sexta-feira, abril 15, 2022

George Orwell tem razão mais uma vez




As obras clássicas da literatura mundial têm a particularidade de não envelhecerem, tornando-se, em determinados períodos, tão perigosas para o poder autoritário como na época de sua publicação. 

Por José Milhazes 

“A guerra é a paz”

Em 1949, o escritor britânico George Orwell publicava a sua mais conhecida obra, a anti-utopia “1984”, livro censurado e proibido em qualquer país onde foram ou estão instalados regimes autoritários.

Na União Soviética, os dirigentes comunistas mantiveram essa obra no índice dos livros proibidos até à perestroika de Mikhail Gorbatchov, pois consideravam, e com toda a razão, que “1984” não passava de uma das mais perigosas obras literárias anti-soviéticas.

Hoje, Vladimir Putin não chegou ainda ao ponto de proibir a venda dessa obra nas livrarias, mas a sua distribuição gratuita ou citações podem causar sérios problemas aos que ousem fazer isso em tempo de “operação especial” das tropas russas. A própria proibição da palavra “guerra” e a sua substituição pelo termo “operação especial” fazem lembrar passagens de “1984” como “a guerra é a paz”.

No dia 11 de Abril, na cidade de Ekaterinburgo, a polícia deteve um cidadão russo que exibia uma folha de papel como essa máxima do romance distópico de Orwell e conduziu-o para uma esquadra, onde foi acusado de “desacreditar as forças armadas russas”, sendo o castigo o pagamento de uma multa de 50 mil rublos (cerca de 60 euros).

Os serviços de segurança andam à caça dos estudantes que ousam deixar nas estações de metropolitano de Moscovo exemplares de obras como “1984”, “O Adeus às Armas” de Ernest Hemingway e “A Oeste Nada de Novo” de Eric Maria Remarque”.

Mas parece que, como acontece frequentemente na Rússia, as perseguições apenas despertam a curiosidade das pessoas. Segundo as editoras russas, o romance “1984” regressou ao top dos livros mais vendidos no país.

Além disso, os leitores procuram também livros de psicologia como o de Viktor Frankl “Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração”.

Talvez a explicação para este fenómeno esteja nas palavras do Presidente francês, Emmanuel Macron, que, numa das suas últimas entrevistas diagnosticou paranoia no ditador russo. Quando lhe perguntaram quais os motivos de Putin para invadir a Ucrânia, ele respondeu que “o ressentimento [em relação à política do Ocidente] se transformou em paranoia”.

“O isolamento de Putin, desde as sanções de 2014, só tornou tudo pior. Também não se deve subestimar o papel da covid-19 (…) em muitos líderes que já estavam à beira da solidão. Ele fechou-se em Sochi durante meses, entregue aos seus pensamentos”, acrescentou Macron.

Donbass e não só

A paranoia de Putin deverá ter agravado fortemente depois do fracasso da primeira etapa da invasão da Ucrânia. A prisão de alguns dirigentes do Serviço Federal de Segurança da Rússia encarregados de acompanhar o país vizinho e de Vladislav Surkov, ex-adjunto de Putin para o Donbass, é um sinal de que começou a caça aos “bodes expiatórios”. E a purga irá certamente continuar.

Paralelamente, a ofensiva militar russa irá intensificar-se no Leste e Sudeste da Ucrânia, pois o ditador precisa de uma vitória que já tarda muito. Ele não olhará a meios para vergar os “neonazis” ucranianos nessas regiões.

Mas terá de continuar para a ocupação total da Ucrânia não só para acabar com um país que, segundo ele, não deve existir, mas também para fazer a vontade aos extremistas russos. Não se vê túnel que conduza à paz e muito menos luz ao fundo dele.

P.S. Causou alguma surpresa em certos sectores europeus a decisão da direcção da Ucrânia de não receber o Presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier. Rui Rio considerou isso um “tiro no pé”, mas, na realidade, trata-se de uma atitude clara e firme do Presidente Zelensky e da sua equipa. Afinal, não restam dúvidas que alguns políticos europeus, incluindo alemães, contribuíram, consciente ou inconscientemente, para a tragédia que caiu sobre os ucranianos.

Observador (PT)

Mundo registra mais de 500 milhões de casos de Covid-19, aponta universidade




Levantamento da Universidade Johns Hopkins também contabiliza 6,1 milhões de mortes pela doença em todo o mundo.

Levantamento da Universidade Johns Hopkins, dos Estados Unidos, até a manhã desta quinta-feira (14) 

O mundo ultrapassou os 500 milhões de casos registrados de Covid-19, segundo levantamento da Universidade Johns Hopkins, que monitora os números desde o início da pandemia.

    Até às 8h (horário de Brasília) desta quinta-feira (14), a universidade contabilizava 501.970.999 casos da doença, com mais de 6,1 milhões de mortes. 

O número de casos considera apenas os que foram registrados – a própria Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que o número real de infectados seja muito maior, por causa da subnotificação. Na quarta-feira (13), a entidade havia anunciado que continua considerando a pandemia uma emergência de saúde pública internacional.

EUA lideram casos e mortes

Os Estados Unidos lideram o número de infectados e de mortes pela Covid-19 até agora. Segundo o balanço da universidade, são mais de 80,5 milhões de casos no país, que tem quase 1 milhão de mortes registradas. Nos últimos 28 dias, foram mais de 880 mil novos casos.

