sábado, agosto 21, 2021

Intenção e gesto

 



Enquanto o presidente e apoiadores mais estridentes elevam os decibéis, tribunais superiores, Câmara e Senado põem a bola para rolar no campo da legalidade

Por Dora Kramer

Uma coisa é o chefe do Poder Executivo dizer que vai fazer isso ou aquilo, outra é o Judiciário e o Legislativo fazerem acontecer exatamente o contrário, esvaziando com atos as palavras que ao longo do tempo tendem a cair no descrédito.

É o que acontece no Brasil: enquanto o presidente e apoiadores mais estridentes elevam os decibéis e acionam o modo da briga de rua, tribunais superiores, Câmara e Senado põem a bola para rolar no campo da legalidade deixando que Jair Bolsonaro e companhia façam gols contra em série.

Temos aí um embate entre a intenção de provocar e o gesto de enquadrar os provocadores aos costumes institucionais. De um lado, a gritaria, e de outro, o braço firme, por ora o vencedor do certame.

Em 28 de maio de 2020 o presidente reagiu à operação de busca e apreensão determinada pelo Supremo Tribunal Federal em endereços de gente investigada por participar de uma rede de disseminação de notícias falsas com a frase que lhe pareceu definitiva: “Acabou, p…, ontem foi o último dia”.

Pois aquele 27 de maio de 2020 marcou justamente o início de uma sucessão de decisões que viriam a colocar adoradores bolsonaristas em situações adversas e tornar o presidente em pessoa alvo de investigações variadas.

Vão de abuso de poder político e uso indevido de recursos públicos com fins eleitorais à inclusão em inquérito sobre organização criminosa digital, prevaricação e acusação de atacar a legitimidade do sistema eleitoral. Atrapalhar a realização de eleições é considerado crime contra o estado de direito, segundo o texto aprovado pelo Congresso em substituição à Lei de Segurança Nacional, ainda no aguardo de sanção do Planalto.

Mas, antes de a empreitada legalista alcançar os calcanhares presidenciais, atingiu gente cuja valentia não resistiu ao trajeto da prisão à tornozeleira eletrônica. A militante loura que queria “trocar socos” com Alexandre de Moraes e ameaçava “não dar paz” ao ministro até que ele pedisse “para sair” hoje se diz arrependida. O deputado que sonhou dar “uma surra” em Edson Fachin e pregou a destituição dos onze ministros do STF pediu desculpas, reconheceu o exagero e está com o mandato suspenso.

“A barreira da legalidade mostra que no campo das ameaças é mais fácil falar do que fazer acontecer”

O ex-deputado delator do mensalão, preso e cassado na ocasião, voltou à cadeia por incitação à violência, suspeita de participação na quadrilha das notícias falsas. Ganhou a notoriedade buscada depois de longo ostracismo, mas usufrui a fama atrás das grades. Já o cantor sertanejo que deu ordens ao Senado e prometeu desalojar o colegiado do Supremo “na marra”, caso não fosse obedecido, alegou ter sido mal interpretado e caiu em depressão.

É pouco? Pois há mais em matéria de gols contra. A Câmara derrotou o voto impresso e, de quebra, mostrou que o presidente não tem 257 votos para aprovar nem projetos de lei sem suar a camisa. Isso sem falar das manifestações em defesa da democracia vindas de variados e importantes setores da sociedade e de gente se fez com o apoio de Bolsonaro, como os presidentes da Câmara e do Senado.

Há quem reclame por mais veemência da parte de Rodrigo Pacheco e Arthur Lira, mas, convenhamos, não cabe a eles radicalizar o discurso muito, menos entrar na toada do presidente. Se vão muito adiante, daqui a pouco não lhes sobra nada a dizer além de mata e esfola como se faz por aí sem o compromisso institucional inerente aos comandantes do Legislativo.

Note-se, a propósito, que, se Lira não pôs a exame do plenário os pedidos de impeachment, tampouco os arquivou. Presidentes da Câmara nos governos de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio da Silva deram um fim à conversa sem acanhamento. Os de Bolsonaro estão lá, para todos os feitos e efeitos. Quanto aos pedidos de impedimento dos ministros Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso que o presidente diz pretender apresentar ao Senado, Rodrigo Pacheco já avisou de antemão que não passarão. Se de fato for levar os pedidos pessoalmente, o mandatário será cordialmente recebido, mas não será atendido.

