quarta-feira, fevereiro 26, 2025

A denúncia necessária – por Kakay

A denúncia necessária – por Kakay
Bolsonaro e Braga Netto estão na alça de mira de Moraes. (Reprodução)

Tribuna da Imprensa Livre


Destaques

c

Por Kakay –

“Temos ódio e nojo à ditadura.” –discurso histórico de Ulysses Guimarães.

A denúncia foi assinada pelo dr. Paulo Gonet é técnica, sensata e relata, com impressionantes detalhes, o quanto estivemos perto de uma ruptura institucional. É, sem dúvida, um registro histórico de uma época retratado com cuidado e precisão, representando o estilo clássico e sério do procurador-geral da República.

É muito impactante uma acusação por delitos tão graves como organização criminosa armada, impedir o regular funcionamento dos Poderes da República, depor um governo legitimamente eleito e ainda o crime de dano qualificado contra o patrimônio da União, além de deterioração de patrimônio tombado. Ou seja, uma tentativa de golpe de Estado e de instituir uma ditadura militar. É importante ressaltar que, além do ex-presidente Bolsonaro, foram denunciados 3 generais do Exército brasileiro, 1 almirante da Esquadra da Marinha e 2 delegados da Polícia Federal, sendo um ex-ministro da Justiça.

A denúncia segue, com precisão, a linha do relatório, tecnicamente perfeito, produzido pela Polícia Federal. Técnico e exaustivo. A investigação fez algo que deveria ser a regra: apurou, com rigor, o histórico do golpe. Este é um ponto fundamental: uma tentativa de ruptura institucional, normalmente, não ocorre da noite para o dia. São acúmulos de desejos, frustrações e ousadias.

No nosso caso, o crescimento da extrema-direita no mundo também encorajou um grupo até pouco tempo subterrâneo, que cultua torturadores e dissemina violência. Ganharam espaço e lugar de fala. Acharam que poderiam subjugar nossa democracia. Perderam!

Penso ser fundamental a leitura atenta e monitorar o desenvolvimento da instrução criminal para afastarmos de vez o discurso bolsonarista de perseguição. Mas, para o país e para a estabilidade democrática, é fundamental acompanhar o desenrolar da investigação revelada. Desde o início do governo Bolsonaro, ou até antes, a estratégia era desmoralizar o regime democrático, desrespeitar a lisura das eleições e investir em mentiras, em verdades encomendadas e em versões fantasiosas.

O trabalho técnico da Polícia Federal, seguido pelo Ministério Público, deixa claro e evidente que a tentativa de golpe foi gestada de maneira criteriosa. Por muito pouco, não estaríamos hoje tragados pelas trevas do obscurantismo e da barbárie.

Acredito que o desvendar do plano para matar o ministro Alexandre de Moraes, iniciado e frustrado por motivos alheios aos golpistas, revelou uma crueldade que mesmo a direita ficou chocada. E ainda temos que conviver com teses ridículas de suspeição do ministro Alexandre de Moraes como relator. É como dar ao investigado o direito de escolher quem o julga. Basta ameaçar o juiz sério e probo para impedi-lo até assumir outro com uma atitude mais “adequada”. Essas são algumas das teses da defesa dos golpistas.

Para ser didático nesse momento dramático. Com evidente respeito a todos os direitos constitucionais, entendo que o julgamento tende a ser muito rápido. Já tivemos vários outros pelo mesmo fato: 381 condenados.

O órgão competente deverá ser a 1ª turma, em virtude da alteração regimental promovida em dezembro de 2023. A partir dessa data, todas as denúncias apresentadas foram examinadas por aquele colegiado e não mais pelo plenário, que deixou de ter a competência para processar e julgar as ações penais originárias. Por óbvio, o descumprimento dessa regra regimental, com eventual deslocamento do caso para o plenário, poderá ensejar uma grave nulidade.

Com todas as preliminares já decididas e com a jurisprudência favorável a ouvir as testemunhas por carta de ordem, delegando as oitivas para juízes federais, a instrução deverá ser muito célere. E isso é bom para o Supremo Tribunal, que precisa voltar a se ocupar dos grandes temas constitucionais, e para o Brasil, que precisa mudar a agenda.

Claro que a defesa é ampla e poderão ser levantadas hipóteses de perícia e que tais. Mas me parece que a discussão se dará em torno da autoria. O Bolsonaro era um ET ou sabia o que estava acontecendo? A prova impressiona: delações, depoimentos de líderes das Forças Armadas, agendas apreendidas, dezenas de declarações, gravações de conversas nos celulares e documentos comprometedores. Um verdadeiro caso de batom na cueca. Vamos esperar a genialidade das defesas.

Certamente, o que vai pacificar o país não será a esdrúxula anistia ou o não julgamento dos crimes de atentado à democracia. Só um julgamento amplo, técnico e corajoso poderá dar chance a um país sem a sombra da tentativa de instalar uma ditadura. O Brasil merece dar esse passo à frente. E o STF está maduro para dar uma resposta à altura.

Lembrando e homenageando Mia Couto, em “Terra Sonâmbula”:

“O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro”.

ANTÔNIO CARLOS DE ALMEIDA CASTRO, o Kakay, tem 67 anos. Nasceu em Patos de Minas (MG) e cursou direito na UnB, em Brasília. É advogado criminal e já defendeu 4 ex-presidentes da República, 80 governadores, dezenas de congressistas e ministros de Estado. Além de grandes empreiteiras e banqueiros.

Envie seu texto para mazola@tribunadaimprensalivre.com ou siro.darlan@tribunadaimprensalivre.com 

Em destaque

Cemitério Jardim da Saudade inaugura Espaço de Reflexão com celebração ecumênica em Salvador

                                          Foto Divulgação Cemitério Jardim da Saudade inaugura Espaço de Reflexão com celebração ecumênica ...

Mais visitadas