segunda-feira, fevereiro 28, 2011

STJ ignora teto e paga supersalário a seus ministros

DE BRASÍLIA

O STJ (Superior Tribunal de Justiça) usou brecha para driblar o teto salarial de R$ 26.700 imposto pela Constituição e pagou no ano passado em média R$ 31 mil aos ministros que compõem a corte --quase R$ 5.000 acima do limite previsto pela lei.

Segundo reportagem de Filipe Coutinho publicada na Folha deste domingo (a íntegra está disponível para assinantes do jornal e do UOL), o tribunal gastou no ano passado R$ 8,9 milhões com esses supersalários. Um único ministro chegou a receber R$ 93 mil em apenas um mês.

Dos 30 ministros, 16 receberam acima do limite em todos os meses de 2010.

O presidente do STJ, ministro Ari Pargendler, disse que pagamentos acima do teto constitucional são legais.

"Esses valores não incidem no teto porque não são remuneração, são auxílios, abonos de permanência e adiantamentos de férias e salários", disse.

Questionado sobre a Constituição, que cita expressamente que "vantagens pessoais" incidem sobre o teto, caso do abono mensal de R$ 2.000, afirmou que cumpre a resolução do CNJ.

"Pergunte ao CNJ, porque a resolução permite o recebimento. Você precisa confiar nas instituições. Se o CNJ permite, é porque fez de acordo com a Constituição."

Fonte: Folha

sábado, fevereiro 26, 2011

‘Garantir o asilo político e a liberdade de Battisti é tarefa de todo cidadão antifascista’

Escrito por Gabriel Brito e Valéria Nader, da Redação

Refugiado no Brasil desde 2004, o ex-militante da esquerda armada italiana Cesare Battisti, que teve asilo político concedido pelo Brasil em 2008, espera na prisão há mais de três anos pela decisão final de seu pedido de extradição por parte do Estado italiano. O caso teria tido o desfecho final quando Lula decidiu confirmar o asilo, no último dia de mandato, amparando-se na Constituição, que delega ao Executivo o poder de decisão em tais questões. Mas, em 2010, o STF reviu a sua decisão de 2009, quando, ao extraditar Battisti, determinou que a última palavra sobre o caso estaria com a presidência da República. O asilo de Lula é agora, portanto, contestado pelo Supremo, que deve voltar a julgar o caso em março, do que resultará a soltura e refúgio de Battisti, ou sua extradição.

Para discutir a questão, o Correio da Cidadania conversou com o jornalista e militante dos direitos humanos Alípio Freire, que também fez parte de grupos de esquerda opositores à ditadura brasileira. Para ele, o caso deixa às claras o caráter golpista do atual Supremo, influenciado por Gilmar Mendes, que recrudesce a olhos vistos em seu conservadorismo.

Segundo Freire, a querela também significa a desmoralização de nosso Judiciário, que estaria submisso aos desejos de Berlusconi, cujo governo enfrenta uma onda de escândalos e repúdio popular. "Garantir o asilo político e também sua liberdade imediata é tarefa de todo cidadão antifascista", afirmou.

Na entrevista que pode ser conferida a seguir, Alípio Freire ainda ressalta sua convicção na ilegitimidade do julgamento promovido pela justiça italiana e critica o mecanismo da delação premiada. Mas mantém o otimismo quanto à concessão do refúgio, tanto pela desmoralização do governo italiano como por alguns posicionamentos da presidente Dilma Rousseff em relação aos direitos humanos.

Correio da Cidadania: Em 2009, após determinar a extradição do ex-militante da esquerda italiana Cesare Battisti, o STF decidiu que a última palavra quanto ao caso estaria com o presidente da República. O que pensa da reavaliação desta decisão pelo STF em 2010, determinando que o plenário deveria retomar o caso após a decisão de Lula, podendo revertê-la?

Alípio Freire: Eu penso que dos três poderes oficiais da República, o STF (judiciário), em que pesem todos os escândalos no Executivo e, sobretudo, Legislativo, é o mais desmoralizado. Até porque ter tido como presidente uma figura como o senhor Gilmar Mendes é qualquer coisa fora do sério. Nesse sentido, lembro do artigo do professor Dalmo Dallari, antes da indicação oficial de Gilmar Mendes para o cargo que ocupou.

Outro exemplo: enquanto a discussão da reforma política ficar no Judiciário, pouco se avançará. Hoje em dia, esse poder tem sido fonte de golpes. Em Honduras, o golpe foi dado pelo Judiciário, que em seguida chamou as Forças Armadas para garanti-lo. Enquanto isso ocorreu lá, ficamos correndo riscos nos últimos quatro anos, com Nelson Jobim no Ministério da Defesa e Gilmar Mendes na frente do Judiciário. Portanto, a primeira coisa que deve ser discutida é o Poder Judiciário.

Por outro lado, o Dr. Gilmar Mendes adotou uma novidade, que foi consagrada pela grande mídia comercial, com a qual está articulado, qual seja, o expediente de prejulgar os casos, ir a público como presidente do STF externar suas posições. Ele é minerva, o último voto, não pode se dirigir à opinião pública! Não é função do Judiciário. Dessa forma, o que fica desnudado é exatamente a tendência golpista deste poder desde que Gilmar Mendes foi parar lá.

Do meu ponto de vista, o que deveria acontecer – e estou indo a Brasília visitar o Battisti, com pessoas de outros estados –, caso o Judiciário tenha o mínimo de juízo (em seu conjunto, pois do Peluso e do Gilmar não dá pra esperar muita coisa), vai se declarar imediatamente incompetente para a questão, e também imediatamente encaminhará a decisão já anunciada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no apagar das luzes de seu segundo mandato.

Correio da Cidadania: E quanto à decisão do STF de manter preso Cesare Battisti, apesar da decisão do presidente Lula, no final de seu mandato presidencial, de rejeitar a extradição, qual a sua avaliação?

Alípio Freire: O Judiciário deveria se pronunciar incompetente para opinar sobre o caso, em qualquer aspecto. Creio que o Battisti tem de ser solto, pois todos os estudos jurídicos recentes a respeito, de pessoas sérias ligadas às leis, vão nessa direção. E, sobretudo, pela questão política, pois a justiça não está acima da política; é um instrumento dela, portanto, de classe.