Melhor evitar esse constrangimento, já que não desistirá de continuar a provocar a fim de “cavar” um impasse para 2022. A ideia é explícita, mas contra ele a institucionalidade constrói antídotos na forma de diálogo entre os poderes do qual se alija o presidente.

O recado é o seguinte: há forças com armas eficientes para o exercício do poder moderador. Mas, definitivamente, não são as Forças Armadas.

Revista Veja

Até quando Augusto Aras ficará com Bolsonaro?

 



A notícia-crime coloca ainda mais pressão para que o procurador-geral da República abandone Jair Bolsonaro

Por Ricardo Rangel (foto)

Quanto mais pressiona as instituições, mais difícil Bolsonaro torna a vida de seus aliados.

Em troca da recondução à PGR e de uma eventual vaga no Supremo, o procurador-geral da República Augusto Aras vem fazendo vista grossa para barbaridades cada vez mais bárbaras — e deixando muita gente cada vez irritada.

Dois senadores irritados com Aras, Alessandro Vieira e Fabio Contarato (justamente os dois delegados de polícia que integram a CPI), encaminharam ao STF notícia-crime contra o PGR, acusando-o de prevaricação.

A denúncia caiu na mão de uma ministra irritada com Aras, Carmen Lúcia, que a remeterá ao Conselho Superior do MPF.

O Conselho Superior, que Aras não controla, está repleto de procuradores irritados com o PGR, incluindo o presidente, Bonifácio Andrada.

Não é a primeira vez que senadores tentam investigar Aras, por sinal. Em julho passado, Vieira e Contarato, junto com o senador Randolfe Rodrigues, entraram com uma representação contra o PGR no próprio Ministério Público. Aras conseguiu barrar a iniciativa por meio de um seu aliado.

Vai ser bem mais difícil barrar o Supremo Tribunal Federal.

Aras está sendo pressionado a escolher entre Deus e o diabo. É quase certo que aguente o tranco até ser reconduzido. Depois, as coisas podem mudar.

Revista Veja

Senado será decisivo para Bolsonaro

 



Várias questões legislativas essenciais ao projeto de reeleição do presidente Bolsonaro passarão pelo Senado

Por Fernando Abrucio* (foto)

O futuro político do governo Bolsonaro está muito vinculado ao comportamento do Senado nos próximos meses. Aquela Casa legislativa tomará decisões centrais que impactarão fortemente a popularidade presidencial e o projeto de reeleição. Mais do que isso: está em jogo o equilíbrio democrático do país, uma vez que a Câmara federal e o Ministério Público Federal pendem mais para o lado do presidente da República, ao passo que o STF e a Federação são hoje contrapesos ao bolsonarismo. Do ponto de vista institucional, o desempate caberá aos senadores.

Dois fatores explicam esse lugar de árbitro do Senado. Um é estrutural, com caraterísticas que são intrínsecas à Casa. O outro é mais conjuntural e diz respeito à forma como Bolsonaro lidou com os senadores e a maneira como eles vislumbram seu futuro político imediato, especialmente com o olhar nas eleições de 2022.

Embora o bicameralismo tenha peculiaridades nos vários países que o adotam, a opção institucional por duas Casas legislativas geralmente transforma uma delas em espaço de uma elite política mais experiente. O Senado brasileiro cabe bem nesta definição. Normalmente atua como instituição revisora e moderadora de atos da Câmara federal e é composta majoritariamente por políticos com grande influência regional, sendo que uma parte deles foi inclusive governador - atualmente, cerca de 20% deles exerceram essa função. Outro elemento dá maior independência aos senadores: o tempo de mandato de oito anos, o que lhes dá mais autonomia na luta política imediata.

A este aspecto mais estrutural soma-se um cenário conjuntural que incentiva a maior independência do Senado em relação ao governo Bolsonaro. Apesar de muitos dos novos eleitos em 2018 terem vindo na onda da nova política que foi fundamental para o bolsonarismo, a maioria dos senadores não é completamente governista. Menos da metade se enquadraria nesta categoria e, quando o assunto é muito polêmico, o Executivo conta fielmente com cerca de 30 dos 81 membros desta Casa.