Já a Coreia do Sul lidera no número de novos casos vistos nos últimos 28 dias, com 7,7 milhões de novos registros. Em seguida vêm Alemanha (quase 5 milhões), França (3,6 milhões) e Vietnã (3,5 milhões).

A China também tem registrado recordes de novos casos desde o início da pandemia.

Embora os casos sigam crescendo, o ritmo de novos registros vem caindo desde o fim de janeiro – quando a variante ômicron levou a um recorde de infectados em vários países, inclusive no Brasil.

Já as doses de vacina contra a Covid-19 aplicadas no mundo inteiro estão na casa dos bilhões, mas a distribuição é desigual: enquanto 64 países já ultrapassaram a meta da OMS de vacinar mais de 70% de suas populações até julho deste ano – o Brasil está entre eles –, outros 68 ainda não chegaram a 40%, que era a meta estabelecida para o final do ano passado. Desse total, 21 ainda não vacinaram nem sequer 10% de seus habitantes.

G1

Guerra na Ucrânia: como era o poderoso navio russo que afundou no Mar Negro




O Moskva patrulhando o Mar Mediterrâneo ao longo da costa da Síria

O cruzador de mísseis Moskva, principal navio da frota russa do Mar Negro, afundou após ser profundamente danificado por uma explosão na quarta-feira (13/04).

A embarcação estava sendo rebocado para o porto quando "mares tempestuosos" o fizeram afundar, de acordo com o Ministério da Defesa russo.

O governo da Ucrânia afirma que a explosão foi causada por um ataque executado por suas forças. Segundo as Forças Armadas ucranianas, eles teriam utilizado um míssil Neptune fabricado nacionalmente.

Moscou, por sua vez, não fez nenhuma menção a bombardeios em suas declarações. As forças russas se limitaram a dizer que o incêndio a bordo foi causado por uma "explosão de munição" no Moskva.

O navio com capacidade para 510 tripulantes era um símbolo do poder militar da Rússia e liderou a parte naval do ataque russo à Ucrânia.

O que se sabe sobre o Moskva?

Originalmente construído na Ucrânia na era soviética, o navio entrou em serviço no início dos anos 80, de acordo com a imprensa russa.

O cruzador foi anteriormente usado por Moscou no conflito na Síria, onde forneceu proteção naval às forças russas no país.

O Moskva carrega mais de uma dúzia de mísseis antinavio Vulkan e uma série de armas antissubmarino e torpedos. Ele ainda era equipado com um helicóptero e podia alcançar uma velocidade de 59 quilômetros por hora.

O cruzador é o segundo grade navio russo severamente danificado desde o início da invasão à Ucrânia.

Quais as defesas do navio?

O cruzador da classe Slava era o terceiro maior navio ativo de toda a frota da Rússia e um de seus equipamentos que possuía melhor sistema de defesa, afirmou Jonathan Bentham, especialista naval do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos à BBC News.

O cruzador estava equipado com um sistema de defesa aérea de três camadas que, funcionando corretamente, fornecia três oportunidades de proteção em caso de um ataque de mísseis Neptune.

Além das defesas de médio e curto alcance, ele podia ainda ativar seis sistemas de armas de defesa próxima como último recurso.

"O Moskva deve ter cobertura de defesa antiaérea de 360 graus. O sistema CIWS (Sistema de Armas de Defesa Próxima) pode disparar 5.000 tiros em um minuto, essencialmente criando uma parede de artilharia ao redor do cruzador, sua última linha de defesa", explica Bentham.

Se for comprovado que o ataque veio de um míssil, "levantará questões sobre as capacidades de modernização da frota de superfície russa: se tinha munição suficiente, se tinha problemas de engenharia".

"Essencialmente, em tese, esse sistema de defesa antiaérea de três camadas seria muito difícil de acertar", acrescentou o especialista militar.

Domínio no Mar Negro

O navio de guerra era um "símbolo do poder naval russo no Mar Negro", disse Michael Petersen, do Instituto de Estudos Marítimos da Rússia, à BBC.

"O Moskva tem sido uma pedra no sapato dos ucranianos desde o início deste conflito. Vê-lo tão danificado... acho que será um verdadeiro impulso de moral para os ucranianos."

Os militares russos têm sido dominantes no Mar Negro desde a anexação da Crimeia em 2014 e usaram sua presença lá para lançar e fornecer apoio à invasão.

A frota do Mar Negro colaborou com a guerra por sua capacidade de lançar mísseis de cruzeiro em qualquer lugar da Ucrânia. Foi ainda importante no apoio às tentativas russas de capturar Mariupol.

Ilha da Cobra

Nos primeiros dias da invasão da Rússia, o Moskva protagonizou um dos momentos marcantes da guerra. O navio foi usado em um ataque à Ilha da Cobra, na fronteira romena, no qual 19 marinheiros ucranianos foram interceptados.

A tropa da Ucrânia inicialmente se recusou a se render e ficou desaparecida por um período, levando a acreditar que os soldados estavam mortos. Mais tarde descobriu-se que eles haviam sido capturados.

Os soldados foram libertados mais tarde como parte de um acordo e em troca de prisioneiros russos. O comandante da tropa ucraniana foi homenageado com uma medalha pelas Forças Armadas de seu país.

Os relatos de sua bravura serviram como um impulso para o moral da Ucrânia e a companhia responsável pelos serviços postais no país chegou a criar um selo especial como uma ilustração da Ilha da Cobra.

