quarta-feira, agosto 20, 2025

Alvorecer de esperança em terra de contrastes

 Alvorecer de esperança em terra de contrastes


             * Paulo Baía 


O Brasil desperta como quem atravessou uma noite longa de incertezas, cheia de vozes sombrias que anunciavam o naufrágio da esperança, para reencontrar um amanhecer mais claro. O ar que agora se respira já não é tão pesado, a mesa popular volta a conhecer o alívio de uma cesta menos ameaçada, e o coração do povo redescobre que, por vezes, a política pode devolver o fôlego que parecia perdido. A pesquisa Genial/Quaest de agosto de 2025 revela, com a precisão das estatísticas, essa reconfiguração silenciosa da vida social: a aprovação do governo alcança 31%, a desaprovação recua para 39%, e a distância entre ambas se estreita para 8 pontos percentuais. A aprovação pessoal de Lula cresce e chega a 46%, enquanto a desaprovação cai para 51%. Três meses atrás, em maio, o cenário era de desalento: 57% desaprovavam e apenas 31% aprovavam o governo. Essa diferença, que parecia cristalizar a fadiga política e o descontentamento social, começa a se desfazer como neblina diante do sol.

Nada disso nasce do acaso. As transformações da opinião pública não surgem por geração espontânea, mas de vetores materiais e simbólicos que se encontram. O primeiro vetor é interno, inscrito na experiência cotidiana do povo: a inflação dos alimentos. Em maio, 76% declaravam sentir que os preços não paravam de subir. Em agosto, esse número cai para 60%. O impacto desse dado vai muito além do gráfico: ele se inscreve na vida concreta, na feira da esquina, na prateleira do mercado, na panela de arroz que já não é tão racionada. A percepção de perda do poder de compra também cede: de 80% para 70%. Enquanto isso, os que dizem conseguir comprar mais aumentam de 11% para 16%. São números que, sob o olhar sociológico, representam alívio em milhões de lares. Cada ponto percentual corresponde a famílias que respiram mais tranquilas, a trabalhadores que já não veem o salário dissolver-se no vazio, a mulheres que conseguem repor o leite, a crianças que voltam a encontrar carne no prato.

O segundo vetor é externo, atravessa o campo geopolítico e afeta a autoestima coletiva da nação. O tarifaço de Donald Trump foi mais do que um ataque comercial, foi um teste à soberania brasileira. A resposta do governo, avaliada como firme, reconfigura a imagem do país diante de seu próprio povo. Segundo a pesquisa, 48% consideram que Lula agiu da forma correta diante das tarifas, e 49% acreditam que sua atuação se deu em defesa do Brasil, e não em benefício pessoal. Esse dado revela um fenômeno profundo: a população reconhece na postura do presidente não apenas uma medida de governo, mas um gesto de Estado, um ato de dignidade nacional. A diplomacia, nesse momento, deixa de ser distante e abstrata para se converter em pão, emprego e orgulho. O enfrentamento com o império é interpretado como gesto de soberania que protege a vida comum.

A força política desse instante está exatamente na junção desses dois movimentos: a descida da inflação dos alimentos e a postura firme diante do estrangeiro. Quando o preço do feijão deixa de ser tormenta, e quando a imagem de um presidente que não se ajoelha aparece no noticiário, algo profundo se reorganiza no imaginário coletivo. O governo se reconecta à alma popular, e a política volta a ser vista como capaz de proteger. A pesquisa, com sua frieza numérica, é o espelho dessa pulsação social, que se expressa não apenas nas respostas colhidas, mas no silêncio das cozinhas e no rumor das ruas. É nesse entrelaçamento entre o econômico e o simbólico que se explica a recuperação da aprovação.