O que levou a este cenário mais desfavorável neste quadriênio? Primeiro, o pacto de troca de cargos e, sobretudo, recursos é bem mais azeitado com os deputados, que abocanharam a maior parte do chamado Orçamento secreto. Não por acaso Arthur Lira tem uma ligação mais orgânica e colaboracionista com o presidente da República, embora só será fiel enquanto isso for proveitoso eleitoralmente. Como se diz em Brasília, ninguém compra integralmente o Centrão, apenas aluga. Já no Senado há um sentimento muito forte de ser o “patinho feio” nesta barganha entre os Poderes.

Houve ainda brigas políticas do governo com lideranças estratégicas do Senado. Antes muito ligado ao bolsonarismo, especialmente na campanha eleitoral das eleições municipais de 2020, o senador Davi Alcolumbre, antigo presidente da Casa, hoje está magoado com o Planalto e colocando dificuldades no comando da Comissão de Constituição e Justiça. Renan Calheiros, o maior conhecedor dos meandros políticos da Casa senatorial, é oposição direta a Bolsonaro. O desenrolar da CPI da Covid-19 aumentou a quantidade de atritos e atiçou um espírito mais oposicionista, tanto por causa das loucuras e falcatruas descobertas pela investigação, como também em razão da frágil atuação da bancada governista. E outras mágoas mais poderiam ser listadas aqui, o que demonstra a inabilidade do Palácio do Planalto em lidar com caciques regionais mais experientes.

O próprio presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, mesmo tendo sido eleito com o apoio presidencial, tem obtido cada vez mais autonomia em suas ações. Ele tem aspirações políticas maiores e por isso leva em conta a perda de popularidade de Bolsonaro e, sobretudo, a visão negativa que setores relevantes da sociedade têm hoje do governo. Além disso, ao ser colocado no rol dos presidenciáveis por Gilberto Kassab (presidente do PSD), a manutenção de uma imagem independente, como caberia a uma das possíveis candidaturas de terceira via, tem sido alimentada.

O cenário de maior independência do Senado ganha uma enorme relevância por causa de quatro motivos: primeiro, a tentativa de diferenciar-se da Câmara federal; segundo, o fato de que muitos senadores poderão ser candidatos à reeleição ou a governos estaduais em lugares em que popularidade presidencial não vai bem ou onde candidatos vinculados ao bolsonarismo serão seus adversários; terceiro, as reiteradas críticas à democracia feitas por Bolsonaro colocaram o Senado numa posição de defensor político do regime democrático; e, quarto, várias questões legislativas essenciais ao projeto de reeleição do presidente da República passarão no segunda semestre por aquela Casa.

Diferenciar-se da Câmara hoje é, em poucas palavras, afastar-se do lado negativo da imagem do Centrão. É claro que há senadores que estariam próximos dos valores desse grupo, mas mesmo uma parte destes quer ter maior autonomia e não passar a imagem de serem meros colaboracionistas. Além disso, há pautas que estão sendo votadas ou já foram aprovadas pelos deputados que não agradam à maioria dos membros do Senado, como a volta das coligações em eleições proporcionais. O projeto desconjuntado de reforma tributária enviado por Paulo Guedes e transformado num Frankenstein pelo deputado Celso Sabino também terá muitas dificuldades para ser aprovado pelos senadores, seja pelos seus problemas intrínsecos, seja porque o Senado tinha um projeto mais estrutural de modificação dos tributos, gestado por vários anos e com apoio da maioria dos governadores, e que perdeu a primazia na agenda pública.

Muitos senadores são candidatos à reeleição ou a governadorias, e tal fato os coloca em diversos casos como potenciais adversários do presidente Bolsonaro. Na Região Nordeste, onde a popularidade do presidente é muito baixa, é muito complicado participar das eleições com apoio do Palácio do Planalto. Mesmo que novas políticas clientelistas sejam aprovadas para obter votos, a força de Lula e Ciro é bem grande e isso atrapalha estar ao lado do bolsonarismo. Nos Estados do Sudeste também não será fácil ter o presidente da República como cabo eleitoral, porque trata-se da região em que o oposicionismo ao governo federal, particularmente nas médias e grandes cidades, deverá ter um crescimento contínuo até outubro de 2022.