BBC Brasil

EUA não podem ignorar ameaça russa sobre uso de arma nuclear, diz chefe da CIA




Por Jonathan Landay e Michael Martina

WASHINGTON - A ameaça de a Rússia potencialmente usar armas nucleares táticas ou de baixo rendimento na Ucrânia não pode ser encarada sem seriedade, mas a CIA não viu muitas evidências práticas reforçando essa preocupação, disse o diretor da agência de inteligência, William Burns, nesta quinta-feira.

Os comentários públicos mais extensos de Burns desde que a Rússia invadiu a Ucrânia em 24 de fevereiro enfatizaram as preocupações de que o maior ataque contra um Estado europeu desde 1945 corre o risco de escalar para o uso de armas nucleares.

Mais cedo nesta quinta-feira, Dmitry Medvedev, vice-presidente do Conselho de Segurança da Rússia e aliado próximo do presidente russo, Vladimir Putin, alertou a Otan que Moscou implantaria armas nucleares e mísseis hipersônicos em Kaliningrado, um enclave russo no coração da Europa, se a Suécia e a Finlândia aderirem à aliança atlântica.

Burns falou na Georgia Tech sobre o "potencial desespero" e os contratempos enfrentados por Putin, cujas forças sofreram pesadas perdas e foram forçadas a recuar de algumas partes do norte da Ucrânia depois de não conseguirem capturar Kiev.

Por essas razões, "nenhum de nós pode ignorar a ameaça representada por um potencial recurso a armas nucleares táticas ou armas nucleares de baixo rendimento", disse Burns.

Dito isso, apesar da “postura retórica” do Kremlin sobre colocar o maior arsenal nuclear do mundo em alerta máximo, “não vimos muitas evidências práticas do tipo de desdobramentos ou disposições militares que reforçariam essa preocupação”.

Armas nucleares táticas e de baixo rendimento referem-se àquelas projetadas para uso no campo de batalha, das quais alguns especialistas estimam que a Rússia tenha cerca de 2.000 que podem ser usadas por forças aéreas, navais e terrestres.

Reuters / SWI

Cientistas, cracudos e hipsters em busca do soma.




Por aqui, tínhamos a maconha há bastante tempo, trazida de Angola provavelmente no século XVII pelos negros que faziam uso ritualístico dela, e a coca, que só nasce em três países do mundo: Bolívia, Peru e Colômbia. 

Por Bruna Frascolla (foto)

Evangélicos e antropólogos maconheiros vivem às turras no que concerne às drogas. Dizem os antropólogos maconheiros que as drogas são parte integrante de culturas tradicionais; os evangélicos dizem que as drogas são a perdição de um sem número de famílias. Ambos têm razão. Assim, competiria aos cientistas sociais competentes abandonar o proselitismo em defesa de suas substâncias prediletas e se perguntar por que drogas têm um papel importante em sociedades tradicionais e um papel antissocial na nossa.

O cidadão comum, pouco interessado em investigações científicas, fica mais preocupado com a moralidade da questão. Assim, outra coisa que os antropólogos maconheiros costumam dizer, cheios de razão, é que o álcool é uma droga de grande potencial destrutivo para as famílias e nem por isso se fala em proibi-la. Se o marido espanca a mulher depois de beber, errado é o marido, não o álcool ou os que bebem socialmente. É claro que há uma dimensão moral nos crimes cometidos sob o efeito de droga. Dizer que a culpa é “da droga” é um jeito de as famílias dizerem que seus filhos não têm nem um tiquinho de responsabilidade sobre os próprios atos, e que quando houver um policial em cada esquina de olho nos filhos, os lares serão felizes. Pais e filhos são absolvidos; a culpa é da droga ou do Estado.

Proibição de drogas ritualísticas no mundo moderno

O próprio álcool é uma bebida ritualística de uma religião tradicional, que acontece de ser a religião formadora do Ocidente. A Lei Seca constituiu uma ameaça à liberdade de culto dos católicos, já que é preciso haver vinho para haver comunhão. A Lei Seca saiu, como de costume, do progressismo. O primeiro presidente progressista dos EUA, Woodrow Wilson, assinou-a em 1920. Considerando-se que a pressão partiu primeiro de protestantes pietistas (partindo justamente da degradação familiar), e que os imigrantes considerados white trash usualmente vinham de países católicos (Irlanda e Itália), é possível que tenha sido mesmo uma medida anticatólica e eugenista ao mesmo tempo. Outra comunidade afetada era a alemã. A maioria dos alemães se divide em católicos e luteranos, que também fazem uso litúrgico do vinho. Durante d I Guerra Mundial, os EUA promoveram uma forte propaganda antigermânica, focada inclusive nos imigrantes, tidos como agentes do Kaiser (veja-se o livro de Jonah Goldberg a respeito da tirania progressista).

De todo modo, depois de cerca de dois anos com a liberdade de culto ameaçada, a Igreja conseguiu permissão para fazer o vinho litúrgico, e assim tornou-se visada pela criminalidade e pela corrupção.

Durante a era da proibição, os EUA fizeram pressão para a proibição de várias drogas mundo afora. No Brasil, nunca emplacou a proibição do álcool. Por aqui, tínhamos a maconha há bastante tempo, trazida de Angola provavelmente no século XVII pelos negros que faziam uso ritualístico dela, e a coca, que só nasce em três países do mundo: Bolívia, Peru e Colômbia. Para chegar até nós, precisou dar um balão na Europa.

