em 7 jul, 2025 3:40
Blog Cláudio Nunes: a serviço da verdade e da justiça
“O jornalismo é o exercício diário da inteligência e a prática cotidiana do caráter.” Cláudio Abramo.
A política brasileira vive uma cruzada ruidosa entre o governo e o Congresso Nacional, travestida de embate ideológico, mas que, na essência, esconde algo mais antigo e perverso: a manutenção de privilégios de poucos às custas do sacrifício de muitos. O discurso do “nós contra eles” ressurge como uma sombra sobre o país, mas precisa ser desmascarado. O “nós”, neste caso, não é o governo. Tampouco é o Congresso. O verdadeiro “nós” é o povo — espremido entre os delírios retóricos e os interesses ocultos. O ator Pedro Cardoso disse com precisão: o mais honesto seria dizer “eles contra nós”.
O que se vê no Congresso é um teatro de compaixão cínica. Deputados e senadores fazem discursos inflamados em nome do povo, mas votam sistematicamente para proteger os super-ricos — especialmente os rentistas — da obrigação de pagar impostos sobre lucros e dividendos. Defendem com unhas e dentes os interesses do topo da pirâmide, enquanto barram a ampliação de direitos e reduzem benefícios dos mais pobres. A elite parlamentar brasileira tornou-se uma espécie de corte feudal do século XXI — senhores de engenho modernos, zelando por suas sesmarias no mercado financeiro.
Lembra, em essência, a figura de Pôncio Pilatos, governador romano que lavou as mãos diante da injustiça cometida contra Jesus, fingindo imparcialidade, enquanto cedia à pressão dos poderosos. Assim age boa parte do Congresso atual: simula neutralidade, posa de moderador, mas atua sistematicamente contra os interesses da maioria. Há nisso uma duplicidade inquietante, uma farsa política que, como todo bom personagem trágico, acabará revelando o seu avesso.
Não se trata mais de disputa entre Poderes. Trata-se de resistência à ideia de um país mais justo. Um país onde milionários também contribuam. Onde os direitos sociais deixem de ser tratados como esmolas, e passem a ser reconhecidos como o que são: direitos. O Congresso age como se não houvesse povo lá fora. E o povo assiste, cansado, a essa pantomima onde os donos da riqueza encenam bondade enquanto fortalecem os grilhões da desigualdade.
Enquanto isso, o “nós” sangra. Sangra nos hospitais públicos precários, nas escolas sucateadas, nos transportes indignos, nos alimentos cada vez mais caros. O “nós” não tem lobby, mas tem fome. O “nós” não tem offshores, mas tem dívidas. O “nós” só queria respirar. Mas tudo o que recebe é um Congresso que, sob a máscara da democracia, escolheu ser o adversário.
Contra nós.
Feriado Devido ao feriado desta terça-feira, 8, da Emancipação Política de Sergipe, o blog só retorna a ser atualizado na quarta-feira, 9.
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