sábado, fevereiro 18, 2023

Pênis de Senhora II, um conto cautelar.




Isla Bryson é a larga sombra de Nicola Sturgeon, a mulher que dominou a política escocesa e acabou a escorregar nas causas da esquerda identitária quando recusou ouvir a maioria das mulheres escocesas. 

Por Eugénia de Vasconcellos (foto)

Em Agosto de 2022, escrevi aqui, no Observador, o texto Pénis de Senhora a pretexto do cancelamento das lésbicas de Vancouver e da proibição destas participarem na Marcha do Orgulho Gay por recusarem a ideia de um «pénis de senhora», o que as faria transfóbicas.

Esta não era, então, uma questão marginal e continua a não ser, como a demissão de hoje da primeira-ministra da Escócia veio demonstrar. Porque esta não é uma questão sobre a homossexualidade ou a minoria transgénero ou a transfobia. Esta é uma questão originada no progressismo da esquerda identitária com graves consequências políticas e de fragmentação social. Para a Escócia e para o Partido Nacional Escocês, para o movimento independentista, isto, neste momento, é claro. Afinal, Nicola Sturgeon, a primeira-ministra demissionária, considerou o veto do governo britânico ao projecto de lei escocês de auto-identidade de género, isto é, a mudança de género sujeita apenas a auto-declaração, a partir dos 16 anos, um ataque à autonomia do parlamento escocês. E depois veio o caso Adam Graham.

Adam Graham, violador, em 2016 e 2019, que durante o seu julgamento se auto-identificou/auto-declarou mulher, Isla Bryson, travestiu, e doravante foi tratado como mulher, condenado como mulher e enviado para a prisão de Cornton Vale, pasme-se, uma prisão feminina – numa ala à parte, é certo.

Isla Bryson é a larga sombra de Nicola Sturgeon, a mulher que dominou a política escocesa nos últimos 10 anos e, lamentavelmente, acabou a escorregar nas causas da esquerda identitária quando recusou ouvir a maioria das mulheres escocesas, mesmo as mulheres dentro do seu próprio partido no que ao projecto da reforma de género dizia respeito. Nicola Sturgeon resvalou de «melhor política da sua geração» para responsável pela queda na intenção de voto no Partido Nacional Escocês, e pela quebra, para valores negativos, de apoio à independência escocesa, nas mais recentes sondagens.

A esquerda progressista identitária não está apenas a dizimar os partidos da esquerda. De tribalismo em tribalismo até à atomização está a destruir o tecido social. E está de igual forma a criar o substrato para os regimes autocráticos ditos de direita conservadora cristã – ênfase em ditos.

Se volto a trazer este assunto ao Observador é só porque, em Portugal, estamos a viver um momento de reforma política. A maioria absoluta do PS de António Costa enterrou os outros líderes da anterior geringonça e deixou os seus partidos esvaziados de eleitores. O PCP já tem um novo líder – um líder imprevisto. O Bloco de Esquerda prepara a nova liderança que, ao contrário, todos prevemos seja Mariana Mortágua. Esta deputada não tem apenas uma larga presença mediática como cronista e comentadora, foi uma inequívoca força nas comissões de inquérito à banca: precisa, duríssima, contida. Ou como disse dela Ângela Silva, granítica.

Estas esquerdas, PCP e BE, tiveram um claro campo de intervenção. O Bloco, porém, de causa fracturante em causa fracturante e depois de mastigado pelo PS perdeu a relevância: para quê votar Bloco se há toda uma ala pedronunista com apetite e competência governativa? O progressismo identitário a que o Bloco se dedicou alienou os eleitores fora dos grandes centros urbanos.

Acredito numa democracia plural. Espero que a esquerda aproveite a lição escocesa. Sobre a lição que o PSD de Montenegro está a desaproveitar, falo depois.

Observador (PT)

A irracionalidade das elites em relação à agricultura




Ser ecologicamente correto é mais importante para as novas elites do que a possibilidade de as pessoas trabalharem. 

Por Brandan O'Neill (foto), Spiked

Nada diz tanto sobre a loucura das elites modernas quanto sua guerra contra a agricultura. Vamos olhar para a França. Um dia o presidente Macron está dizendo ao mundo para levar a “segurança alimentar” a sério. No pós-covid-19 e com uma guerra ocorrendo na Ucrânia, precisamos garantir que os alimentos continuem sendo produzidos e transportados pelo mundo, afirma o governo francês. No entanto, ao mesmo tempo, esse mesmo governo, sem nenhuma hesitação, está impondo proibições a pesticidas que podem destruir setores da indústria agrícola na própria França. O que pode levar ao fechamento de fazendas. Eis a esquizofrenia do establishment do século 21.

Na quarta-feira, centenas de fazendeiros levaram seus tratores para a região central de Paris, em protesto contra as novas restrições aos pesticidas. Não se preocupe caso você não tenha ouvido da mais recente revolta dos agricultores do continente europeu — a revolta dos tratores contra as elites do laptop raramente chega ao noticiário mainstream hoje em dia. Os fazendeiros estão furiosos com a proibição imposta pelo governo aos neonicotinoides, um composto químico que mata os insetos que comem plantas. Esses inseticidas são potencialmente prejudiciais para as abelhas, então os agricultores serão proibidos de utilizá-los. E o fato de que a medida vai atingir o cultivo de beterrabas de forma especialmente dura, com o potencial de levar ao fechamento de fábricas de açúcar de beterraba? Não importa. As abelhas têm prioridade.

'Os neonicotinoides são potencialmente prejudiciais para as abelhas'

Para os fazendeiros que cultivam beterraba, os neonicotinoides são essenciais para afastar o vírus amarelo da beterraba, um patógeno espalhado pelos insetos que sugam seiva, que deixa as folhas da beterraba amarelas, o que pode reduzir a colheita em até 50%. Os fazendeiros que saíram às ruas de Paris nesta semana estão preocupados com uma “aceleração no declínio do cultivo de beterraba” e, por consequência, “o fechamento das fábricas de açúcar de beterraba”. “Macron está liquidando a agricultura”, dizia um dos cartazes. “Salve o seu agricultor”, gritava outro. Como a Reuters noticiou, os fazendeiros acreditam que o “excesso de restrições aos pesticidas” por parte do governo vai de encontro “aos apelos de promoção da segurança alimentar em reação à pandemia da covid-19 e à guerra na Ucrânia”. E eles estão certos.

A restrição da França aos neonicotinoides resume boa parte do que a política moderna tem de errado. A proibição é um ditame de uma tecnocracia irresponsável. Foi sob pressão da União Europeia que o país derrubou sua velha política de permitir que os agricultores que cultivam beterraba usassem neonicotinoides, ainda que a substância seja proibida no restante da União Europeia. No mês passado, o Tribunal de Justiça Europeu decretou que o comportamento da França era ilegal e que ela deveria interromper imediatamente o uso dessas substâncias tóxicas, que são prejudiciais para as abelhas. Lá se vai a soberania francesa. Com o movimento da caneta de um juiz estrangeiro, as fazendas de beterraba na França tiveram sua capacidade de garantir sua produção colocada em risco. Não é uma surpresa que tantos trabalhadores sintam que não estão mais em controle da própria vida.