A coca dos incas e a de Freud

Segundo nos conta do Dr. Freud no seu "Über Coca" (1884), os incas acreditavam que a coca fora dada aos homens pelo filho do Sol. De posse do presente divino, os mortais deixariam de sentir fome e se sentiriam fortes. A fonte de Freud é o historiador Garcilaso de la Vega, mestiço descendente da aristocracia inca. Ele relata ainda que a coca era de elite antigamente, mas, quando os espanhóis chegaram, a droga já estava ao alcance de todos. Os espanhóis quiseram proibi-la por causa do seu papel em ritos pagãos. Mudaram de ideia ao ver que os cativos trabalhavam mais sob o efeito da planta. O uso litúrgico fazia com que os incas pudessem jejuar por longos períodos, e teria ademais serventia profana ao salvar a vida dos usuários numa grande carestia ocorrida no fim do século XVIII. Freud nota que Garcilaso defendia a coca. O que poderia dar errado se seu uso fosse disseminado na Europa, não é mesmo? “É verdade que Poeppig pintou uma imagem terrível da decadência física e intelectual que é supostamente a consequência inevitável do uso habitual da coca. Mas todos os outros observadores afirmam que o uso moderado da coca é mais propenso a promover a saúde do que prejudicá-la, e que os coqueros vivem até idade avançada”, pondera Freud. Ele próprio, porém, viria a se tornar um cocainômano e batalhar contra o vício.

É possível que um pesquisador sincero, de uma cultura não familiarizada com o álcool, fizesse uma pesquisa com velhinhos do Mediterrâneo que têm o hábito de tomar vinho e fazem uso ritual do mesmo e extrapolasse as conclusões, de modo a virar alcoólatra. O que aconteceu com Freud?

No famoso ensaio "Über Coca", Freud defende apenas os efeitos terapêuticos de ordem física da planta, e promete outro artigo, em que fala dos principais efeitos terapêuticos: os sobre a alma. Para Freud, a cocaína era um estimulante que deixava algumas pessoas felizes e falantes sem causar depressão. No artigo de 1825, sobre os efeitos gerais, ele defende que cocaína seja usada em pacientes psiquiátricos para tratar depressão, melancolia, hipocondria, histeria, entre outros. Freud visava resolver justamente o problema do vício, pois os psiquiatras tinham o costume de prescrever morfina e os pacientes ficavam viciados. Além disso, o remédio mostrava-se eficaz para curar o alcoolismo. Então a cocaína entrou para valer na sociedade europeia moderna com a psiquiatria. E como o próprio Freud ficava falante e ligado, usou ele próprio a droga para sonhar e escrever. Acabou se viciando.

Uso instrumental e uso irrefletido

Os velhinhos do Mediterrâneo que tomam vinho não tomam vinho por causa das descobertas em papers. Tomam porque gostam, gostam porque aprenderam com os pais, e sabem que pode causar vício, pois têm beberrões à vista. Têm vidas equilibradas e é possível que o vinho lhes tenha feito bem à saúde. Mas é mais razoável atribuir sua longevidade a um conjunto de fatores (que vai desde a famosa dieta a aspectos psicossociais) do que ao vinho. Agora imaginemos que o cientista interessado estritamente nos benefícios condensasse o álcool num destilado e o tomasse como se fosse um remédio para alcançar um dado bem.

De fato, olhando para a experiência comum, vemos que bons bebedores podem até beber rotineiramente, mas fazem isto sem ter em vista o alcance de um dado objetivo. Bebem por questão de paladar, ou para estreitar os laços com os amigos. Ninguém bebe para alcançar um estado de consciência superior, nem para se tornar um trabalhador mais eficaz, nem para alcançar a longevidade. Se o fizesse, seria de esperar que o álcool pudesse ser substituído por gotas ou comprimidos. Por outro lado, conhecemos bem o tipo que bebe para alcançar a débil leveza de espírito causada pelo álcool: o alcoólatra. Para ficar sossegado, tem que estar bêbado.

Não é nenhuma extravagância dizermos que o uso instrumental e consciente de uma droga para conseguir um determinado efeito que o usuário julga necessário à vida é o diferencial entre uma droga viciante e uma droga banal. Isto vale tanto para o caminhoneiro que usa derivado de coca para dirigir sem dormir por muitas horas, quanto para a modelo que precisa emagrecer ou o deprimido que precisa sentir algum conforto espiritual.

E, bom, se eu disser que remédios psiquiátricos usados para tratar depressão e ansiedade causam dependência, também não será nenhuma extravagância da minha parte. Tampouco será uma extravagância da minha parte dizer que profissionais de saúde saem receitando remédio antes de pensar em “soluções não-farmacológicas” – ou seja, toda solução que exclua o uso de remédios, como se a depressão e ansiedade só tivessem causas físicas (já contei aqui que eu poderia viver chapada se entrasse em muito consultório – e muita gente entra em consultório querendo diagnóstico chique e drogas). Trocando em miúdos, se um doente mental resolver que tal droga é a solução dos seus problemas, ela vai virar o maior dos seus problemas.

A ayahuasca

Uma plantinha que passou bastante tempo despercebida tanto pelo furor proibicionista quanto pelos doentes mentais foi a ayahuasca. É plantinha de índio lá no meio da Amazônia, dá barato e não serve para botar todo mundo para trabalhar, nem para tirar fome. Atraiu, portanto, menos atenção de país rico.

