Publicado em 11 de janeiro de 2022 por Tribuna da Internet

Pesa contra Moro ter aceitado a Justiça levando consigo o Coaf
Pedro do Coutto
A jornalista Catarina Rochamonte, Folha de S. Paulo de segunda-feira, errou de alvo ao citar Ruy Castro como empenhado em favorecer o lulismo e, por esse motivo, segundo ela, ter dirigido ataques ao comportamento de Sergio Moro.
Francamente, Catarina Rochamonte enganou-se completamente, bastando examinar os fatos. Sergio Moro figurava entre os de melhor imagem pública do país e aceitou ser ministro da Justiça de um presidente que, logo em seguida, demonstrou, para dizer o mínimo, desorientação, afastando-se de companheiros da campanha eleitoral.
COAF – O que de fato pesa contra Sergio Moro foi ter aceitado o Ministério da Justiça levando consigo o Coaf. Não dava para acreditar numa permanência nem de seis meses. O Coaf é o órgão mais sensível do universo político e empresarial. Controla os depósitos e transferências financeiras. É capaz de estranhar movimentações excessivas. Tem conhecimento até de depósitos no exterior. Estava claro, para quem conhece um pouco de política, que tal sistema não poderia ficar nas mãos de um ministro da Justiça disposto a combater a corrupção.
A corrupção é uma prática e tem que incluir obrigatoriamente pelo menos um setor político, um setor administrativo, uma fração empresarial. Pelo menos. Mas esta é outra questão. O fato é que Sergio Moro aceitando o Ministério da Justiça deixou desfocar sua imagem pública que se encontrava no auge. Ele, de fato, pela primeira vez no país, prendeu ladrões de casaca. Mas deixou-se levar pela ilusão. De forte candidato à Presidência transformou-se em um candidato de pouca densidade em matéria de votos.
O ex-presidente Lula da Silva cresceu nas pesquisas, como revelaram o Datafolha e o Ipec. A causa está na queda de Bolsonaro e no fato de o Supremo Tribunal Federal ter anulado a condenação de Sergio Moro contra Lula da Silva. O STF inclusive o considerou parcial nos processos.
PASSEATA DOS CEM MIL – Catarina Rochamonte citou o jornalista Frankilin Martins, que ocupou ao lado de Vladimir Palmeira e do marinheiro Elinor Brito, o comando da Passeata dos Cem Mil na Cinelândia contra a morte do estudante Edson Luís. Frankilin Martins é filho do senador Mário Martins, já falecido, um político importante do país, sobretudo por sua absoluta integridade. O conheci e fui amigo dele.
Mas o essencial é a constelação de fatos desastrosos e nocivos praticados por Jair Bolsonaro. Basta relacioná-los para explicar o avanço do lulismo na campanha para as urnas deste ano. Ao criticar o desempenho de Sergio Moro, Ruy Castro desvendou uma realidade, como os acontecimentos comprovam. Inclusive porque a candidatura Sergio Moro, a meu ver, nada representa ao que se refere qualquer perspectiva de êxito. Ele foi importante como juiz da Lava Jato, mas a sua imagem, o vento levou.
PRESSÃO DO CENTRÃO – Reportagem de Marianna Holanda, Julia Chaib e Ricardo Della Coletta, Folha de S. Paulo de ontem, revela que dos 23 ministros do governo Bolsonaro, pelo menos 12 serão candidatos às eleições de outubro e, portanto, terão que ser substituídos no início de abril, seis meses antes das urnas.
A reportagem acentua que sentindo muito forte as reivindicações do Centrão, Jair Bolsonaro empenha-se em blindar três ministérios: o da Saúde, o da Infraestrutura e o do Desenvolvimento Regional. Isso comprova o avanço do bloco governista no Congresso que, como em todo universo fisiológico, deseja cada vez mais poder ao que se refere à aplicação de recursos financeiros.
Valdemar da Costa Neto comanda a ofensiva e quando lançou, como fez no final da semana passada, a candidatura da ministra Tereza Cristina para vice-presidente, evidentemente teve também como alvo indicar a nova ou o novo titular da Agricultura. Uma análise importante será, depois das urnas, observar como os atuais ministros que forem candidatos saíram em relação aos resultados eleitorais. Conforme já escrevi, cada vez o presidente Bolsonaro perde votos ao longo da campanha.
FUSÕES E COMPRAS DE EMPRESAS – Stephanie Tondo e Vitor da Costa, O Globo, são autores de uma ampla reportagem revelando as grandes fusões e aquisições de empresas realizadas em 2021. Foram 1504 e, apesar do ano eleitoral, os repórteres apontam tendência de alta a médio prazo. Os resultados são economicamente importantes sobretudo porque significam um aumento de 45% em relação aos resultados de 2020.
É possível que tais fusões e compras reflitam no mercado de empregos, o que é positivo. Só é preciso saber se as aquisições e fusões resultaram de financiamento do BNDES , do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal. Neste caso, a grande base das operações foi formada por recursos públicos.