Esse efeito é ainda mais evidente entre os segmentos mais vulneráveis. No Nordeste, entre beneficiários do Bolsa Família, entre mulheres e entre trabalhadores que recebem até dois salários mínimos, a aprovação cresce com intensidade. Esses grupos são os que mais sentem a dureza da inflação, os que mais dependem da política social e os que mais valorizam a defesa da soberania. O alívio no bolso, combinado ao orgulho nacional diante do império, fecunda a esperança ali onde o desalento parecia consolidado. A democracia, trincada por anos de ameaças autoritárias, ganha respiro nesse reencontro com sua base popular. Cada ponto percentual que se desloca entre os pobres é mais do que estatística: é rearticulação do pacto social.

Mas a pesquisa também revela os limites e as contradições desse processo. Ainda há uma maioria crítica: 51% desaprovam o governo. A polarização não desapareceu, continua presente e intensa. Os números mostram recuperação, mas também lembram que a disputa segue em aberto. A diferença, que em maio era de 26 pontos percentuais (57% de desaprovação contra 31% de aprovação), agora é de apenas 5 pontos na avaliação pessoal e de 8 pontos na avaliação do governo. Essa mudança abrupta em três meses mostra que a opinião pública brasileira é sensível, plástica, sujeita a choques e a viradas rápidas. Isso significa que conquistas podem ser revertidas, que esperanças podem se dissolver, que confiança pode novamente se esvair. A política é campo de ventos e tempestades.

O olhar sociológico sobre esses dados exige enxergar além das curvas. 46% de aprovação não é apenas metade do país em sintonia com o presidente. É também a confirmação de que a narrativa da reconstrução ainda é possível. A queda da desaprovação, de 57% para 51%, significa que o pessimismo não é irreversível. Há resiliência. Há espaço para o otimismo. Há terreno para a esperança. Esse movimento é como poesia política: traduzido em estatísticas, mas vivido em emoções coletivas. É a metáfora de um país que alterna desencanto e confiança, medo e coragem, resignação e luta.

Mas há aqui um alerta. A defesa da soberania não pode ficar restrita a um governo ou a um tribunal. O povo precisa assumir seu protagonismo. Sem mobilização organizada, sem ruas ocupadas, sem praças vivas, a democracia corre o risco de dissolver-se novamente em ácido. O capital financeiro, articulado na Farialima, deseja submissão irrestrita às ordens do império. Setores militares ainda alimentam nostalgias autoritárias. O bolsonarismo, mesmo derrotado eleitoralmente, permanece como força ativa, articulada com interesses poderosos, pronta a corroer a frágil institucionalidade democrática. O perigo continua presente.

É por isso que a pesquisa deve ser lida em duas chaves: como oportunidade e como aviso. Oportunidade porque mostra que as políticas de alívio inflacionário e de firmeza diplomática produzem reconexão entre governo e sociedade. Aviso porque lembra que essa reconexão é parcial e instável. A história política brasileira demonstra que avanços institucionais sem sustentação popular são frágeis. O que se conquista hoje pode se perder amanhã. Para que a esperança se torne força material, é necessário que se converta em mobilização organizada, em corpo social ativo, em presença nas ruas.

A Quaest não nos entrega apenas estatísticas. Ela nos entrega um retrato de época. Mostra que o governo reaprendeu a dialogar com o povo, e que o povo reaprendeu a reconhecer sinais de esperança no governo. Mostra que a democracia, ainda vacilante, respira. Mas lembra também que respirar não é suficiente. É preciso transformar esse sopro em fôlego. É preciso transformar índices em raízes. É preciso fazer do alvorecer um dia pleno.

Se o Brasil não assumir sua soberania como destino e sua democracia como tarefa coletiva, o risco é que a esperança se converta novamente em cinza. Mas se o país souber transformar esse momento em ação organizada, se o povo ocupar ruas e praças, se a política reencontrar sua dimensão popular, então este alvorecer, ainda frágil, poderá florescer em sol vigoroso. Que o cristal da democracia não volte a se quebrar. Que a semente da esperança, alimentada pelo alívio da mesa e pela dignidade diante do mundo, seja cultivada como raiz profunda de um futuro soberano, justo e livre.


              * Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ


Alvorecer de esperança em terra de contrastes – Agenda do Poder

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