domingo, junho 12, 2022

O julgamento do golpista




Por Ascânio Seleme (foto)

Se as pesquisas continuarem a apontar vitória de Lula no primeiro turno, Bolsonaro vai antecipar sua tentativa de golpe para o dia 7 de setembro, mas não vai dar certo

Se as pesquisas continuarem mostrando que o crescimento de Lula se consolida, aumentando a possibilidade de vitória já no primeiro turno eleitoral, Jair Bolsonaro vai antecipar sua tentativa de golpe para o dia 7 de setembro. Será uma nova setembrada, como a do ano passado, mas desta vez com mais violência e sem freios. Não tenha dúvida de que o presidente do Brasil vai incentivar a invasão do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral. De maneira mais clara e direta do que em 2021. Mas, desde já é bom que ele saiba que não vai dar certo. Pior. Além de errado, vai significar o fim de sua carreira política e muito provavelmente o seu encarceramento.

Bolsonaro deveria aproveitar que está nos Estados Unidos e prestar atenção no que acontece desde quinta-feira no Congresso americano. Um comitê suprapartidário investiga a tentativa de obstrução da diplomação de Joe Biden com a invasão violenta do Capitólio no dia 6 de janeiro do ano passado. Invasão estimulada por Donald Trump, objeto número 1 das investigações. Como uma CPI no Brasil, o comitê não tem poder de Justiça, não podendo mandar prender o golpista frustrado. Mas pode remeter suas conclusões para o Judiciário, que aliás já avisou que vai usar todos os dados e provas coletados para subsidiar uma investigação própria.

O comitê, que fez audiências com diversos envolvidos no episódio, inclusive membros do governo Trump e alguns de seus familiares, como sua filha e genro, já apontou onde o ex-presidente se situava no episódio da invasão do Capitólio. Ele estava “no centro” da tentativa de golpe. Dados novos somam-se a outros já vastamente conhecidos como o discurso que fez incentivando os direitistas que se manifestavam em frente à Casa Branca para marchar sobre o Congresso que naquele momento se reunia para referendar a vitória eleitoral de Biden. O que Trump queria, afirmou o comitê, era impedir pela força que a vontade do povo manifestada em eleição se concretizasse.

Trump pode ser o primeiro presidente americano preso. Por muito menos, Richard Nixon quase teve este destino no episódio de Watergate. Nixon foi perdoado pelo seu sucessor, Gerald Ford. Trump não terá a mesma clemência de Biden se vier a ser condenado. No Brasil, Bolsonaro poderá ser o segundo presidente encarcerado. Também não se configura provável no horizonte um indulto ou uma graça em seu favor.

No Brasil, em 7 de setembro do ano passado, Bolsonaro chamou o ministro Alexandre de Moraes de canalha, disse que não atenderia mais a suas ordens e insuflou contra o Supremo as massas ensandecidas para as quais discursou em Brasília e em São Paulo. Agora, o presidente convoca mais uma vez seus apoiadores para irem às ruas na próxima data cívica para socorrê-lo, pobrezinho, acuado que está pelo STF que não o deixa governar.

Nas suas palavras, numa entrevista que deu ao SBT, as pessoas irão às ruas no 7 de setembro, não para celebrar o bicentenário da independência, mas “para mostrar de que lado estão”. Ele disse ainda que seus apoiadores organizam nova manifestação para “sensibilizar o Judiciário”. Típica linguagem de torturador, mafioso ou miliciano antes de descer a porrada.

A conspiração de Donald Trump nos Estados Unidos para impedir a troca de poder é semelhante a que Bolsonaro promove aqui quando se avizinha cada vez de maneira mais clara sua derrota eleitoral. Nos EUA, Trump atacou o voto pelos correios, aqui são as urnas eletrônicas. A ideia de Bolsonaro é abusada e obtusa não por ser antidemocrática, mas porque visa apenas e tão somente atender ao desejo de um maluco desalmado, egocêntrico, autoritário que não suporta a ideia de perder a eleição.

Lá, Trump terá de se haver com o Congresso, com a Justiça e com o povo americano, que quase viu sua vontade frustrada. Aqui, mais cedo ou mais tarde, Bolsonaro será confrontado pelas dezenas de crimes que cometeu no exercício da Presidência e que o Congresso jamais teve coragem de interromper. Lá, os invasores do Capitólio estão sendo identificados e presos, um a um. Aqui, poderemos ver desfecho semelhante se a alucinação presidencial virar fato.

Méritos de Ciro

Nove das dez melhores escolas do Brasil, segundo o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), são públicas e são do Ceará. E não é de hoje, há anos o Ceará vem mantendo e melhorando este desempenho. Impossível negar que este é um mérito dos irmãos Gomes, Ciro e Cid, com a colaboração de governadores do PT e do PSDB que os sucederam no comando do estado. Se Lula ainda quiser tentar uma aproximação com Ciro, o único caminho é pela educação pública.

Desfaçatez

A reportagem de Patrik Camporez e Aguirre Talento, do GLOBO, sobre o uso do Ministério da Saúde pelo filho do ministro Marcelo Queiroga para alavancar sua candidatura a deputado federal pela Paraíba, mostra como é desqualificado este governo e como são infames o pai Queiroga e o filho Queiroguinha. O filho passou a intermediar verbas do ministério do pai para prefeitos de cidades paraibanas onde vai cabular votos. Uma vergonha registrada. Um crime eleitoral evidente. Uma desfaçatez.