E há a desmoralização pública do senhor Berlusconi na Itália, com multidões nas ruas, além de intelectuais e personalidades, o que atinge também o Judiciário brasileiro se não soltar imediatamente o Battisti. Hoje, a desmoralização do Berlusconi é a do nosso Judiciário. Não é outra coisa, pois nessa história representou, em sua maioria, o senhor Berlusconi. Tudo que é dito ao Berlusconi da Itália, "saia, vá embora", pode ser dirigido ao nosso judiciário, com honrosas exceções. Mas, hegemonicamente, ele se manifestou como o Dr. Gilmar Mendes.

Correio da Cidadania: Mesmo diante destas ponderações, o tema Battisti é polêmico até mesmo entre os setores de esquerda. Ao lado daqueles que consideram Battisti como um personagem menor, na medida em que teria praticado atos terroristas ligados às guerrilhas de esquerda na Itália, estão aqueles que enfatizam a diferença essencial entre terrorismo de esquerda e de direita, especialmente em um país que estaria vivendo um Estado de Exceção sob uma fachada de democracia. Como avalia estes fatos históricos e esta distensão política a eles associada?

Alípio Freire: Eu acredito que não existe democracia de exceção. Portanto, o que a Itália deveria viver é uma transição, tal qual tentamos em nosso país, apesar das dificuldades. Em primeiro lugar, formalmente, o Battisti não cometeu nenhum crime. Nem sequer me refiro à legitimidade, mas ao aspecto legal. Que eu saiba, a única figura na história do ocidente conhecida pelo dom da ubiqüidade é Santo Antonio, que estava em Pádua e Lisboa ao mesmo tempo. Se o Battisti, acusado de ter cometido atentados no mesmo horário em cidades distantes, realmente cometeu tais crimes, é caso de canonização, não de condenação.

Por outro lado, estou convencido de que não houve crime, de que ele não cometeu nenhum ato pelo qual vem sendo condenado. Mas, eu pessoalmente, acredito plenamente no direito à rebelião contra qualquer tirania. Se estamos frente a uma coisa que não é Estado de Direito, e sim uma tirania, mesmo que houvesse cometido quaisquer dos atos que lhe são imputados, haveria legitimidade. E, além disso, há o problema da legalidade do julgamento.

No entanto, o que acho mais asqueroso na história, e que precisa ser repensado, é a questão da delação premiada (mecanismo jurídico pelo qual a justiça italiana baseou sua condenação a Battisti). Ora, um Estado que tem um instrumento que educa seus cidadãos a serem delatores é simplesmente um Estado de base fascista. Transformar cidadãos em exércitos de delatores é um horror. Aliás, toda delação deveria ser punida, moralmente, e não premiada. Esse tipo de negociação, do ponto de vista moral e ético, precisa ser repensado. E os resultados de tais delações premiadas é o que vemos com o Battisti, se me entendem...

Correio da Cidadania: Mas havia Estado de Exceção que justificasse tal rebelião à época? É possível sustentar tal hipótese?

Alípio Freire: Qual o tamanho certo de uma rebelião para o tamanho certo do Estado de Exceção? É uma conversa que vai longe...

No entanto, creio que não haja como discutir isso, não há uma tabela de rebeliões aceitáveis, de acordo com o tamanho da ilegitimidade do poder. Isso não existe, impossível, não há como quantificar. Inclusive porque significa retirar do contexto real o mundo que se vivia na época. E não era uma questão só da Itália ou da Europa. Foi uma questão do mundo inteiro.

Correio da Cidadania: O que explica a dimensão que tomou em nosso país a controvérsia político-jurídica a respeito do julgamento que aprecia extradição de Battisti - especialmente por se tratar o Brasil de um país que tradicionalmente concede refúgio político, alguns deles para conhecidos repressores de ditaduras vizinhas, e também recentemente ao prefeito de Pando, Bolívia, mandante do massacre que vitimou mais de 20 camponeses em 2008?

Alípio Freire: Creio que esse caso esteja servindo como força auxiliar à política de Washington, iniciada pela dona Condolezza Rice, e levada a acabo agora pela senhora Hillary Clinton. A política antiterror.

O grande problema, neste momento, é que temos uma direita que renasce no mundo inteiro, e que aqui nunca morreu, voltando à cena política, legitimada pela omissão de alguns e pelo endosso de outros.

Por exemplo: não se trata da eleição em si, não é a questão, mas quando o candidato José Serra faz, e a imprensa que o apóia confirma, reuniões com o CCC e a TFP, de ultra-direita, está sendo legitimado, trazido ao proscênio, forças que até sabíamos que atuavam, mas não encontravam espaço e aceitação.

Dessa forma, temos no mundo inteiro um grande sopro à direita. E o Brasil é um país importante no hemisfério sul, objetivamente falando. Ora, um país desse tamanho, necessário à órbita dos EUA, dentro de um mundo que marcha para a desordem da crise, quando florescem posições mais extremistas... Não é que os EUA apertam o botão vermelho lá e aqui arde na hora, mas acontece que os EUA têm base social e política neste país. E estão fazendo seu serviço.

Entretanto, creio que o PT e os partidos de esquerda de modo geral, especialmente os de maior peso eleitoral, estão muito tímidos com relação à questão. Creio que deveríamos ter uma posição mais unificada.

Correio da Cidadania: É dentro deste contexto que devemos enxergar as motivações do governo italiano em tamanha insistência na extradição de Battisti, haja vista que muitos outros cidadãos daquele país tiveram trajetória de militância política semelhante e há centenas deles exilados pelo mundo?

Alípio Freire: É a outra face da mesma moeda, de ascensão do fascismo e da crise econômica, além de grandes crises políticas. Nesses momentos, o último refúgio dos canalhas é o patriotismo, vide o Videla na Argentina e a questão das Malvinas, apelando ao espírito nacional, como se a nação não fosse dividida em classes. Foram à guerra, com o apoio da maioria da esquerda argentina – e também Fidel de Castro. O tamanho do desastre, que já era previsível, todo mundo sabe qual foi.

Portanto, creio que temos de ter muito cuidado, porque em tais momentos de crise essas patriotagens vão surgir o tempo inteiro. Mas é muito engraçado que alguns setores da esquerda ditos progressistas, como a Carta Capital, queiram a entrega do Battisti. Tudo bem que é um equívoco considerá-la tão de esquerda. Não é a Folha, O Globo, mas daí a ser de esquerda, de fato, vão anos luz.