Escudando-se no uso ritualístico, gente urbana criou igrejas com o fito de consumir a droga (aí bem se vê que não pode dar certo, já que drogas ritualísticas tradicionais nunca são a finalidade do ritual. A missa não é um pretexto para beber vinho, e amigos reunidos tomando vinho não são uma igreja). A planta acabou nacionalmente conhecida quando um adepto de uma dessas igreja, chapado de ayahuasca, matou o cartunista Glauco. Será que o doido homicida era o único viciado na droga? Será, será?? Isso foi em 2010.

Em 1993, porém, o cronista-filósofo Olavo de Carvalho registrava, n’O imbecil coletivo, que um intelectual influente anunciava a boa nova de que o Santo Daime (outro nome da ayahuasca) era uma doutrina importante para a humanidade. Cito-o: “Um Sr. Armando Daudt de Oliveira, cientista político detentor de uma razoável quantidade de diplomas, inclusive alguns de prestigiosas universidades estrangeiras, compareceu algum tempo atrás na página editorial do Jornal do Brasil para dar-nos ciência de uma ‘importante contribuição para a humanidade do século XXI’: o Santo Daime. Trata-se de um invento, ou descoberta, capaz de levar os sucessores da presente geração ‘ao conhecimento das causas mais profundas de todas as coisas’, o que, convenhamos, não é pouca porcaria em matéria de inteligência”. O texto de Olavo, intitulado “Ideias vegetais”, é todo tirando sarro do fato de que o Santo Daime é ao mesmo tempo chá e doutrina, sendo que nenhum resumo dela é apresentado.

Este mês a Folha nos deu mais uma notícia da ayahuasca. Uma comunidade de urbanoides recém-ripongas resolveu largar suas carreiras e levar uma vida humilde à base de ayahuasca no litoral da Bahia. Parece uma ótima ideia… Se você for formado em comunicação. Ou em antropologia ou em psicologia, dois cursos que são para-raios de maluco. Leiamos as linhas tecladas pelo colunista da Folha: “Mais de um terço desses sofredores [i. e., que têm depressão] não encontra lenitivo nos antidepressivos convencionais, os inibidores seletivos de recaptação de serotonina, como escitalopram. Para alguns, pelo menos, uma molécula como a dimetiltriptamina (DMT) — secretada no próprio cérebro e presente na ayahuasca — pode abrir caminho para novas conexões cerebrais e outras maneiras de encarar seus problemas, em particular se a droga for consumida em um contexto acolhedor. Essa era a proposta de Purna [a autoridade místico-científica] para a vivência do último dia do Equinox, domingo (20). Vestido de branco, com um sinal pintado na testa, ele monta na Oca da Casa del Mar um altar em que se reúnem cristais, frascos com água de cheiro, cartas de tarô, pedras, plumas, incenso e sinos orientais”.

Quod erat demonstrandum.

Gazeta do Povo (PR)

Moscou pede apoio do Brasil no FMI, Banco Mundial e G20

 




Ministro da Fazenda russo enviou carta a Paulo Guedes pedindo ajuda contra bloqueio e expulsão de organizações internacionais, segundo agência. Quase metade das reservas internacionais russas estão congeladas.

A Rússia pediu apoio ao Brasil no Fundo Monetário Internacional, no Banco Mundial e no G20, grupo das principais economias do mundo, para ajudá-la a combater as sanções impostas pelo Ocidente desde que Moscou invadiu a Ucrânia, de acordo com uma carta à qual a agência de notícias Reuters teve acesso.

O Ministro da Fazenda russo, Anton Siluanov, escreveu ao ministro da Economia brasileiro, Paulo Guedes, pedindo apoio do Brasil "para evitar acusações políticas e tentativas de discriminação em instituições financeiras internacionais e fóruns multilaterais".

"Nos bastidores, há trabalhos em andamento no FMI e no Banco Mundial para limitar ou até mesmo expulsar a Rússia do processo decisório", escreveu Siluanov.

A carta, que não faz menção à guerra na Ucrânia, foi assinada em 30 de março e transmitida ao ministro brasileiro pelo embaixador da Rússia em Brasília na quarta-feira (13/04).

"Como sabe, a Rússia está passando por um período desafiador de turbulência econômica e financeira, causada por sanções impostas pelos Estados Unidos e seus aliados", escreveu o ministro russo.

EUA querem Rússia fora do G20

A secretária do Tesouro dos Estados Unidos, Janet Yellen, disse na semana passada que os Estados Unidos não participariam de nenhuma reunião do G20 se a Rússia estivesse presente, citando a invasão à Ucrânia.

Quase metade das reservas internacionais da Rússia foi congelada e as transações de comércio exterior estão sendo bloqueadas, incluindo aquelas com seus parceiros de economias emergentes, disse Siluanov.

"Os Estados Unidos e seus satélites estão seguindo uma política de isolamento da Rússia da comunidade internacional", acrescentou. Siluanov disse que as sanções violam os princípios dos acordos de Bretton Woods que criaram o FMI e o Banco Mundial.

"Consideramos que a atual crise causada pelas sanções econômicas sem precedentes impulsionadas pelos países do G7 pode ter consequências duradouras, a menos que tomemos medidas conjuntas para resolvê-la", ele escreveu.

Posição dúbia do Brasil

O presidente Jair Bolsonaro reuniu-se com o presidente russo, Vladimir Putin, no Kremlin, em 16 de fevereiro, cerca de uma semana dias antes da invasão e expressou "solidariedade" à Rússia.

