segunda-feira, agosto 26, 2019

Três histórias de Jânio Quadros, que disse ter jogado no porco, mas deu jacaré


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Em matéria de folclore política, ninguém ganha de Jânio Quadros
Sebastião Nery
Veiga Brito era presidente do Flamengo e deputado federal da Arena, em 1966, quando Lacerda tentava organizar a “Frente Ampla”. Foi a Santos negociar um jogador com Athiê Jorge Curi. Jânio estava lá. Sabia que Veiga era amigo de Lacerda, telefonou, marcaram um encontro, conversaram longamente em um quarto, sentados na cama.
Jânio não entendia porque Lacerda havia chamado Juscelino e Jango para a “Frente”, feito as pazes com eles, e não aceitava a participação dele:
– Deputado Veiga Brito, o que é que o Carlos tem contra mim? Ele procura os antigos adversários e ao seu companheiro de lutas repele. O senhor pode explicar-me por quê? Sei que o senhor é muito amigo dele.
– Presidente, eu acredito que ele não entendeu e ainda não absorveu o episódio da renúncia.
– Ele só não, deputado. Todos. Ninguém entendeu. O senhor entendeu?
– Olha, presidente, eu acho que o senhor armou uma jogada para sair e voltar mais forte, e não deu certo.
– Pois é, deputado. Joguei no porco e deu jacaré – e caiu na gargalhada.
COM O DELEGADO – Jânio foi ao “Barzinho do Museu”, na avenida São Luis, onde um grupo de gente amena e talentosa, comandada por Francisco de Almeida Sales, dissolvia em gelo a crise financeira e as angústias humanas. E Jânio contou esta:
– Vocês sabem, eu sofro de uma insônia horrível. Quando ela vem, ponho-me a caminhar e pensar. Era governador, ela veio. Levantei-me, pus o capote para defender-me da neblina e saí perambulando pela cidade, pensando no meu Estado e no meu povo. Passei em frente a uma delegacia, resolvi entrar para fazer um teste pessoal. Na portaria, ninguém. No plantão dos investigadores, ninguém. Lá dentro, com as pernas sobre a mesa, o senhor delegado conversando com o senhor escrivão, igualmente sonolento e repousante. Estirei a cabeça. Pu-la à porta:
– Senhor delegado!
Ninguém respondeu. Pu-la mais à frente.
– Senhor delegado!
Ninguém respondeu, Gritei:
– Senhor delegado!!!
O senhor delegado nem se mexeu, perguntou ao escrivão:
– Quem está chateando ai?
O escrivão, sem se mexer, olhou-me de soslaio, respondeu ao delegado:
– Um cara, que é a cara do maluco do Jânio. Está ali chamando você.
Josélio Gondim, diretor da revista “Espelho”, de Brasília, bebia a história de Jânio:
– E o que o senhor fez, presidente?
– Fui-me, meu caro. Fui-me embora. Pensei em prendê-los, aos dois. Mas, e se eles pensassem que eu era um sósia de mim e me prendessem? Eu estava sem documentos. Só de pijama e sobretudo. Fui-me.
UM PASSARINHO – José Paulo Freire, o “Zé do Pé”, era menino de calças curtas em Araçatuba, São Paulo, 1954, quando Jânio Quadros saiu candidato a governador. Nacib Curi, turco, grandão, elegante, charuto enorme na boca, mandou fazer escondido um folheto em papel ruim, impresso em gráfica velha, de igreja, com uma foto exótica de Jânio, os olhos estrábicos arregalados e a boca torta:
“Procura-se um louco, É esse aí. E se diz candidato a governador”.
Mas como distribuir? Chamou “Zé do Pé”:
– Zé, tome esse dinheiro para você distribuir isso de manhã, na barbearia, e meio-dia no fórum. Não diga a ninguém que fui eu que lhe dei. Se perguntarem quem foi responda que foi o passarinho.
Na barbearia, estavam três figurões da cidade: Dr. Trancoso Peres, médico. Zé entregou. Raul Vieira da Cunha, fazendeiro. Zé entregou. E o Dr. Coelho, advogado do Banco do Brasil. Zé entregou. Dr. Coelho recebeu, olhou, leu:
– Zé, quem te deu isso?
– Um passarinho, Dr. Coelho.
– O passarinho fuma charuto, Zé?
Zé parou, amarelou, as pernas tremeram:
– Fuma, sim senhor.