Supervivos

Há três semanas, num encontro com empresários de supermercados, Bolsonaro foi aplaudido e ouviu vivas quando, aos gritos e em meio a palavrões, disse que a eleição de outubro será conturbada. Na quinta, agora, pediu ao mesmo público que reduza seus lucros “ao mínimo possível” para não estimular a inflação. Dessa vez o encontro foi virtual, por isso foi mais fácil para estes supervivos se fingirem de mortos. Não se ouviu hurras nem aplausos, só um sorrisinho galhofo quando o ex-liberal Paulo Guedes propôs nova tabela de preços só em 2023.

Comerciantes

Os aplausos, os gritos de apoio e as risadas para as piadas grotescas feitas no discurso abestalhado e golpista de Bolsonaro quarta-feira na Associação Comercial do Rio de Janeiro não provam nada. A não ser uma coisa: nossos comerciantes estão muito mal representados na sua agremiação de classe. Porque, claro, você sabe, a este tipo de encontro só comparecem os que querem aplaudir. Quero ver como reagiriam se o presidente fizesse a eles um apelo para reduzir seus lucros ao mínimo.

Calm Waters

Numa entrevista a Stephen Colbert, do The Late Show, Robert De Niro disse que desde a posse de Joe Biden dorme mais tranquilo. De acordo com o ator dono de dois Oscar, que nunca escondeu seu horror a Donald Trump, Biden levou os EUA para águas calmas, e que esta sempre foi a ideia (He got us to calm waters, that was the whole idea). Ele tem razão. Lá, como aqui, apenas os turbulentos gostam de turbulência.

Só Moro?

Está em vigor e deve ser respeitada por todos a lei que exige que um candidato tenha pelo menos um ano de domicílio eleitoral e outros três meses de vínculo com a cidade por onde vai concorrer. O PSOL anunciou que vai impugnar a candidatura de Tarcísio de Freitas, que concorre ao governo de São Paulo embora tenha morado nos últimos oito anos em Brasília. Vamos ver. Eduardo Cunha, que foi deputado pelo Rio em sucessivos mandatos desde 2002, disputa uma vaga na Câmara também por São Paulo. Se fosse para valer a lei do domicílio eleitoral, Cunha poderia ser no máximo candidato pelo Paraná, já que ficou preso em Curitiba alguns anos. Na História, vale citar o caso de dois ex-presidentes. O gaúcho Getulio Vargas foi eleito senador por dois estados e deputado por seis estados, no mesmo pleito e por dois partidos distintos. E o maranhense José Sarney foi eleito senador pelo Amapá já com as regras eleitorais atuais em vigor.

Fala sério

Advogados ligados a sertanejos denunciados por fazerem shows caríssimos (com dinheiro público) em cidades pobres dizem que os eventos dão dinheiro para os municípios. Alegam que os shows atraem turismo regional importante. Está certo. Imaginem então quanto a mineira Conceição do Mato Dentro levantaria com os turistas de cidades vizinhas, como Santana do Riacho (4.315 habitantes), Morro do Pilar (3.399), Ferros (9.949) e Dores de Guanhães (5.154), no show de R$ 1,2 milhão de Gusttavo Lima que quase contratou.

Bandido remunerado

Projeto de Lei que atualiza o Código do Processo Penal Militar à luz da Constituição de 1988 prevê que militar que perder o posto ou patente em razão de sentença penal condenatória deixará para seus beneficiários pensão correspondente ao posto ou graduação que possuía. O projeto de autoria do deputado Coronel Tadeu (PL) passou por todas as comissões necessárias e já está no plenário da Câmara para ser votado. O texto determina que juiz que condenar militar criminoso deve deixar essa determinação expressa na sua sentença. Trata-se de um estímulo ao crime ou não?

Público x privado

O processo disciplinar do vereador Gabriel Monteiro, acusado de abuso de menor, revelou o que não deveria ser surpresa para ninguém em se tratando de um bolsonarista. Todos os advogados do réu são servidores comissionados do seu gabinete. Trata-se da velha prática de misturar o público com o privado. Na prática, isso significa que é a Câmara, ou o cidadão carioca, quem está pagando a defesa de Monteiro.

O Globo

Bolsonaro em modo milícia




Ele vocifera como arruaceiro, bafeja ódio, insufla violência e prega a subversão da ordem constitucional vigente

Por Cristina Serra (foto)

Bolsonaro acionou o modo milícia para a campanha eleitoral. Vocifera como arruaceiro, bafeja ódio, insufla violência, prega a subversão da ordem constitucional vigente. É só o começo.

Vai piorar muito, porque o baderneiro do Planalto sabe que tem apoio de parcela fiel da população e de setores da elite. É o suficiente para levá-lo ao segundo turno e o que precisa para tentar tumultuar as eleições. O método é convocar a turba e inflamá-la. Bastará alguém riscar o fósforo.

