
Ministro culpa aliados de Lula nos estados
Caio Spechoto
Catia Seabra
Folha
O ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias (PT), disse à Folha que a falta de organização na base de apoio político do presidente Lula faz com que os programas do governo federal não impulsionem a popularidade do petista como poderiam.
Segundo esse raciocínio, setores aliados de Lula em alguns estados não creditam ao governo o mérito por programas federais, permitindo que o eleitorado associe as obras a outros grupos políticos. Dias mencionou indiretamente o fato de estarem computados como conquistas de políticos que, na prática, são oposição —mas não citou nomes.
CONGRESSO DOMINADO – Lula —que, em 2025, disse que se tornaria cada vez mais esquerdista— convive com um Congresso hoje dominado por deputados e senadores de direita e do centrão. Conseguiu obter vitórias em votações importantes cedendo espaços a partidos que só o apoiam parcialmente, como PP e União Brasil.
O ministro admite que uma aliança tão ampla impõe como consequência a dificuldade de o governo reivindicar a autoria de suas obras. “Há esse efeito colateral onde ao mesmo tempo estamos fazendo [obras] com quem é governo e com quem é oposição”, diz.
GESTÃO FEDERAL – “Não tinha um sistema de água, agora tem. Não tinha uma UTI na cidade, agora tem. E, para a pessoa, quem fez isso não foi o governo do Brasil”, afirma. Dias cita que o governo federal transfere recursos para estados e municípios e que os políticos do local nem sempre explicitam que a ação realizada é em parceria com a gestão Lula.
“É como se fosse só do município ou só do estado. Em muitos lugares mudam até o nome do programa”, declara. “Em boa parte do país é como se a gente estivesse jogando [as ações] de um helicóptero. Quem está lá em baixo não sabe quem está no helicóptero”, acrescenta.
POPULARIDADE – O ministro cita o Piauí, onde foi governador por dois mandatos, como um dos lugares onde Lula é mais popular e obtém as maiores votações. O ministro atribui esses resultados à organização da base política local e à delimitação clara entre governistas e opositores.
“Quando a base do governo é mais organizada e mais presente, chega melhor à população a percepção de quem fez [a obra].”O órgão do governo com maior responsabilidade sobre a organização do apoio político ao presidente da República é o Ministério das Relações Institucionais. A pasta já foi comandada, no atual mandato de Lula, por Alexandre Padilha e Gleisi Hoffmann, ambos do PT. Dias não responsabiliza o ministério nem seus antigos ocupantes por essa falta de organização.
CARGO VAGO – O cargo de ministro das Relações Institucionais está vago desde quando Gleisi deixou o posto para poder se candidatar a senadora pelo PT do Paraná. Dias é um dos citados, nos bastidores, como possível substituto da agora ex-ministra.
Lula concorrerá à reeleição neste ano. As pesquisas de intenção de voto apontam que ele está empatado com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal pré-candidato de oposição. A avaliação negativa do governo Lula tem predominado sobre a positiva.
O chefe do governo e seus principais aliados avaliam que a gestão produziu bons programas e obras, e esperavam que medidas como o aumento na faixa de isenção do Imposto de Renda fossem capazes de aumentar a popularidade do petista. “O presidente está muito interessado em compreender, com tantas entregas, qual é a percepção da população”, diz Dias.
COMUNICAÇÃO – O ministro do Desenvolvimento Social também menciona dificuldades para comunicar ações do governo a apoiadores que querem promover o governo Lula em nível local. “Há uma queixa de que não conseguem dominar sobre o que o governo faz nesses lugares.”
Lula instruiu alguns de seus principais auxiliares a deixar o governo e construir candidaturas próprias para cargos como deputado e senador. Dias, assim como os ministros Alexandre Padilha (Saúde), Luiz Marinho (Trabalho) e Guilherme Boulos (Secretaria Geral), é parte de um grupo que Lula manteve na gestão para evitar um esvaziamento maior da gestão durante a campanha.