
Mudança precisa de aprovação do Congresso americano
Pedro do Coutto
A decisão do presidente Donald Trump de rebatizar o Departamento de Defesa como Departamento de Guerra não é apenas uma alteração simbólica. Trata-se de um gesto carregado de implicações políticas, militares e diplomáticas. Oficializado por decreto executivo em 5 de setembro de 2025, o ato já impacta a comunicação oficial do governo, e autoriza o secretário Pete Hegseth a usar o título de “Secretário da Guerra”.
Segundo Trump, a expressão “Defesa” soava como fruto da “correção política”, enquanto “Guerra” expressaria poder e determinação. Hegseth foi ainda mais incisivo: afirmou que a prioridade será “letalidade máxima, não legalidade morna; efeito violento, não político-correto”.
REFLEXOS – Embora o Congresso ainda precise aprovar a mudança legal, o decreto já mobiliza consequências práticas. Especialistas apontam que a substituição de nomenclaturas em placas, documentos, uniformes e sistemas pode custar centenas de milhões de dólares aos cofres públicos, num momento em que o Pentágono enfrenta pressões orçamentárias.
Mais do que o impacto financeiro, pesa o simbolismo. O termo “Departamento de Guerra” vigorou até 1947, quando os EUA, saindo da Segunda Guerra Mundial e entrando na era nuclear, decidiram enfatizar a dissuasão e a defesa como pilares da sua política externa. Reativar essa nomenclatura sugere não apenas nostalgia, mas também disposição de reposicionar os EUA de forma mais agressiva no tabuleiro global.
Críticos consideram a medida uma jogada retórica destinada a reforçar a imagem de força perante sua base eleitoral. Analistas do American Enterprise Institute destacam que questões reais de poder militar — como orçamento, capacidade tecnológica e retenção de oficiais experientes — importam mais do que mudanças semânticas.
CUSTOS E RISCOS – Já líderes republicanos, como Mitch McConnell, lembram que chamar um departamento de “Guerra” exige que o país esteja disposto a assumir os custos e riscos de efetivamente travá-las. Nesse contexto, o gesto de Trump extrapola o marketing político: ele alimenta um ambiente de tensão, em que adversários estratégicos, como China, Rússia, Coreia do Norte e Irã, podem interpretar a alteração como sinal de escalada.
Ao resgatar um termo associado a épocas de conflito aberto, Trump dá novo fôlego a um discurso beligerante em meio a um cenário global já instável. A retórica pode agradar a setores da sociedade que enxergam nos EUA a missão de exercer força e liderança mundial, mas também pode aproximar o país de dilemas perigosos.
Palavras moldam realidades, e quando o comandante-em-chefe decide trocar “defesa” por “guerra”, o mundo observa com apreensão se o simbolismo se converterá em prática — e a que custo.