'Os neonicotinoides são essenciais para afastar o vírus amarelo da beterraba'

O cruel decreto da EU, que vai prejudicar o trabalho árduo dos agricultores franceses, é o reflexo de suas trapalhadas em outros Estados membros. Fazendeiros holandeses estão revoltados há quase quatro anos, desde que a União Europeia pressionou o governo da Holanda a reduzir as emissões de nitrogênio no país pela metade até 2030. Uma política tão drástica e maluca seria devastadora para a sobrevivência desses agricultores e poderia levar ao fechamento de 3 mil fazendas. A Irlanda também está sendo forçada pela UE a cortar suas emissões entre 22% e 30%, e os agricultores do país acreditam que isso pode custar à indústria € 4 bilhões e 56 mil empregos. E não é apenas na oligarquia tresloucada da União Europeia que os fazendeiros estão sendo impedidos de trabalhar. Justin Trudeau quer que os agricultores canadenses reduzam as emissões de óxido nitroso em 30% até 2030. E quem pode esquecer a insanidade no Sri Lanka, onde a conversão do governo à religião verde da agricultura orgânica e das restrições na importação de certos fertilizantes levou a uma crise perigosa e assustadora na colheita agrícola.

Precisamos falar sobre a irracionalidade hostil das elites globais em relação à agricultura. No ano passado, a ONU estimou que 180 milhões de pessoas enfrentariam uma “crise alimentar” neste momento, e, no entanto, diversos governos no mundo todo estão dificultando que os agricultores cultivem alimentos. Além disso, proibir um inseticida como o neonicotinoide em mais um país ocidental — a França — não significa que o mundo vai se tornar um lugar mais “limpo”. Como os protestos na França desta semana demonstraram, o país vai acabar importando mais açúcar de beterraba de “países que permitem o uso de neonicotinoides”. Significa destruir aos poucos a subsistência dos agricultores, e para quê? Não é para livrar o mundo dessas substâncias químicas, que vão continuar sendo usadas em outro lugar, para produzir alimentos que os franceses vão acabar ingerindo.

'Centenas de agricultores se manifestam em Paris contra a recente proibição de neonicotinoides' 

Isso atinge o cerne torpe da agitação antiagrícola das elites. Nações que customizam suas virtudes parecem satisfeitas em terceirizar os aspectos “mais sujos” da agricultura para outros países, assim como não se importam de trazer carvão da África ou da China. Isso significa que nossos países moralmente imaculados podem chafurdar na virtude eco, satisfeitos em saber que o trabalho árduo e sujo da mineração de carvão ou de garantir que as plantações de beterraba não sejam devoradas por insetos contaminados está sendo feito por outras pessoas em outras partes do mundo. Preservar nossa virtude está acima de preservar nossas indústrias e os empregos que elas geram.

Ser ecologicamente correto é mais importante para as novas elites do que a possibilidade de as pessoas trabalharem, sejam mineradores de carvão, sejam os agricultores de beterraba, de ganhar a vida e contribuir com a sociedade.

Esse é o tanto que as elites do século 21 se afastaram da realidade e da razão: na louca disputa entre o alimento e a sinalização da virtude, elas escolhem a segunda opção. É o que acontece quando somos governados por figuras alienadas, por uma classe nascida em berço esplêndido que raramente se aventura fora de sua bolha metropolitana e que tem cada capricho atendido pela classe precarizada mal remunerada. Acabamos ficando nas mãos de governantes que sabem pouco e não se importam nada com como as coisas são feitas, com a necessidade da indústria e, mais importante, com a centralidade do trabalho para noção de significado e autonomia da classe trabalhadora. Apenas um establishment que perdeu completamente a conexão com o mundo material das coisas, da produção e dos empregos poderia dizer de forma tão descuidada: “Vamos fechar alguns milhares de fazendas para salvar as abelhas”.

É por isso que a luta dos fazendeiros importa. É por isso que precisamos celebrar a revolta das classes do trator contra as classes do laptop em toda parte, do Canadá à França, passando pela Holanda. Porque essas pessoas estão lutando por mais do que seu direito de trabalhar e produzir alimentos. Elas também estão lutando para restaurar a razão e a racionalidade do mundo bizarro do controle tecnocrático.

Revista Oeste

Estamos à beira de uma guerra nuclear?




Uma Rússia racional não deverá atacar países da NATO por fornecerem armamento à Ucrânia, algo que aconteceu centenas de vezes durante a Guerra Fria sem que isso tivesse levado a uma Terceira Guerra. 

Por Bruno Cardoso Reis (foto)

Desde a queda da União Soviética, em 1991, que nunca se falou tanto de uma guerra nuclear. Será que é um risco real? E será que por isso devemos aceitar uma paz a qualquer preço na Ucrânia?

Alarmismo deliberado

É normal que haja muita gente assustada. A propaganda russa tem apostado em assustar os europeus e americanos, acenando repetidamente com o seu vasto arsenal nuclear para tentar forçar os aliados da Ucrânia a deixar de a ajudar a defender-se. E, sim, uma guerra nuclear total é o maior risco imediato para a sobrevivência da humanidade. Provavelmente provocaria um inverno nuclear de anos que destruiria toda ou quase toda a vida na terra. Isto para não falar da destruição direta que se estima poderia resultar na morte de centenas de milhões de pessoas. Até o imerecidamente famoso doomsday clock já estará só a cinco minutos para a meia-noite – a hora fatídica do fim do mundo. Embora se trate de uma avaliação muito subjetiva dum conjunto de cientistas norte-americanos, mostra bem que, mesmo a esse nível, há gente muito assustada. Não podemos estar certos de nada numa guerra, mas devemos ter o cuidado de não facilitar o trabalho intimidatório da Rússia.

As armas nucleares, a paz e o pseudopacifismo

Comecemos por um breve passeio pela história do armamento nuclear e da sua relação paradoxal com a paz. A arma nuclear não surgiu como parte de um projeto de destruição ou dominação, mas de defesa da liberdade. A primeira explosão de uma arma nuclear aconteceu nos EUA, no deserto profeticamente chamado de Jornada del Muerto, no Novo México, no campo de tiro de Alamo Gordo, no dia 16 de julho de 1945. Foi o culminar do primeiro grande projeto de investigação científica e de desenvolvimento tecnológico. Esta iniciativa dos EUA contou com colaboração britânica, canadiana e, até, do governo belga no exílio (para o fornecimento do urânio a partir do Congo). Envolveu mais de 150.000 pessoas em 30 locais, custando mais de 24 mil milhões de dólares. Tudo começou, em agosto de 1939, com uma carta de Albert Einstein, um dos muitos cientistas brilhantes forçados ao exílio pelo avanço do nazismo, que escreveu ao presidente dos EUA para o alertar para o risco dum novo tipo de arma, com um poder destrutivo sem paralelo, ir parar às mãos da Alemanha nazi. 

