quarta-feira, dezembro 08, 2021

Vacinação contra covid: 3 argumentos contra e 3 a favor da obrigatoriedade




A adoção da obrigatoriedade para vacina contra covid seria uma medida polêmica

Por Thom Poole

Quase dois anos depois que médicos chineses observaram pela primeira vez misteriosos novos casos de pneumonia, a covid-19 continua entre nós. Além disso, surgiu aquilo que foi descrito como a mais preocupante variante do coronavírus que causa da doença. Diante desse quadro, será que a obrigação para que todos tomem a vacina contra a covid é uma solução para acabar com a pandemia?

A vacina contra a covid já é uma exigência para participação na vida pública em várias partes do mundo. Se você for um médico francês, um professor neozelandês ou um funcionário do governo do Canadá, tomar a vacina é exigência para que você possa ir ao trabalho. A Indonésia pode negar benefícios sociais àqueles que se recusam a se vacinar. A Grécia está tornando a vacina obrigatória para todos a partir dos 60 anos de idade.

A Áustria pode ir ainda mais além, com um plano para tornar a vacina contra covid obrigatória para todos em fevereiro de 2022. Isso significará que austríacos receberão injeções de maneira forçada. Haverá exceções de cunho médico e religioso, mas a maior parte da população que permanece sem receber a vacina poderá ser multada por não aceitá-la.

Com a Alemanha planejando uma medida semelhante, esse debate não irá embora tão cedo. Eu conversei com especialistas de saúde pública e outras áreas para obter uma ideia do que está em jogo.

A FAVOR: a vacina salva vidas

Há um argumento bastante simples a favor da obrigação da vacina contra covid-19. Ao receber a vacina, você reduz seu risco de desenvolver a doença num nível grave. Menos casos graves de covid significam menos mortes e menos pressão sobre os hospitais.

Historicamente, campanhas de imunização tiveram enorme sucesso, eliminando doenças como varíola ou reduzindo drasticamente os níveis de mortalidade de outras.

"Temos exemplos realmente muito bons que mostram uma relação de causa e efeito entre exigências, obter altas taxas de vacinação e a proteção não apenas de indivíduos, mas também de comunidades", diz Jason Schwartz, professor-associado de história da medicina na Universidade Yale.

'A ampla vacinação contra covid na Europa foi responsável pela redução dos casos da doença'

"As vacinas funcionam, elas absolutamente funcionam, nós temos muitas evidências para mostrar isso."

Medidas mais leves que a proposta pela Áustria atingiram seu objetivo de elevar os níveis de vacinação. O chamado "passe sanitário" da França, exigido para ter acesso a restaurantes e outros espaços públicos, é apontado como responsável por ter aumentado a taxa de adoção da vacina, ao ponto de o governo francês esperar que possa evitar a adotação de vacinação compulsória.

CONTRA: Haverá resistência

Em Londres, em julho, manifestantes contra medidas de confinamento foram às ruas para protestar contra um "lockdown" que havia sido suspenso horas antes. A questão é: não importa o que o governo faça, haverá oposição. Restrições devido à covid, em particular, provocaram protestos mundo afora, e vacinação obrigatória é um passo além de, digamos, a exigência do uso de máscara.

"Quando se trata de vacina, as pessoas realmente pensam de forma bem diferente", diz Vageesh Jain, doutor em saúde pública no Instituto pela Saúde Global da Universidade College London. "Qualquer coisa que seja administrada neles, em seu corpo, não será pensada da mesma maneira, embora acadêmicos e outros possam pensar teoricamente que seja apenas uma restrição. As pessoas realmente têm esse tipo de resposta emocional."

"Enquanto sempre haverá alguns que nunca serão convencidos a se vacinar, é possível ser cético em relação a vacinas sem ser um completo "anti-vaxxer" - ou seja, radicalmente contra as vacinas.

Um estudo austríaco estabeleceu uma diferença entre os 14,5% da população do país, de 9 milhões de pessoas, que não estavam preparados para ser vacinados e os 9% que estavam simplesmente reticentes.

'Em países europeus, como o Reino Unido, muitos protestam contra medidas pró-vacinação'

Governos precisam considerar se os benefícios da vacinação superam o lado negativo de uma reação à medida. Mas, como Cathleen Powell, professora de direito da Universidade de Cape Town, na África do Sul, argumenta, existe um argumento legal a ser defendido.

"O direito à integridade do corpo como uma pessoa que não quer ser vacinada, que quer fazer suas próprias escolhas sobre qual tratamento médico receber, aparece diretamente contra os direitos de outras pessoas de não serem infectados por doenças potencialmente fatais", diz ela.

A FAVOR: Nós esgotamos nossas opções...

A covid já está no meio de nós faz um tempo, assim como as vacinas. Pelo menos na Europa, o momento em favor da vacinação obrigatória reflete uma frustração de que, depois de meses de vacinações e disponibilidade ampla, ainda continua a haver um número significativo de pessoas não vacinadas. Há uma diferença gritante entre as taxas de vacinação no continente, do oeste ao leste.

A chefe da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse que chegou o momento de considerar a vacinação obrigatória, embora ela tenha destacado que a decisão seria dos governos nacionais.