Correio da Cidadania: Que relação o senhor vê entre o posicionamento do Estado brasileiro relativamente a Battisti e a revisão da nossa lei de anistia?

Alípio Freire: São as mesmas forças que querem impedir a apuração dos crimes cometidos durante a ditadura e a punição dos mandantes e responsáveis diretos, ao mesmo tempo em que querem obrigar a entrega do Battisti. São o mesmo pensamento, ideologia e valores. Aí, entra a questão da correlação de forças. Devem ser ampliadas as forças das correntes populares, da classe trabalhadora, fora do universo das instituições do Estado, o terreno onde podemos ser mais fracos. Temos de trazer a questão para a rua, para as associações de trabalhadores, porque as ruas, praças e avenidas ainda são os terrenos onde temos condições de ser mais fortes. Em outras instâncias, podemos ser sugados pelo aparelho de Estado.

A questão é essa. Até para enfrentar o repuxo que vem pela frente, uma vez que a crise não está debelada e não é uma questão contábil, pois não depende de a nossa economia estar bem organizada. A crise é uma questão política. Você acha que o Pentágono vai ver a economia dos EUA indo pras cucuias sem tentar arrastar todos que puderem para pagar a conta? Essa é uma questão de política, o que em determinado momento se faz com armas.

O problema da nossa economia não é contábil. Aliás, nunca é, mas hoje menos ainda. Vivemos à beira de um colapso econômico, o capitalismo é um sistema global, cada vez mais, e não temos no momento nenhum Estado socialista capaz de se contrapor internacionalmente ao grande capital, de modo que é nisso que temos de pensar: na construção, desde já, de uma alternativa forte, enraizada no povo, capaz de resistir a tudo isso, oferecendo outra saída. Ou estaremos ferrados.

Correio da Cidadania: E quanto ao Supremo, o seu posicionamento no caso Battisti e suas recentes atitudes e pareceres relativos à ditadura militar e à revisão da lei de anistia também fazem parte desse mesmo contexto e história, não?

Alípio Freire: Eu acho que o Supremo tem tido posições coerentes diante do que discutimos. E que têm de ser revertidas. Pra eles, é Battisti na Itália e de preferência nós também atrás das grades (risos)...

Quando se ouve num Congresso alguém dizer que, se há punição a torturadores, deve haver também a seus oponentes, me pergunto: outra vez?

Correio da Cidadania: O interesse do Supremo em reabrir a questão de Battisti é, assim, a mostra cabal do conservadorismo de direita que ainda predominaria na instituição, e, por extensão, em todo o Judiciário brasileiro, não?

Alípio Freire: Claro, mas é bom esclarecermos que há diferenças dentro do Supremo, e temos de mostrá-las. Não é o STF todo que é assim. Temos de denunciar que há um grupo comandado por Gilmar Mendes e dizer que, num país sério, este sujeito não seria chefe nem de bloco carnavalesco.

Há uma grande diferença entre ele e outros ministros do Supremo, como o Lewandowski, mas não somente ele. Essa posição do Supremo não é majoritária, pelo contrário, suas votações têm sido bem rachadas. É a mesma coisa que generalizarmos que a Câmara dos Deputados só tem ladrão.

É claro que existe uma hegemonia conservadora, o problema é esse, porque quando se constrói tal hegemonia a população olha e pensa: "são todos iguais". Nós não podemos cair nisso. Primeiro, por ser injusto. Em segundo lugar, por ser uma loucura acabar com a interlocução nessa instância, onde há gente séria e decente também, é importante ressaltar.

Correio da Cidadania: Diante de todo este contexto, como pensa, afinal, que devem se desenrolar os fatos de agora em diante? Qual deverá ser a decisão do Supremo?

Alípio Freire: Depois da desmoralização do Berlusconi, podemos ver que o assunto deu uma esfriada. E creio que tais fatos recentes vão pesar. Por outro lado, o Gilmar Mendes disse que só será julgado se o Lula poderia ou não, naquela época, ter tomado a decisão de conceder o asilo.

Temos de entender que somos o país mais dialético do mundo, onde tudo é e não é ao mesmo tempo. Se estivermos com a cabeça em países que funcionam de outro jeito, não vamos entender a situação.

Acredito que no final das contas vão decidir que cabia ao Lula, de fato, ter tomado a decisão. Se eles vão julgar somente a validade do ato presidencial, não podem opinar se Battisti tem de ficar preso ou não. Vão só decidir se lhe cabia ou não definir a questão.

Mas em caso negativo, com o que tem ocorrido na Itália... Acho que o Supremo não vai querer se queimar tanto. Nem mesmo o doutor Gilmar.

Correio da Cidadania: Caso, de todo modo, o STF decida que não cabe ao presidente a decisão, como pensa que vai se comportar Dilma Rousseff?

Alípio Freire: Primeiramente, vão ter de marcar outro momento pra julgar o caso e ainda dizer qual Poder terá competência para decidir, pois já tem deputado dizendo que a Câmara é que tem de votar ...Você já viu isso, uma câmara votar extradição? Todos os poderes podem querer tirar uma casquinha.

Quanto a Dilma, não imagino nada, porque as hipóteses são muitas. Mas creio que, pela coerência dela, pelo que vem anunciando na área de direitos humanos, ela deverá – é o que espero como eleitor dela – garantir a liberdade ao Battisti, através de algum dos mecanismos formais, como a própria Constituição.

Por fim, não tenho poder maior para tal, mas opino que todas as forças de esquerda, antifascistas, devem se unir para garantir, pressionar, qualquer dos poderes no sentido de garantir o asilo político a Cesare Battisti. Não basta somente ele ficar. Ele precisa do estatuto político que lhe garanta proteção, porque esses caras são capazes de tudo. É preciso garantir o asilo político e também a liberdade imediata.

É tarefa de todo cidadão antifascista, não precisa nem ser de esquerda, basta ser antifascista para saber o que isso significa. É uma disputa contra esse tipo de corrente política. Acho que não será necessário pressionar tanto assim, mas é preciso estar alerta.

Correio da Cidadania: Dessa forma, o seu otimismo com a soltura de Battisti se explica muito mais em função da conjuntura desastrosa que vive a Itália e da desmoralização de Berlusconi do que pelas posturas dos nossos poderes, correto?