A cena repulsiva na Associação Comercial do Rio de Janeiro é evidência de apodrecimento social. Vídeo não tem cheiro, mas se tivesse daria para sentir o odor de mofo na sala em que empresários aplaudiram Bolsonaro quando ele incentivou a desobediência ao STF. Alguém da plateia contestou a incitação ao crime? Ninguém. Ouviram-se aplausos de concordância com o estímulo à anarquia institucional.

Bolsonaro está ciente das pesquisas pré-eleitorais. Sabe que não tem maioria para um golpe. Mas golpes não precisam de maioria. Por isso são golpes. E ele tem sua choldra de bandoleiros incrustados no Congresso e nas instituições de controle a dar garantias para que continue a esbravejar pela ruptura.

O Brasil deu um salto de três décadas para trás no combate à fome. Neste momento, 33 milhões de pessoas não têm o que botar no prato. A pandemia já levou quase 700 mil brasileiros e continua a matar, a adoecer, a infligir dor e sofrimento. É isso que aprovam e aplaudem?

A ascensão de Bolsonaro abalou 30 anos de esforços para reerguer o país com o mínimo de coesão democrática e solidariedade social. Ele soube aproveitar-se da incompletude da obra para tentar destruí-la de vez.

Em sua figura grotesca de desordeiro e predador da democracia, Bolsonaro converteu-se numa arma de destruição em massa. Morre gente, morre o país. Bolsonaro vai passar. Mas deixará a mancha da desonra entre nós cada vez que nos fizermos a pergunta: como não fomos capazes de detê-lo?

Folha de São Paulo

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A desjudicialização da saúde

Pareceu-me acertada a decisão do STJ, com espaço para exceções

Por Hélio Schwartsman

Não dá para reclamar da judicialização da saúde no SUS e ao mesmo tempo defendê-la para o setor privado. A lógica que preside a ambos os sistemas é a mesma (e meio socialista ainda por cima): o conjunto dos usuários, seja através de impostos, seja de mensalidades, paga pelos tratamentos que são dispensados a cada paciente. Se um médico prescreve uma terapia ineficaz ou com preços absurdos, a coletividade é prejudicada. No caso do SUS, o dano se materializa em filas e outras carências de recursos; no dos planos, na forma de sinistralidades e aumentos maiores que a inflação.

Nesse contexto, pareceu-me acertada a decisão do STJ de desobrigar as operadoras de pagar por tratamentos que não constem do rol de procedimentos e eventos em saúde da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), preservando algum espaço para exceções. O rol exemplificativo (em oposição ao taxativo) equivale a uma lista aberta; e listas abertas são um convite às judicializações. É preciso, porém, distingui-las.

Há aquelas em que o usuário cobra do gestor a realização de procedimentos que estão desde sempre no rol, como hemodiálises e cirurgias comuns. Essa é uma judicialização necessária. O procedimento nem deveria ter sido negado. Mas também há aquelas em que o paciente pede para o gestor bancar um tratamento sem comprovação científica ou uma nova e cara terapia cuja relação custo-benefício ainda não foi avaliada pelos especialistas. Essas devem ser rechaçadas. Servem apenas para perpetuar a má medicina e aumentar os custos sem muita racionalidade.

Agora, com o rol taxativo, é preciso que a sociedade faça marcação cerrada no comitê da ANS que elabora a lista, para que ele avalie rapidamente os novos tratamentos e técnicas e incorpore os que são úteis. É uma fórmula muito mais republicana, já que os tratamentos valerão para todos, não apenas para aqueles que podem pagar advogados e entram com um processo.

Folha de São Paulo

A retaguarda do atraso




Na lida com o meio ambiente, o Brasil de Bolsonaro só piorou

Por Ricardo Rangel (foto)

Junho é o mês da conscientização ambiental. No dia 5 se comemorou o Dia Mundial do Meio Ambiente. O Dia Nacional da Educação Ambiental foi dia 3. O Dia Mundial dos Oceanos, 8. Dia 13 é o aniversário do primeiro Jardim Botânico do Brasil. E dia 17 é o Dia Mundial de Combate à Desertificação.

Meio ambiente, como se sabe, é tema no qual o Brasil, dono da maior floresta úmida do mundo, se destaca. De acordo com o Imazon, o desmatamento em 2021, de mais de 10 000 quilômetros quadrados, foi o maior desde 2008: um crescimento de 29% em relação aos mais de 8 000 quilômetros quadrados de 2020 (até então o maior da década). Segundo o Ipam, o desmatamento na Amazônia cresceu 56,6% no governo Bolsonaro. A Amazônia é só o aspecto mais crítico de um problema que alcança todos os biomas do país.

Ninguém deve se surpreender. Desde a posse, Jair Bolsonaro fez de tudo para inviabilizar o combate ao desmatamento. Seu ministro Ricardo Salles demitiu 21 dos 27 superintendentes do Ibama, e nomeou gente que nada entendia do assunto. No ICMBio, substituiu os profissionais da área por PMs. Cortou os orçamentos, engessando os órgãos ambientais. Reduziu o número de analistas e fiscais e aumentou a burocracia. Elogiou madeireiros ilegais (“homens de bem”) que haviam incendiado um caminhão-tanque do Ibama. O Brasil aplica hoje o menor número de multas por crimes ambientais em vinte anos, menos da metade do que já foi.