"Temos as vacinas, as vacinas que salvam vidas, mas elas não estão sendo usadas adequadamente em todos os lugares", afirmou.

CONTRA: ...ou talvez ainda não todas

Apesar de existir um forte argumento a favor da vacinação obrigatória, ela não é a única maneira de aumentar os níveis de adoção da vacina.

"O que se percebe bastante no passado é como políticos gostam da ideia da vacinação obrigatória, porque ela parece oferecer uma resposta rápida ao problema", afirma Samantha Vanderslott, pesquisadora de ciências sociais do Oxford Vaccine Group.

"Eu não gostaria que o governo negligenciasse outras coisas que precisam ser feitas para garantir que as pessoas realmente tenha acesso às vacinas."

A Áustria não tornará a vacinação obrigatória antes de fevereiro e continua usando outros meios de persuadir as pessoas. "Para aqueles que têm medo, que não têm confiança, para aqueles que avaliam que o risco para eles é baixo - para esses é importante que eles sejam ouvidos e que suas preocupações sejam consideradas seriamente", disse à rede de TV e rádio ORF, da Áustria, a psicóloga de saúde Barbara Juen, da Universidade de Innsbruck.

Na África do Sul, 24% da população foi vacinada, menos da metade da média europeia, mas consideravelmente mais alta que a média de 7% registrada no continente africano. Não há falta de vacinas, e a baixa adoção tem sido atribuída em parte à falta de informação.

O governo sul-africano considerou tornar as vacinas obrigatórias em algumas situações, mas o número de vacinas administradas aumentou rapidamente desde a descoberta da variante ômicron. Não são apenas os governos que podem acabar dando um empurrãozinho.

A FAVOR: Fim do ciclo de confinamentos

A vacinação compulsória não é o único tipo de imposição das autoridades. A maioria dos governo ao redor do mundo já impuseram alguma forma de restrição, de passes de covid e proibição de viagens, que trazem seus próprios custos. Além das vidas que salvaria, uma obrigação generalizada de vacinação poderia significar o fim dos confinamentos - os chamados "lockdowns".

'As vacinas contra a covid-19 mostraram-se até agora eficazes e seguras'

"Não é apenas uma questão de ter sua liberdade alterada… É uma questão de dano econômico, de dano à saúde mental, de dano físico", diz Alberto Giubilini, pesquisador do Centro Uehiro de Ética Prática de Oxford. Ele defende a obrigação para aqueles mais vulneráveis ao coronavírus.

"Não há por que impor os enormes custos dos lockdowns sobre as pessoas quando você tem uma outra medida disponível."

CONTRA: Poderia ser contraproducente

Algumas pessoas têm preocupações mais de longo prazo. Entre elas, se um programa de vacinação obrigatória, mesmo bem-sucedido, poderia gerar desconfiança em relação a futuras campanhas.

"Esquemas compulsórios durante uma crise são contraproducentes", disse à rede Aljazeera Dicky Budiman, epidemiologista que assessora a Organização Mundial da Saúde sobre recuperação da pandemia.

"Quando as pessoas têm o que chamamos de teorias da conspiração ou têm crenças equivocadas ou mal-entendidos, [esses esquemas de vacinação obrigatória] apenas reforçarão suas crenças."

Vanderslott aponta para o clima político atual. "Nós já testemunhamos, especialmente na Europa, partidos entrando na oposição à vacina sabendo que isso pode ser uma forma de obter votos de uma certa parcela da população", afirma ela.

"Nós poderíamos ver mais partidos - que tendem a ser de direita - divulgando esse tipo de mensagem em suas campanhas políticas e dizendo que eles querem remover as medidas de vacinação obrigatória. Isso é um perigo, e quando isso acontece, nós não temos mais a opção de usá-la como uma medida de política pública."

BBC Brasil

Refugiados rohingya pedem R$ 850 bilhões de indenização ao Facebook por discurso de ódio em Mianmar




Centenas de milhares de muçulmanos da etnia rohingya fugiram de Mianmar após uma campanha de violência contra eles

Dezenas de refugiados rohingya no Reino Unido e nos Estados Unidos processaram o Facebook, acusando o gigante da mídia social de permitir que o discurso de ódio contra eles se espalhe.

Eles estão exigindo mais de US$ 150 bilhões (R$ 850 bilhões) em compensação, alegando que as plataformas do Facebook promoveram violência contra a minoria perseguida.

Estima-se que 10 mil muçulmanos rohingya foram mortos durante uma repressão militar em Mianmar, de maioria budista, em 2017.

O Facebook — que foi rebatizado de Meta — não respondeu imediatamente às acusações.

A empresa é acusada de permitir "que continuasse durante anos a disseminação de desinformação odiosa e perigosa".

No Reino Unido, um escritório de advocacia britânico que representa alguns dos refugiados escreveu uma carta ao Facebook, vista pela BBC, que alega o seguinte:

    *Os algoritmos do Facebook "amplificaram o discurso de ódio contra o povo rohingya"

    *A empresa "falhou em investir" em moderadores e verificadores de fatos que sabiam sobre a situação política em Mianmar

    *A companhia não conseguiu retirar postagens ou excluir contas que incitaram a violência contra o povo rohingya

    *A empresa não conseguiu "tomar medidas adequadas e oportunas", apesar dos avisos de instituições de caridade e da mídia

Nos Estados Unidos, advogados entraram com uma reclamação legal contra o Facebook em San Francisco, acusando-o de "estar disposto a trocar as vidas do povo rohingya por uma melhor penetração no mercado em um pequeno país do Sudeste Asiático".