O projeto surgiu para evitar a possibilidade de uma superpotência nuclear nazi, praticamente invencível. Estas primeiras armas atómicas teriam sido usadas contra a Alemanha e não contra o Japão, se o regime nazi não se tivesse rendido, a 8 de maio de 1945. Acabaram por ser usadas, a 6 e 9 de agosto de 1945, contra Hiroshima e Nagasaki, para forçar a rendição do Japão, anunciada pelo imperador a 15 de agosto de 1945. Estimava-se que uma invasão convencional do Japão resultaria em milhões de mortos. O líder soviético, Estaline, quando foi oficialmente informado da existência da nova arma pelo novo presidente dos EUA, Harry Truman, na conferência de Potsdam, encorajou a sua rápida utilização contra o Japão.

Depois disso assistimos, por parte da Rússia soviética, a uma corrida contra o tempo para obter a sua arma nuclear. Tiveram sucesso, em agosto de 1949, muito graças à sua vasta rede de espionagem. Mas, em 1950, no início da Guerra da Coreia, os EUA tinham 300 armas nucleares e a União Soviética apenas 6. Em 1962, aquando da Crise dos Mísseis de Cuba, os EUA tinham 23.000 ogivas face a 2.700 da União Soviética.

Conhecendo bem melhor esta sua desvantagem do que os serviços de informações ocidentais, a Rússia soviética dedicou-se durante toda a Guerra Fria, com a ajuda da rede internacional comunista, a criar uma vasta organização de propaganda pseudopacifista. Muitos intelectuais públicos, muitos artistas famosos, de Jorge Amado até Pablo Picasso (que desenhou uma bela pomba para servir de logotipo) associaram-se a sucessivos apelos à paz, culminando na criação do chamado Conselho Mundial da Paz, em Paris, em 1949. Esta rede continuou durante décadas a apelar ao desarmamento unilateral e sem condições do Ocidente. Fazia sentido, nesta doutrina comunista pseudopacifista, em que o bloco dito capitalista era intrinsecamente uma ameaça à paz e o bloco soviético era por definição um defensor da paz! 

O slogan que melhor caracteriza esse movimento (e até alguns pacifistas mais sinceros e radicais) era: “better red than dead” – melhor sob o domínio “vermelho” da União Soviética, do que arriscar fazer-lhe frente. Hoje voltamos a ouvir o mesmo tipo de vozes a fazer o mesmo tipo de apelos. Não aprenderam nada, o que é normal, o dogmatismo não é muito propício à aprendizagem.

Um risco sério deve ser estrategicamente gerido

Claro que devemos levar a sério o risco de a Rússia recorrer a armas nucleares. Mas isso não se faz cedendo ao pânico, sejam ele da rua, de colunistas ou de apelos interesseiros de filo-putinistas. Como bem notou Constanze Stelzenmüller, da Brookings – numa conferência recente organizada pela FLAD que tive o gosto de moderar –, os mais altos responsáveis russos e muitos dos seus propagandistas usam, cada vez mais, uma linguagem genocida em particular em relação aos ucranianos, mas mesmo em relação a todos os europeus. Apesar disso, a verdade é que Putin e a elite que o rodeia parece minimamente racional e determinada a sobreviver para gozar os frutos de décadas de acumulação cleptocrática. 

Não se vê como é que alargar a guerra para atacar mais países membros da NATO, arriscando uma guerra nuclear total, serviria os interesses do Kremlin. Tal como durante a Guerra Fria, não há nada pior do que o Ocidente mostrar fraqueza ou temor. Sim, a Rússia tem armas nucleares. Por isso, os EUA e os países europeus têm deixado muito claro que não irão intervir militarmente de forma direta no conflito. Por isso, também – por causa do chapéu de proteção dado pelo arsenal nuclear dos EUA, da França e da Grã-Bretanha – uma Rússia racional não deverá atacar países da NATO por fornecerem armamento à Ucrânia, algo que aconteceu centenas de vezes durante múltiplos conflitos da Guerra Fria sem que isso tivesse levado a uma Terceira Guerra Mundial. Honremos os enormes riscos que os ucranianos estão a correr, com grande coragem, empenhando-nos em ajudá-los a continuar a defender-se, sem complacências, mas também sem pânicos.

Observador (PT)

A mesma coisa, tudo de novo




Lula quer repetir a diplomacia "ativa e altiva". Cabe então perguntar quais foram os resultados da primeira vez em que suas ideias foram aplicadas na política externa. 

Por Paulo Roberto de Almeida, diplomata 

Para começar este meu artigo, gostaria de relembrar o presidente Lula em seu discurso de posse, em 1º de janeiro:

“A grande prioridade da política externa durante o meu governo será a construção de uma América do Sul politicamente estável, próspera e unida, com base em ideais democráticos e de justiça social.”

“Para isso é essencial uma ação decidida de revitalização do Mercosul, enfraquecido pelas crises de cada um de seus membros e por visões muitas vezes estreitas e egoístas do significado da integração.”

“O Mercosul, assim como a integração da América do Sul em seu conjunto, é sobretudo um projeto político. Mas esse projeto repousa em alicerces econômico-comerciais que precisam ser urgentemente reparados e reforçados.”

“Cuidaremos também das dimensões social, cultural e científico-tecnológica do processo de integração. Estimularemos empreendimentos conjuntos e fomentaremos um vivo intercâmbio intelectual e artístico entre os países sul-americanos.”

“Apoiaremos os arranjos institucionais necessários, para que possa florescer uma verdadeira identidade do Mercosul e da América do Sul. Vários dos nossos vizinhos vivem hoje situações difíceis.”

“Contribuiremos, desde que chamados e na medida de nossas possibilidades, para encontrar soluções pacíficas para tais crises, com base no diálogo, nos preceitos democráticos e nas normas constitucionais de cada país.”

“O mesmo empenho de cooperação concreta e de diálogos substantivos teremos com todos os países da América Latina.”

“Procuraremos ter com os Estados Unidos da América uma parceria madura, com base no interesse recíproco e no respeito mútuo. Trataremos de fortalecer o entendimento e a cooperação com a União Europeia e os seus Estados-membros, bem como com outros importantes países desenvolvidos, a exemplo do Japão.”

“Aprofundaremos as relações com grandes nações em desenvolvimento: a China, a Índia, a Rússia, a África do Sul, entre outros.”

“Reafirmamos os laços profundos que nos unem a todo o continente africano e a nossa disposição de contribuir ativamente para que ele desenvolva as suas enormes potencialidades.”