Combater o desmatamento é garantia de exoneração. Ricardo Galvão, do Inpe, caiu porque provou que o desmatamento estava aumentando. O superintendente da PF do Amazonas, Alexandre Saraiva, que apresentou notícia-crime contra Salles por atrapalhar o trabalho da Polícia Federal, foi transferido para o Rio de Janeiro (o ministro ficou onde estava).

No Congresso, o governo garantiu anistia a desmatadores, avançou com o “PL da Grilagem” e aprovou o menor orçamento para proteção de florestas em vinte anos. Bolsonaro hostiliza nações amigas, mentiu na ONU que o Brasil não desmata e, na COP-26, prometeu metas que não pretende cumprir. A narrativa de que os países desenvolvidos seriam os “culpados” pelo aquecimento global caiu: o site Carbon Brief informa que, desde 1850, o Brasil é o quarto maior emissor.

Primeiro de junho foi o Dia da Imprensa e 7, o Dia Nacional da Liberdade de Imprensa. Em 2020, a família Bolsonaro atacou a imprensa 469 vezes; em 2021, foram 331 só no primeiro semestre. Segundo a Federação Nacional dos Jornalistas, em 2021 a Empresa Brasil de Comunicação, órgão governamental, censurou seus jornalistas 138 vezes. Só a ditadura foi mais hostil.

Quando o indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips desapareceram na Amazônia, Bolsonaro afirmou que a “aventura” dos dois não era “recomendável”, culpando as vítimas pelo ocorrido. E que “torcia” para que fossem encontrados, como se fosse mero observador. O Exército soltou uma nota vinculando uma missão de busca e salvamento ao “Escalão Superior”, sugerindo que Bolsonaro não teria autorizado a ação.

Em 1985, o deputado Fernando Lyra definiu José Sarney como “vanguarda do atraso”. Era um elogio. Se estivesse vivo, Lyra diria que o Brasil de hoje é a retaguarda do atraso.

Revista Veja

Ex-presidente da Bolívia é condenada a 10 anos de prisão




Política está detida desde o ano passado e foi condenada por violação de deveres e resoluções contrárias à Constituição quando assumiu o poder em 2019, em meio a uma crise gerada pela renúncia de Evo Morales.

A ex-presidente interina da Bolívia Jeanine Áñez foi condenada nesta sexta-feira (10/06) a 10 anos de prisão por violação de deveres e resoluções contrárias à Constituição quando assumiu o poder em 2019, em meio a uma crise social e política no país gerada com a renúncia de Evo Morales.

Depois de deliberar por mais de oito horas, o Tribunal de Primeira Instância de La Paz determinou que Áñez cumpra sua pena na prisão de Miraflores, onde está detida preventivamente há mais de um ano.

O tribunal também anunciou uma sentença de 10 anos de prisão contra o ex-comandante das Forças Armadas, Williams Kaliman, e o ex-comandante da polícia, Yuri Calderón, cujo paradeiro é desconhecido.

Áñez assumiu o comando interino do país como segunda vice-presidente do Senado em 12 de novembro de 2019, dois dias após a renúncia de Morales e de todos os funcionários na linha de sucessão presidencial, durante uma crise política e social que eclodiu após as eleições de outubro daquele ano, marcadas pelas denúncias de fraudes em favor do então presidente.

Depoimentos na prisão

Na manhã de sexta-feira, os juízes do tribunal foram ao presídio para recolher o último depoimento de Áñez e depois fizeram o mesmo na prisão onde estão dois ex-chefes militares acusados ​​de ajudar a ex-presidente interina a chegar ao poder.

Com estas diligências, o tribunal encerrou a fase de debate do julgamento e, no início da tarde, os juízes anunciaram que iriam "deliberar ininterruptamente" até que fosse emitida "a resolução correspondente".

A denúncia de "golpe de Estado" que levou à prisão de Áñez foi apresentada em novembro do ano passado pela ex-parlamentar Lidia Patty, do Movimento ao Socialismo (MAS), partido de Morales e do atual presidente da Bolívia, Luis Arce, que tomou posse em novembro de 2020.

'Áñez está presa preventivamente desde março de 2021'

Julgamento à distância

Áñez acompanhou o julgamento virtualmente da prisão. Segundo as autoridades, a medida foi necessária devido à pandemia de covid-19, embora depois tenham argumentado que havia "risco de fuga", apesar dos pedidos insistentes de sua defesa para que ela pudesse comparecer pessoalmente às audiências.

"Não foi um governo fácil porque eu tinha o governo, mas nunca tive poder, tive bloqueios na Assembleia Legislativa, portanto foi simplesmente um governo de transição", disse Áñez em seu depoimento.

Áñez afirmou que não tinha a "ambição" de assumir a Presidência e que apenas cumpriu o seu dever e que, na sua opinião, o "único ambicioso" foi Morales, "que não respeitou a Constituição" desde 2016, quando ignorou os resultados de um referendo que lhe negou a aspiração a um quarto mandato consecutivo.

Ao longo das audiências, a ex-presidente interina apresentou diversos problemas de saúde, que segundo a parte acusadora foram manobras para adiar o julgamento.