O bolsonarismo tem maior poderio eleitoral nas outras regiões, em especial no Sul e Centro-Oeste, bases agrícolas mais fortes do país. Exatamente por isso há uma grande possibilidade de haver uma inflação de candidatos buscando um rótulo bolsonarista nestes Estados, o que já incomoda uma parte dos senadores atuais que pretendem se reeleger ou concorrer aos governos estaduais. Assim, aumenta o número de membros do Senado que estão descontentes com o jogo radical do bolsonarismo.

Um terceiro motivo tem fortalecido a postura mais independente do Senado: a defesa política da democracia. A briga entre Bolsonaro e o STF/TSE é uma disputa de quem tem voto contra quem é togado. Isso deixa um vazio intrinsecamente político no contrapeso ao presidente da República, que poderia ser feito pela Câmara federal, mas que não ocorre pelo tipo de pacto político colaboracionista construído por Arthur Lira, sempre muito tímido nas críticas às falas e práticas autoritárias do bolsonarismo. Coube então a Rodrigo Pacheco, do ponto de vista institucional, o papel de baluarte do regime democrático com legitimidade eleitoral para realizar tal ação. Claro que ele cumpre esse papel de modo bem “mineiro”, pois essa não é só sua natureza, mas a forma de edificar uma imagem de terceira via no processo político.

A independência do Senado completa-se com seu papel na agenda legislativa. Caberá a ele, em primeiro lugar, definir o destino da CPI da Covid-19. O mais provável é que o relatório final seja muito duro e peça o indiciamento de figuras-chave do bolsonarismo, inclusive do presidente Bolsonaro. Isso terá, no mínimo, efeitos negativos na popularidade presidencial. Depois, os senadores terão que dizer se aceitam ou não a indicação de André Mendonça ao STF. Por ora, a estratégia é protelar, o que demonstra uma Casa que se posiciona como árbitro final do conflito político.

Mas esta configuração política terá como momento mais decisivo a votação dos projetos do Executivo criados para tentar viabilizar orçamentariamente a reeleição de Bolsonaro. É possível que os senadores coloquem dificuldades para aprovação da reforma tributária de Guedes e, principalmente, da PEC dos precatórios. Sem aprovar este último projeto, verdadeiro calote populista que destruirá as bases fiscais de longo prazo do país, o governo não garantirá o instrumento eleitoral para conquistar o voto dos mais pobres, seu calcanhar de aquiles. Desse modo, o Senado dará a palavra final sobre as chances eleitorais do bolsonarismo em 2022.

Muita água vai rolar em meio a essas decisões senatoriais, mas o governo deveria levar mais em conta a independência e os conflitos já existentes com o Senado para construir uma estratégia que ao menos minimize o impacto desse problema. A transformação dos ministros do STF em maiores inimigos é uma miopia de quem não está sabendo ler o jogo político atual e entender onde está o ponto nevrálgico para sua sobrevivência.

*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e professor da Fundação Getulio Vargas

Valor Econômico

Um beco com saída

 



Salta aos olhos que há um surto na 'demanda' por um candidato de centro viável nas eleições em 2022

Por Rogério Furquim Werneck (foto)

Na esteira da frenética mobilização do governo com o projeto da reeleição, o país se viu arrastado para grave crise institucional. Ao angustiante desalento com o provável desfecho da disputa presidencial, soma-se agora crescente apreensão com as tensões políticas e sociais por enfrentar, na longa e tumultuada travessia até o final do mandato de Bolsonaro.

É natural que estejamos assombrados por cenários soturnos. Mas a verdade é que ainda é muito cedo para nos deixarmos levar pelo pessimismo. A esta altura, parece mais frutífero explorar os limites do possível e tentar vislumbrar contornos de cenários mais promissores.

O quadro torna-se mais claro quando se tenta entrever as dificuldades da reeleição. Bolsonaro tem hoje três preocupações básicas. Duas delas perfeitamente legítimas: proteger sua retaguarda no Congresso e recuperar a popularidade perdida.