Eles citam postagens no Facebook que apareceram em uma investigação da agência de notícias Reuters, incluindo uma em 2013 que afirma: "Devemos combatê-los da mesma forma que Hitler fez com os judeus".

Outro post dizia: "Despeje combustível e ateie fogo para que eles possam encontrar Alá mais rápido."

O Facebook tem mais de 20 milhões de usuários em Mianmar. Para muitos, o site de mídia social é a principal ou única forma de obter e compartilhar notícias.

O Facebook admitiu em 2018 que não fez o suficiente para prevenir o incitamento à violência e discurso de ódio contra os rohingya.

Isso ocorreu após um relatório independente, encomendado pelo Facebook, que disse que a plataforma havia criado um "ambiente propício" para a proliferação de abusos de direitos humanos.

Análise de James Clayton, repórter de tecnologia na América do Norte

O que aconteceu em Mianmar é um dos primeiros sinais de alerta para o Facebook sobre os problemas da plataforma.

A rede social era muito popular lá — mas a empresa não entendia totalmente o que estava acontecendo em sua própria plataforma. Eles não estavam moderando ativamente o conteúdo em idiomas locais como birmanês e rakhine.

Se tivessem, teriam visto discurso de ódio anti-muçulmano e desinformação sobre conspirações terroristas de rohingya. Os críticos dizem que isso ajudou a alimentar tensões étnicas que se transformaram em violência brutal.

Mark Zuckerberg admitiu pessoalmente erros na escalada de violência generalizada lá.

Isso é o que torna este processo particularmente interessante: o Facebook não nega que poderia ter feito mais.

Se isso significa ou não que eles são legalmente culpados, é uma questão muito diferente. Esse processo poderia chegar a algum lugar? É possível, embora improvável.

Mas, à medida que sua controladora, Meta, tenta desviar o foco do Facebook, ela ainda se encontra assombrada por erros do passado.

Os rohingya são vistos como migrantes ilegais por Mianmar e são discriminados pelo governo e pelo público há décadas.

Em 2017, militares de Mianmar lançaram uma violenta repressão no Estado de Rakhine depois que militantes rohingya realizaram ataques mortais contra postos de polícia.

Milhares de pessoas morreram e mais de 700 mil rohingya fugiram para a vizinha Bangladesh. Também há alegações generalizadas de abusos dos direitos humanos, incluindo assassinato arbitrário, estupro e queima de terras.

Em 2018, a ONU acusou o Facebook de ser "lento e ineficaz" em sua resposta à disseminação do ódio online.

De acordo com a lei dos EUA, o Facebook é amplamente protegido de responsabilidade sobre o conteúdo postado por seus usuários. Mas o novo processo argumenta que a lei de Mianmar — que não tem tais proteções — deve prevalecer neste caso.

A BBC procurou a Meta para comentar o caso mas não obteve resposta.

BBC Brasil

Com base na CPI, grupo de juristas apresenta nesta quarta pedido de impeachment de Bolsonaro




Por Gerson Camarotti

Um grupo de juristas vai protocolar nesta quarta-feira (8) na Câmara dos Deputados um pedido de impeachment do presidente Jair Bolsonaro com base no relatório da CPI da Covid.

Entre os juristas, estarão Miguel Reale Junior e Sylvia Steiner, que ajudaram a CPI na tipificação dos crimes que constam do relatório final.

“Isso mostra que o resultado da longa investigação da CPI começa a ter consequências práticas”, disse ao Blog o senador Renan Calheiros (MDB-AL), relator da CPI da Covid.

CPI da Covid aprova relatório que pede indiciamento de Bolsonaro e mais 79

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Durante os trabalhos da comissão, o grupo de juristas coordenado pelo ex-ministro da Justiça Miguel Reale Junior indicou em parecer que Bolsonaro cometeu crime de responsabilidade na pandemia.

Crimes de responsabilidade, segundo a Constituição, podem resultar no impeachment do presidente da República.

"O Sr. Presidente da República, por atos normativos, atos de governo e conduta pessoal, conspirou, mormente ao longo de março e abril de 2020, contra as medidas sanitárias ditadas pela ciência, adotadas pelo Ministério da Saúde, até que, no final de março, o [então] Ministro Henrique Mandetta envia carta ao mandatário em que anuncia o colapso do sistema se não houvesse mudança de atitude", diz o parecer.

G1

“Vamos virar uma grande fazenda”: Brasil vive acelerada desindustrialização




Diego Machado Ferreira e Ligia Ribeiro Paiva, ambos ex-metalúrgicos, trabalham hoje como entregadores terceirizados de uma transportadora que presta serviços para o Mercado Livre.