Alípio Freire: Por isso e também pela posição da presidência da República sobre a questão da anistia e dos direitos humanos.

Valéria Nader, economista, é editora do Correio da Cidadania; Gabriel Brito é jornalista.

Fonte: Correio da Cidadania


Globo tenta dar golpe nas negociações do futebol: guerra à vista

Escrito por Gabriel Brito, da Redação














Nesta semana, nova guerra suja foi deflagrada no futebol brasileiro. Após receber uma tunda do CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) no meio da testa e ter de assinar um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), a Rede Globo perdeu seus privilégios monopólicos para adquirir os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro nos anos de 2012, 13 e 14.

Dessa forma, a concorrência prevista para o dia 11 de março passou a ter contornos muito mais interessantes, especialmente para os clubes, que finalmente viram uma claríssima brecha para elevarem exponencialmente seus ganhos com as milionárias transmissões televisivas. Isso porque antes a Globo tinha direito de preferência na renovação dos contratos, inclusive com acesso às propostas rivais, o que a fez tomar de vez as rédeas como sócia-proprietária do futebol nacional, em parceria com o todo poderoso Ricardo Teixeira, dono da CBF.

De agora em diante, por conta da determinação do CADE, a emissora terá de fazer aquilo que historicamente não está acostumada: jogar dentro de regras limpas. Obviamente, a medida acendeu as esperanças de outros canais de TV, sempre excluídos, na prática, das negociações. Record, e seu temido saco sem fundo de dinheiro, e Rede TV já declararam intenções de participar. Fora a Band, que já transmite, mas pode se livrar do jugo global, que lhe impõe o que pode ou não exibir. Na TV fechada, ESPN, Bandsports e Telefônica tentarão fazer frente à Sportv – de propriedade da Globo.

E neste ano há a grande novidade de se venderem os direitos de cada mídia separadamente, quando antes todas eram vendidas no mesmo pacote. Agora, TV aberta, fechada, Pay Per View, Celular, Internet e Direitos Internacionais serão negociados separadamente. O lance inicial para a TV aberta é 500 milhões de reais por ano (cifra do atual contrato), sendo que o Clube dos 13 calcula um rendimento total de 4 bilhões de reais ao final do período, na soma de todas as categorias.

A Globo já provou do veneno da emissora de Edir Macedo: perdeu os direitos de Londres 2012, pois neste caso não havia conchavo suficiente para que a Vênus Platinada levasse a parada por inércia. Quem deu mais levou, e pronto. No Brasil, não foi sempre assim que funcionou, devido à enorme subserviência de nossos dirigentes, sempre endividados, além de acomodados e aliados ao poderio global, que já fez diversos favores financeiros para apagar incêndios das agremiações.

No entanto, após anos de cobrança, o Clube dos 13, que reúne os 20 times mais influentes do país e juridicamente tem a prerrogativa de negociar o contrato de TV, após a providencial prensa do CADE decidiu adentrar o século 21 e elaborar uma licitação de verdade – simplesmente dentro das teorias do jogo capitalista. Ou seja, concorrência livre e aberta, quem der mais leva. Afinal, nossos clubes podem ser submissos e corruptos, mas precisam se resolver financeiramente.

Antecedentes

Vale lembrar que a Copa do Mundo tem produzido diversas disputas de bastidores no país, com times, estados e dirigentes se digladiando pelo melhor botim possível dos grandes eventos. Um dos casos notórios envolve o choque entre a CBF e o São Paulo FC, que objetivava ter seu Morumbi como sede da Copa, mas acabou passado pra trás por conta de antigas (e atuais) divergências com o imperador Ricardo Teixeira.

Assim, e amparado pela avidez por negociatas dos executivos da FIFA, a confederação inventou que o Morumbi não teria condições de sediar jogos do mundial sem uma reforma, que segundo cálculos da citada camarilha beiraria os 600 milhões de reais. O tricolor retrucou com um plano de um terço dos custos. Foi limado.

Com o senso de oportunismo em dia, o presidente do Corinthians (que se revela um sujeito congenitamente amoral), Andrés Sanchez, articulou com o presidente-torcedor-do-Timão Lula, a Odebrecht e os governos estadual e municipal a construção de um estádio em Itaquera, sonho da agremiação, mas que neste caso viria com o bônus de também sediar a Copa. Uma belíssima jogada, convenhamos.

Além disso, Sanchez se tornou aliado e fiel escudeiro de Ricardo Teixeira nos últimos tempos. Como prêmio, foi nomeado chefe da delegação da seleção brasileira na Copa de 2010. E sobre Globo e Teixeira nem é preciso falar: estão de mãos dadas desde sempre, com a emissora carioca tendo pista livre para cometer todos os desmandos que sempre se permitiu, como os detestáveis jogos às 10 da noite.

Fedor no ar...

E exatamente quando a concorrência se abriu, passaram a surgir notícias dando conta de uma suposta queda de valor de mercado do futebol, cujas audiências estariam decaindo, o que não justificaria contratos mais polpudos. E tudo tenderia a piorar caso a Record ficasse com os direitos de transmissão e recuasse o horário das partidas, pois neste caso o futebol seria inapelavelmente derrotado pelo Jornal Nacional e a novela.

Só faltou alguma prova para respaldar a descarada chantagem. Quer dizer, algumas bem fajutas foram mostradas, no caso, os índices de audiência dos jogos dos estaduais deste ano. Só ‘ignoram’ o fato de que a culpa é do descrédito, desorganização e decadência em que tais torneios se encontram. Mas o Brasileirão é outra história, muito diferente.

Com a experiência de Londres ainda viva na memória e o enquadro da autarquia do Ministério da Justiça, bateu o desespero na emissora, que iniciou um claríssimo processo de cooptação dos clubes. Diante da proximidade da decisão final, fatos estranhíssimos passaram a ocorrer em avalanche.

O presidente do Corinthians, sempre ele, passou a se queixar de uma falta de democracia na condução das negociações, por parte do Clube dos 13. O detalhe é que a comissão que cuida do assunto foi eleita pelo conjunto dos membros, portanto, todos deram sua anuência a essa forma de elaboração do processo de venda dos direitos.