 Áñez foi presa em 13 de março de 2021 em uma operação liderada pelo comandante geral da polícia boliviana, Jhonny Aguilera, em sua cidade natal, Beni.

Em princípio, a Justiça abriu um processo pelos crimes de sedição, terrorismo e conspiração devido à crise pós-eleitoral de 2019, que acabou levando à renúncia de Morales. Desse caso derivou o processo "Golpe de Estado II", pelo qual a ex-presidente interina foi condenada agora.

O que ocorreu em 2019

Morales havia sido reeleito em 20 de outubro de 2019 para um quarto mandato seguido, sob suspeitas de fraude eleitoral. A Organização dos Estados Americanos (OEA) recomendou a convocação de novas eleições por conta de adulteração de atas e falsificação de assinaturas, assim como os Estados Unidos e a União Europeia. Um estudo independente apresentado em junho de 2020, porém, apontou falhas da análise estatística feita pela OEA sobre a eleição boliviana.

Após a renúncia, Morales exilou-se no México e depois na Argentina, e regressou ao país em novembro de 2020, após a vitória de Arce.

Quando Morales renunciou, Áñez era então a segunda vice-presidente do Senado e assumiu a presidência do país em meio ao vácuo de poder. Ela permaneceu no cargo até a realização de novas eleições.

Deutsche Welle

Atores são pagos para não falar




Se eu não me rebelo contra a natureza do meu trabalho, por que os atores se rebelam contra a natureza do trabalho deles? Por que diabos eles têm que se meter em política, dando conselhos com ares paternais etc? 

Por Alexandre Soares Silva (foto)    

Atores falando de política. Atores falando de qualquer coisa. Mas atores são justamente as pessoas que a sociedade paga para ficar em silêncio e só falar o que leem num papel.

Enquanto escrevo, Matthew McConaughey está na Casa Branca, de óculos, fazendo um discurso emocionado (murros na mesa) sobre controle de armas. Mark Ruffalo está falando alguma coisa sobre a Amazônia. Leonardo di Caprio está tuitando sobre o excesso de dióxido de carbono na natureza, usando como mesa as nádegas de uma modelo madrilenha. E Taís Araújo deve estar tentando convencer os próprios gatos a não votar nulo.

A sociedade escolheu um único grupo de pessoas para nunca dizer o que pensa, e essa escolha é racional e se baseia numa combinação de boa aparência, boa voz e óbvia incapacidade de pensar. Daí escolheu um outro grupo de pessoas, chamados de roteiristas (uma escolha racional baseada na má aparência, má dicção e uma vaga capacidade de pensar), para escrever num papelzinho o que os atores têm que dizer, se eles tiverem que dizer alguma coisa.

Em outras palavras, os atores ganham para não dizer o que pensam. E ganham bem, muitos deles. Recebem mansões, jatos, helicópteros, lanchas, para não dar a opinião deles sobre o SUS ou a Guerra da Ucrânia. É só o que eles têm que fazer. Acordar cedo, tomar um smoothie de frutas, tomar sol à beira da piscina enquanto decoram o que outra pessoa pensou por eles, daí entrar no carro que o estúdio mandou pra casa deles, entrar no estúdio, se maquiar, falar umas piadas pros maquiadores e pra coadjuvante bonitinha, daí chegar na frente das câmeras, falar “Puxa, Noêmia, não é bem assim, ponha a mão na consciência”, tirar a maquiagem e voltar pra casa.

São exatamente como políticos. Atores e políticos falam o que outra pessoa (às vezes um comitê de pessoas) escreveu. Mas políticos são mais espertos. Não sabemos o que os políticos pensam. Nunca na história da humanidade ninguém jamais soube o que um político realmente achava de alguma coisa. Temos uns palpites, e é só. Por que atores não podem ser igualmente espertos?

Mas os atores não se controlam e saem improvisando coisas a troco de nada. É uma bobagem, porque atores têm uma posição muito mais agradável que a dos políticos. Atores são políticos que não precisam se meter em intrigas políticas. Podem passar dias inteiros recebendo massagens tailandesas e comendo salada de pepino. Mas não, não é o suficiente pra eles, eles têm que “dar uns toques”, “mandar a real” etc. para o público no Instagram, como missionários cristãos do século XVI ensinando tribos inteiras a não comer carne humana.

Veja o meu caso. Eu sou roteirista. O que isso significa? Que a sociedade me paga para não aparecer na frente das câmeras. “Não, não”, a sociedade me diz, “fica lá atrás pensando o que esse cara bonito aqui vai dizer”. O meu trabalho é pensar as coisas que as pessoas bonitas falariam se as pessoas bonitas fossem capazes de pensar antes ou enquanto falam. Como entendo bem a natureza do meu trabalho e não me rebelo contra ela, não ando até a frente da câmera e começo a falar o que eu mesmo pensei. Seria absurdo. Esse é o trabalho de alguém com cabelos sedosos e um índice de gordura corporal abaixo dos vinte.

Se eu não me rebelo contra a natureza do meu trabalho, por que os atores se rebelam contra a natureza do trabalho deles? Por que diabos eles têm que se meter em política, dando conselhos com ares paternais etc?

