Publicado em 9 de setembro de 2025 por Tribuna da Internet

Bolsonaristas levam bandeira gigante dos EUA à Paulista
Pedro do Coutto
No último 7 de setembro, data marcada historicamente pela celebração da Independência, as ruas do Brasil foram palco de mais um capítulo da polarização política que divide o país.
Em São Paulo, sobretudo na Avenida Paulista, milhares de apoiadores de Jair Bolsonaro se reuniram para defender uma anistia ampla, que incluiria o direito do ex-presidente disputar as eleições de 2026.
BANDEIRA POLÍTICA – Entre bandeiras verde-amarelas, discursos inflamados e a presença de lideranças como Michelle Bolsonaro e o governador Tarcísio de Freitas, a tônica do ato foi clara: transformar a anistia em bandeira política antes mesmo do veredito do Supremo Tribunal Federal. Esse pedido antecipado, porém, tem um efeito paradoxal — ao exigir clemência antes da sentença, os manifestantes parecem admitir, de forma implícita, a culpa dos réus envolvidos nos episódios do 8 de janeiro.
O que chamou ainda mais atenção foi a presença de símbolos estrangeiros, em especial uma enorme bandeira dos Estados Unidos, além de cartazes em inglês pedindo a intervenção de Donald Trump no processo. Para parte da militância, tais gestos seriam apenas um “agradecimento” ao ex-presidente norte-americano pelas recentes críticas ao STF e apoio público a Bolsonaro.
Para outros, porém, a cena soou como um ataque direto à soberania nacional, abrindo espaço para a crítica imediata do presidente Lula, que aproveitou seu pronunciamento oficial para reafirmar: “o Brasil não é colônia e não aceitará tutelas externas”. Nesse embate de narrativas, fica evidente como os símbolos políticos podem se tornar armas de disputa pela legitimidade.
ANÁLISE – A defesa da anistia, tão presente nas falas e cartazes da manifestação, precisa ser analisada sob um viés mais profundo. No Brasil, a história mostra que a anistia sempre foi uma saída negociada para períodos de crise, mas quase nunca veio acompanhada de justiça plena. Do fim da ditadura militar às recentes tentativas de apagar responsabilidades pelo 8 de janeiro, o recurso é frequentemente usado para evitar rupturas institucionais, mas ao custo de deixar feridas abertas na sociedade.
Ao pedir esse benefício antes da decisão judicial, os manifestantes não apenas antecipam o resultado, como também fragilizam a confiança na Justiça, que deveria ser o espaço legítimo de resolução dos conflitos. Outro ponto que merece reflexão é a dimensão geopolítica trazida pelo gesto dos bolsonaristas.
Em um mundo cada vez mais multipolar, com disputas intensas entre Estados Unidos, China, Rússia e União Europeia, ver brasileiros pedindo a interferência direta de um líder estrangeiro para influenciar sua política interna não é apenas um sinal de radicalismo, mas também de fragilidade democrática.
AUTONOMIA – A política externa brasileira sempre buscou o equilíbrio e a autonomia, pilares que agora são colocados à prova pela instrumentalização simbólica da bandeira americana em território nacional. Isso reabre um debate essencial: até que ponto o Brasil quer reafirmar sua soberania ou se arriscar a viver sob a sombra de influências externas?
À medida que o Supremo se aproxima de um julgamento histórico, com expectativa de condenações pesadas, e o Congresso discute projetos de anistia que podem reescrever a responsabilidade de centenas de acusados, o país mergulha em um dilema político e institucional.
A disputa não se limita ao destino de Bolsonaro ou de seus aliados: está em jogo a própria compreensão da democracia brasileira, seus limites de soberania e a maturidade de nossas instituições diante da pressão das ruas. Se os atos do 7 de setembro de 2025 mostraram algo, foi que a batalha pelo futuro político do Brasil não se trava apenas nos tribunais ou no Parlamento, mas também na arena simbólica onde se confrontam independência e dependência, justiça e impunidade, soberania e submissão.