Acusado de não ter assumido seu papel de vanguarda no futebol, tal como se esperava em seu surgimento, o Clube dos 13 jamais fez aquilo a que se propôs ao surgir, isto é, organizar uma liga de clubes que gerenciasse o Campeonato Brasileiro, o que só ocorreu em 1987, ano de sua fundação, quando a CBF se declarou incapaz de realizá-lo, delegando a tarefa à entidade que nascia.

E quando finalmente o C-13 resolve tomar uma postura mais protagonista e valorizar seu produto, o futebol, alguns de seus membros começam a sabotá-lo...

Golpe global

Segundo Ataíde Gil Guerreiro, membro da entidade e um dos responsáveis pela condução da negociação, "a Globo está se sentindo em risco. Ela está num estado de conforto e não quer risco. Ela tem todas as condições de ganhar, mas para que correr risco? Ela não quer fazer a concorrência com a lisura que nós queremos".

Ele ainda acrescentou que Sanchez tem se portado como "advogado da Globo", além de apontar, para não deixar dúvidas, que a emissora está querendo comprar os clubes e forçar a cisão na entidade, principalmente com os dois mais populares, Corinthians e Flamengo. Não à toa, a CBF resolveu reconhecer nessa mesma semana, após 24 anos, o título do Flamengo de 87, que sempre foi muito cristalino, mas que a oportunista entidade tinha tratado de furtar através de uma canetada da justiça comum.

Já Alexandre Kalil, presidente do Atlético-MG, foi ainda mais incisivo. "É uma baderna, tentaram avacalhar. Em princípio, o Clube dos 13 nasceu para isso (ser uma liga dos clubes), mas perdeu o trem da história. Nós temos que, primeiro, nos fortalecer como entidade de classe", declarou à ESPN Brasil. Para em seguida arrematar: "O Corinthians podia perfeitamente assumir a liderança do processo, queremos mudar a história e o patamar do C-13. O Flamengo também poderia. A avacalhação, o tumulto de não querer sentar na mesa que é revoltante".

E claro que a balbúrdia é patrocinada pela Globo, que muito obviamente tem agido na ilegalidade e oferecido supostas vantagens, por fora, aos clubes, como, por exemplo, empréstimos e adiantamento de cotas. Além disso, ofereceu aquilo que o presidente do Corinthians alega desejar para aumentar seus ganhos: negociações individuais, algo cada vez menos aceito no mundo do esporte. Sanchez crê que, negociando somente a parte alvinegra, poderá ganhar mais ainda, já que preside o time mais forte do país em termos de mercado.

Por sua vez, após ‘reaver’ o título de 87 o Flamengo resolveu aderir à dissidência, sendo seguido por Vasco, Botafogo e Fluminense, temerosos de se oporem a um rival mais poderoso que os três juntos no mercado. Além disso, Coritiba e Goiás também embarcaram e outros podem engrossar a debandada.

Mas a atual liderança do C-13 resolveu bater o pé e comprar a briga de vez. "O CADE está sendo estuprado, mais do que isso: o povo do futebol está sendo estuprado", declarou Kalil. "Vamos raciocinar linearmente. Estamos aqui em um jogo de dinheiro", completou, querendo dizer que não interessa quem transmitirá, e sim quem pagará mais. Sem a vitória garantida e tendo de abrir a carteira, a Globo faz de tudo pra melar o processo. "É caso de polícia, de Ministério Público", completou o dirigente atleticano.

Contrariando o ditado brasileiro, lei existe para ser cumprida...

Porém, há um grande entrave para quem quiser deixar o C-13: dívidas, pois os clubes também devem uns bons milhões à entidade. "Quem quiser pode sair. É só vir aqui, acertar as pendências e se desfiliar. Como qualquer um que pretende fechar uma conta corrente no banco", jogou na cara Fabio Koff, o presidente, que ainda chamou Sanchez de "moleque e irresponsável".

Diante do escárnio de Globo-CBF, repudiado pelo público, os revoltosos já amenizam o discurso, pois uma batalha judicial tem tudo pra reservar a derrota ao bloco, além do inevitável desgaste com as próprias torcidas, que podem emparedar seus dirigentes e indagar por que dificultam uma concorrência que tende a propiciar um enorme aumento das receitas de TV. "Eu quero sair dos meus 13 milhões por ano para 40. Acho que os outros não são idiotas e também querem", disparou Kalil.

Não seria a primeira vez que os clubes nacionais perderiam o "trem da história", mas agora, quando todo o mundo burguês exalta a exuberância da economia brasileira e o país se aproxima dos mega(bilionários)eventos, uma nova capitulação a déspotas tão conhecidos e desgastados não será facilmente engolida. Dessa vez, parece que a Globo, adotada e turbinada por uma ditadura, terá de enfrentar as autênticas regras de uma democracia capitalista.

Gabriel Brito é jornalista.

Fonte: Correio da Cidadania




A questão do salário mínimo: um espetáculo político deprimente

Escrito por Frei Marcos Sassatelli
25-Fev-2011

Nesses dias assistimos a um espetáculo político deprimente: a discussão sobre o salário mínimo por parte do governo e dos parlamentares.

Antes de tudo, podemos constatar a maneira autoritária e desrespeitosa como o governo conversou com os sindicatos e as centrais sindicais. O ministro Gilberto Carvalho (Secretaria Geral), representante da presidenta Dilma na negociação, disse que não "levará em conta" os protestos. "Na questão do mínimo, nós entendemos que não há mais negociação. Vamos reafirmar os R$ 545. Se tivéssemos folga e uma situação fiscal tranqüila, poderíamos ser mais generosos". Que cinismo! O ministro sabe muito bem - embora finja não saber - que um salário mínimo digno não é uma questão de generosidade do governo, mas direito dos trabalhadores.

O próprio ex-presidente Lula - que, como ex-trabalhador, deveria conhecer a vida dos trabalhadores - saiu em defesa de Dilma e criticou o "oportunismo" dos sindicatos na negociação pelo reajuste do salário mínimo (Cf. Folha de S. Paulo, 09/02/11, p. A4). Será que o "oportunismo" não é do governo? Será que o ex-presidente Lula, deslumbrado pelo poder, e o próprio partido, dito "dos Trabalhadores", não precisam refrescar a memória sobre a vida subumana da grande maioria dos trabalhadores? Ou será que as "cataratas" impedem os parlamentares do PT e seus aliados de enxergar a realidade?