Um amigo meu tem uma teoria. Nós dois conhecemos um ator, muito talentoso, que disse uma vez que o seu trabalho é tão fácil que ele “morre de vergonha”. Disso meu amigo teoriza o seguinte, e estou aqui concordando com ele: todos os atores bem-sucedidos têm essa vergonha. O pagamento pelo trabalho deles, em dinheiro, respeito e fama, é tão desproporcional ao esforço exigido que eles se sentem permanentemente culpados.

E o que fazem com essa culpa? Nos casos mais benignos, essa culpa os leva para as drogas; nos casos mais severos, ao ativismo político.

Mas tenho que confessar que quando calha de um ator dizer algo com que concordo, aí, de repente, não me incomoda nem um pouco que ele dê suas opiniões. Como esse Tiago Leifert falando que é impossível votar no Lula. De repente, acho simpático. Por que acontece isso? Não sei, é um fenômeno psicológico misterioso.

Revista Crusoé

Onde está a saída para a crise?




Com Jair Bolsonaro, a escória tomou o poder. Será que devemos imputar ao destino o que estamos vivendo? Não creio

Por Marco Antonio Villa (foto)

Viver no Brasil sob a presidência de Jair Bolsonaro não é tarefa fácil. A cada dia somos surpreendidos por alguma ação que confronta o Estado democrático de Direito, um ataque às instituições, um comentário que quebra o decoro presidencial, uma imagem que desmoraliza a figura presidencial, uma entrevista que pretende transformar a torpeza em qualidade. São sustos e mais sustos e imaginamos que cada um deles não mais se repetirá. Ledo engano. Nos dias posteriores ficamos espantados com mais ações absolutamente distantes do que assistimos como comportamento político ao longo da história republicana.

Com Jair Bolsonaro, a escória tomou o poder. Será que devemos imputar ao destino o que estamos vivendo? Não creio. O destino está cansado de nos punir. O que estamos assistindo é produto de um processo histórico. O desafio dos pesquisadores será, quando virarmos esta triste página da história, buscar encontrar mas razões que conduziram o Brasil a uma situação que ninguém sequer poderia supor a apenas um lustro atrás. Entender historicamente que havia um processo se desenvolvendo à nossa frente sem que pudéssemos compreendê-lo. A surpresa do ocorrido, portanto, foi produto não de algum fato inesperado, mas sim pela dificuldade analítica de entender e agir para que não vivêssemos o pesadelo bolsonarista.

Não é o caso de atribuir culpa a algum agente histórico. O essencial é analisar cuidadosamente o desenrolar dos acontecimentos buscando os fatores estruturais que levaram o Brasil a uma presidência ruinosa, a pior, sem qualquer dúvida, da história da República.

Por que o Brasil perdeu o bom caminho da democracia, tão arduamente construído especialmente desde a promulgação da Constituição de 1988? Por que deixamos de crescer, como nos anos 1930-1980 quando fomos o País que mais cresceu no mundo ocidental? E a desindustrialização? Isto quando em 1980 tínhamos o maior parque industrial do hemisfério sul. Como explicar que fomos nos transformando em uma Nação com estrutura econômica neocolonial? E as imensas regiões metropolitanas – onde vivem a maioria dos brasileiros – que perderam o dinamismo e concentram hoje um conjunto de graves problemas sociais, urbanísticos e econômicos?

As perguntas são fáceis de serem elaboradas. Mas, e as respostas? Como vamos sair deste labirinto? Onde está a saída? Como um aluno do Dr. Pangloss, espero que os candidatos à Presidência da República apresentem as respostas.

É muito otimismo?

Revista IstoÉ

Biden afirma que Zelensky não quis ouvir alertas de invasão à Ucrânia




Já a Ucrânia diz que aliados não quisseram ouvir apelos de sanções

Lisboa - O presidente norte-americano, Joe Biden, afirmou, nessa sexta-feira, que o presidente ucraniano desvalorizou sucessivos avisos dos Estados Unidos de uma iminente invasão russa do país. Kiev reagiu neste sábado: aliados ocidentais "não quiseram ouvir" apelos a sanções preventivas contra Moscou, devolveu o porta-voz de Volodymyr Zelensky, Sergei Nikiforov.

"Muitas pessoas pensaram que eu estava exagerando", declarou Joe Biden durante uma recepção, em Los Angeles, destinada a levantar fundos para o Partido Democrático.

"Mas eu sabia que tínhamos informações nesse sentido. [Vladimir Putin] ia cruzar a fronteira. Não havia dúvidas e Zelensky não quis ouvir", acrescentou o presidente dos Estados Unidos. Biden lembrou que, nas semanas que antecederam a invasão, Zelensky chegou a mostrar irritação em público com os avisos de Washington.

A Administração Biden começou a fazer chegar a Kiev avisos sobre os preparativos para uma invasão da Ucrânia muito tempo antes de o presidente russo anunciar, na madrugada de 24 de fevereiro, uma "operação militar especial".

Reação

Sergei Nikiforov, porta-voz da Presidência ucraniana, reagiu às palavras do presidente dos Estados Unidos, afirmando que o próprio Zelensky pediu sanções preventivas contra a Rússia antes da invasão em larga escala, apelo que os parceiros da Ucrânia "não quiseram ouvir".