“Visamos não só a explorar os benefícios potenciais de um maior intercâmbio econômico e de uma presença maior do Brasil no mercado internacional, mas também a estimular os incipientes elementos de multipolaridade da vida internacional contemporânea.”

“A democratização das relações internacionais sem hegemonias de qualquer espécie é tão importante para o futuro da humanidade quanto a consolidação e o desenvolvimento da democracia no interior de cada Estado.”

“Vamos valorizar as organizações multilaterais, em especial as Nações Unidas, a quem cabe a primazia na preservação da paz e da segurança internacionais.”

As resoluções do Conselho de Segurança devem ser fielmente cumpridas. Crises internacionais… devem ser resolvidas por meios pacíficos e pela negociação.”

“Defenderemos um Conselho de Segurança reformado, representativo da realidade contemporânea com países desenvolvidos e em desenvolvimento das várias regiões do mundo entre os seus membros permanentes.”

“Enfrentaremos os desafios da hora atual como o terrorismo e o crime organizado, valendo-nos da cooperação internacional e com base nos princípios do multilateralismo e do direito internacional.”

“Apoiaremos os esforços para tornar a ONU e suas agências instrumentos ágeis e eficazes da promoção do desenvolvimento social e econômico do combate à pobreza, às desigualdades e a todas as formas de discriminação, na defesa dos direitos humanos e na preservação do meio ambiente.”

Como se pode constatar, o governo Lula tem objetivos ambiciosos na política externa. Certo? Mas, espere aí: esse foi o discurso de posse de Lula em 1º de janeiro de 2003, não o de 2023! Que coisa! Parecia tudo tão certinho, tão dentro do espírito e da letra da “diplomacia ativa e altiva”, como a classificou diversas vezes o chanceler designado Celso Amorim, agora assessor de assuntos internacionais na Presidência.

Vinte anos depois, o que poderia ser dito dos grandes objetivos do governo Lula em matéria de política externa, e quais foram os seus resultados práticos, nesttas duas décadas de intensa presença do Brasil e de Lula no cenário internacional?

Vamos então, para sermos honestos, verificar o que de verdade disse Lula em 1º. de janeiro de 2023:

“Os olhos do mundo estiveram voltados para o Brasil nestas eleições. O mundo espera que o Brasil volte a ser um líder no enfrentamento à crise climática e um exemplo de país social e ambientalmente responsável, capaz de promover o crescimento econômico com distribuição de renda, combater a fome e a pobreza, dentro do processo democrático.”

“Nosso protagonismo se concretizará pela retomada da integração sul-americana, a partir do Mercosul, da revitalização da Unasul e demais instâncias de articulação soberana da região. Sobre esta base poderemos reconstruir o diálogo altivo e ativo com os Estados Unidos, a Comunidade Europeia, a China, os países do Oriente e outros atores globais; fortalecendo os Brics, a cooperação com os países da África e rompendo o isolamento a que o país foi relegado.”

Tudo se encaixa nos mesmos objetivos fixados vinte anos atrás, pois não? Com exceção das referências à Unasul e aos Brics, inexistentes naquele 1º de janeiro de 2003, e à Comunidade Europeia (que já tinha virado União Europeia, UE, desde 1993), todo o resto é perfeitamente compatível com as ambições grandiosas da “ativa e altiva”, não é mesmo?

Que coincidência! Como diriam franceses e americanos, déjà vu all over again, isto é, a mesma coisa, tudo de novo! Mas o que resultou, de fato, de todo aquele programa de reforma e de reforço do Mercosul, de integração da América do Sul e da América Latina, de reforma da Carta da ONU e da recomposição do seu Conselho de Segurança? Como andou a cooperação com os países da África, do Oriente Médio e da Ásia?

Nem tudo foi perdido, ao que parece: em 2009, a China já tinha suplantado os Estados Unidos ao assumir o primeiro lugar no comércio exterior do Brasil, e atualmente, ela sozinha faz o dobro dos intercâmbios mantidos com os dois parceiros seguintes, os Estados Unidos e a União Europeia, justamente, sendo que a Ásia Pacífico, em nossos dias, ocupa lugar preeminente no comércio internacional do Brasil. Mas também é um fato que foi o agronegócio sozinho que alcançou esses resultados, pois que não existem acordos de livre-comércio, do Brasil ou do Mercosul, com aqueles países, e é também verdade que todas as vendas estão baseadas essencialmente em commodities, cujos preços e volumes exportados não dependem em nada do governo, qualquer governo, pois que todos os movimentos dependem totalmente da dinâmica dos mercados, das ambições dos empresários do agronegócio e das tradings, não do ativismo da diplomacia ou das iniciativas de tecnocratas governamentais.

E quanto ao reforço do Mercosul, da integração sul-americana e da união da América Latina? O bloco e toda a região nunca estiveram tão fragmentados e desunidos quanto hoje, e vários países buscaram suas próprias soluções, alguns a caminho da Ásia, justamente, outros ingressando na OCDE, esse “clube de países ricos”, como ainda agora os petistas se referem depreciativamente a esse excelente foro de consulta e de coordenação das melhores práticas em políticas econômicas, macro e setoriais, baseado em Paris, e que, nos últimos vinte anos, passou de duas dúzias de membros a quase o dobro desse total. O próprio Brasil, mas não os petistas da “ativa e altiva”, buscou integrar-se ao foro, objetivo que parece permanecer em banho-maria atualmente, como aliás foi o caso durante os 13 anos e meio dos mandatos lulopetistas no comando do país.

E no que se refere ao grande objetivo de uma associação comercial entre o Mercosul e a União Europeia, que já era o objetivo fixado em meados dos anos 1990, quando também havia o projeto americano de uma Área de Livre Comércio das Américas, tal como proposto pelo presidente Bill Clinton na cúpula de Miami, em dezembro de 1994? Está certo que na primeira gestão de Celso Amorim como chanceler, no governo Itamar Franco, o Brasil já propunha uma Alcsa, também uma área de livre-comércio, mas que seria exclusivamente sul-americana, objetivo que parece ter sido desprezado por todos os parceiros da região. 

Recorde-se, também, que a associação do Mercosul à UE permaneceu vinte anos no banho-maria, justamente, depois que os três grandes concorrentes na liderança sul-americana – Hugo Chávez da Venezuela, Nestor Kirchner da Argentina, e o próprio Lula – se encarregaram de implodir a Alca na cúpula de Mar del Plata, em 2005, como orgulhosamente o reconheceram tanto Lula quanto Amorim. Foi só depois, sob a administração “neoliberal” de Michel Temer que o projeto de ingresso na OCDE e as negociações com a UE foram ultimados, a ponto de o famoso acordo inter-regional ter sido assinado nos primeiros seis meses do governo dito ultraliberal de Bolsonaro, projetos não bem acolhidos pelos petistas de volta ao poder (pois que não sabem se, um e outro, colocarão em risco a outrora poderosa indústria brasileira).