Na discussão sobre o salário mínimo, os parlamentares debocham da inteligência do povo. Em geral - com raras exceções - não têm nenhuma preocupação com a vida e as necessidades básicas dos trabalhadores e de suas famílias. O "é dando que se recebe", ou, em outras palavras, o "toma lá e dá cá" é a questão central do debate. Trata-se de uma barganha que visa somente os interesses pessoais e de grupos.

Há pelo menos 40 anos que, nessa farsa toda, os parlamentares afirmam na imprensa, com desfaçatez e cinismo, que é preciso estabelecer uma meta de recuperação de salário mínimo, mas nada ou quase nada fazem. É sempre a mesma enrolação e a mesma enganação ao povo. Só mudam os atores. Aqueles que, antes de chegar ao poder defendiam, em alto e bom som, um salário mínimo que atendesse às necessidades básicas dos trabalhadores (como, por exemplo, o Vicentinho, relator do projeto), agora defendem um salário mínimo de fome. É a total falta de vergonha e, sobretudo, a total falta de ética.

Para comprovar o que estamos dizendo, basta citar algumas manchetes de jornal: "Partido (PMDB) cobra reconhecimento depois de exibir força na votação do mínimo"; "Governo retribui apoio do PMDB com cargos na Caixa"; "Recompensa aos aliados: peemedebistas devem ganhar cargos após aprovação do mínimo no Congresso"; "Partidos (PT, PMDB e até mesmo PDT) duelam por indicações na cúpula do Banco do Brasil". E mais: "Dilma esperava a votação do mínimo para definir nomeações"; "Com a aprovação do salário mínimo de R$ 545, os peemedebistas praticamente garantiram a nomeação do vice-presidente de Agronegócios. A sigla votou em peso com o governo. Já o PDT, que também queria o Agronegócios ou a vice-presidência do governo, não deve levar nada por enquanto. Nove de seus deputados votaram contra o mínimo" (Folha de S. Paulo, 18/02/11, p. A4).

Ler isso na imprensa é realmente repugnante, dá vontade de vomitar. É uma pouca vergonha deslavada. Essa disputa por cargos - diga-se de passagem - não é certamente motivada pela abnegação e pelo desejo de servir ao bem comum, sobretudo aos mais pobres e necessitados.

Não adianta o ministro Guido Mantega afirmar que o valor do salário mínimo não pode ser maior do que R$ 545 para "garantir o equilíbrio fiscal" do Orçamento Público. Por que o ministro não teve a mesma preocupação na hora de votar, desavergonhada e acintosamente, o aumento salarial dos parlamentares e dos governantes? É muita cara de pau!

Não adianta nada, também, os parlamentares usarem de sofismas e artifícios legais, fazendo todo tipo de malabarismos. A questão do salário mínimo é só uma questão de opção política, é só uma questão de priorizar os interesses dos trabalhadores (e não dos detentores do poder econômico, como os banqueiros que, em 2010, tiveram um lucro maior que nos anos anteriores).

Por que não se cumpre simplesmente a Constituição Federal? Para que ela existe? Entre os direitos dos trabalhadores, a Constituição Federal enumera: "Salário mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer fim" (Art. 7, IV).

Quando os pobres "desobedecem" à Constituição Federal (sobretudo no tocante à "lei da propriedade privada") e às outras leis, são presos, processados e vão para a cadeia. Infelizmente, nós sabemos que a cadeia está cheia de pobres "desobedientes" (pequenas "desobediências") e não de ricos "desobedientes" (grandes "desobediências"). Por que os governantes e os parlamentares, que "desobedecem" à Constituição Federal e às outras leis, não são também presos, processados e vão para a cadeia? A Constituição Federal e as outras leis não existem para todos? Que descaramento!

Só para citar um exemplo, vejam novo absurdo: ao mesmo tempo em que o governo defende um salário mínimo de R$ 545, anuncia a injeção de R$ 10 bilhões de recursos da Caixa para o banco PanAmericano. Está muito clara a opção política do governo. Embora sabendo que a política do PSDB é igual ou pior à do PT, sou obrigado a concordar com o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), quando afirma: "O PT mostra que escolheu seus amigos e já pode até mudar de nome: Partido do Capital Financeiro" (Folha de S. Paulo, ib.)..

Em valores de dezembro de 2010, o salário mínimo necessário para garantir os direitos dos trabalhadores, estabelecidos na Constituição Federal, deveria ser de R$ 2.227,53 (DIEESE - Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócioeconômicos).

Por que os sindicatos e as centrais sindicais – que em conjunto com os Movimentos populares (como o MST, a UNE e outros) iniciaram a negociação defendendo o valor de R$ 580 para o salário mínimo, o que mesmo assim continuaria sendo uma afronta à dignidade dos trabalhadores - não se unem, não se organizam e não assumem uma posição mais combativa?

Ou seja, uma posição de resistência e de tolerância zero a esse rolo compressor do governo que, por ser criminosamente aliado ao poder econômico e covardemente submisso a seus interesses, suga o sangue dos trabalhadores, matando-os aos poucos. Por que não fazem uma greve geral por tempo indeterminado? Ou, num governo dito "popular" as palavras "greve geral" são proibidas?

Será que os sindicatos e as centrais sindicais se esqueceram que, depois de esgotadas todas as tentativas de diálogo, a greve geral é um direito sagrado dos trabalhadores? Lembrem-se do slogan, que outrora empolgou os Sindicatos e os Movimentos Populares: "trabalhador unido, jamais será vencido"! É na união que se constrói o Poder Popular.

Frei Marcos Sassatelli, Frade Dominicano, doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP) e membro da Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO, Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia e administrador paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra.

E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

Fonte: Correio da Cidadania

Aluguel em março terá reajuste de 11,3%

A inflação medida pelo Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M), utilizado para reajuste da maioria dos contratos de aluguel, acelerou de 0,79% em janeiro para 1% em fevereiro, segundo informou a Fundação Getulio Vargas (FGV) ontem. No ano, o índice acumula alta de 1,80% e de 11,3% nos últimos 12 meses.

O Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), que representa 60% do IGP-M, também acelerou, de 0,76% para 1,20%. O índice relativo aos bens finais passou de 0,08% para 0,17%, em fevereiro. Já o índice referente ao grupo bens intermediários desacelerou, passando de 0,78% para 0,76%. Em janeiro, a taxa foi de 0,78%. O índice de matérias-primas brutas variou 2,97%, em fevereiro, contra 1,50% em janeiro.