Nas semanas seguintes, Bolsonaro defendeu que o Brasil deveria manter-se neutro na crise e não condenou a operação militar russa.

Na prática, o Brasil adotou uma posição dúbia. Brasília votou contra a invasão russa no Conselho de Segurança e na Assembleia Geral da ONU, mas se absteve na votação de uma resolução que suspendeu a Rússia do Conselho de Direitos Humanos da ONU.

O Ministro das Relações Exteriores brasileiro, Carlos Franca, disse que o Brasil se opõe à expulsão da Rússia do G20, solicitada pelos Estados Unidos.

"O mais importante neste momento é ter todos os fóruns internacionais, o G20, OMC [Organização Mundial do Comércio], FAO [Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura], funcionando plenamente, e para isso todos os países precisam estar presentes, inclusive a Rússia", afirmou Franca em uma audiência do Senado em 25 de março.

Deutsche Welle

As vacinas que Bolsonaro resolveu tomar




Presidente tem uma vasta ficha corrida de denúncias e inoperâncias contra as quais busca vacinas para recuperar eleitores

Por Maria Cristina Fernandes

“Nada com Deus é tudo e tudo sem Deus é nada.” O apelo é de pastor evangélico, mas a voz é do locutor de rodeios Andraus Araújo de Lima, mais conhecido como Cuiabano Lima, que, no dia 27 de março, foi o mestre de cerimônias do pré-lançamento da candidatura do presidente Jair Bolsonaro à reeleição.

Ao longo dos cinco primeiros minutos de sua fala, um jovem alto e bronzeado permanece ao seu lado com uma camiseta amarela: “imbrochável&, incomível&, imorrível&, incorruptível&”. Cuiabano pede aplausos, mas ninguém larga o celular estendido acima de suas cabeças e o silêncio continua a imperar na plateia.

O locutor tira o chapéu, ajeita a enorme fivela do cinto e capta o humor da plateia. Pede que levantem as mãos e é prontamente atendido. “Somente quem tem fé em Jesus levanta a mão”, diz para as pessoas que permaneciam segurando o celular acima de suas cabeças.

Bolsonaro, que minutos antes havia atravessado o salão do Centro de Convenções de Brasília sob a saudação apoteótica de “capitão do povo”, seria um dos derradeiros a falar na cerimônia que durou 1h45 driblando a lei eleitoral sob o disfarce de ato de filiação ao PL - “É com ele que vou”.

Estavam presentes pelo menos quatro ministros - Ciro Nogueira (Casa Civil), Tereza Cristina (Agricultura), Tarcísio Freitas (Infraestrutura) e Heleno Ribeiro (Gabinete de Segurança Institucional), além do deputado Marco Feliciano (Republicanos-SP) - que não pertenciam nem se filiariam ao partido de Valdemar da Costa Neto.

Quando o presidente começou a falar, já estava claro que no discurso, nas ênfases, no formato e nos personagens que o cercam tudo ali era diferente da campanha que o elegeu em 2018. O antipetismo sobrevive, mas Bolsonaro, que acumula índices de rejeição em torno dos 60% nas pesquisas eleitorais, está mais focado em se vacinar do que em alfinetar seu principal adversário.

Se o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva arrancou do Judiciário a anulação de todas as condenações pela lista de malfeitos fartamente explorada pelo bolsonarismo em 2018, o presidente moldou seu discurso para higienizar a vasta ficha corrida de denúncias que acumulou e recuperar os eleitores que perdeu.

Foi o locutor dos rodeios de Barretos (SP) quem deu a primeira picada. “Temos que conversar com nossos filhos. Estão tentando confundir a cabeça dos jovens. Da mesma forma que Pôncio Pilatos soltou Barrabás, soltaram aquele homem de nove dedos”, disse, dirigindo-se à plateia majoritariamente de meia-idade.

Os jovens de 16 a 24 anos são os eleitores mais desencantados com o bolsonarismo. Às vésperas do segundo turno de 2018, Bolsonaro, de acordo com o Datafolha, estava empatado com o ex-prefeito Fernando Haddad com 44% das preferências nessa faixa etária. Na última edição dessa pesquisa, no fim de março deste ano, Lula marcava mais que o dobro das preferências de seu adversário (51% x 22%). Os jovens também são aqueles que menos confiam no que o atual presidente diz. Apenas 6% “sempre” o fazem.

O derretimento de Bolsonaro entre os jovens mostra como foi efêmera a contribuição de Olavo de Carvalho para suas bases ideológicas. O ideólogo da guerra cultural bolsonarista em 2018 dizia que a Presidência não bastava. Era preciso tomar o Judiciário, universidades, igrejas e partidos.

Foi com esse enfrentamento da “hegemonia cultural da esquerda” que Carvalho catequizou formadores de opinião da juventude. A ponto de o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-RJ) ciceronear seu guru, ao longo da campanha de 2018, como o homem sem o qual seu pai não existiria.

Os dois meses que se passaram desde a morte de Olavo de Carvalho foram suficientes para mostrar que a frase do filho do presidente, se algum dia foi levada em conta, já não tem mais valia. Bolsonaro sobrevive, mais dependente do eleitorado evangélico do que da juventude que o guru do seu movimento quis catequizar.