Sua terceira preocupação — assegurar a possibilidade de não aceitar uma derrota eleitoral — tem-se mostrado completamente tóxica. Não só para o país como para o próprio projeto da reeleição.

Para proteger sua retaguarda no Congresso, o presidente colocou todas as suas fichas no Centrão. Já tinha contratado um seguro básico contra o impeachment, em meados de 2020. Dobrou a aposta, em fevereiro, ao apoiar a eleição de Arthur Lira para a presidência da Câmara. E redobrou-a, agora, ao entregar a “alma do governo” a Ciro Nogueira.

Na fantasia de que poderá recuperar sua popularidade com uma farra fiscal, em 2022, Bolsonaro conta com sólido apoio do Centrão. Seus aliados só têm aplausos para a determinação do Planalto de fazer o que for preciso — whatever it takes — para viabilizar expansões eleitoreiras de gasto público no ano que vem.

Mas nem tudo são flores. Longe disso. Se há algo que não interessa em absoluto à cúpula do Centrão é dar respaldo à aposta de Bolsonaro numa escalada de confrontação que dê margem a um desfecho autoritário.

Nem tanto por convicção democrática, mas pela consciência clara de que o poder do Centrão advém das dificuldades de governabilidade do regime democrático vigente. Numa autocracia, todo esse poder desapareceria como por encanto.

Como Bolsonaro continua a dar sinais claros de que não abandonará a aposta na possibilidade de contestar o desfecho da eleição, as contradições de sua complexa relação com o Centrão deverão se exacerbar.

E tudo indica que tal aposta será tão mais pesada quanto mais convencido estiver o presidente de que não conseguirá ganhar no voto.

Mesmo que Bolsonaro deixe de ser um candidato tóxico, o Centrão ainda poderá ter boas razões para abandoná-lo, caso sua candidatura não tenha perspectiva clara de vitória. Não sendo um agrupamento monolítico, o Centrão poderá abandoná-lo aos poucos, à medida que seus membros reavaliem, à luz de seus desafios regionais específicos, a aliança que mais lhes convém na disputa presidencial.

Não faltará, claro, quem argua que, se a candidatura de Bolsonaro murchar, a vitória de Lula será inevitável. Mas vale a pena examinar outras possibilidades. São mais do que conhecidas as dificuldades envolvidas no surgimento, a tempo, de um candidato de centro com boa chance de ser eleito.

Merece atenção, contudo, o timing da percepção, a cada dia mais generalizada, de que Bolsonaro não é uma alternativa aceitável a Lula. E que, ademais, corre alto risco de ser por ele derrotado.

Seria bem pior se isso só ficasse óbvio em meados de 2022. Mas a escalada precoce de confrontação das instituições por Bolsonaro vem deixando isso mais do que claro desde já, bem mais cedo do que se temia. O que talvez crie, no campo fértil da ampla aliança que vem sendo formada para conter Bolsonaro, ambiente político favorável ao surgimento, a tempo, de um candidato de centro com chance de ser eleito.

Salta aos olhos que há um surto na “demanda” por um candidato de centro viável. O mínimo que se pode dizer é que a probabilidade de que tal candidatura desponte parece agora bem mais alta do que se imaginava há poucos meses.

O Estado de São Paulo

Centrão já ‘trai’ Bolsonaro com Lula

 



Por Por Vera Rosa (foto)

Enquanto em Brasília se discute crise entre os poderes, no Nordeste o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem fechado acordos para sua candidatura ao Palácio do Planalto com aliados do governo federal. Em sua primeira caravana pela região desde que voltou à cena política, Lula costura arranjos regionais com partidos que subiram ao altar com o presidente Jair Bolsonaro. Na prática, o Centrão está com Bolsonaro nas “quatro linhas” da Câmara, mas não tem fidelidade a ele fora do quadradinho, como a capital do País é conhecida.

As traições começam a se revelar justamente no Nordeste. Principal partido do Centrão, o Progressistas (PP) do presidente da Câmara, Arthur Lira (AL), e do ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, já rachou.