Em fevereiro, o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) ficou em 0,67%, contra 1,08% em janeiro. Dos sete grupos de despesas que compõem o índice, cinco registraram decréscimos em suas taxas de variação. O principal destaque partiu do grupo alimentação, que recuou de 1,47% para 0,24%.

As principais influências foram observadas nas variações de preços e frutas (de 1,87% para -1,41%), carnes bovinas (de -0,58% para -2,91%) e hortaliças e legumes (de 9,35% para 6,42%).

Foi registrada desaceleração no avanço de preços dos grupos educação, leitura e recreação (de 2,75% para 1,63%), vestuário (de 0,35% para -0,55%), saúde e cuidados pessoais (de 0,53% para 0,33%) e transportes (de 1,94% para 1,82%).

Na contramão, ficaram ainda mais caras as despesas relativas aos grupos despesas diversas (de 0,95% para 1,57%) e habitação (0,22% para 0,51%).

Em fevereiro, o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) acelerou de 0,37% para 0,39% em fevereiro. A taxa do grupo materiais e equipamentos apresentou aceleração, de 0,22%, em janeiro, para 0,54%, em fevereiro. A taxa do grupo serviços recuou de 1,21% para 1,04%, e a do índice relativo ao grupo mão de obra baixou de 0,32%, no mês anterior, para 0,12% neste mês.

Fonte: Tribuna da Bahia

A lua-de-mel vai acabar

Carlos Chagas

Corte de 50 bilhões no orçamento, reajuste insuficiente no salário mínimo, proibição de contratações no serviço público, mesmo para os já aprovados em concurso, nenhum reajuste para os funcionários públicos, negativa de recursos adicionais para os estados do Nordeste, juros em alta, perspectiva de um novo imposto para custear a saúde pública - só notícias ruins, até agora.

Fala-se dos primeiros dois meses do governo Dilma Rousseff. A ninguém foi dado esperar que a nova presidente chegasse ao poder disposta a abrir o saco de bondades, mas sucedem-se as maldades. Muitas devem-se às gastanças do último ano do governo Lula, mas se não fosse a farra de 2010 o ex-presidente talvez não tivesse feito a sucessora. Explica-se essa fase de vacas magras também pela própria personalidade da chefe do governo, para quem os sacrifícios devem ser feitos de uma só vez, ao tempo em que as benesses aos poucos, em conta-gotas.

Agora tem um problema, talvez já detectado por sua assessoria: as elites econômico-financeiras andam felizes, nenhum de seus privilégios foi cortado e elas permanecem faturando o diabo, como demonstram os lucros dos bancos e a remuneração do capital especulativo. Evidência disso tem sido os editoriais dos jornalões. Mas o povão e a classe média, como vem reagindo?

Coincidência ou não, os institutos de pesquisa andam paralíticos, sem consultar a população. Ou se o fazem, pior ainda, porque não revelam os resultados senão para clientes privilegiados, entre os quais o governo.

O risco, para Dilma Rousseff, será receber logo percentuais de popularidade muito abaixo daqueles conquistados pelo Lula. Por um par de meses ou pouco mais ainda será possível aproveitar o vácuo da vitória de outubro passado, assim como os índices do antecessor. Demonstra a experiência, porém, que a lua-de-mel dos governantes com a opinião pública dura no máximo seis meses.

Aconteceu até com os generais-presidentes e seguintes. José Sarney passou do sucesso do Plano Cruzado às picaretadas; Fernando Collor se viu cobrado e abandonado em pouco tempo; Itamar Franco terá sido uma exceção, entrando sem qualquer expectativa mas saindo exaltado; Fernando Henrique foi a esperança bem-nascida e desfeita nos andares de baixo que, relegou ao abandono; Lula conseguiu provar a quadratura do círculo por conta das origens e de muita sorte, daqueles fenômenos que apenas acontecem uma vez em cada século.

E Dilma? Ainda dispõe de algum tempo para dar a volta por cima e reverter os ventos, primeiro da indiferença e depois da impopularidade, mas seria necessário que se mexesse no sentido oposto ao que vem seguindo até agora. Alguma coisa precisa ser feita e anunciada para o povão. Só fazer o árido dever de casa não basta, até por falta de quem o corrija, fora das elites.

Uma retomada de direitos sociais surripiados ao longo das últimas décadas, como a volta do salário-família, da estabilidade no emprego, da participação dos empregados no lucro das empresas e da co-gestão seria um bom começo ou um sonho de noite de verão? Certamente um pesadelo para os neoliberais…

NO FIO DA NAVALHA

O Bom Direito também possui os seus desvãos. O Supremo Tribunal Federal congelou a aplicação da lei da ficha limpa, deixando as instituições políticas em lamentável impasse, depois do empate de 5 a 5 entre seus ministros. O então presidente Lula lavou as mãos, sem indicar o décimo-primeiro ministro, de agosto ao final de seu mandato, ano passado. Qualquer que fosse a inclinação do sucessor de Eros Grau, caso nomeado e incorporado aos colegas antes do julgamento da questão da aplicação da ficha limpa e tudo teria transcorrido de acordo com o Bom Direito. O número ímpar de ministros existe precisamente para evitar os empates.

Agora que a presidente Dilma Rousseff indicou e o Senado aprovou o juiz que faltava, a mais alta corte nacional de justiça estará apta a decidir se a lei valeu ou não valeu para as eleições de outubro passado. Só que a delonga em sua nomeação criou situação inusitada: repousa nas mãos de um homem só a sorte de um monte de candidatos, uns empossados, outros não, por conta de decisões dos tribunais estaduais.

Luís Fux, por maiores méritos que possua como jurista, carrega um peso superior às forças de um homem só. Acresce que pelas informações correntes no Supremo, também há empate com relação ao processo do mensalão. Absolver ou condenar os 40 réus acusados de formação de quadrilha e outros crimes? Livrar a cara de uns, como José Dirceu, e mandar outros para as grades, como Marcos Valério?

Luís Fux deve estar vivendo seu inferno zodiacal, com posse marcada para daqui a uma semana. Impossível imaginar que não esteja sendo pressionado por mil e um interesses. Claro que não terá deixado entrever qualquer tendência, muito menos para o governo que o indicou, os senadores que o aprovaram e os colegas que o receberão em concílio. Mas talvez nem precisasse.