A pandemia acelerou ainda mais esse processo, enquanto o Governo federal privilegia o setor agrícola para exportação de alimento, minério e energia. De 2013 a 2019, o país perdeu 28.700 indústrias e 1,4 milhão de postos de trabalho no setor

Por Regiane Oliveira

São Paulo - “Sou o terceirizado, do terceirizado, do terceirizado do Mercado Livre”. É assim que Diego Machado Ferreira, de 34 anos, explica sua situação trabalhista. Demitido da Ford em 2019, o ex-metalúrgico tem uma rotina semelhante à do personagem principal do filme Você não estava aqui, de Ken Loach. Sai às 6h da manhã para encarar a fila de entrega do galpão localizado no Parque São Lourenço, extremo Leste da capital paulista. Quanto mais pacote ele consegue despachar, mais ele recebe, o que significa comprometer o almoço e, com frequência, contar com uma ajudante para acelerar as entregas. A diferença entre ficção e realidade é que, ao contrário do personagem do filme, Ferreira não comprou a ideia de que ele é seu próprio patrão por ter aberto uma microempresa. “Não me sinto empreendedor.”

Ferreira faz hoje parte do grupo de trabalhadores jovens, altamente escolarizados e frustrados com as expectativas de emprego e melhoria de condições de vida, que o sociólogo Giovanni Alves chama de precariado. Essa classe social foi forjada pela promessa de ascensão social por meio da educação e do emprego. Porém, o futuro que se projetava para o país durante dos governos petistas ―com uma política industrial voltada para fortalecer e modernizar empresas nacionais― , não se concretizou. “Está em curso no Brasil um processo de desconstrução do sistema de segurança e saúde do trabalho que visa atender à demanda de um novo projeto econômico em desenvolvimento”, explica o cientista social Fausto Augusto Júnior, diretor técnico do Dieese.

O acirramento do processo de desindustrialização no país é um sintoma dessa mudança. Em setembro, a norte-americana Ford fechou a fábrica da Troller em Horizonte, região metropolitana de Fortaleza (CE), deixando 446 trabalhadores desempregados. Essa medida finalizou a saída da empresa do Brasil, anunciada no começo do ano. Com a transferência de sua produção para a Argentina, foram fechados também suas unidades em Camaçari (BA) e Taubaté (SP) com a demissão de 5.000 pessoas. E a Ford não foi a única. Nos últimos dois anos, as montadoras alemãs Mercedes Benz e Audi, as farmacêuticas Roche (Suíça) e Eli Lily (EUA) e a empresa de eletroeletrônicos japonesa Sony também anunciaram sua saída do Brasil.

“A visão de futuro do Governo Bolsonaro é a de um país produtor de comida, minério e energia”, afirma Augusto, por isso o abandono de tudo relacionado com políticas industriais, inclusive os cortes de investimentos em ciência e tecnologia. “Temos ouvido ministros falarem que o Brasil será a grande fazenda do mundo, pois será também a grande mina. Não espere nenhuma indústria de carro elétrico chegando por aqui”, lamenta.

Dados do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) mostram que o setor manufatureiro atingiu mínimas históricas na pandemia. A indústria de transformação (que enolve tecnologia para transformar matéria prima em produto final) caiu de uma participação de 11,79% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2019 para 11,30% do PIB em preços correntes em 2020, o menor patamar desde 1947, quando se dá início a série histórica das contas nacionais calculada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O auge da comparação da indústria de transformação aconteceu em 1985, quando chegou a representar 24,5% da economia do país. No terceiro trimestre deste ano, o peso do setor voltou a subir um pouco, chegando a 12,5% da geração de riquezas do país, mais como um soluço do que como retomada consistente. “A pandemia atingiu a indústria com significativa capacidade produtiva ociosa devido às perdas industriais de 2014-2016 e a crise político-institucional aguda de 2015 e 2016. Apesar da recuperação no triênio 2017-2019, o produto manufatureiro em 2019 ainda era 14% inferior ao de 2013″, informa o Iedi. O saldo de 2021 é negativo, segundo a entidade, que considera que “a segunda onda da pandemia para a indústria ainda não terminou.” Só o setor de alta tecnologia teve queda de 7,6% entre julho e dezembro.

Um fenômeno contrário aconteceu com o agricultura, que ganhou espaço mesmo no desafiador ano de 2020. O setor alcançou uma participação de 6,8% no PIB nacional em 2020 ― com uma leve alta em relação ao ano anterior, quando representou 6,5%, conforme dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). A expectativa é que a peso da agricultura no PIB chegue a 7,9% neste ano e matenha uma trajetória de crescimento até 2022, quando chegará a 8,3%. “A partir de 2023, [a participação] deve cair de volta para a média da série histórica, algo próximo a 6%”, afirma Renato Conchon, coordenador do Núcleo Econômico da CNA. Estes dados ainda serão revisados a partir do ajuste feito pelo IBGE nos dados trimestrais.

Brasil perde 28.000 indústrias em seis anos

A Pesquisa Industrial Anual (PIA) 2019, divulgados neste ano pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra em números o tamanho do estrago: de 2013 a 2019, o país perdeu 28.700 empresas e 1,4 milhão de postos de trabalho. Em 2019, o país tinha 306.300 indústrias, um encolhimento de 8,5% em relação ao seu auge seis anos antes. Essas empresas empregavam antes da crise sanitária 7,6 milhões de pessoas, uma redução de 15,6% sobre 2013. O salários do setor, geralmente mais elevados do que em outros segmentos, também sofreram perdas. Na indústria extrativa, a remuneração saiu de uma média de 5,9 salários mínimos (s.m.), em 2013, para 4,6 s.m., em 2019. Nas indústrias de transformação a redução foi de 3,3 s.m. para 3,1 s.m.

