segunda-feira, dezembro 16, 2019

Em 11 anos, apenas um juiz corrupto foi punido, os outros foram aposentados…

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Charge do Alpino (Yaaho Notícias)
Ricardo Galhardo e Bruno RibeiroEstadão
A operação que levou à prisão preventiva da ex-presidente do Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) Maria do Socorro Barreto Santiago, sob acusação de venda de sentenças, é um ponto fora da curva na história do Judiciário brasileiro. Levantamento feito pelo Estado com base em informações do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostra que, dos 17 magistrados punidos pelo órgão entre 2007 e 2018 em casos de venda de decisões judiciais, apenas um foi julgado e alvo de uma condenação criminal.
As punições, no entanto, não costumam ter conformidade com a gravidade dos crimes denunciados. Nestes últimos 11 anos, os magistrados que foram acusados de receber vantagens em troca de sentenças, na maioria dos casos, sofreram apenas punição administrativa – a aposentadoria compulsória (mantendo o salário mensal de cerca de R$ 30 mil), escapando de qualquer punição civil (como pagamento de multa) ou criminal (prisão).
SEM TRANSPARÊNCIA – A divulgação desses processos é pouco transparente, uma vez que o CNJ não informa quantos casos de venda de decisões judiciais chegaram ao órgão neste período.
Entre estes 17 magistrados, a reportagem conseguiu localizar processos civis ou criminais contra oito juízes e desembargadores, por delitos como corrupção e improbidade administrativa, dos quais apenas dois foram julgados (um foi condenado e outro, absolvido).
Em três casos, os TJs e o Superior Tribunal de Justiça (STJ) se recusaram a informar a existência ou não dos processos, sob a alegação de que os magistrados estão protegidos pelo segredo de Justiça (imposto por seus próprios pares). Os demais cinco magistrados não chegaram a ser alvo de denúncia e foram agraciados com a aposentadoria compulsória.
IMPUNIDADE – “Não vejo claramente a chance de que a punição dura a magistrados por venda de sentença, como acontece na Bahia, seja uma tendência do Judiciário. É mais um caso isolado”, disse o coordenador do Núcleo de Estudos de Justiça e Poder Político da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Fabiano Engelmann. Segundo ele, uma das principais dificuldades para a punição aos magistrados que colocam a Justiça à venda é a falta de acesso às informações, motivada pelo corporativismo.
O único magistrado punido pelo CNJ que também foi condenado pela Justiça é o desembargador Carlos Rodrigues Feitosa, do Tribunal de Justiça do Ceará. Ele foi condenado à aposentadoria compulsória em setembro de 2018 e, em maio de 2019, o STJ o condenou à pena de 13 anos e oito meses de prisão pelo crime de corrupção.
Feitosa havia sido denunciado pelo Ministério Público Federal com mais nove pessoas, incluindo seu filho, por acertar, a partir de 2012, um esquema de venda de sentenças para pessoas acusadas de tráfico e homicídio. Conforme a acusação formal, as decisões judiciais eram negociadas por meio de um aplicativo de troca de mensagens e custavam cerca R$ 150 mil.
PUNIDA COM REMOÇÃO – A juíza Ana Paula Medeiros Braga foi punida com remoção compulsória pelo CNJ em 2012 depois que seu nome surgiu na Operação Vorax, da Polícia Federal, em 2008, como uma das magistradas que favoreciam o ex-prefeito de Coari (AM) Adail Pinheiro.
Áudios captados pela PF serviram de provas contra Ana Paula, de acordo com a acusação. Nas interceptações ela negocia o pagamento de aluguel do apartamento onde morava, emprego para o namorado, viagem em avião particular e até camarote para o desfile das escolas de samba do Rio.
Na época, o relator do processo no CNJ pediu que a magistrada fosse punida com a pena máxima de aposentadoria compulsória, mas outra parte do conselho decidiu por uma punição mais branda: a censura, com a alegação de que ela apenas reproduziu práticas comuns em cidades do interior e também deu decisões contrárias à prefeitura de Coari. O resultado do julgamento foi a pena de remoção compulsória.
FOI PROMOVIDA – Ana Paula foi removida da cidade amazonense, a 360 quilômetros de Manaus, para a comarca de Presidente Figueiredo, na região metropolitana da capital. A punição, na época, foi vista por colegas da juíza como uma promoção. Atualmente, ela atua em Manaus, para onde foi transferida pelo critério de antiguidade.
A juíza foi procurada por meio da assessoria do Tribunal de Justiça do Amazonas, mas não quis se manifestar porque “considera que os fatos já foram devidamente esclarecidos e apurados a seu tempo e entende que a Lei Orgânica da Magistratura proíbe o magistrado de manifestar-se sobre processos, mesmo arquivados”.
Alegou demência – Outro caso é o do ex-ministro do STJ Paulo Geraldo de Oliveira Medina. Único integrante de corte superior a ser punido pelo CNJ desde a criação do conselho, Medina foi acusado de vender, por R$ 1 milhão, uma sentença favorável à máfia dos caça-níqueis, em 2005.
Em 2010 ele foi aposentado compulsoriamente pelo CNJ mantendo os vencimentos de R$ 25 mil por mês. O Supremo Tribunal Federal (STF) chegou a abrir processos contra ele, mas eles foram paralisados depois que o advogado de Medina, Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, alegou demência do magistrado.
“Infelizmente, essa acusação teve um efeito muito forte nele. Ele entrou em demência, hoje é inimputável e os processos estão paralisados por causa disso. O que para os advogados é muito ruim porque estávamos fazendo uma prova muito produtiva. Não tem nada contra ele a não ser gravações do irmão dele que poderiam dar a entender que o irmão usava o nome dele”, disse o advogado.
OPERAÇÃO FAROESTE – Na terça-feira passada, a Procuradoria-Geral da República denunciou 15 pessoas que foram alvo da Operação Faroeste, investigação de um suposto esquema de compra de sentenças para permitir a grilagem na região do oeste da Bahia. Entre os acusados pelos crimes de organização criminosa e lavagem de dinheiro estão quatro desembargadores e três juízes do Tribunal de Justiça da Bahia.
A reportagem procurou a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) para comentar o tema, mas a entidade não quis se manifestar.
A Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) também foi procurada e, assim como a AMB, preferiu não comentar, diante do fato de que apenas um dos casos de aposentadoria compulsória (Edgard Antônio Lippmann Júnior, do Paraná) se referia a um juiz federal e ainda estava sendo julgado – o desembargador Paulo Geraldo de Oliveira Medida, único ministro do STJ afastado, era juiz de carreira de Minas Gerais, não um juiz federal.