Secretário-Geral do Planalto admite que há divergências entre Bolsonaro e Moro


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Oliveira virou ministro porque é amigo dos filhos de Bolsonaro
Pedro do Coutto
Numa entrevista de página inteira a Bela Megale, em O Globo de domingo, o ministro Jorge Oliveira, Secretário-Geral da Presidência da República admitiu a existência de visões divergentes entre o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Justiça. Bolsonaro tem uma formação, Moro outra, acrescentou. Bela Megale então indagou: “O presidente Bolsonaro relatou a diversas fontes estar insatisfeito com Sérgio Moro. É verdade?”. Jorge Oliveira respondeu: “não que não haja divergências. Até em nossas famílias há discordâncias. É normal. As coisas de governo são muito intensas. Tudo é urgente”.
Nesta altura, Jorge Oliveira, no meu entender, desviou o assunto. Mas deixou no ar a certeza de que o distanciamento entre o presidente e o ministro está exigindo que alguém entre em campo para apagar o desconforto, tarefa típica dos articuladores políticos do Palácio do Planalto.  Jorge Oliveira talvez seja uma pessoa indicada para a missão. Com base no texto, ele assume o papel aparente de apaziguador. Mas há de existir outros.
EMBAIXADOR – A respeito da indicação do deputado Eduardo Bolsonaro para embaixador nos Estados Unidos, ao ser perguntado se ele estava agindo junto a senadores, Oliveira respondeu: “Quem tem de fazer isto é o próprio Eduardo Bolsonaro. Já houve a concordância do Itamaraty. Mas temos de entender existirem vozes discordantes. Até os eleitores do presidente e do deputado podem se manifestar.
Será que pelas redes sociais? Para mim, talvez seja esta a estrada desejada pelo Planalto. Isso porque as frases de Jorge Oliveira são marcadas por reticências. Entretanto, o trajeto entre as afirmações do Secretário Geral e a edição de O Globo pode ter sido traçado na Esplanada de Brasília. Tal hipótese não significa que a reportagem perca sua importância política. Jorge Oliveira revelou ao longo das linhas uma boa dose de intimidade com o poder. Disse o seguinte: “A gente morre de rir com o presidente”, inclusive este é o lide da matéria.
REAÇÕES À BLINDAGEM – A mesma edição de O Globo de domingo contém uma reportagem de Natalia Portinari e Naira Trindade. Nesse texto estão acentuadas as reações contrárias da Receita e Polícia Federais quanto às tentativas de bloquear as investigações – ou melhor, de impedir as investigações.
Principalmente porque a transferência do Coaf é fato desejado por parlamentares, políticos e empresários. Especializado em corrupção e lavagem de dinheiro, realmente o Conselho é ameaça a todos aqueles que têm a consciência pesada. Mas os  homens de bem nada têm a temer, eis a diferença.

Crise ambiental pode fazer Bolsonaro perder apoio do maior aliado – o agronegócio


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Charge do Flávio (Arquivo Google)
Vera MagalhãesEstadão
O governo Jair Bolsonaro pode até enxergar uma conspiração internacional interessada em nos tomar a Amazônia, mas partiu dele um conjunto de erros que permitiu que a crise ambiental ganhasse o mundo e expusesse o Brasil a riscos concretos para seus negócios, sua imagem e acordos dos quais é signatário.
Tudo começou com o desprezo aos dados relativos ao desmatamento, com a investida de Bolsonaro e seu ministro de Meio Ambiente, Ricardo Salles, contra o Inpe, diante do silêncio conivente do dublê de ministro da Ciência e astronauta Marcos Pontes – aliás, uma figura ausente em todo o debate atual.
ATAQUE AO INPE – Não fosse o ataque deliberado de Bolsonaro a um instituto que tem reputação internacional, expertise em medição de desmatamento e um quadro técnico competente, sem que existisse absolutamente nada para se oferecer como alternativa, os olhos do mundo não teriam se voltado para a Amazônia já antes do início da temporada de queimadas.
O negacionismo retórico puro e simples já dura meses e, desde então, não se produziu uma mísera evidência confiável que refutasse definitivamente os dados do Deter, que apontavam escalada do desmatamento neste ano.
Pelo contrário: a força das queimadas antes mesmo do mês de pico da estação de estiagem (setembro) mostra que sim, há uma situação de descontrole no desmate. E, de novo, o governo não dispõe de informações oficiais básicas para enfrentar a situação.
O CULPADO? – Quem promove as queimadas e o desmatamento? Bolsonaro chuta que seriam ONGs interessadas em manchar a reputação internacional do Brasil. É constrangedor ver um presidente da República tão desaparelhado. Onde está o Sistema de Inteligência brasileiro que não municia o chefe de Estado de informações precisas a respeito de onde ocorrem derrubadas e queimadas, quem as promove, quais são as forças do Estado (Polícia Rodoviária Federal, Polícia Federal, Exército, Ibama, polícias estaduais) que serão recrutadas para resolver o problema?
MIMIMI MUNDIAL – A direita bolsonarista, que sempre criticou a tendência à vitimização da esquerda, chega ao poder e adota o mimimi como política de Estado. E mimimi em escala global, que é para aumentar a vergonha.
Ao reagir às críticas de outros países ao Brasil, Bolsonaro poderia se servir de informações do Itamaraty, ou do Ministério da Agricultura, ou do competente secretário de Comércio Exterior, Marcos Troyjo. Todos eles têm diagnósticos técnicos acerca dos interesses comerciais e geopolíticos em jogo nas tentativas que países como França e Irlanda fazem de barrar tratados como o Acordo UE-Mercosul e a entrada de produtos brasileiros na Europa.
O presidente e seus filhos não precisariam dar o vexame de postar subnarrativa de YouTube em suas contas oficiais para refutar os ataques internacionais ao Brasil se usassem os dados à disposição do governo brasileiro.
BUSCAR A VERDADE – Inclusive a voluntariosa Secom, que se apressa em abrir canais para contar a “verdade dos fatos”, faria um serviço bem melhor se se socorresse desse aparato de Estado no lugar dos ideólogos de plantão. Bolsonaro demorou semanas para tomar as primeiras medidas concretas na crise ambiental, como se o fogo que queima a floresta e a imagem do País no exterior fosse se dissipar na base do gogó.
Outro efeito colateral que começa a colher pela dificuldade de gestão é a perda de apoio naquele que foi o primeiro setor organizado a apoiá-lo: o agronegócio. Diante da perspectiva da perda de negócios e de certificações que levaram anos de pesquisas e trabalho duro para serem obtidos, os produtores começam a perceber que o custo de uma guinada meramente ideológica e obscurantista em uma área – a questão ambiental – cada vez mais global e indissociável da economia pode ser irreversível.