Fonte: Tribuna da Imprensa

As revoltas nos povos árabes reacendem as discussões sobre o que diferencia uma democracia e uma ditadura. Por trás de tudo, protegendo os ditadores, há sempre o manto sagrado do imperialismo ocidental.

Carlos Newton

Muitos comentaristas têm se manifestado acertadamente aqui sobre a existência de diversos níveis de democracia, que realmente variam de acordo com o que acontece em cada país. Isso significaria que o conceito de democracia é variável, quando não deveria ser. Da mesma forma, o conceito de ditadura também poderia variar.

São opiniões interessantíssimas, que podem produzir teses e mais teses de mestrado e doutorado, em discussões proveitosas e intermináveis. Nesse particular, na verdade temos poucas certezas absolutas. Uma dessas certezas é de que a política internacional difere completamente das políticas internas dos países.

Na política externa, o que sempre prevalece é o interesse das grandes potências. Por isso, países que se consideram generosas e sólidas democracias costumam sustentar sangrentas ditaduras, desde que sejam favoráveis às suas pretensões imperialistas, do ponto de vista estratégico ou comercial.

Em recente artigo, o jornalista Igor Fuser fez uma revelação absolutamente verdadeira: “Quando ingressei como redator na Editoria Internacional da Folha de S. Paulo, um colega veterano me ensinou como se fazia para definir, entre as centenas de notícias que recebíamos diariamente, quais seriam merecedoras de destaque no jornal do dia seguinte. ‘É só olhar os telegramas das agências e ver o que elas acham mais importante’, sentenciou. Pragmático, ele adotava esse método como um meio seguro de evitar que o noticiário da Folha destoasse dos jornais concorrentes, os quais, por sua vez, se comportavam do mesmo modo. Na realidade, portanto, quem pautava a cobertura internacional da imprensa brasileira era um restrito grupo de três agências noticiosas – Reuters, Associated Press e United Press International, todas afinadíssimas com as prioridades geopolíticas dos Estados Unidos”.

Era o que acontecia e ainda acontece nas redações, porque embora existam outros fornecedores de informação, como a CNN, a BBC, as agências ocidentais France Presse, Ansa e EFE, assim como as agências estatais da Rússia e de Cuba, por exemplo, a imprensa não mudou nada, especialmente porque os interesses dos Estados Unidos muitas vezes se confundem com os interesses dos países europeus.

É por isso mesmo que, na imprensa internacional e também na mídia brasileira (o que acontece na “Matrix” sempre é seguido rigorosamente aqui na filial), existem tratamentos diferenciados para as ditaduras que são do interesse do Ocidente e as que lhe são hostis.

Agora, com a ocorrência de revoltas em países como Tunísia, Egito, Bahrein, Líbia etc., “de repente”, como dizia Vinicius de Moraes, “não mais do que de repente”, a imprensa ocidental passa a lembrar que se trata de ditaduras, cada uma a seu modo e com sua intensidade.

Essa revelação então dá margem a todo tipo de saudáveis discussões, especialmente sobre os limites das ditaduras e das democracias. É muito interessante notar como as opiniões variam. Há quem considere que Israel não é uma democracia, embora nas eleições concorram partidos árabes e islamitas. Da mesma forma, há quem considere que a Turquia é uma democracia, também porque promove eleições e tem partidos livres.

Pessoalmente, eu prefiro ser julgado pela Justiça israelense do que pela Justiça turca, o que representa um dos parâmetros que utilizo para identificar alguma coisa que se aproxime de democracia. Em grande número de países da África, por exemplo, o que menos existe é democracia. As ditaduras são sangrentas e racistas, as etnias se digladiam e se destróem, o Ocidente assiste a tudo passivamente, como se ninguém tivesse nada a ver com isso.

O que ocorre na Guiné Equatorial, por exemplo, é de revoltar qualquer pessoa com um mínimo de consciência. O petróleo e as demais riquezas do país – madeira e minérios – estão sendo dilapidados por uma ditadura terrível, que deposita em bancos ocidentais o dinheiro roubado ao povo, de tal forma que o ditador Teodoro Obiang é considerado pela revista Forbes como o oitavo governante mais rico do mundo.

Hipoteticamente, por essas distorções que costumam haver nas estatísticas, a Guiné Equatorial tem o maior PIB per capita da África, o que é uma falácia, porque o país registra um dos piores Índices de Desenvolvimento Humano. Motivo: o dinheiro é quase todo desviado pela quadrilha de Obiang. Os hospitais não têm remédios, lençóis, quem quiser se tratar tem de levar tudo de casa e ainda pagar o médico. A média de expectativa de vida não passa de 44 anos. Não é preciso dizem mais nada.

E ninguém parece se incomodar. Há 31 anos no poder, Obiang é saudado na ONU como estadista, e os antigos colonizadores (a Espanha) fazem homenagens a ele. Aqui no Ocidente, ninguém fala em derrubar o déspota Teodoro Obiang. Por essas e outras, quando se discute democracia e ditadura, é sempre bom lembrar o célebre pensador britânico, Lord Kenneth Clark, que dizia: “Civilização? Não sei o que é isso. Mas tenho certeza de que, se algum dia eu encontrar, saberei reconhecer”.

Fonte: Tribuna da Imprensa

Maria da Penha é aplicada para violência entre casal gay

Pela decisão judicial, o agressor foi proibido de se aproximar mais do que 100 metros da vítima

25/02/2011 | 17:48 | Agência Estado

A Lei Maria da Penha foi aplicada a um caso de violência entre um casal homossexual no Rio Grande do Sul. Na quarta-feira, 23, o juiz Osmar de Aguiar Pacheco, da Comarca de Rio Pardo, concedeu medida protetiva a homem que afirmou estar sendo ameaçado por seu companheiro. Pela decisão judicial, o agressor foi proibido de se aproximar mais do que 100 metros da vítima.

Segundo o juiz, embora a Lei Maria da Penha tenha como objetivo original a proteção das mulheres contra a violência doméstica, todo aquele em situação vulnerável, ou seja, enfraquecido, pode ser vitimado. Em sua decisão, também observou que a união homoafetiva deve ser vista como fenômeno social, merecedor de respeito e de proteção efetiva com os instrumentos contidos na legislação.
Fonte: Gazeta do Povo

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