Segundo Nikiforov, o presidente ucraniano teve três ou quatro conversas telefônicas com Biden,antes da eclosão da guerra, durante as quais foram trocadas perspectivas e avaliações detalhadas: "Por isso, a frase 'não quis ouvir' precisa provavelmente ser esclarecida".

Por seu turno, Mykhailo Podolia, conselheiro de Zelensky, assegura que Kiev estava a par dos planos bélicos de Moscou. O presidente ucraniano, frisou o conselheiro, estava atento aos avisos. Todavia, a escala da ofensiva "chocou muitos países", incluindo parceiros da Ucrânia.

RTP - Rádio e Televisão de Portugal

Agência Brasil

Bolsonaro deveria manter diálogo com Joe Biden - Editorial




Levando em conta a expectativa, até que foi positiva a participação brasileira na Cúpula das Américas. O presidente Jair Bolsonaro viajou para Los Angeles de má vontade, tamanho o ressentimento acumulado com o americano Joe Biden, que derrotou seu aliado Donald Trump em 2020 (Bolsonaro foi um dos últimos a cumprimentar o vencedor). O encontro bilateral com Biden na quinta-feira serviu para desanuviar o clima e estabelecer o mínimo que se espera de antagonistas ideológicos que precisam zelar pelo interesse de seus países: um convívio civilizado.

Depois de 35 minutos de conversa com Biden, Bolsonaro demonstrou ter deixado para trás ao menos parte das restrições. Considerou o encontro “maravilhoso” e, ao que parece, compreendeu a importância de manter desobstruído o canal de comunicação com a Casa Branca. Em discurso ontem, ele manteve uma sobriedade que tem sido incomum ultimamente.

Isso não significa que as desavenças tenham sumido. Tome-se o exemplo da Amazônia. Ainda na campanha eleitoral, Biden afirmara que, se eleito, destinaria US$ 20 bilhões para “o Brasil não queimar mais a Amazônia”. No encontro com Bolsonaro, se referiu à necessidade de o Brasil receber ajuda para conservar a floresta. Bolsonaro, ainda assombrado pelo fantasma da “internacionalização” que apavora militares e nacionalistas, comentou que “por vezes nos sentimos ameaçados na nossa soberania”. Não parece haver avanço tangível nessas bases.

Um tema que tinha tudo para gerar celeuma é o endosso de Bolsonaro às mentiras de Trump sobre o resultado da eleição de 2020, mantidas até hoje por seus correligionários (os Estados Unidos acompanham com atenção as conclusões da comissão da Câmara que apontou Trump como mentor da invasão do Capitólio). Mas a satisfação do presidente brasileiro sugere que a questão não atravancou o diálogo.

Bolsonaro também foi comedido ao falar nas urnas eletrônicas brasileiras. Limitou-se, antes de as portas se fecharem para a conversa particular com Biden, a afirmar desejar eleições “limpas, confiáveis e auditáveis”. Pouco depois afirmou que chegou ao governo pela democracia e concluiu: “Tenho certeza de que, quando deixar, também será de forma democrática”. É um compromisso que lhe deve ser cobrado sempre que retomar sua retórica golpista.

Tudo caminhava para Bolsonaro nem comparecer ao encontro de Los Angeles, que já não contaria com o mexicano Andrés Manuel López Obrador, contrariado pelo veto dos Estados Unidos à presença dos ditadores de Venezuela, Nicarágua e Cuba. Sem Brasil nem México, os dois maiores países latino-americanos, a Cúpula de Biden naufragaria. Para evitar o desastre, ele enviou seu assessor especial Christopher Dodd a Brasília, que costurou o encontro bilateral.

O balanço positivo significa que a conversa fluiu sem desentendimentos insuperáveis. Claro que Bolsonaro está longe de ter vencido sua deficiência crônica no front externo. Sempre pesarão contra ele a política ambiental desastrosa, o alinhamento incondicional a autocratas como Trump ou o húngaro Viktor Orbán, a visita descabida a Vladimir Putin antes da invasão da Ucrânia e até a tentativa ridícula de levar a campanha eleitoral para a Flórida, com um passeio de motocicleta previsto para hoje. Mas foi importante, quase no fim do governo, ter estreado na diplomacia como ela deve ser exercida.

O Globo

Ecos do Capitólio - Editorial




Comitê apura atos insuflados por Trump, modelo de Bolsonaro em contestar eleição

Após quase um ano de apuração, com cerca de 800 prisões e mais de 1.000 entrevistas, começou nos EUA um procedimento congressual com potencial de evento histórico na principal democracia do globo.

Na quinta (9) ocorreu a primeira audiência pública do comitê da Câmara dos Representantes que investiga as circunstâncias da invasão do Capitólio, sede do Legislativo tomada de assalto por manifestantes insatisfeitos com a derrota de Donald Trump em sua tentativa de reeleição em 2020.

Naquele 6 de janeiro de 2021, as hordas haviam sido insufladas pelo então presidente a rejeitar a sessão do Congresso que viria a validar a vitória de Joe Biden, ritual burocrático do processo eleitoral.

O resultado foram as longas horas de horror da invasão, com figuras grotescas ocupando salas e galerias do edifício, encimadas por ao menos cinco mortes, algo inaudito na história norte-americana.