A situação do setor se complicou ainda mais com a crise sanitária. “A pandemia da covid-19 foi a pá de cal na indústria brasileira, que já vem perdendo espaço desde 2005, com o boom de commodities e valorização do câmbio”, explica o economista José Luis Oreiro, professor da Universidade de Brasília. O primeiro segmento afetado pelo processo de desindustrialização foi o de bens intermediários, ou seja, aquelas que produzem insumos para a própria indústria. Oreiro afirma que de 2005 a 2015, os elos da cadeia industrial brasileira começaram a sumir. Foi um período de substituição de compra de matéria-prima da cadeia brasileira por produtos importados. A partir de 2014, o que começou a desaparecer são as indústrias de bens finais, como as fábricas de automóveis.

Fora da Indústria 4.0

O Brasil vive um fenômeno diferente do que aconteceu em países desenvolvidos que tiveram a chamada desindustrialização positiva, fruto do amadurecimento de suas economias. Esse fenômeno foi marcado pelo abandono de atividades que já não interessavam ao plano de desenvolvimento, como a indústria extrativa ―terceirizada aos países pobres―, para focar em alta tecnologia. Trata-se de uma tendência que tem como base a utilização de novas tecnologias, como robótica, inteligência artificial, internet das coisas.

Augusto explica que o reposicionamento da economia pelo Governo Bolsonaro segue o caminho contrário. O caso da indústria naval é um exemplo. Foram anos de investimento para formar mão de obra especializada e ter um desenvolvimento tecnológico capazes de permitir a construção de plataformas de alta profundidade. “Hoje temos o esvaziamento desses estaleiros, teoricamente, com a Petrobras em busca de melhores preços no mercado internacional. A alternativa que se discute é trazer para o país a indústria de desmontagem de navios, mais comum em países como Bangladesh e Índia. É uma indústria suja, que polui e mata trabalhadores”, explica o diretor do Dieese.

A expectativa é que novas ferramentas trazidas pela chamada Quarta Revolução industrial ―ou Indústria 4.0―, tornem as atividades industriais mais produtivas, mas também mais sustentáveis, uma nova demanda dos consumidores. Estados Unidos, Europa, Japão e China vem investindo nessas mudanças nos últimos dez anos. “Quem não se adaptar, está fora do comércio internacional, fora do investimento produtivo”, afirma Oreiro. “As fábricas estão indo embora do Brasil porque o país não está mudando. Vivemos um período de transformação no paradigma tecnológico: em alguns anos só teremos transportes elétricos, por exemplo”, analisa o economista.

No entanto, o Brasil, que já foi líder em produção de automóveis menos poluentes, não soube aproveitar essa vantagem competitiva. “Temos zero política para transformar o parque automotivo brasileiro num transporte sustentável. O Governo segue uma agenda ultrapassada e não consegue visualizar a nova revolução industrial que está acontecendo no mundo”, diz Oreiro.

Reconstrução das cadeias produtivas

Segundo Rafael Cagnin, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), a pandemia trouxe de volta à esfera internacional a questão da reconstrução das cadeiras produtivas com o objetivo de evitar a interrupção na oferta de insumos estratégicos, como aconteceu com produtos da área médica na primeira fase da crise sanitária. “Esses temas entraram na agenda de política de desenvolvimento dos países. China, União Europeia e EUA estão alocando recursos para incentivar indústrias consideradas estratégicas”, afirma.

Cagnin defende que este também deve ser o caminho para o Brasil. O problema é que o país ainda tem questões antigas para resolver paralelamente aos novos desafios. “Temos problemas seculares, saneamento é deplorável, o restante do mundo resolveu essa questão no século XIX. Imposto de valor adicionado foi tema dos anos 80 no resto do mundo. Não temos mais espaço para fazer remendos, precisamos de reformas profundas que mudem o ambiente empresarial da água para o vinho”, defende.

Segundo o economista do Iedi, mesmo em relação à política industrial houve muito equívoco no que foi feito no passado. “O que o Brasil vem fazendo desde os anos 90 é uma política industrial compensatória, que não resolve os problemas. A estrutura tributária completamente disfuncional que temos hoje não será resolvida com política industrial”, alerta. De acordo com ele, muito do que passou como política industrial eram apenas subsídios. “Política industrial mira as tendências de desenvolvimento do que temos que apostar, não é para cobrir buracos e suprir deficiências cuja origem está em outra esfera, como na tributação”, afirma.

Flerte com a fome e sonho de voltar ao mercado formal de trabalho

Filho de um ex-metalúrgico, Diego Machado Ferreira organizou sua vida profissional em torno da indústria. Fez curso técnico no Senai, graduação de gestão em produção industrial e pós-graduação em logística. Entrou na Ford em 2007, na véspera da crise financeira internacional. Achou até que perderia o emprego por conta do rebuliço na economia mundial, mas lembra que nunca mais trabalhou tanto quanto naquela época. “Foi quando o [ex-presidente] Lula baixou o IPI”, afirma, referindo-se à redução de imposto sobre produtos industrializados para automóveis e eletrodomésticos da chamada linha branca, como geladeiras e fogões. “Trabalhávamos sábado e domingo direito, entrando uma hora mais cedo e saindo uma hora mais tarde”, recorda-se.

