domingo, agosto 02, 2026

No caso de Tereza Cristina, o Centrão voltou a mostrar seu poder de veto

Publicado em 2 de agosto de 2026 por Tribuna da Internet

PP anuncia neutralidade, e Flávio fica sem Tereza Cristina

Pedro do Coutto

A frustrada tentativa de compor uma chapa entre Flávio Bolsonaro e a senadora Tereza Cristina tornou-se um dos episódios mais reveladores da pré-campanha presidencial. Mais do que a perda de um nome de peso para ocupar a vice-presidência, o caso expôs os limites da estratégia da oposição para construir uma coalizão capaz de ultrapassar as fronteiras do bolsonarismo.

Ex-ministra da Agricultura durante o governo Jair Bolsonaro, Tereza Cristina reúne credenciais que poucos nomes da centro-direita possuem simultaneamente. É respeitada pelo agronegócio, mantém interlocução com governadores, empresários e lideranças do Congresso e, ao longo de sua trajetória, construiu uma imagem de negociadora pragmática, distante do estilo mais confrontacional que caracteriza parte do bolsonarismo. Sua presença na chapa representaria uma tentativa de equilibrar o discurso político, transmitir maior previsibilidade ao mercado e reduzir resistências entre partidos de centro.

NEUTRALIDADE – Entretanto, prevaleceu a decisão do Progressistas de preservar sua neutralidade na disputa presidencial. A posição, respaldada pelo presidente nacional da legenda, Ciro Nogueira, não decorre apenas de divergências internas sobre nomes, mas de uma leitura estratégica do momento político.

O partido avaliou que ainda não há elementos suficientes para justificar um alinhamento antecipado a qualquer candidatura presidencial, sobretudo diante de um cenário em que as pesquisas continuam indicando vantagem de Luiz Inácio Lula da Silva e em que a oposição permanece fragmentada.

A decisão do PP revela um traço histórico do chamado Centrão. Ao contrário das legendas ideológicas, esses partidos costumam privilegiar cálculos de governabilidade e de sobrevivência política. Seu comportamento raramente é guiado por afinidades programáticas; predomina uma lógica pragmática, baseada na avaliação das chances reais de vitória dos candidatos, na capacidade de formar maioria parlamentar e na perspectiva de participação em um futuro governo. Em outras palavras, o Centrão prefere acompanhar o movimento da eleição a antecipá-lo.

ESTRATÉGIA – Essa postura não representa mera indecisão. Trata-se de uma estratégia consolidada ao longo das últimas décadas. Nas disputas presidenciais recentes, partidos desse bloco frequentemente retardaram definições até que o quadro eleitoral apresentasse maior clareza. O objetivo é preservar margem de negociação, evitar custos políticos desnecessários e manter abertas as portas para diferentes arranjos de poder.

Para Flávio Bolsonaro, o episódio produz efeitos que vão além da necessidade de encontrar outro nome para a vice. A recusa de Tereza Cristina dificulta justamente o movimento mais importante de sua pré-campanha: ampliar sua capacidade de diálogo com setores que apoiaram Jair Bolsonaro em 2018 e 2022, mas que hoje demonstram maior cautela diante das incertezas eleitorais e institucionais.

Sem uma figura capaz de simbolizar moderação e ampliar pontes com o centro político, a candidatura tende a permanecer mais identificada com seu núcleo ideológico tradicional, reduzindo sua capacidade de atrair eleitores moderados e aliados estratégicos.

CONCORRÊNCIA INTERNA – O desafio torna-se ainda maior porque a oposição não enfrenta apenas a disputa contra Lula, mas também uma concorrência interna. Governadores como Ronaldo Caiado e Romeu Zema continuam buscando espaço como alternativas dentro do campo conservador.

Embora Flávio Bolsonaro apareça à frente deles nas pesquisas, essa liderança ainda não foi suficiente para produzir um efeito de convergência entre partidos e lideranças regionais. Enquanto persistirem múltiplas opções na direita, legendas de centro terão menos incentivos para assumir compromissos definitivos.

A ausência de uma candidatura claramente hegemônica também reduz o poder de negociação da oposição. Partidos como PP, União Brasil, Republicanos, PSD e MDB observam atentamente não apenas os índices de intenção de voto, mas também a capacidade de cada postulante construir alianças, reduzir rejeição e demonstrar viabilidade eleitoral. Nesse contexto, o veto à composição com Tereza Cristina funciona como um sinal político: parte do centro ainda não considera consolidado o projeto eleitoral liderado por Flávio Bolsonaro.

POSTURA DE ESPERA – Ao mesmo tempo, seria um equívoco interpretar a decisão como um alinhamento automático do Centrão ao governo Lula. O comportamento dessas legendas indica, antes, uma postura de espera. Elas procuram preservar flexibilidade para negociar com quem demonstrar maior capacidade de vitória e de formação de maioria parlamentar. Essa posição reflete uma característica estrutural da política brasileira: em sistemas multipartidários altamente fragmentados, o poder do Centrão não decorre apenas do número de cadeiras que controla, mas da sua capacidade de conceder ou retirar legitimidade política das candidaturas competitivas.