Por que a pirralha incomoda o mundo? É porque somos prepotentes e despreparados

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Greta Thunberg discursa durante evento da ONU sobre o clima, em Nova York
Greta discursa na ONU em evento sobre o aquecimento global
José Henrique MarianteFolha
Segunda-feira, 19 de agosto. O dia já vinha feio, mas de maneira assustadora o céu de São Paulo virou noite no meio da tarde. Anunciado pelas redes, como um dia será, o apocalipse se tornou algo real quando a escuridão ganhou explicação nos noticiários: frente fria, nuvens carregadas e vento soprando material particulado de queimadas ocorridas no Paraguai.
Parecia fake news, mas não era. Logo depois, uma onda delas empurrou a origem da fuligem para pontos mais distantes, inclusive Amazônia, que já ardia e pouco depois faria arder a imagem no exterior do país de Bolsonaros que nos tornamos.
FUTURO RUIM – Onde quer que uma floresta tenha queimado, por horas habitantes de São Paulo entendemos que o futuro pode ser tão ruim como o descrito nos filmes de ficção científica ou nas páginas de ambiente, que muitos insistem se tratar da mesma coisa. Já estamos cheios de problemas, para que antecipar outros mais?
Surge então Greta Thunberg, sueca, 16 anos, esquisita. Fala o que não queremos ouvir. Diz que somos qualquer coisa entre prepotentes e despreparados e que estamos colocando em xeque não o nosso futuro, mas o dela e o de milhões de estudantes que já mataram aula em uma das últimas 69 sextas-feiras, em diversas partes do mundo.
Tudo isso para protestar e dizer o que parece óbvio a jovens de 16 anos: estamos destruindo, queimando, secando, poluindo, contaminando, plastificando e matando sem parar o próprio planeta.
RAIVA NOS OLHOS – Greta atrai crianças e adolescentes como um flautista de Hamelin. A adultos, discursa em inglês de vampiro solfejando cada parágrafo com raiva nos olhos, os mesmos que usou para fuzilar Donald Trump nos corredores da Assembleia da ONU.
O americano, com desdém típico de adulto, disse que ela parecia uma “garota muito feliz”. Bolsonaro também piscou, chamando-a de “pirralha”, depois de a jovem denunciar na Conferência do Clima, em Madri, as mortes de índios guardiões da floresta no Maranhão.
Por mais que desperte certa simpatia ao encarar os populistas de turno, Greta assusta também quem não pensa só com o fígado ou com o bolso. Sua pregação, como a de qualquer adolescente, não vê limites.
CONSUMIR MENOS – Pela saúde do planeta, vale interromper a cadeia produtiva, boa parte dos empregos, o capitalismo em geral. Temos que parar de consumir, simples assim.
Greta é a versão expandida, planetária, radical de quem nos condena diariamente pelo vício de usar sacolas plásticas para embalar embalagens de plástico no supermercado, por não conseguir abdicar da carne vermelha nem uma vez por semana, do utilitário esportivo, da viagem de avião, de votar em gente que acha que a crise climática é conspiração.
Bem na nossa vez, não podemos mais? Não. Xinguemos Greta, então.
PALAVRAS DO ANO – O aquecimento global rendeu as palavras —no caso, expressões— do ano, escolhas tradicionais feitas pelos principais dicionários do mundo. “Emergência climática” foi a eleita do Oxford. Já o Collins ficou com “greve do clima”, termo inspirado nas ações de Greta Thunberg.

domingo, dezembro 15, 2019

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