Publicado em 5 de outubro de 2025 por Tribuna da Internet

A comunidade internacional observa o processo com cautela
Pedro do Coutto
O anúncio de que o Hamas aceitou em princípio o plano de cessar-fogo proposto pelo presidente Donald Trump pode ser visto como um passo simbólico num conflito que já consumiu demasiadas vidas e devastou Gaza de forma quase irreparável. A trégua, entretanto, não basta por si só: como mostram relatórios recentes da ONU e do Banco Mundial, a destruição no enclave é de proporções catastróficas, estimada em mais de 18 bilhões de dólares em danos diretos à infraestrutura até o início de 2024 e com necessidades de reconstrução que podem ultrapassar 53 bilhões.
Gaza hoje é uma terra de escombros, onde mais de 60% das moradias foram destruídas ou severamente danificadas, hospitais estão inoperantes e centenas de milhares de pessoas vivem desalojadas. Diante desse cenário, a questão central não é apenas se haverá cessar-fogo, mas quem terá a responsabilidade de reconstruir o que foi arrasado.
FASES – O plano apoiado por Trump prevê fases de retirada israelense, libertação de reféns e supervisão internacional, ao mesmo tempo em que pressiona o Hamas a reduzir sua capacidade militar e administrativa. Israel, por sua vez, mantém a posição, defendida por Benjamin Netanyahu, de que não aceitará paz duradoura enquanto o grupo continuar armado e com presença política relevante em Gaza.
Essa postura, embora vista como uma garantia de segurança nacional, também serve ao cálculo interno de Netanyahu, cuja sobrevivência política depende em parte da manutenção de um clima de guerra. O Hamas, por outro lado, enfrenta o dilema de negociar concessões sem parecer fragilizado diante de sua base, que enxerga no confronto uma forma de resistência histórica.
CAUTELA – A comunidade internacional observa o processo com cautela, consciente de que cessar-fogo sem reconstrução não é paz, mas apenas um intervalo entre ciclos de destruição. Mais do que investimentos financeiros, será necessário estabelecer mecanismos de transparência, supervisão multilateral e garantias mínimas para os civis palestinos, de modo a evitar que a ajuda seja sequestrada por interesses políticos ou corroída pela corrupção.
Afinal, desde 1948, o conflito se arrasta entre guerras, ocupações e bloqueios, perpetuando uma ferida que não cicatriza. Reconstruir Gaza, portanto, é mais do que erguer prédios: é devolver dignidade e esperança a uma população que há décadas paga com a vida pelo fracasso da política. A aceitação do plano pode ser lida como um sinal de esgotamento das armas, mas o verdadeiro teste será o compromisso global com a vida — e não apenas com a geopolítica.