Naquele fim de semana, um ministro do TSE que já havia recusado ação do PL por propaganda eleitoral antecipada contra outdoors bolsonaristas resolveu multar a direção do festival de música Lollapalooza, onde a cantora Pabllo Vittar desfilou com uma toalha estampada com a foto de Lula e puxou a fila de manifestações de artistas em defesa do ex-presidente. Depois da péssima repercussão da multa nas redes sociais, Bolsonaro agiu como se a ação tivesse sido feita à sua revelia, o PL a retirou e o juiz anulou a decisão.

A reprovação à censura já tinha mostrado que a ação tinha sido um tiro no pé quando Bolsonaro subiu ao palco do evento do PL e deu ares de reflexão ao apelo para que os mais velhos patrulhassem o voto de seus filhos: “Não podemos esquecer nosso passado, porque aquele que esquece seu passado está condenado a não ter futuro. Os mais jovens podem não conhecê-lo. Seus pais e avós têm obrigação de mostrar pra eles para onde o Brasil estava indo, e também como vivem os jovens em outros países como, por exemplo, na Venezuela”.

O presidente diz não ter se vacinado contra a covid-19, mas agora precisa, mais do que nunca, se imunizar contra os fatos que se consolidaram contra seu governo. “A história é uma só”, disse, ao fim da reconstrução do seu percurso. O marco zero da narrativa bolsonarista é a formatura da Academia Militar das Agulhas Negras, em novembro de 2014. Passa pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (“Não podia deixar que um amigo, que lutou pela democracia, que teve sua reputação quase destruída, não fosse citado”) e pela facada em Juiz de Fora (MG) até chegar à eleição.

Seu governo é o que menos interessa ali. Lamenta as mortes, mas alveja a ação daqueles que tentaram evitá-las. E elege como legado da doença que, ao final deste governo, terá levado 700 mil brasileiros, o rechaço ao confinamento.

O espetáculo protagonizado pelo vaivém de João Doria, o governante que mais riscos assumiu para a vacinação dos brasileiros, não deixa de ser uma demonstração de que, na sua guerra contra os fatos, Bolsonaro foi vitorioso em algumas batalhas. Noves fora os erros que cometeu, a marginalização do pai da Coronavac na disputa e a resistência do exterminador do futuro nacional é um termômetro pouco alentador da democracia brasileira.

Outra vacina que exibiu no evento foi a da corrupção. E o fez aposentando um baluarte de 2018, o anticomunismo. Não há uma única menção em seu discurso. Aliança com o Centrão, quatro ministros demitidos por corrupção e quase 150 pedidos de impeachment depois, Bolsonaro achou por bem reciclar a ênfase do anticomunismo - “Nosso inimigo não é externo, é interno. Não é uma luta da esquerda contra a direita. É do bem contra o mal”.

Contra o movimento social que agita, Bolsonaro resolveu apresentar o governo que organiza. Convocou Tereza Cristina e colocou o braço curvado em 90 graus sobre os ombros da ex-ministra da Agricultura para ouvi-la contar sobre o assentado em Sergipe que lhe havia mandado um recado: “Diga ao presidente que ele nos tirou da prisão”. Tereza Cristina e Michelle Bolsonaro preenchem a cota feminina do palanque cuja transmissão repousava frequentemente nas mulheres da plateia. Convocada, a primeira-dama, de longo, pronunciou quatro “améns” em menos de um minuto.

Não venham lhe apresentar a fatura das políticas públicas sequeladas. Ele as contraditará com o fim da tutela do Estado. É esta a vacina anti-inépcia. Seu governo desempregou, mas ele reinventou o empreendedorismo, com o Pix. As universidades continuam destroçadas, mas foi lançada uma boia aos inadimplentes do Fies. Até o Auxílio Brasil de R$ 400 é embalado no discurso antitutela para que não pareça um banho de loja no petismo.

Coube ao general Heleno Ribeiro, outro dos ministros convocados ao palco, exibir o discurso com o qual o bolsonarismo se vacinará contra a divisão da “família militar” em relação ao legado do “capitão do povo”. Se, em 2018, os militares viram na ascensão de Bolsonaro um meio de vingar os relatórios produzidos pela Comissão da Verdade no governo Dilma, sua reeleição será uma oportunidade de “responder às ofensas” de que foram alvo ao longo dos últimos três anos e três meses - “Já fomos jogados pela janela várias vezes, ofendidos. Estou quieto, vamos aguardar o fim deste filme que, graças a Deus, será glorioso”.

O estoque de vacinas ainda se completaria com o locutor, que engatilhou duas picadas seguidas - “Depois que Jair Messias assumiu a Presidência, voltamos a ter o respeito de todos os países do mundo” e “quem comprou e pagou as vacinas foi o governo federal” - antes de chamar um pai-nosso e o hino nacional. A câmera parou nas mulheres, que, com a mão direita sobre o peito, cantavam o hino de olhos fechados como se rezassem.

Anunciou-se, então, a apoteose do evento, quando Bolsonaro e Michelle ficaram a sós e de mãos dadas no palco para, sob as luzes apagadas, assistirem a um filmete de três minutos sobre a vida e a obra de Jair Messias - de Eldorado ao Planalto. “O povo te ama, capitão”, encerrou o locutor.