Assim, o episódio envolvendo Tereza Cristina ultrapassa a dimensão de uma simples escolha para vice-presidente. Ele evidencia que, mesmo liderando o campo oposicionista, Flávio Bolsonaro ainda enfrenta dificuldades para convencer o centro político de que sua candidatura representa, neste momento, a alternativa mais viável para disputar o Palácio do Planalto. Enquanto essa percepção não mudar, a oposição continuará encontrando obstáculos para transformar competitividade eleitoral em capacidade efetiva de construir uma ampla frente política.

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Com Lula no palanque, PT exibe força e tenta transformar convenção em impulso para Jerônimo

 

Com Lula no palanque, PT exibe força e tenta transformar convenção em impulso para Jerônimo

Por Carine Andrade, Política Livre

01/08/2026 às 18:30

Foto: Reprodução/Flickr

Imagem de Com Lula no palanque, PT exibe força e tenta transformar convenção em impulso para Jerônimo

O presidente Lula e o governador Jerônimo Rodrigues

Em sua sexta visita à Bahia somente em 2026, a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na convenção estadual do PT, realizada neste sábado (1º), no Parque de Exposições de Salvador, deu um "gás a mais", como dizem os baianos, à campanha do governador Jerônimo Rodrigues (PT), que, assim como Lula, também disputa a reeleição.

A vinda de Lula ocorre em um momento estratégico para o PT baiano e acontece na mesma semana em que o chefe do Palácio de Ondina apareceu em empate técnico com o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil) na pesquisa Genial/Quaest. O cenário considerado ideal pelos aliados, entretanto, seria que o governador estivesse "nadando de braçada" contra seu principal adversário, já que tem a máquina administrativa a seu favor e percorre o Estado com o Programa de Governo Participativo (PGP), iniciativa que amplia ainda mais sua visibilidade.

Outro fator que pesa no cenário político é a investigação envolvendo o senador Jaques Wagner, principal liderança do PT na Bahia e ex-líder do governo Lula no Senado, por sua suposta relação com o banqueiro Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master. Na última sexta-feira (31), novos desdobramentos ganharam repercussão local e nacional após o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, tornar públicos detalhes da investigação conduzida pela Polícia Federal na nona fase da Operação Compliance Zero, que atingiu diretamente o senador petista.

Apesar de, nos bastidores, o sinal de alerta estar aceso, a convenção deste sábado transmitiu a imagem de um grupo unido e pouco disposto a demonstrar preocupação com possíveis desgastes. Principal estrela do evento, o presidente Lula foi ovacionado em diversos momentos de seu discurso por uma plateia que, a olho nu, parecia reunir cerca de 30 mil pessoas. O público permaneceu até o encerramento da plenária, apesar do som excessivamente alto e do calor intenso.

Mas não foi apenas Lula quem brilhou. Os principais nomes da chapa majoritária — Jerônimo Rodrigues, Rui Costa, Jaques Wagner e até Geraldo Jr., que normalmente não costuma receber tanto protagonismo — tiveram seus momentos de destaque. Todos seguiram a cartilha de qualquer político experiente em eventos desse porte: exaltaram as realizações dos governos petistas na Bahia e no Brasil e reforçaram discursos voltados às demandas do eleitorado.

Um dos momentos mais marcantes da fala de Lula foi o direcionamento aos mais de 300 prefeitos presentes, segundo a organização, acomodados em uma área reservada no palco. Durante boa parte do discurso, o presidente permaneceu de costas para a plateia, concentrando-se em conversar e cumprimentar os gestores municipais, que aproveitaram a oportunidade para apertar sua mão e registrar selfies no celular. Em seguida, foi a vez dos deputados presentes em outra área reservada receberem a atenção do presidente.

"Peçam votos para vocês, mas, se sobrar um pouquinho para mim, eu também quero", brincou Lula, arrancando risos dos presentes.

Jerônimo, "o professor que virou governador", como ele próprio se definiu, fez referências à fé e à família. "Eu encontrei ali uma caravana dos evangélicos, como a gente chama de forma carinhosa, 'os crentes'. Eles fizeram uma oração por mim e por Lula e pediram: 'Governador, nunca afaste seu pensamento de Deus'. E eu e Lula somos muito parecidos nisso", afirmou. Em seguida, chamou ao palco a primeira-dama Tatiana Veloso e os filhos, Neno e Gabriel.

Geraldo Jr. direcionou críticas ao grupo de oposição e afirmou que, se em 2022 a população disse "não ao pai e não ao neto", em 2026 "o Nordeste e a Bahia vão dizer não a todos eles".

Jaques Wagner defendeu a eleição de uma bancada forte da Bahia para garantir sustentação ao presidente Lula no Congresso Nacional. Segundo ele, a eleição de Rui Costa e sua própria reeleição contribuirão para formar uma bancada alinhada ao governo federal ao lado do senador Otto Alencar (PSD).