Foram seis anos de chão de fábrica até ser transferido para a área de logística. “Não tinha uma vida luxuosa, mas conseguia ter um carro bom e um convênio médico para a família”, diz. Com o fechamento da fábrica em São Bernardo, não conseguiu se recolocar em sua área de atuação. Chegou a montar um negócio próprio, uma academia de crossfit, porém, perdeu o investimento por conta da pandemia da covid-19. Assim como diversos de seus companheiro de trabalho, luta para manter seu padrão de vida. O trabalho de entregador cumpre a função de atender necessidades imediatas. Em dias bons, chega a ganhar 200 reais de diária, valor compartilhado com a amiga Ligia Ribeiro Paiva, também ex-Ford, que ajuda nas entregas.  “Digo que hoje flerto com a fome. Todo dia ela pisca para mim e diz que se eu vacilar, ela entra na minha casa”, lamenta o entregador.

Ferreira culpa a reforma trabalhista realizada no Governo Michel Temer pela situação precária em que trabalhadores terceirizados vivem atualmente. Conta que a partir de 2017, a reforma afetou até mesmo a relação dos trabalhadores com a indústria. "Antes da mudança na lei, o produto final tinha que ser feito por um funcionário da Ford. Isso mudou. Aí aparece presidente na TV para falar que a lei vai gerar milhões de empregos, mas são empregos para ganhar pouco, 1.500, 1.400 reais", afirma, lembrando que o salário de muitos profissionais da Ford ultrapassava os 5.000 reais.

Trabalhadores por conta própria, como Ferreira, são o segmento que mais cresce no país, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE. No trimestre encerrado em julho, os autônomos atingiram o patamar recorde de 25,2 milhões de pessoas, um aumento de 4,7%, com mais 1,1 milhão de pessoas, em relação ao trimestre anterior. 

Ferreira diz que vai continuar na entrega de compras, que dá mais estabilidade do que trabalhar de Uber, como fazem alguns de seus amigos, mas que espera conseguir um emprego CLT no próximo ano. Nada como aquele que ele tinha na indústria, ele lamenta. "A Ford era uma mãe, eu vivia em uma bolha."

El País

Bolsonaro, o boquirroto




Alguém pode dizer ao presidente para ouvir e pensar, antes de falar?

Por Eliane Cantanhêde (foto)

Em boca fechada não entra mosca, mas o presidente Jair Bolsonaro não para de falar absurdos que têm imenso impacto, ora na saúde e na vida das pessoas, ora na credibilidade do Brasil, ora diretamente na economia brasileira. Impressionante!

Por sorte, os brasileiros confiam nas vacinas, antes para o combate a doenças que foram praticamente erradicadas, agora para resistir à covid-19. Se tivessem seguido a orientação e o exemplo do presidente, a pandemia teria sido ainda mais drástica.

Por sorte também, o Brasil tem história, tradição, excelentes institutos, um bom sistema público e profissionais muito capacitados na área de saúde pública. Nossos epidemiologistas são incansáveis, um consolo.

Nem eles nem a Anvisa, porém, estão decidindo a reação nacional à variante Ômicron. Diz o ditado, fundamental na medicina, que é melhor prevenir do que remediar. Aparentemente, a Ômicron contagia muito, mata pouco e não é tão perigosa quanto se temia, mas não se pode abrir a guarda antes de ter certeza com base em estatísticas e estudos de laboratório.

A Anvisa recomenda a suspensão de voos de novos países da África e a exigência de vacinação para quem entrar no País. Mas nem estava na lista da reunião de ontem, que acabou cancelada, entre os “cientistas” Ciro

Nogueira (Casa Civil), Anderson Torres (Justiça), Tarcísio Freitas (Infraestrutura) e Marcelo Queiroga (Saúde).

Era uma reunião só para dizer amém a Jair Bolsonaro, que não quer medida nenhuma? Além de não se vacinar, ele já divulgou fake news espantosas: máscaras fazem mal às crianças, a segunda dose causa Aids... E a do jacaré?

Bolsonaro, que já atacou China, países árabes, presidentes e ex-presidentes de França, Chile, Argentina e até Joe Biden, adora criar confusão com órgãos e empresas públicas, a última com a Petrobras. E foi um tiro no pé. Ele anunciou queda nos preços de combustíveis nesta semana, mas a Petrobras desmentiu, dizendo que não tem nada decidido.

Se haveria redução de preços, não há mais, para não confirmar o vazamento de informações estratégicas e sigilosas para uso político. A Comissão de Valores Mobiliários abriu processo administrativo para apurar.

O Supremo investiga Bolsonaro por ingerência política na Polícia Federal, o TCU desmentiu um estudo fake alardeado por ele sobre mortes por covid, a PF apura o vazamento de informações sigilosas sobre um ataque hacker ao TSE, numa live dele, e o próprio TSE abriu inquérito sobre fake news do presidente contra as urnas eletrônicas. Ufa! O que Bolsonaro tem na cabeça? 