A culpa do republicano no episódio é cristalina. Mas, ciente do mundo de disputas de versões da política, o comitê buscou elaborar um acervo probatório robusto sobre o ocorrido, baseado em investigação própria e de outros.

Com efeito, foi chamado de caça às bruxas por Trump. Não há dúvidas de que, com 5 de 7 integrantes sendo do Partido Democrata que se opõe ao ex-presidente, há viés na sua forma de divulgação.

Espera-se que o relatório a ser desfiado em mais cinco sessões esteja impecável tecnicamente. Não irá convencer eleitores do ex-mandatário, mas poderá estabelecer um alerta. Afinal, como disse o presidente do comitê, o democrata Bennie Thompson, o perigo subsiste: "A conspiração para frustrar a vontade do povo não acabou".

O processo não deixa de ecoar no Brasil, atormentado pela cantilena golpista de seu presidente —nada por acaso um apoiador de Trump. Jair Bolsonaro (PL) pode até considerar o ídolo "passado", como disse antes de se encontrar com Biden na quinta (9), mas sua prática é outra.

O desprezo pelo regramento democrático, o roteiro de contestação prévia de resultados eleitorais desfavoráveis e a incitação à balbúrdia institucional são elementos inerentes à conduta do mandatário brasileiro.

A provável condenação do americano no comitê poderá levar a medidas judiciais. Cabíveis, riscam no chão uma linha que, com algum otimismo, pode servir de alerta para as intentonas do bolsonarismo.

Folha de São Paulo

Deterioração das lideranças impactou Cúpula das Américas, afirma idealizador do evento




Lideranças latino-americanas que não estão à altura do momento e a fragmentação política de Washington cobraram seu preço na nona Cúpula das Américas realizada esta semana em Los Angeles, aponta Richard Feinberg, que deu início à primeira reunião continental há quase 30 anos.

"O que vemos aqui em Los Angeles é sintomático dos problemas que assolam a América Latina e os Estados Unidos", disse em entrevista à AFP.

Desde que Bill Clinton e Al Gore foram aplaudidos em um auditório da Flórida pelos líderes de 33 países na primeira Cúpula das Américas, em 1994, muita coisa mudou na região, disse Feinberg.

"A qualidade da liderança em muitos países fica aquém do que eles precisam se comparado com 1994", acrescentou o acadêmico.

"O Brasil tinha Fernando Henrique Cardoso, um dos grandes intelectuais da segunda metade do século XX. Hoje em dia tem esse palhaço Bolsonaro."

Feinberg destacou a intervenção do novo presidente chileno, Gabriel Boric, a favor do diálogo.

"Isso, é claro, contradiz abertamente a posição de AMLO, ou de alguns dos líderes centro-americanos que decidiram que ficar em casa era melhor do que falar. É medo da troca cara a cara?"

- Ambiguidade -

Feinberg aponta que a fragmentação política de Washington também influenciou a Cúpula.

"Nos Estados Unidos você tem um país e um Partido Democrata tão dividido, tão polarizado, que é extremamente difícil para cada questão ter uma resposta política coerente. Devido a todas essas tensões e contradições, há uma tendência à ambiguidade intelectual e incoerência política", acrescentou.

"Sobre a imigração, fundamentalmente, somos a favor de somar mais imigrantes à força de trabalho americana, ou não? Somos a favor de uma transição energética? Na política internacional, queremos voltar à liderança global e ao multilateralismo ou basicamente estamos na fase 'Estados Unidos primeiro?'".

Feinberg diz que ainda é cedo para saber como o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, sairá desta Cúpula. "Mas noto que muitos observadores veem que o México torpedeou o evento realizado pelos Estados Unidos e, em resposta, recebem um convite pessoal para a Casa Branca."

"A mensagem que envia ao mundo é que se você causar problemas para os Estados Unidos, eles te estendem o tapete vermelho", disse Feinberg.

- "Momento mágico" -

A primeira Cúpula das Américas nasceu em menos de 48 horas.

Feinberg conta em seu livro "Summitry in the Americas" que foi uma visita do então vice-presidente dos EUA, Al Gore, ao México que solidificou a ideia.

Um dia antes de viajar, revisando seu discurso, Gore sentiu que faltava algo. Feinberg, que trabalhava na Casa Branca, enfatizou que o contexto era oportuno para uma cúpula.

"Este é um momento mágico", disse Clinton na abertura do evento de 1994, em Miami.

"O presidente Clinton era, e ainda é, muito admirado (... ) trouxe um nível de liderança, de perspicácia intelectual, de energia, de relativa juventude. Todos esses fatores, e o próprio Gore, que era visto como um peso pesado da política. Alinhamos os pontos positivos, e quando você compara com hoje, pode ver a diferença", diz Feinberg.

Voltando ao presente, Feinberg abordou as palavras de Biden na cúpula de negócios do evento: "Foi um discurso padrão ocasionalmente mencionando a América Latina", disse. "Os políticos dizem: 'Ele não está falando para este público, ele está falando para a Câmara. Mas a Câmara ouviu esse discurso 1.000 vezes. Por que eles têm que ouvir 1.001 vezes? Desculpe, acho que é uma política ruim."

AFP / Estado de Minas

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