Mensagens de Vorcaro revelam temor de guerra com Joesley
Rafael Moraes Moura
O Globo
Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro mostram que o dono do Banco Master disse ao advogado Walfrido Warde que era preciso “frear” o empresário Joesley Batista para não entrar numa “guerra”. Os diálogos são de maio de 2025, quando o Master tentava obter aval do Banco Central à negociação de R$ 12 bilhões com o Banco de Brasília.
Numa troca de mensagens revelada pelo Valor Econômico, de 13 de maio de 2025, o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, diz a Vorcaro que Joesley e Wesley Batista estavam numa ofensiva para impedir a compra do Master pelo BRB. Segundo Costa, “os goianos” teriam conversado com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), para alertá-lo de que a “operação não ia dar certo” e que quebraria o BRB – temores que, como se viu, se revelaram justificados.
RISCO – Na época, Costa interpretou os movimentos dos Batista como uma forma de fragilizar o Master para depois retomar uma negociação para a compra de ativos que tinha sido interrompida semanas antes, mas disse que ao procurar Ibaneis eles “colocaram tudo em risco”.
É nesse contexto que, em 15 de maio de 2025, Vorcaro escreve para Warde: “Tenho que frear esse joesley senão vai entrar numa guerra. [A] Maior que já houve na história.” “Que loucura. Como quer fazer? Posso ajudar?”, questiona Warde.
Vorcaro então escreve: “Sim, me ajuda [a] pensar [numa] estratégia. Pq ele [Joesley] vai pra cima”. Warde aconselha o banqueiro a procurar Joesley e “conversar com ele abertamente”.
BLINDAGEM – “Temos que blindar pr”, afirma Vorcaro. PR, nas mensagens, é uma referência ao presidente da República, com quem o dono do Master havia tido uma reunião no Palácio do Planalto cinco meses antes. Lula não tomou nenhuma medida para favorecer o banco, mas Vorcaro e Warde continuaram fazendo lobby junto a aliados do petista e integrantes do governo.
O banqueiro e o advogado fazem duas rápidas chamadas de voz logo depois, com duração de 1 minuto e 57 segundos e outra de 1 minuto e 2 segundos. No dia seguinte, Warde volta a escrever a Vorcaro: “Tenho uma coisa aqui muito importante pra falar com vc para alvejarmos os inimigos. Oportunidade única. Pessoalmente na segunda. Você vai amar.”. Vorcaro responde: “Ok. Vamos.”
Uma fonte que acompanha de perto os bastidores afirma que o interesse de Joesley Batista nas negociações com o Master se concentravam na Kovr Participações, seguradora que pertencia a Vorcaro e foi negociada antes de o Banco Central decretar a liquidação do Master, em novembro. “O Joesley nunca quis comprar letras do Master. Ele queria aquela seguradora”, afirmou.
SEM INTERESSE – Em nota, a J&F informou que “nunca teve interesse em adquirir o Banco Master”. “A J&F analisou ativos do Banco Master oferecidos em 2025 e não seguiu adiante na negociação após seus assessores jurídicos entenderem, antes da data mencionada pela reportagem, que os ativos não tinham o valor esperado pelos vendedores. A J&F não possuía qualquer interesse nas negociações entre o Banco Master e o BRB”, afirmou.
Os irmãos Batista são mencionados em outra conversa de Vorcaro, de julho de 2024, mas em um contexto bem menos beligerante. Ao tratar da relação com lideranças políticas da Bahia, o então diretor comercial do Master, Fernando Mascarenhas, comenta, sobre uma conversa a respeito do Master: “A única coisa que falaram é que somos próximos do governo, igual irmãos batista são. O que é verdade rsrs.”
Vorcaro responde: “kkkk. Isso ai e mkt [marketing] pra nos. Manda pro Lula e pra base aliada.” Os paralelos não param aí: assim como os Batista, Vorcaro também foi preso no âmbito de uma investigação de um esquema bilionário de corrupção envolvendo lideranças de diferentes matizes políticos. Mas, ao contrário dos executivos da J&F, o dono do Master não tem dado sinais de que quer mesmo fechar um acordo de colaboração premiada.