O que resultou, por outro lado, do ativismo dos megaencontros entre dirigentes da América do Sul e seus contrapartes da África e do Oriente Médio e do norte da África, os países africanos e árabes, tão afanosamente cortejados pela “ativa e altiva”, essa grande diplomacia que partia de uma entidade perfeitamente fantasmagórica, o tal de Sul Global? Parece que a era da “nova geografia do comércio internacional”, orgulhosamente anunciada por Celso Amorim naqueles anos, tardou a se realizar. Na verdade, ela se realizou plenamente, mas foi bem mais a “nova geografia” do comércio de manufaturados exportados pela Ásia Pacífico, com a China na cabeça, na direção dos mercados desenvolvidos do Norte Global, pois que o Mercosul e os latino-americanos continuaram exportando commodities para todos os mercados, inclusive para os desprezados hegemônicos, as potências coloniais do passado, e imperialistas do presente.

Quanto ao grandioso objetivo de reformar a Carta da ONU, de fazer parte de um Conselho de Segurança ampliado e de caminhar no sentido da criação de uma “nova ordem global”, baseada na “multipolaridade” do famoso Sul Global (que, curiosamente, englobaria as duas grandes autocracias do Brics), parece que ele fez chabu, depois que os companheiros preservaram a “neutralidade” ativamente pró-Putin que já vinha do desastroso, e muito pouco diplomático, governo anterior. Esse “Ocidente”, também desprezado pelos lulopetistas, pois que supostamente comprometido com os arrogantes projetos unilateralistas da Otan, não se mostra disposto a reduzir seu apoio defensivo à Ucrânia, descartando completamente esse bizarro “clube da paz” que o grande líder dos emergentes pretendia formar para “dialogar” com Putin, um dos companheiros de Lula na criação original do Bric, entre 2006 e 2009.

O grupo foi ampliado em 2011 para Brics, pelas mãos da China, que parece mais interessada em fazê-lo ainda maior (com Argentina, Egito, Argélia, México, Indonésia como possíveis novos membros) a ponto de convertê-lo em entidade concorrente à neoliberal e ocidental OCDE. O Brasil de Lula 3 vai aceitar a transformação do bloco em instrumento dos interesses nacionais da China, e também da Rússia, que precisa desesperadamente do apoio do maior número possível de “neutros”, para compensar as ativas maiorias que, na ONU (Conselho de Segurança, Assembleia Geral e Conselho de Direitos Humanos), condenaram sua execrável guerra de agressão ao pacífico país vizinho? Já na última resolução da Assembleia das Nações Unidas, em novembro de 2022, declarando a Rússia culpada pela guerra e decidindo que ela deveria pagar reparações à Ucrânia, apenas 94 países votaram a favor da resolução, com 14 votos contrários e 73 abstenções, o maior número nesta última categoria, desde as resoluções anteriores, claramente de condenação à guerra de agressão de Putin.

Para onde irá a “nave” da nova-velha diplomacia do Brasil de Lula 3, na defesa da paz e da segurança internacional, da integração regional, da “nova ordem mundial”? Aguardemos os próximos capítulos, pois ainda faltam a viagem à China e a cúpula do Brics…

Revista Crusoé

O abominável Ministério da Verdade




Sob o pretexto de combater as fake news, o governo petista multiplica iniciativas que podem restringir a liberdade de expressão. 

Por Marisa Wanzeller e Carlos Graieb 

No romance 1984, a extraordinária distopia política do inglês George Orwell, um país totalitário chamado Oceânia possui um Ministério da Verdade, cuja missão é controlar a informação que chega aos cidadãos, doutriná-los e, sempre que necessário, reescrever a história. A ideia de dotar o governo de uma estrutura desse tipo nunca foi estranha ao PT – e o terceiro mandato de Lula demonstra isso mais uma vez.

Uma das primeiras medidas assinadas pelo presidente, logo no dia da sua posse, foi a criação de uma Procuradoria Nacional de Defesa da Democracia, subordinada à Advocacia Geral da União (AGU). Um de suas principais finalidades é “enfrentar a desinformação sobre políticas públicas” – sem que haja definição precisa sobre o que seja “desinformar”. Na Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom) surgiu uma nova repartição, batizada com o belo nome de Departamento de Promoção da Liberdade de Expressão. Seu objetivo declarado também é combater a desinformação.

Comandado por Flávio Dino, o Ministério da Justiça mostra-se ansioso para pôr em vigência uma legislação que permita tirar de circulação, especialmente das redes sociais, fake news e os chamados “conteúdos antidemocráticos”. O governo queria fazer isso por meio de uma medida provisória, que chegou a ter uma minuta. Mas o Congresso avisou – enfaticamente – que não aceita ser atropelado por uma MP. Há um projeto de lei sobre o assunto, o PL das Fake News (2630/20), que já foi aprovado no Senado e aguarda tramitação na Câmara.

Além dessas grandes iniciativas, o governo dá outros sinais preocupantes que não devem ser desprezados. A ideia de que o impeachment de Dilma Rousseff foi um “golpe” e não um processo político legítimo, guiado pela Constituição, já apareceu na comunicação oficial do governo feita pela Secom. O mesmo aconteceu em um artigo publicado pela Agência Brasil no dia 13 de janeiro. O texto dizia que o Conselho Curador da empresa foi “cassado após o golpe de 2016”. Questionado, o novo presidente da estatal, Hélio Doyle, disse: “se depender de mim, vai continuar falando que foi golpe”. Pura e simples reinvenção do passado.

Há também um esforço para mobilizar as redes sociais em favor do governo. No início do mês, Lula participou, juntamente com a primeira-dama, Janja, de um encontro com influenciadores digitais de esquerda. O evento se chamou Influenciadores pela Democracia. Na ocasião, o presidente enfatizou que não é porque as eleições acabaram que o papel de “defender a democracia” acabou. O casal presidencial pediu aos convidados que seguissem atuantes nas redes sociais.

Neste ponto, é importante lembrar como o PT se comportou em relação à imprensa e à liberdade de expressão no passado. Na primeira passagem de Lula pelo Planalto, entre 2002 e 2009, muito se falou sobre “controle social da mídia” e sobre a criação de um Conselho Federal de Jornalismo, apto a punir a veículos de comunicação pelo conteúdo que publicassem. No governo de Dilma Rousseff, as mesmas propostas voltaram com novas roupagens, como a de um “observatório de conteúdos midiáticos”. Criado em 2013, um certo Fórum Nacional de Democratização da Comunicação ganhou apoio irrestrito do PT para tentar pôr de pé um projeto de lei de iniciativa popular, que incrustaria nas empresas privadas de Rádio e TV “mecanismos que estimulem e permitam o controle público sobre a programação, como conselhos com participação da sociedade, conselhos editorais e serviços de ouvidoria”.