O Estado de São Paulo

Os cientistas que desafiam a noção de tempo e espaço




Quando alguém pergunta qual foi o princípio do universo, o Big Bang é a primeira resposta que vem à sua mente?

Por  Carlos Serrano

Então saiba que alguns cientistas questionam que esse tenha sido o começo de tudo - e que existe até um jovem pesquisador que vai mais além e afirma que talvez nem tenha havido um começo de tudo.

Trata-se de Bruno Bento, pesquisador português do Departamento de Ciências Matemáticas da Universidade de Liverpool, no Reino Unido. Bento é coautor de um artigo acadêmico intitulado If time had no beginning ("Se o tempo não tivesse começo", em tradução livre), que ainda está sendo revisado por outros especialistas.

'O Big Bang é a nossa visão tradicional da origem do universo'

Sua teoria é diferente do nosso conceito tradicional da passagem do tempo. Ele propõe a existência de um passado infinito e considera o Big Bang apenas um evento a mais na história do cosmos, que sempre existiu.

No que consiste a proposta de Bento e como ela desafia o que sabemos sobre a evolução do universo?

Para além da singularidade

A física moderna apresenta duas teorias que nos ajudam a explicar o universo.

'A singularidade é o limite em que a relatividade já não consegue explicar o que acontece'

De um lado, está a mecânica quântica, que descreve as interações e as partículas subatômicas. E, de outro, está a relatividade geral, que serve para explicar muito bem a gravidade que rege tudo o que acontece no mundo macroscópico.

A teoria da relatividade geral nos leva até 13,8 bilhões de anos atrás, nos instantes imediatamente seguintes ao Big Bang, quando tudo existia em escalas diminutas.

Mas essa teoria de Einstein falha quando tenta explicar o que aconteceu no momento exato do Big Bang ou o que ocorreu antes desse momento. A isso os especialistas denominam "singularidade", ou seja, o ponto em que a teoria da relatividade já não consegue explicar o que aconteceu.

'Nos instantes imediatamente seguintes ao Big Bang, tudo existia em escalas diminutas'

Nessa singularidade, a matéria está tão comprimida que a gravidade se torna extremamente forte em escalas subatômicas. Seria então necessária uma teoria que unificasse a mecânica quântica e a relatividade geral para explicar o que aconteceu durante essa singularidade e antes que ela ocorresse.

Essa teoria já é chamada pelos cientistas de teoria quântica da gravidade. Nela, a gravidade poderá ser explicada em nível quântico, ajudando a descrever o que ocorre nessas escalas. É nesse ponto que entra a proposta de Bruno Bento.

'O pesquisador português Bruno Bento desafia a ideia tradicional do espaço-tempo'

Átomos do espaço-tempo

No seu artigo, Bruno Bento recorre à teoria dos conjuntos causais, que é um enfoque da gravidade quântica que defende que o espaço-tempo é formado por blocos de construção, chamados de "átomos de espaço-tempo", que formam elementos.

Desta forma, a teoria de conjuntos causais resolve a questão da singularidade, pois, segundo essa visão, não pode haver nada menor que um átomo de espaço-tempo.

'A teoria de conjuntos causais é baseada no conceito de "átomos de espaço-tempo"

"Segundo a teoria de conjuntos causais, o que percebemos como o passar do tempo corresponde ao nascimento de novos elementos do conjunto causal", declarou Bento à BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC).

"O que chamamos de 'agora' é o nascimento de um novo elemento."

Não existe um começo

O trabalho de Bento parte dessa ideia para propor que os conjuntos causais foram sendo formados infinitamente. Por isso, o Big Bang não seria o começo do universo.

'O modelo de Bruno Bento pode ser o passo inicial para a compreensão matemática do Big Bang'

Para ele, sempre existiu alguma coisa antes, ou seja, os conjuntos causais seriam infinitos no passado e o Big Bang seria apenas um momento específico da evolução do universo.

"O nosso trabalho afirma que, se os conjuntos causais são a resposta, nós não temos necessariamente um começo", segundo Bento.

O desafio proposto por Bruno Bento é abandonar a ideia de "sequência", em que um elemento dá lugar a outro.

'Para Bruno Bento, "não temos necessariamente um começo"

Em substituição, ele sugere a ideia de "transformação assincrônica", segundo a qual os elementos nascem de forma parcial e não total.

No seu artigo, o pesquisador reconhece que a ideia de "transformação assincrônica" soa como um "enigma fantasioso" e que "é necessário um novo tipo de matemática para entender a 'transformação assincrônica' e suas consequências para a natureza do tempo".

'Bento defende que o Big Bang teria sido um momento da evolução do universo, não o seu princípio'

O trabalho de Bento "fornece os primeiros passos para estabelecer a compreensão matemática do Big Bang e sua possível história anterior", segundo declarou à BBC News Mundo o astrofísico Niayesh Afshordi, pesquisador do Instituto Perímetro de Física Teórica, no Canadá, que não participou desse trabalho.

Bruno Bento espera que experimentos futuros possam comprovar as consequências de modelos como o proposto por ele.