Já Rui Costa afirmou que ele, Jaques Wagner e Jerônimo Rodrigues são como "três irmãos" e que, em outubro, o voto será "casadinho", em referência à chapa ao Senado. O ex-ministro também aproveitou para alfinetar os adversários ACM Neto e o senador Angelo Coronel (Republicanos) ao comentar as autodeclarações raciais apresentadas por ambos ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE): "Quem era branco ficou negro, quem era negro ficou branco", disparou.Politica Livre

O DIREITO À ÁGUA E O PATRIMÔNIO ABANDONADO: O Caso do Açude Público e o Leilão da AABB em Jeremoabo

 

O DIREITO À ÁGUA E O PATRIMÔNIO ABANDONADO: O Caso do Açude Público e o Leilão da AABB em Jeremoabo


Por José Montalvão


A gestão do patrimônio público e a proteção dos recursos hídricos são temas centrais para o desenvolvimento e a dignidade do nosso sertão. Recentemente, a discussão em torno da natureza jurídica dos açudes e da destinação de imóveis históricos em Jeremoabo trouxe à tona dúvidas sobre o que pertence à coletividade e qual o limite da atuação privada.

Conceitualmente e sob a ótica do Direito Administrativo e Constitucional, não há margem para ambiguidades: um açude construído com recursos públicos pertence ao patrimônio público (seja da União, do Estado ou do Município). É um bem destinado a servir à sociedade, e a sua administração cabe aos órgãos competentes — como o DNOCS no âmbito federal. O uso de suas águas e o acesso às suas margens são regidos por leis ambientais e hídricas rigorosas para garantir a sustentabilidade e impedir a apropriação indevida do que é de todos.

Contudo, a realidade local frequentemente expõe um contraste amargo entre a teoria jurídica e o destino de grandes estruturas da nossa cidade.

A AABB de Jeremoabo: Do Apogeu Social ao Leilão e Abandono

Exemplo claro dessa transição é a área onde funcionava a AABB (Associação Atlética Banco do Brasil), situada estrategicamente ao lado do açude municipal. Por décadas, o clube foi o centro da vida social, esportiva e cultural das famílias jeremoabenses. Um espaço de encontros, lazer e memória afetiva de várias gerações.

No entanto, com a mudança de diretrizes institucionais do Banco do Brasil e a desativação de diversas sedes de clubes pelo país, o imóvel da AABB de Jeremoabo foi alienado. Seguiu o rito formal do mercado financeiro e foi vendido através de leilão para um comprador particular.

A partir do momento em que a transação foi consumada, a área deixou de ter vínculo institucional com a instituição financeira ou com a comunidade esportiva, passando ao domínio privado. O resultado visual que se presenciou posteriormente — um imóvel abandonado, tomado pelo mato e deteriorado pelas intempéries — é lamentável, mas infelizmente não causa surpresa.

Se o Próprio Banco do Brasil Abandonou, o Que Esperar?

A retórica popular reflete a resignação da comunidade diante do fato consumado: “Se o próprio Banco do Brasil abandonou e vendeu o espaço, fazer o quê?”.

Esta não é a primeira estrutura de valor comunitário ou histórico em Jeremoabo que sofre com o descaso ou a privatização sem contrapartida social, e dificilmente será a última se não houver um olhar atento do poder público para o plano diretor e para o zoneamento urbano da cidade. Quando uma instituição de grande porte desfez-se do seu patrimônio e a área passou para a iniciativa privada sem um projeto de reaproveitamento, o destino de degradação tornou-se um roteiro anunciado.

É preciso distinguir com clareza a situação jurídica das duas áreas vizinhas:

  • O Açude Público: Permanece sob a regulação do Estado, sendo um bem inalienável voltado à segurança hídrica e ao interesse público coletivo.

  • A Área da Antiga AABB: Hoje é propriedade privada particular, sujeita às regras de direito de propriedade, cabendo ao novo proprietário dar-lhe função social ou ao município fiscalizar possíveis problemas de saúde pública e vigilância sanitária decorrentes do seu abandono.

Conclusão: Preservar o Público para Não Lamentar o Privado

O episódio da venda e posterior abandono da antiga AABB deixa uma lição valiosa para Jeremoabo. Enquanto os espaços privados seguem as intempéries do mercado e as escolhas de seus donos, os bens públicos — como o açude e as áreas de preservação ambiental — devem ser protegidos com unhas e dentes pela sociedade civil e pelas autoridades.

Não podemos permitir que a omissão atinja o que é verdadeiramente do povo. Se a AABB virou página do passado no livro da iniciativa privada, o açude e os recursos públicos de Jeremoabo devem continuar sendo defendidos como patrimônio inegociável do nosso presente e futuro!

José Montalvão

Funcionário Federal Aposentado, Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública, Pós-Graduado em Jornalismo. Membro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI - Registro C-002025).

Blog de Dede Montalvão: Esclarecendo o direito, fiscalizando o patrimônio e defendendo os interesses da comunidade de Jeremoabo!

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