Numa era em que as redes sociais apenas engatinhavam, os governos petistas foram responsáveis pela criação de um conjunto de sites abastecidos com dinheiro público e encarregados de elogiar o governo e atacar seus adversários. Foi uma versão pioneira do gabinete do ódio dos bolsonaristas – e da rede de influenciadores que Lula e Janja querem manter mobilizados.

Para encerrar essa retrospectiva, lembremos de uma frase de Lula, irritado com questionamentos sobre o uso do dinheiro público: “Não acho que o papel da imprensa é fiscalizar”. E de uma declaração de José Dirceu, em 2013, segundo a qual o Brasil padecia de um “excesso de liberdade e do direito de expressão e da imprensa”. Condenado a viver nas sombras por causa do mensalão e do petrolão, Dirceu recebeu um afago de Lula na semana passada, durante a festa de aniversário do PT.

É importante recapitular toda essa história para mostrar que a desconfiança provocada pelas ações de Lula 3 têm razão de ser. E também porque os últimos anos deram ao presidente e seu partido os melhores pretextos possíveis para voltar à carga com suas propostas de controle da “verdade”. Depois do festival de fake news da pandemia de Covid; depois de toda a campanha contra o sistema eleitoral brasileiro, baseada em teses paranoicas que jamais se comprovaram; e depois do 8 de Janeiro, que só foi possível porque as redes sociais funcionaram como estufas para a proliferação de teorias da conspiração e discursos golpistas – depois de tudo isso, pouca gente discorda que fake news podem ter efeitos nefastos e que a fronteira entre a liberdade de expressão e discursos de fato golpistas e sediciosos precisa ser patrulhada com nova atenção. Nunca antes, o ambiente foi tão propício para que a defesa da democracia sirva de disfarce para a criação de um Ministério da Verdade.

As próximas semanas devem trazer novidades em duas frentes. De um lado, a AGU instalou um Grupo de Trabalho para regulamentar as atividades da Procuradoria Nacional de Defesa da Democracia. Representantes da sociedade civil e do setor de comunicação foram convidados a compor o GT, além de advogados especializados no tema. Mas, até o momento, não há representação das plataformas digitais.

Em paralelo, devem ser retomadas as discussões sobre o PL das Fake News. O que o governo propunha, ao esboçar uma MP em substituição ao PL, era muito mais que um reforço na moderação de conteúdo das redes sociais, para evitar a disseminação de mensagens “possivelmente relacionadas à prática de crimes contra o Estado Democrático de Direito”. Uma das medidas obrigaria as plataformas da internet a tirar do ar conteúdos denunciados, sem que para isso fosse necessária uma ordem do Judiciário. Mais ainda: o Executivo ganharia o poder de determinar alteração de algoritmos e do funcionamento das plataformas digitais, para que fossem adotadas “medidas de mitigação de riscos”.

Dizia o texto: “Na ocorrência de circunstâncias extraordinárias que conduzam a uma grave ameaça à segurança pública, o Ministério da Justiça e Segurança Pública poderá determinar a adoção de protocolos de crise, a serem observados pelos provedores de aplicações de internet, com medidas proporcionais e razoáveis, nos termos da regulamentação.”

Formada por mais de 200 deputados, e alertada por gente que trabalha no setor de tecnologia, a Frente Parlamentar Digital foi a primeira a comunicar o Executivo que a edição de MP seria vista como afronta ao parlamento. O recado definitivo foi dado pelo presidente da Câmara, Arthur Lira. Com isso, o governo se conformou em participar dos debates sobre o PL das Fake News. O relator será o deputado Orlando Silva (PCdoB-SP), aliado do Planalto.

“A desinformação é um tema enfrentado por todas as democracias nos tempos atuais. Aqui no Brasil não é diferente, tanto que as fake news foram amplamente utilizadas para criar uma falsa contestação ao processo eleitoral em uma minoria radicalizada da população”, diz Silva.

“Tentar forçar uma MP foi um tiro no pé. O texto era mal escrito e complexo”. Assim foi descrita a minuta por um representante de uma plataforma de rede social, que falou em caráter reservado a Crusoé. “Sabemos que essa regulamentação é inevitável e pode até ser boa, mas a contaminação com o que aconteceu no dia 8 e a pressa do governo não estão sendo vistas com bons olhos.”

Como mostra assa declaração, existe certa resignação entre as plataformas com a vinda de uma regulamentação brasileira para o seu trabalho. Isso acontece porque um caminho já foi desbravado pela União Europeia, onde o Digital Services Act (DSA) entrou em vigor neste mês. O código prevê medidas que foram adotadas no Brasil nos últimos meses, mas sem regras claras, como a desmonetização de perfis e canais. Outras ideias, como o fortalecimento de serviços independentes de checagem de informações e o aumento da transparência sobre quem divulga ou impulsiona conteúdos políticos, também estão presentes no PL das Fake News.

A Frente Parlamentar Digital quer que seja criada uma comissão especial no Congresso, para que haja um amplo debate sobre o tema. “Ainda não houve uma comissão que pudesse tratar especificamente desse assunto. Houve simplesmente um grupo de trabalho muito restrito”, avalia o deputado Zé Vitor (PL-MG). Segundo ele, o presidente da Câmara, Arthur Lira, demonstra boa vontade para instalar o colegiado depois do Carnaval.

Para advogado André Marsiglia, especialista em liberdade de expressão e imprensa e colaborador de Crusoé, a pressa em responder ao 8 de janeiro é uma “resposta radical a atos radicais”, o que não contribui para a democracia e gera medidas “inconstitucionais e atropeladas”.

O Brasil, tampouco, poderia simplesmente importar o modelo de regulação existente na Europa, afirma Marsiglia. “Às vezes a gente pensa em importar modelos e esquece que o direito é uma construção cultural, precisamos entender a necessidade do nosso país”, diz ele.

Para o advogado especialista em ciências criminais João Henrique Tristão, o grande desafio dos próximos meses será criar uma definição legal clara do que sejam fake news, desinformação e discurso antidemocrático. Só assim haverá segurança jurídica para indivíduos, empresas e para o país. “Você só pode se defender daquilo que está definido”, afirma Tristão. Com parâmetros definidos, o Judiciário também se veria poupado dos desgastes decorrentes de criar balizas onde elas não existem.

A Procuradoria Nacional de Defesa da Democracia também provoca reações. No começo do mês, o senador Sergio Moro (União-PR) apresentou um projeto de decreto legislativo para simplesmente barrar a criação da procuradoria. Segundo o ex-ministro da Justiça, o órgão, “a pretexto de promover o enfrentamento à desinformação sobre políticas públicas, pode servir de fundamento para a instrumentalização da censura política daqueles que fizerem oposição ao governo”.

