
Diante da crise, Lula reforça a sua liderança política
Pedro do Coutto
O presidente Lula da Silva adotou uma postura prudente e estratégica diante do tarifaço imposto por Donald Trump a produtos brasileiros, optando por não retaliar de imediato com restrições comerciais aos Estados Unidos. Longe de ser um gesto de passividade, a decisão representa um cálculo político e econômico preciso: evitar dar pretexto para novas medidas punitivas por parte da Casa Branca e preservar o canal de diálogo entre os dois países.
Ao não taxar produtos americanos, o governo brasileiro impediu que se criasse uma narrativa de contradição e manteve o fluxo de insumos e bens estrangeiros — inclusive dos EUA — como parte integrante do processo produtivo nacional. Essa escolha também protege empresas americanas que operam no Brasil, evitando danos colaterais que poderiam agravar o clima diplomático.
BLINDAGEM – Paralelamente, Lula agiu de forma prática para blindar o setor produtivo nacional. Autorizou um pacote emergencial de R$ 30 bilhões em crédito, complementado por R$ 4,5 bilhões em benefícios fiscais, destinados a exportadores afetados. O objetivo é compensar, ao menos parcialmente, o impacto das tarifas sobre setores-chave como agronegócio, siderurgia e indústria de transformação.
A mensagem é clara: embora as transações de governo para governo requeiram cautela e diplomacia, as relações comerciais entre empresas devem seguir seu curso, preservando empregos e competitividade. Essa postura integra um plano de reação em quatro frentes: atuação jurídica na Organização Mundial do Comércio para questionar a legalidade do tarifaço; articulação diplomática com parceiros estratégicos, especialmente no âmbito dos BRICS; implementação de medidas econômicas imediatas para sustentar os exportadores; e defesa firme da soberania nacional diante de pressões externas.
EQUILÍBRIO – A recém-aprovada Lei da Reciprocidade foi mantida como instrumento de reserva, a ser acionado apenas se o diálogo fracassar, sinalizando equilíbrio e maturidade política. Em suas declarações, Lula também reafirmou que questões internas, como julgamentos de ex-presidentes, são atribuição exclusiva do Judiciário brasileiro, rechaçando qualquer tentativa de ingerência estrangeira.
Ao evitar uma guerra tarifária imediata, o presidente ganhou tempo para proteger a economia, reduzir o impacto sobre produtores e projetar, no cenário internacional, a imagem de um Brasil firme, mas aberto ao diálogo. A estratégia mostra que, em política externa, a serenidade pode ser mais eficaz que a retaliação impulsiva.
Em vez de escalar o conflito, Lula transformou a crise em oportunidade para reforçar sua liderança e provar que é possível enfrentar desafios externos com inteligência, coesão interna e respeito às regras do jogo internacional.