Membros do Novo pedem suspensão de Ricardo Salles do partido por atuar de forma ‘irresponsável’

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Conduta de Salles tem causado “dano grave” à imagem do partido
Marco Grillo
O Globo
Filiados do Partido Novo no Rio de Janeiro apresentaram um pedido para que o ministro do Meio Ambiente,Ricardo Salles , seja suspenso da legenda. A representação, que será avaliada pelo Diretório Nacional, é assinada pelo ex-candidato ao governo do Rio Marcelo Trindade , o deputado estadual Chicão Bulhões e Ricardo Rangel , que concorreu a deputado federal. O texto encaminhado ao comando da sigla afirma que Salles vem “desdenhando de dados científicos”, “revogando políticas públicas sem qualquer debate prévio” e “atuando com absoluta irresponsabilidade”.
COMISSÃO DE ÉTICA – Há ainda uma solicitação para que seja aberto um processo na comissão de ética do partido, que poderá resultar na expulsão. O Novo é presidido por João Amoêdo , que foi candidato à Presidência no ano passado. A informação sobre o pedido contra o ministro foi antecipada pelo colunista Lauro Jardim, do O Globo. Salles concorreu a deputado federal pelo Novo, mas não se elegeu.  No fim do ano passado, foi convidado pelo presidente Jair Bolsonaro para assumir o Ministério do Meio Ambiente.
Segundo o documento, a conduta dele tem causado “dano grave” à imagem do partido e é contrária ao que a legenda defende na área ambiental. Em maio deste ano, o Novo aprovou uma resolução que determina a suspensão dos filiados que exercerem cargos de primeiro escalão sem a indicação do partido. É o caso de Salles, mas a resolução tem efeitos apenas posteriores à data em que foi publicada. A representação pede que ele seja suspenso do partido liminarmente, antes mesmo de o pedido ser julgado internamente.
VIOLAÇÃO – “Anote-se que o ministro Ricardo Salles tem atuado com grande convicção na adoção de condutas divergentes com os programas do Partido Novo no tema ambiental, demitindo profissionais qualificados, desdenhando de dados científicos e revogando políticas públicas sem qualquer debate prévio, aprofundado e responsável, reduzindo a capacidade de interlocução do país com seus pares internacionais e atuando com absoluta irresponsabilidade. Isto, por si só, já constituiu violação dos princípios e valores do Partido Novo, que prega a atuação profissionalizada, e não politicamente motivada, dos agentes públicos”, diz a representação. O texto também cita a condenação de Salles por improbidade administrativa, em função do período em que foi secretário estadual do Meio Ambiente em São Paulo. O ministro recorreu da decisão. Procurado, via assessoria, para comentar a representação de filiados do partido Novo, ele não respondeu.

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