Após as declarações que classificam o impeachment de Dilma Rousseff como golpe, o deputado federal Kim Kataguiri (União-SP) entrou com uma representação na AGU, acusando integrantes do governo – inclusive Lula, que repete a cantilena – de disseminar fake news. “A resposta à minha demanda mostrará o verdadeiro fim dessa procuradoria”, diz Kataguiri. “Saberemos se ela serve para proteção do Estado de Direito ou para perseguir adversários do governo.” Seria uma bela ironia se o primeiro alvo do Ministério da Verdade fosse o próprio PT.

Revista Crusoé

A espionagem no século XXI




Hoje, os informantes não se parecem em nada com os espiões da franquia James Bond. Eles circulam com cartões de visitas por empresas, governos, Parlamentos e Tribunais do Brasil e do exterior. 

Por Rafael Fontana 

Fevereiro de 2023. Moradores do Estado norte-americano de Montana avistam um balão branco com escritos chineses rasgando o céu do país. O ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump reagiu imediatamente nas redes sociais, ao seu melhor estilo enérgico: “Derrubem o balão!”.

Naquele mesmo 3 de fevereiro, na zona norte de São Paulo, Larissa, 14 anos, sacou seu aparelho celular do bolso para aprender uma nova dancinha no TikTok.

Os dois fatos, aparentemente isolados entre si, na realidade revelam que, seja no céu, seja na terra, nações de cada continente avançam sobre as demais com suas ferramentas de espionagem, dispondo das tecnologias mais avançadas. E nenhum país em toda a face da Terra ultrapassa fronteiras com mais voracidade e desprezo ético que a China.

Larissa e suas amigas Sofia, Ester e Beatriz, todas com idade entre 14 e 15 anos, sabem que o aplicativo nos seus celulares é chinês, mas dizem não ligar. Seus pais também não. Sofia assiste a vídeos de cosplay; Beatriz gosta mesmo é das fofocas; e Ester usa a ferramenta para aprender a desenhar. Enquanto isso, entre uma dancinha e um vídeo de pet, o governo chinês sorrateiramente coleta os dados que julgar necessários, contando com uma base de 750 milhões de usuários espalhados pelo mundo.

O balão asiático, voando sozinho, enfrentou seu destino previsível. Um míssil o atravessou sobre a costa do Atlântico nos EUA. O governo norte-americano evitou seguir imediatamente o conselho de Trump, avaliou que o risco de abater o balão chinês sobre a área territorial do país poderia ir além de matar um ou dois bovinos no pasto. Havia uma preocupação com o desconhecido conteúdo carregado pelo balão, desde material tóxico até pragas capazes de dizimar lavouras. Assim, sobre o mar, o míssil disparado por um caça F-22 derrubou o equipamento de origem chinesa, e seus destroços coletados no Atlântico passam por análises das autoridades nos EUA, apesar de forte protesto de Pequim.

O balão pode ter caído, mas as perguntas não foram derrubadas. Um emaranhado de dúvidas preencheu redações de jornais e redes sociais. O que um balão conseguiria espionar que um satélite não possa fazê-lo? Por que um espião tão grande, com 40 metros de altura e caracteres chineses visíveis? Seria uma false flag, ou seja, a deturpação proposital de um ato, usado para esconder as verdadeiras motivações de suas ações ou sua real identidade?

E o mais importante de tudo: por que o governo chinês iria mandar um balão daquele tamanho, se já instalou um espião em cada bolso dos habitantes do Ocidente?

Dilma grampeada

Em 2013, o governo brasileiro descobriu que a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA, na sigla em inglês) havia espionado autoridades do país, entre elas a presidente Dilma Rousseff e o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci. Até o telefone do avião presidencial havia sido grampeado, gerando indignação nas hostes petistas. Em público, porém, o governo adotou a ponderação. “Para o governo da presidente Dilma, é um episódio superado”, disse o então ministro da Secretaria de Comunicação, Edinho Silva.

A denúncia da espionagem internacional promovida pela NSA partiu da ONG WikiLeaks, criada pelo jornalista e ativista australiano Julian Assange, obstinado em revelar que as práticas de espionagem conduzidas por diversos países e corporações estavam invadindo a privacidade das pessoas. Com foco centrado nos Estados Unidos, a plataforma tornou a América do Norte alvo de um intenso volume de denúncias anônimas, misturando fogo amigo e inimigo.

Ao longo da última década, os vazamentos do WikiLeaks expuseram ações nada ortodoxas de inúmeros países, empresas e personalidades, atingindo autoridades dos EUA, da Arábia Saudita, do Quênia, da Turquia e da Síria, entre outras nações. Mesmo acusado de disseminar teorias da conspiração e informações inverídicas, as revelações de Julian Assange derrubaram políticos e assessores de seus cargos.

Rússia e China foram poupadas de vazamentos mais comprometedores, fator que levantou suspeitas de favorecimento a esses países em detrimento dos Estados Unidos e seus aliados. Os questionamentos se acentuam ao considerar que as agências de Inteligência da Rússia e da China estão ranqueadas entre as dez mais atuantes e eficazes do mundo. São elas, respectivamente, a FSB — sucessora da KGB, após o colapso da União Soviética — e o 国家安全部 (Guójiā ānquán bù), Ministério de Segurança do Estado (MSS, na sigla em inglês), com sede em Pequim.

Entre os agentes de Inteligência e especialistas da área, as demais agências top 10 neste começo de século 21 são a CIA, dos Estados Unidos; a Mossad, de Israel; a RAW, da Índia; a Asis, da Austrália; e a BND, da Alemanha, além dos serviços de Inglaterra, França e Paquistão. Não há nenhuma menção à Agência Brasileira de Inteligência (Abin), a única do mundo cujos espiões são selecionados por concurso, possuem estabilidade e contam com um sindicato da categoria.

Celulares infiltrados

O caso do balão chinês trouxe de volta à pauta nos Estados Unidos a preocupação com a espionagem chinesa, responsável por um prejuízo estimado entre US$ 300 bilhões e US$ 450 bilhões por ano aos cofres norte-americanos, valor acumulado pelos ataques cibernéticos e pela espionagem econômica.

“A China representa a maior ameaça geopolítica para os Estados Unidos”, disse, no meio da crise do balão, o ex-secretário de Estado e ex-diretor da CIA durante o governo Trump, Mike Pompeo. De acordo com Pompeo, o artefato voador consistia em um teste chinês para conhecer a resposta dos Estados Unidos. “Biden falhou no teste”, afirmou o ex-secretário.

Se, por um lado, a Casa Branca hesita em adotar uma resposta mais dura contra o serviço secreto do Partido Comunista Chinês, os Estados norte-americanos agem rapidamente para proteger seus dados e informações. Neste ano, cresceu a lista de unidades da federação que baniram o uso do TikTok no setor público. Os mais recentes a anunciar restrições ao aplicativo chinês foram Wisconsin e Carolina do Norte, ampliando o rol de Estados que inclui Ohio, Flórida e Nebraska, totalizando 26 unidades da federação a bloquear total ou parcialmente o uso do TikTok por funcionários públicos.

