Pedro do Coutto
Ao se lançar como pré-candidato à Presidência da República, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, tentou ocupar um espaço cada vez mais raro no cenário político brasileiro: o de quem promete romper a lógica binária que domina o debate público desde 2018. Em seu discurso, apresentou-se como alternativa à disputa entre Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, afirmando que é preciso “encerrar a polarização” entre lulismo e bolsonarismo.
A proposta, à primeira vista, dialoga com um sentimento real de fadiga do eleitorado. Pesquisas recentes de institutos como Quaest e Datafolha têm apontado que uma parcela significativa dos brasileiros demonstra cansaço com o confronto permanente e deseja uma agenda mais pragmática. No entanto, o próprio Caiado parece tropeçar na sua principal promessa ao anunciar que, caso eleito, pretende decretar anistia aos condenados pelos atos antidemocráticos de 8 de janeiro.
PARADOXO – A contradição é evidente. Ao mesmo tempo em que critica a radicalização política, o pré-candidato adota uma bandeira que está no centro das tensões institucionais do país. A anistia, além de juridicamente controversa, colide diretamente com decisões já consolidadas do Supremo Tribunal Federal, que vem julgando e condenando envolvidos nos ataques às sedes dos Três Poderes.
Mais do que um gesto político, trata-se de um tema sensível para o Estado de Direito — e, portanto, pouco compatível com a ideia de pacificação. Na prática, a proposta tende a reacender, e não a dissipar, os conflitos. Isso porque qualquer tentativa de anular ou relativizar decisões judiciais definitivas inevitavelmente será interpretada como afronta institucional. A história recente do Brasil mostra que o embate entre Executivo e Judiciário tem alto potencial de instabilidade, algo que o próprio Caiado diz querer evitar.
APROXIMAÇÃO – Há, ainda, um componente estratégico nessa equação. Ao defender a anistia, Caiado parece buscar aproximação com parcelas do eleitorado conservador que orbitam o campo bolsonarista. É um movimento compreensível do ponto de vista eleitoral, mas arriscado do ponto de vista narrativo: ao tentar dialogar com esse público, ele pode acabar reforçando exatamente a polarização que afirma combater. Em outras palavras, ao estender a mão a um dos polos, enfraquece sua pretensão de equidistância.
Além disso, o debate sobre anistia não é apenas jurídico ou político — é também simbólico. Ele toca diretamente na percepção de justiça, responsabilidade e memória institucional. Países que enfrentaram rupturas democráticas costumam tratar esse tipo de questão com extremo cuidado, justamente para evitar a banalização de episódios que colocaram em risco a ordem constitucional. No caso brasileiro, ainda recente, a discussão ganha contornos ainda mais delicados.
ARTICULAÇÃO – Outro ponto que merece atenção é a viabilidade prática da proposta. A concessão de anistia ampla, nos moldes sugeridos, dependeria de articulação com o Congresso Nacional e enfrentaria forte resistência não apenas no Judiciário, mas também em setores relevantes da sociedade civil. Não se trata, portanto, de uma medida simples ou unilateral, como pode parecer no discurso de campanha.
No fundo, o movimento de Caiado expõe uma dificuldade recorrente na política brasileira contemporânea: a de construir uma alternativa fora da polarização sem, ao mesmo tempo, ser capturado por ela. O espaço existe, mas é estreito e exige coerência rigorosa entre discurso e prática.
Ao iniciar sua caminhada presidencial com essa proposta, o governador de Goiás sinaliza ambição e disposição de confronto — mas também revela um risco: o de que sua candidatura, em vez de inaugurar um novo caminho, acabe apenas reorganizando as tensões já existentes. Porque, no Brasil de hoje, romper a polarização não é apenas uma promessa. É, sobretudo, uma prova de consistência.