Publicado em 1 de outubro de 2026 por Tribuna da Internet
Documento cita tarifas e sanções contra o Brasil
Isabella Menon
Folha
Três senadores democratas dos Estados Unidos enviaram uma nova carta ao secretário de Estado, Marco Rubio, na qual afirmam que ações do governo Donald Trump ameaçam a relação estratégica com o Brasil e o acusam de promover uma “campanha de interferência e desestabilização” no país às vésperas da eleição presidencial. O documento é assinado por Peter Welch, Tim Kaine, Jeanne Shaheen —os dois últimos integram o Comitê de Relações Exteriores.
A carta ganha peso adicional diante das eleições do legislativo americano. Shaheen é a principal democrata no comitê, e Tim Kaine também ocupa posição de destaque no colegiado. Se os democratas conquistarem o controle da Casa, passarão a comandar audiências e a agenda legislativa do Senado, além de ganhar mais poder para condicionar ou bloquear verbas do governo federal, inclusive recursos destinados a programas dos Estados Unidos na América Latina.
ELEIÇÕES LIVRES – A carta foi enviada menos de uma semana após outra carta sobre o tema. O texto foi enviado na quinta-feira (24) pelo senador independente Bernie Sanders e 30 deputados democratas. O Departamento de Estado tem afirmado que o governo americano irá respeitar o resultado do pleito, mas acrescenta a expressão “eleições livres e justas”, frequentemente usada para questionar a legitimidade do voto. “Respeitamos o povo brasileiro e qualquer governo que eles escolham livremente por meio de eleições livres e justas no Brasil”, disse um funcionário americano, em agosto.
Na nova carta, os três senadores afirmam estar preocupados com ações que, segundo eles, “ameaçam nossa aliança estratégica com o Brasil e minam a segunda maior democracia do Hemisfério Ocidental” antes da eleição presidencial. Os parlamentares dizem que, ao longo do segundo mandato de Trump, autoridades americanas participaram de uma campanha de “interferência e desestabilização” no Brasil. Como primeiro exemplo, citam a imposição de tarifas e sanções em meio ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro.
PRESSÃO – A carta cita a redução das tensões entre os países, inclusive com conversas “diretas e cordiais” entre Trump e o presidente Lula. O texto afirma, porém, que a pressão sobre autoridades brasileiras foi retomada após a nomeação de Darren Beattie como assessor sênior para assuntos relacionados ao Brasil no Departamento de Estado.
No documento, os senadores descrevem Beattie como um extremista e supremacista branco e dizem que ele chegou ao posto com um histórico de declarações públicas que, na visão deles, demonstram compromisso ideológico com o enfraquecimento das instituições democráticas brasileiras e em favor dos interesses da extrema direita do país.
Os parlamentares também mencionam a imposição de novas tarifas sobre produtos brasileiros depois de uma investigação aberta pelo USTR (Representante de Comércio dos Estados Unidos).
INTERFERÊNCIA – Os senadores dizem que “as ações mais recentes do governo apontam para um esforço de interferir e, potencialmente, minar a eleição geral do Brasil em outubro”. Como exemplo, citam a reunião entre Trump e o senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência, no Salão Oval, no momento em que ele tinha que se defender de uma notícia negativa para sua campanha —no caso, os pedidos de dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Os senadores contrastam a postura atual de Washington com a de 2022, quando os Estados Unidos reconheceram rapidamente a vitória de Lula, o que, segundo eles, tirou legitimidade de tentativas de contestar o resultado.
A carta também cita os ataques de 8 de janeiro de 2023 às sedes dos três Poderes. Para os senadores, os EUA apoiaram então o governo recém-eleito e ajudaram a mobilizar apoio regional à defesa da Constituição de 1988 e das instituições democráticas.
PADRÃO TRUMP – Os três senadores dizem ainda que veem as ações em relação ao Brasil como parte de um padrão mais amplo do governo Trump na América Latina e citam as eleições legislativas da Argentina e as eleições presidenciais de Honduras e da Colômbia.
Ao final, Kaine, Shaheen e Welch apresentam duas perguntas a Rubio. Eles querem saber como o Departamento de Estado coordena seus objetivos relacionados à democracia e aos direitos humanos com parceiros do Hemisfério Ocidental, em especial no que diz respeito à assistência técnica e ao monitoramento de processos eleitorais e judiciais.
Também perguntam se o governo Trump se comprometerá a reconhecer o resultado certificado das eleições brasileiras de 2026 e a manter relações diplomáticas normais com qualquer candidato que seja “livre e justamente escolhido pelo povo brasileiro”.