A preocupação recai agora sobre a juventude, já que dois terços dos adolescentes usam o aplicativo nos EUA. Investigações conduzidas pelo FBI constataram nos últimos meses que o TikTok armazenou dados de usuários sem autorização, além da sua localidade e da navegação pela internet via aparelho celular. O Partido Comunista Chinês (PCC) possui assento no conselho acionário da ByteDance, empresa dona do aplicativo, e pode acessar dados privados sem grandes dificuldades.

Em dezembro de 2022, a empresa admitiu ter acessado e vazado sem autorização os dados pessoais de jornalistas nos Estados Unidos. A culpa recaiu sobre funcionários que teriam agido sem o consentimento da companhia e, segundo a ByteDance, acabaram demitidos. Essa tem sido a resposta-padrão das grandes empresas chinesas controladas pelo Partido Comunista, ou seja, todas.

A Huawei constitui uma ameaça ainda maior, de acordo com investigações coordenadas por vários países. Enquanto o TikTok possui ação restrita aos aparelhos de quem baixa o aplicativo, a Huawei atua diretamente nas torres de transmissão de telecomunicações, em condições de acessar os dados de cada celular que fizer uso de seus equipamentos.

Estados Unidos, Canadá, Austrália, Taiwan, Japão, Nova Zelândia e Suécia baniram o gigante chinês de telecomunicações de sua rede 5G, enquanto o Reino Unido deverá fazê-lo até 2027. Outros países estudam medidas restritivas similares, uma vez que a Huawei é integralmente controlada por membros do Partido Comunista, a começar pelo fundador e CEO, Ren Zhengfei, ex-membro do Exército Popular da China, como são chamadas as Forças Armadas do país.

Brasileiros desprotegidos

O Brasil posiciona-se fora do grupo de países preparado para lidar com a ameaça chinesa no 5G. Durante o governo Bolsonaro, o assunto rendeu uma crise no Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), então chefiado por Marcos Pontes. O ministro astronauta conhecia os riscos e, internamente, receava capitanear a licitação do 5G no Brasil.

A solução veio a partir de uma providencial divisão da pasta, com apoio do centrão. O governo acabou recriando o Ministério das Comunicações, entregando a tarefa da licitação para Fábio Faria, que não pariu o 5G, mas o embalou como um filho. Sob uma forte pressão do embaixador Yang Wanming para aceitar as empresas chinesas, o governo Bolsonaro conseguiu proteger apenas a si mesmo, impedindo que a Huawei fosse contratada pelas operadoras de telecomunicações para instalar a rede 5G do governo federal.

O único no governo a falar abertamente contra os interesses do Partido Comunista Chinês no 5G foi o então ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, demitido em março de 2021, a pedido de lobistas a serviço da China, entre eles parlamentares brasileiros, meses antes da licitação.

No dia 28 de março daquele ano, o chanceler declarou nas redes sociais que a então presidente da Comissão de Relações Exteriores, senadora Kátia Abreu, teria lhe proposto fazer um gesto amigo aos chineses quanto ao 5G, às vésperas de sua audiência no Senado, realizada naquela semana. “Se o senhor fizer um gesto em relação ao 5G, será um rei no Senado”, publicou Ernesto Araújo, no Twitter. Kátia Abreu tergiversou e fugiu do assunto, contando com o apoio da imprensa tradicional. No dia 29, o ministro que ousou enfrentar a China perdeu o cargo.

Em maio daquele mesmo ano, em comentário sobre os chineses mesmo sem citá-los, Katia Abreu declarou: “Sou capaz de me deitar no chão e deixar que pisem em cima de mim”. A ex-senadora disse ter se referido a “qualquer país que tivesse a vacina”. A verdade é que, no ano anterior, em 2020, a embaixada chinesa já havia chantageado o governo brasileiro, ameaçando deixar o Brasil sem as vacinas da sinogripe iniciada em Wuhan, a covid-19, caso o Brasil se recusasse a aceitar as empresas chinesas na rede 5G.

Ernesto Araújo avalia que o imbróglio envolvendo o 5G foi mais uma das imposições chinesas para mostrar sua força política dentro do Brasil. “Já existia a presença chinesa no agro, eles queriam delimitar as áreas onde o Brasil pode e não pode avançar, mantendo o país na condição de exportador de alimentos, sem avançar no setor tecnológico”, afirmou Araújo à Revista Oeste. A análise do ex-chanceler brasileiro corrobora a visão de Mike Pompeo, ex-secretário de Trump, quanto ao balão. Isto é, o PCC testou o governo brasileiro da mesma forma que agora o faz com a administração Biden, respectivamente nas áreas tecnológica e militar.

A lógica por trás da agressividade do ditador chinês Xi Jinping no que diz respeito à espionagem e à tecnologia é bem simples. Para continuar no poder, o grupo de Xi precisa manter a China em um estável patamar de crescimento econômico, proporcionando à sua população um conforto material que compense a falta de liberdade. Incapaz de competir dentro das regras internacionais com nações que desenvolvem novas pesquisas e tecnologias, o Partido Comunista investe no caminho mais rápido e barato: a espionagem em todos os setores, do agronegócio à indústria, dos serviços financeiros às Forças Armadas. Nesse contexto, há 2 milhões de membros do partido trabalhando em empresas multinacionais em todos os continentes.

Além do farto contingente de informantes e espiões humanos, há algoritmos de espionagem em cada celular habilitado com os aplicativos chineses ou cujas informações trafeguem pelas torres de transmissão das companhias do país. A Huawei nega promover espionagem, mas as investigações em diferentes países vão na direção contrária. Em 2018, Meng Wanzhou, filha do fundador da Huawei, foi presa, no Canadá, a pedido dos Estados Unidos, acusada de violar as sanções contra o Irã. Em 2022, o governo Biden retirou as acusações. No Brasil, dentro da subsidiária local da Huawei, todos os cargos de confiança e de decisão estratégica são preenchidos por membros do Partido Comunista, como revela o livro Chinobyl (Avis Rara, 2021).

Os informantes deste século não se parecem em nada com os espiões da franquia James Bond. Eles circulam com cartões de visitas por empresas, governos, Parlamentos e Tribunais do Brasil e do exterior. Ao proporcionar vantagens econômicas, a espionagem mantém ditadores no poder, assim como permite espalhar mundo afora seus modelos totalitários. Um balão solitário foi derrubado, todos viram. Já o “problema invisível” persiste: bilhões de cidadãos em escala global são potenciais espiões involuntários, desde que carreguem em seus bolsos um aparelho celular.

Revista Oeste

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