BBC Brasil

Acordo de Bolsonaro com Centrão pode ser a Geni das eleições

 




O choque entre o velho patrimonialismo e a modernização da vida nacional inicia um novo capítulo. De certa forma, o chamado orçamento secreto é a ponta desse iceberg

Por Luiz Carlos Azedo (foto)

Lembram da música Geni e o Zepelim, de Chico Buarque de Holanda, composta para a Ópera do Malandro? “De tudo que é nego torto/Do mangue e do cais do porto/Ela já foi namorada/O seu corpo é dos errantes/ Dos cegos, dos retirantes/É de quem não tem mais nada”, diz letra, cujo refrão se tornou muito popular: “Joga pedra na Geni! /Joga pedra na Geni! /Ela é feita pra apanhar! /Ela é boa de cuspir! /Ela dá pra qualquer um! /Maldita Geni!”. No jargão dos políticos, virar uma Geni é uma espécie de filme queimado, um personagem antipatizado pela opinião pública que acaba isolado dos próprios aliados.

É mais ou menos o que está acontecendo com o Centrão, sem que seus artífices se deem conta, porque vivem numa esfera eleitoral onde o patrimonialismo e o voto de cabresto ainda têm muita força. O ministro da Casa Civil e presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI); e o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), hoje concentram poder suficiente para manter a base do governo na Câmara, mas inversamente proporcional à imagem que estão construindo na opinião pública. Esse poder vem diretamente do controle que hoje detêm sobre o Orçamento, principalmente sobre a distribuição e a execução das chamadas emendas secretas.

O presidente Bolsonaro se elegeu com uma narrativa antissistema e prometia jogar o Centrão para fora das quatro linhas do campo, mas a dura realidade do exercício do poder fez com que operasse um grande giro na sua política de alianças, deslocando o seu eixo de apoio legislativo dos parlamentares bolsonaristas para a turma do Centrão. A pandemia da covid-19 e a recessão econômica, diante da ameaça de impeachment e do fracasso de suas intenções golpistas em 7 de setembro, fizeram com que essa aliança se consolidasse e passasse a ser a força política mais importante do projeto de reeleição. A filiação de Bolsonaro ao PL, de Waldemar Costa Neto, e da ministra da Secretaria de Governo, Flávia Arruda (DF), fechou qualquer possibilidade de descolamento de Bolsonaro da imagem do Centrão.

Por essas coisas que fazem do Brasil a terra das jabuticabas, o nosso sistema político apartou a disputa pela Presidência da República da formação de bancadas no Congresso. Não é que não exista essa relação, não fosse isso, o PT não teria a maior bancada, e o PSL não deixaria de ser um partido nanico para se tornar a segunda bancada da Câmara, mas essa correlação não é decisiva para a eleição da maioria dos deputados nem senadores. Existe uma assimetria que resulta do sistema eleitoral vigente, o voto proporcional uninominal. E um desequilíbrio na eleição de deputados federais, que não respeita a proporção exata dos colégios eleitorais estaduais, porque daria muito mais poder aos grandes estados do Sudeste, sobretudo São Paulo. O sistema de distribuição dos recursos do fundo partidário e do fundo eleitoral financia a reprodução desse modelo.

Entretanto, voltando à analogia musical, o que está catalisando e transformando a aliança Bolsonaro-Centrão numa Geni é a candidatura do ex-ministro da Justiça Sergio Moro, o ex-juiz federal de Curitiba, que liderou a Operação Lava-Jato e, entre outras coisas, mandou para a cadeia o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Numa eleição polarizada, o jogo armado era ter Bolsonaro como antiLula e Lula como antiBolsonaro. A entrada em cena de Moro, planejada inicialmente para ocupar o espaço dos indecisos e eleitores arrependidos de Bolsonaro, embaralhou tudo. O que antes era fácil se tornou mais complicado para o presidente da República e seu principal opositor: quem é o adversário principal?

A disputa do centro

Orçamento, No centro político, há um quadrante ético na disputa eleitoral, que não deixou de existir com a anulação da condenação de Lula pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e se tornou um espaço vazio com a aliança de Bolsonaro com o Centrão. Um outro quadrante, corresponde à expectativa liberal de parte da sociedade em relação ao desenvolvimento sustentável e à qualidade dos serviços públicos, campo de disputa ainda aberto. Outras pré-candidaturas miram a conquista do centro político: Ciro Gomes (PDT), João Doria (PSDB), Simone Tebet (MDB), Alessandro Vieira (Cidadania), Henrique Mandetta (União Brasil) e Rodrigo Pacheco (PSD). A antipolítica estava fora do jogo. Agora, está voltando com Moro, ainda que seu discurso venha sendo muito calculado e moderado quanto à própria Lava-Jato. É um candidato com perfil antissistema.

Com isso, o choque entre o velho patrimonialismo e a modernização da vida nacional, que é a linha condutora das grandes disputas políticas da nossa história republicana, inicia um novo capítulo. De certa forma, o chamado orçamento secreto é a ponta desse iceberg. Continua no centro do noticiário, porque o presidente da Câmara não renuncia às emendas bilionárias do relator, cujos autores são mantidos em sigilo, enquanto Bolsonaro aposta sua reeleição nos frutos desse acordo com o Centrão. Todos os candidatos de oposição criticam o orçamento secreto, porém, quem mais está faturando na opinião pública é Moro.

Correio Braziliense

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