Bem, deveria ter sido encerramento, mas Flavio Bolsonaro e a mulher ainda subiriam ao palco para outra picada. O senador, que ainda tem quatro anos de mandato, disse que foi convencido a falar como filho. Responsável, junto com seus irmãos, por uma das vidraças da campanha, ele descreve uma idílica relação entre pai e filho. O senador das rachadinhas, que mora na mansão de R$ 6 milhoes, chama o pai de “professor de sua vida”. Certamente porque acredita que, assim, também fará uma higiene na sua própria imagem.

“Por trás dessa fortaleza há uma pessoa que às vezes tem dificuldade de mostrar o homem amoroso que é, sensível e com o coração do tamanho do mundo (...) Quando ele vem defender o instituto família, não está defendendo um filho, um parente, até porque não fizemos nada de errado. Ao defender a família, ele está colocando Deus em primeiro lugar”.

A câmera foca em olhos marejados na plateia e Cuiabano Lima chama os presentes para cantar os parabéns para Jair Messias e Michelle, que haviam aniversariado dias atrás, quando um bolo, confeitado com uma farda militar verde chega ao palco.

Valor Econômico

A feroz resistência ucraniana no enclave de Popasna sob bombardeio

 




As forças ucranianas que lutam para defender a cidade de Popasna não sabem das últimas notícias, pois não há nem internet, nem telefones

Três soldados com os rostos marcados pela tensão saem de um prédio parcialmente destruído: em Popasna, o exército ucraniano resiste, apesar dos bombardeios russos incessantes contra esta cidade do leste da Ucrânia.

Os tiros da artilharia ressoam. Seu eco pode ser ouvido nas torres de apartamentos em um bairro do oeste desta cidade, que tinha cerca de 20.000 habitantes antes da guerra.

Na entrada da cidade, a paisagem é desoladora.

Não resta nada do posto de gasolina, exceto por seu telhado queimado e retorcido. Os prédios estão semidestruídos. Nenhum está intacto. Vidros, pedaços de madeira, portas e ferro retorcido, como se tivesse passado um tornado.

Só o barulho das poderosas explosões interrompe e da chuva, que cai continuamente.

Poucas pessoas ainda vivem ali, escondidas nos porões, como os três militares que a AFP encontrou.

"Os rapazes acabam de voltar do combate e estão descansando", diz 'Semenovytch', na casa dos 50 anos, que se faz chamar por um pseudônimo.

Um usa calça militar e moletom azul. O rosto está abatido, com olheiras.

Outro, na faixa dos 60, também com uniforme militar aberto, longa barba grisalha, parece esgotado. Ele desaparece no fundo escuro do porão para voltar a se deitar.

Vestindo uniforme militar e camuflado, gorro azul na cabeça e uma pequena lâmpada frontal, "Semenovytch" diz desconhecer as "últimas notícias, aqui não tem internet, nem telefone".

- "Resistiremos" -

"Os russos tentam avançar duas ou três vezes por dia. É bom que chova hoje, o bombardeio é menos intenso. Às vezes é 24 horas por dia, sete dias por semana, às vezes acalma um pouco à noite", diz.

Eles atacam "as infraestruturas, os edifícios e os civis. Não é uma guerra, é um genocídio. Não sei como chamá-lo de outra forma", destaca.

O soldado garante: "Mantemos nossas posições e esperamos a vitória. Resistiremos".

No mesmo imóvel, na parte dos fundos de um supermercado totalmente destruído, quatro coletes à prova de balas, dois capacetes e um lança-foguetes RPG7 estão no chão.

Na terça, o ministério russo da Defesa anunciou que "unidades da artilharia" atacaram uma unidade ucraniana em Popasna, dando um balanço de "mais de 120 membros do pessoal" mortos e "onze veículos blindados" destruídos. Os números são impossíveis de verificar.

Na agenda: doação de órgãos, Lei "Netflix" e a participação suíça no financiamento da Agência Europeia da Guarda de Fronteiras e Costeira (Frontex).

Popasna é um enclave estratégico a menos de 4 km do limite do Donbass, parte do qual é controlada desde 2014 por separatistas pró-russos.

Se cair, será uma brecha aberta para os russos avançarem 50 km a noroeste até as cidades gêmeas de Sloviansk e Kramatorsk, capital de fato do Donbass controlado por Kiev.

Outros 50 km ao norte destas duas cidades, os russos tomaram Izium e estão às portas de Severodonetsk, cidades também fortemente bombardeadas.

"Vi com meus próprios olhos em Izium. Os russos usam a tática da terra arrasada. Não entendo porque atingiram tão duramente esta cidade", explica à AFP um militar ucraniano, que se faz chamar de "Benya".

"Quando nos aproximamos, eles (os russos) não entravam em combate conosco, se escondiam atrás da artilharia", diz.

Estes bombardeios causam "medo real" em Olena Charpaï, que completa 60 anos no fim do mês. Ela gostaria de aproveitar a aposentadoria como enfermeira, mas desde 6 de março mora com quatro outras pessoas em um porão de 15 m2.

"Preciso que haja silêncio para sair, mas nunca tem silêncio", diz, acariciando seu gato cinzento de 14 anos.

Ela não vai mais ao seu apartamento. No porão, dispõe de quatro sofás-cama, lâmpadas ligadas a baterias de carro e ainda alguma coisa para comer. "Às vezes os soldados trazem pão", afirma a mulher. Para ter água, coletam a da chuva.

Ela gostaria de ser retirada dali, mas "os ônibus não passam mais", lamenta a mulher, enquanto do lado de fora salvas de artilharia continuam destruindo a cidade.

AFP / SWI

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