Publicado em 8 de agosto de 2025 por Tribuna da Internet

Oposição não busca justiça, mas sim conveniência
Marcelo Copelli
Revista Fórum
Nesta semana, o Brasil testemunhou um episódio grave no Congresso Nacional: parlamentares da oposição ocuparam fisicamente as Mesas Diretoras da Câmara e do Senado, se acorrentaram e interromperam a ordem legislativa em nome de um protesto. Alegavam censura, perseguição judicial e exigiam uma anistia ampla a investigados por atos antidemocráticos, além de cobrar o impeachment de um ministro do Supremo Tribunal Federal.
A cena revelou mais do que insatisfação política — explicitou uma tentativa de subversão dos ritos democráticos por meio da chantagem institucional, disfarçada de resistência civil. De forma contraditória, os parlamentares que alegavam defender a liberdade de expressão agiram justamente contra ela ao impedir que o Congresso funcionasse.
ANISTIA – As sessões foram bloqueadas, os debates silenciados à força, e as votações previamente pautadas — como medidas econômicas e projetos de interesse público — foram deixadas de lado em nome de uma pauta única: salvar seus aliados. O apelo por anistia, nesse contexto, não surgiu como proposta debatida nos fóruns adequados, mas como uma imposição baseada na lógica do “ou nos atendem, ou ninguém trabalha”.
Trata-se de uma inversão perigosa. Em vez de defender o direito à ampla defesa nos termos da Constituição, tentou-se usar a pressão física e simbólica para forçar um perdão coletivo sem análise jurídica, sem critério e sem respeito às etapas de tramitação legislativa.
É preciso deixar claro: anistia não é atalho. Trata-se de um instrumento jurídico previsto na Constituição, que exige debate amplo, fundamentação sólida e, sobretudo, compatibilidade com os princípios do Estado de Direito. Usá-la como moeda de troca, vinculando sua votação à liberação da pauta do Congresso, não apenas compromete sua legitimidade como também fere o processo legislativo. A chantagem institucional implícita nessa conduta corrompe o princípio da separação de Poderes e ameaça transformar o Parlamento em refém de grupos golpistas organizados, dispostos a tudo para proteger seus interesses particulares.
TEATRO – Ademais, o simbolismo da cena — correntes, cadeados e esparadrapos — foi mais teatral do que coerente. Nenhum dos envolvidos estava, de fato, impedido de se manifestar. O que houve foi a instrumentalização estética do vitimismo para tentar legitimar uma pauta que, até aqui, encontra sérias objeções jurídicas e morais.
Enquanto discursavam contra a censura, impediram que seus próprios colegas votassem. Ao mesmo tempo em que exigiam liberdade de expressão, censuravam o funcionamento do Congresso. O paradoxo não é apenas retórico — é institucionalmente destrutivo. Ao colocar as próprias convicções acima do regimento interno, esses parlamentares deixaram de agir como representantes da democracia e passaram a encenar uma narrativa que ataca suas bases.
A retomada das votações ocorreu dois dias depois, mas o estrago estava feito. O Congresso foi transformado em palco de chantagem, e os cidadãos brasileiros, mais uma vez, viram suas demandas serem secundarizadas por uma disputa que não diz respeito ao interesse coletivo. É legítimo que parlamentares façam oposição, apresentem projetos de anistia, questionem o Judiciário e mobilizem suas bases — tudo isso está no cerne do debate democrático. O que não é legítimo é tentar impor essas pautas com base na obstrução autoritária, ameaçando o andamento do Parlamento como forma de extorsão política.
IMPUNIDADE – Mais preocupante ainda é a tentativa de normalizar esse tipo de conduta. Se o perdão a investigados por crimes contra a ordem institucional passa a ser moeda corrente em função da força política, abre-se precedente para que qualquer grupo — de esquerda ou direita — recorra à pressão física, ao bloqueio de sessões e à retórica emocional para conseguir impunidade. O Parlamento deixaria de ser um espaço de deliberação para se tornar um balcão de barganhas de ocasião. E isso mina não apenas a imagem das instituições, mas a própria crença da população na democracia representativa.
Ao encenar a defesa da liberdade enquanto silencia o Congresso, a oposição perde a razão. Ao pedir anistia em troca da obstrução, transforma um instrumento jurídico nobre em arma de autoproteção. E ao sustentar um discurso de defesa da democracia por meio de atos antidemocráticos, revela que, no fundo, não busca justiça — mas sim conveniência. A democracia exige coragem para ouvir, paciência para negociar e responsabilidade para aceitar o resultado das urnas e das instituições. O que vimos, infelizmente, foi o oposto disso.