viabilizar um nome de consenso para a sua sucessão. Pacheco é seu favorito.

Outro nome que poderia ter a candidatura encampada por Alcolumbre é o senador Antonio Anastasia (PSD-MG), atual vice-presidente da Casa. Durante reunião da bancada do seu partido, anteontem, Anastasia disse que precisa conversar com Alcolumbre antes de decidir. Ele não quer entrar em uma eleição muito dividida.

CARIMBO GOVERNISTA –  Alcolumbre, por sua vez, indicou a pessoas próximas que não quer se comprometer com um possível cargo no governo para evitar uma derrota no Senado. Com o carimbo de governista, o nome apoiado por ele poderia perder votos da oposição e de independentes. Por isso, tem reforçado nos bastidores que o nome apoiado por ele será “independente” do Planalto, mas com bom trânsito.

O Planalto também planeja alterações em outras áreas no próximo ano. Conforme revelado pelo O Globo, o governo tem colocado nas conversas com deputados a possibilidade de ceder vagas na Esplanada em troca de apoio a Arthur Lira (PP-AL) na disputa pela presidência da Câmara.

ACENO – O Planalto acenou ao deputado federal Marcos Pereira (SP), presidente do Republicanos e vice-presidente da Câmara, com a recriação do Ministério da Indústria e Comércio, pasta ocupada por ele na gestão de Michel Temer. O Republicanos conta com 31 deputados, e a migração desses votos para Lira poderia dar favoritismo ao candidato do Planalto.

Após a informação sobre o assédio circular nos bastidores, Pereira deixou o bloco do atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-SP), principal articulador da candidatura contra Lira. Pereira afirmou que abandonou o bloco de Maia para se lançar como terceira via na disputa à presidência da Câmara e negou que tenha recebido oferta de cargos pelo Planalto.

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