Hoje no núcleo duro do Planalto, Nogueira sempre foi considerado um hábil articulador político. Esteve com o PT num passado não muito distante, apoiou a candidatura de Fernando Haddad à Presidência em 2018 – embora o PP tivesse lançado a senadora Ana Amélia como vice na chapa de Geraldo Alckmin (PSDB) – e agora é definido por Bolsonaro como “a alma do governo”.

Poucos observaram, no entanto, que, em seu discurso de posse, Nogueira mesclou o slogan de Bolsonaro – Brasil acima de tudo, Deus acima de todos – com Viva o povo brasileiro!, romance de João Ubaldo Ribeiro conhecido por explorar o “embaralhamento” de posições em uma sociedade como a nossa.

Líder nas pesquisas de intenção de voto, Lula diz agora achar difícil que Nogueira tolere esse casamento de papel passado com Bolsonaro por muito tempo. Pré-candidato ao governo do Piauí, o ministro da Casa Civil tem bons motivos para deixar o Planalto, mas o fato é que, além dele, outros expoentes do PP e do Centrão, como os deputados Dudu da Fonte (PE) e André Fufuca (MA), hoje presidente do partido, apoiam Lula. Dudu é ligado a Nogueira, assim como Fufuca. Interlocutor assíduo do ex-presidente, Dudu esteve com ele em Brasília e agora no Recife. Quer concorrer ao Senado, assim como os deputados Silvio Costa Filho (PE), do Republicanos – legenda do Centrão associada à Igreja Universal – e André de Paula (PSD). Todos esses partidos são aliados do governador de Pernambuco, Paulo Câmara, que é do PSB e está com Lula.

“O Centrão não é um partido. Quando chegar a campanha de 2022, cada partido (do bloco) irá pensar como é que está sua tribo no seu Estado. Estou cansado de ver candidatos a presidente serem rifados”, afirmou Lula, em Teresina. Além de Pernambuco e Piauí, essa caravana pelo Nordeste inclui Maranhão, Ceará, Rio Grande do Norte e vai terminar na Bahia, onde o vice-governador João Leão é do PP.

Atento às movimentações de seu principal adversário, Bolsonaro intensificou as viagens pelo Nordeste. Nos bastidores, o marqueteiro João Santana, hoje com Ciro Gomes (PDT), tem dito ser quase impossível que um candidato em primeiro lugar nas pesquisas a mais de um ano das eleições, como Lula, mantenha essa posição até outubro de 2022, pois ainda levará muita sapatada.

O Nordeste onde os dois Ciros – o Gomes e o Nogueira – construíram suas trajetórias políticas é cada vez mais disputado por ser um poderoso celeiro de votos, capaz de definir uma eleição. Nesse jogo, até o governador de São Paulo, João Doria, que vai concorrer a prévia para escolha do candidato do PSDB ao Planalto, tem lembrado que seu pai era baiano. Até agora, porém, a terceira via não conseguiu furar a polarização entre Lula e Bolsonaro. Mas, como diz Fufuca, “muita água vai rolar debaixo da ponte até 2022”. Principalmente no mar do Nordeste.

O Estado de São Paulo

Bolsonaro em guerra, tenta subjugar o STF nomeando aliados e afrontando ministros

Publicado em 21 de agosto de 2021 por Tribuna da Internet

Charge postada por Rogéria, primeira mulher de Bolsonaro

Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense

Toda vez que o presidente José Sarney viajava para o exterior, o então senador Fernando Henrique Cardoso dizia, maledicente: “A crise viajou”. Mais tarde, viria a exercer dois mandatos na Presidência, passando também por seus dissabores. Hoje, os ex-presidentes têm bom relacionamento, mas jamais se tornaram amigos.

O presidente Jair Bolsonaro, porém, viaja muito pouco para o exterior. Ninguém o convida para compromissos bilaterais, e sua ida aos foros internacionais são puro desgaste, pela péssima imagem que tem no exterior. Com ele, a crise não viaja.

EXEMPLO DE JÂNIO – Políticas interna e externa não são assimétricas; quando isso ocorre, pode terminar muito mal, como no caso do governo de Jânio Quadros, cujo cavalo de pau no Itamaraty, ao condecorar Che Guevara em plena Guerra Fria, deixou-o em rota de colisão com os aliados, principalmente Carlos Lacerda, então governador da antiga Guanabara. Essa crise resultou na sua inopinada renúncia.

A longo prazo, os eixos duradouros da política externa são as relações comerciais e a identidade nacional, muito mais do que a momentânea orientação política de governo.

Hoje, a divisão internacional do trabalho nos reserva papel estratégico como produtor agrícola e de minérios e faz da China nosso principal parceiro comercial; em contrapartida, do ponto de vista identitário, o americanismo se amalgama à herança cultura ibérica, o que nos afasta do velho nacionalismo latino-americano.

PONTO FORA DA CURVA – Entretanto, politicamente, vivemos um ponto fora da curva no governo Bolsonaro. O presidente da República atua para nos colocar no eixo de países cujos governantes foram eleitos em pleitos manipulados, seja pelas regras do jogo, seja pelo controle dos meios de comunicação e/ou pela intimidação da oposição.

Como o presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, que ao assumir não tinha uma estratégia, Bolsonaro se movimenta exclusivamente para continuar no poder, com a diferença de que o líder russo sempre manteve alta popularidade, enquanto a sua derrete.

Controle das Forças Armadas, dos serviços de segurança, do Ministério Público, do Judiciário; aliança com oligarcas amigos e com a Igreja Ortodoxa Russa garantem a longa permanência de Putin no poder.

VIA DE PASSAGEM – Controlar o Judiciário é uma via de passagem para o autoritarismo. Na Hungria de János Áder, no poder desde 2012, juízes foram forçados a renunciar, e o regime fez 1.284 nomeações políticas. Os que sobraram perderam autonomia. Aqueles que permaneceram em suas funções tiveram sua autonomia confrontada. Na Turquia, 4,5 mil juízes foram presos e espoliados, nos últimos cinco anos, pelo governo de Tayyip Erdogan. Centenas continuam presos.

O atual presidente da Polônia, Andrzej Duda, do Partido Lei e Justiça, para se reeleger, gastou 40 milhões de euros com uma rede de fake news contra o Judiciário, com apoio do Ministério da Justiça e do Ministério Público.

Essas denúncias são do presidente da Associação Europeia de Juízes, José Igreja Matos, desembargador na cidade do Porto, em palestra virtual para magistrados brasileiros, segundo nos relata a jornalista Maria Cristina Fernandes, em sua coluna de ontem, no Valor Econômico.

NA EXTREMA DIREITA – Esse é o eixo de extrema-direita ao qual pertence Bolsonaro, depois da derrota do ex-presidente Donald Trump, nos Estados Unidos, e do ex-primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, em Israel. Com nenhum desses países, inclusive a Rússia, o Brasil tem relações comerciais robustas para sustentar essa política externa. Mas o que importa é o modelo. Bolsonaro está em guerra com o Judiciário, que pretende subjugar.

Primeiro, nomeando aliados para cargos estratégicos, como o procurador-geral da República, Augusto Aras, que pretende reconduzir, e o ex-advogado-geral da União e pastor evangélico André Luiz de Almeida Mendonça, indicado para a vaga do ex-ministro Marco Aurélio Mello no Supremo Tribunal Federal (STF). Ambos serão sabatinados no Senado, que pode homologar ou não seus nomes. É do jogo.

Segundo, pelo confronto com o STF, que pretende intimidar com a ameaça de um golpe de Estado. Não é do jogo.

TRAUMA NO SUPREMO – A cassação de Hermes Lima, Evandro Lins e Silva e Victor Nunes Leal pelo regime militar, que provocou a renúncia dos ministros Antônio Carlos Lafayette de Andrada e Antônio Gonçalves de Oliveira, é um trauma no Supremo até hoje.

Em 1971, o ministro Adaucto Lúcio Cardoso abandonou o plenário ao ser o único contrário à lei da censura prévia, editada pelo governo Médici. A regra permitia que censores ocupassem as redações dos jornais e vetassem a publicação de textos. Votou contra, despiu a toga e renunciou ao cargo.

A petição do impeachment de Moraes, que Bolsonaro assinou, é peça muito fraquinha…

Publicado em 21 de agosto de 2021 por Tribuna da Internet

Alexandre de Moraes tem pedido de impeachment feito por Bolsonaro

Moraes não devia ter assinado o ofício enviado a ele mesmo

Jorge Béja

Li as dezoito páginas da petição denominada “queixa-crime”, que Jair Bolsonaro endereçou e protocolou no Senado Federal com o pedido de impeachment do ministro Alexandre de Moraes do Supremo Tribunal Federal. E no final deste breve artigo segue o link da referida petição, para que nossos leitores a conheçam na íntegra.

A peça é assinada apenas por Jair Bolsonaro. Mas se percebe que não foi ele quem a redigiu. Forma, conteúdo e fundamentação partiram de quem é advogado.

LEU E CONCORDOU – Embora Jair seja leigo em Direito, é certo que, depois de pronta, ele leu a petição. Ou alguém leu a peça para ele, explicando linha por linha. E ele concordou. Mesmo porque a peça está formalmente bem feita. Nela, não se detecta erro vernacular nem gramatical.

O conteúdo é que é fraco. As acusações são genéricas. Não indicam a comprovação. A rigor, nem mesmo era preciso a prova. São fatos públicos e notórios e que independem de comprovação. O ponto central está no oficiamento que Moraes/TSE fez a Moraes/STF. 

O denunciado ministro oficiou a si próprio. Como integrante do Tribunal Superior Eleitoral, Moraes subscreve ofício ao Supremo Tribunal Federal, abordando crime que teria sido cometido por Bolsonaro. Até aí, nada demais. Mas não endereçou o ofício à presidência do STF, para proceder à livre distribuição. Moraes, que também assina o ofício, endereçou esse documento ao próprio Alexandre de Moraes, na condição de ministro do STF.

ISSO NÃO PODE – Em suma: Morais, do TSE, oficia a Moraes, do STF; E Moraes, do STF, acata o ofício de Moraes, do TSE, e atende o que nele contém. Realmente é uma tremenda irregularidade que compromete processos e inquéritos derivados desta anomalia.

Grave falta de ética. Moraes não deveria ter assinado o ofício que os ministros do TSE enviaram conjuntamente ao STF. Ou, decidindo assiná-lo, deveria pedir que fosse endereçado ao ministro Luiz Fux, presidente da Corte.

Mas não passa disso. Não passa de irregularidade procedimental. Não justifica a expulsão de Moraes do STF com a recepção, processamento, julgamento e acolhimento do impeachment.

https://static.poder360.com.br/2021/08/Impeachment-Alexandre-Moraes-Bolsonaro.pdf


Rui Costa autoriza eventos com até 500 pessoas em parte da Bahia; entenda

Rui Costa autoriza eventos com até 500 pessoas em parte da Bahia; entenda
Foto: Camila Souza / GOVBA

Assim como a prefeitura de Salvador, o governo da Bahia autorizou a realização de eventos com até 500 pessoas. A informação foi divulgada no final da noite da última sexta-feira (20) e já consta na edição deste sábado do Diário Oficial do Estado. O decreto é válido, inicialmente, até o dia 31 deste mês.

 

A publicação, assinada pelo governador Rui Costa (PT), autoriza eventos e atividades com público como cerimônias de casamento, eventos urbanos e rurais em logradouros públicos ou privados, circos, parques de exposições, solenidades de formatura, passeatas, funcionamento de zoológicos, museus, teatros e afins. A realização de shows, festas, públicas ou privadas, e afins, independentemente do número de participantes, segue suspensa em todo território baiano.

 

Nos municípios integrantes de Regiões de Saúde em que a taxa de ocupação de leitos de UTI Covid se mantenha, por cinco dias consecutivos, superior a 50%, os eventos e atividades devem acontecer com público de até 100 pessoas.  

 

O decreto mantém a orientação relacionada à realização de atividades esportivas, que devem permanecer sem a presença de público. Espaços culturais como cinemas e teatros devem obedecer a limitação de 50% da capacidade de pessoas no local.

 

Em relação às atividades letivas nas unidades de ensino públicas e particulares, as aulas poderão ocorrer de forma semipresencial nos municípios integrantes de Região de Saúde em que a taxa de ocupação de leitos de UTI Covid se mantenha, por cinco dias consecutivos, igual ou inferior a 75%, obedecendo a ocupação de 50% da capacidade das salas de aula.

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