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Declaração deTrump gerou desconforto nos mercados
Pedro do Coutto
O presidente Donald Trump deu um passo arriscado no tabuleiro da geopolítica ao condicionar o apoio financeiro dos Estados Unidos à Argentina ao sucesso eleitoral de Javier Milei nas próximas eleições parlamentares. A declaração, feita em tom de ultimato, rompeu o código tácito da diplomacia moderna, segundo o qual a ajuda internacional não deve estar sujeita à conveniência política ou à permanência de um aliado no poder.
Trump afirmou que manterá o suporte “se ele vencer; se não vencer, estamos fora” — frase que transformou o gesto de cooperação em ameaça aberta de intervenção. O episódio ocorre num momento em que a Argentina tenta estabilizar uma economia exaurida por décadas de inflação, dívida e desequilíbrio fiscal.
REFORÇO – A Casa Branca havia aprovado uma linha de apoio cambial de cerca de US$ 20 bilhões para reforçar as reservas do Banco Central argentino e conter a escalada do dólar paralelo. O pacote foi interpretado como um sinal de confiança no plano econômico de Milei, que vem promovendo uma agenda de liberalização radical, com corte de subsídios, privatizações e promessa de dolarizar a economia.
O gesto de Trump parecia, até então, um aceno pragmático a um governo ideologicamente alinhado ao seu próprio discurso de austeridade e soberania nacional. Mas a condicionalidade eleitoral muda completamente o sentido da política externa americana.
Vincular ajuda econômica ao desempenho de um governo nas urnas é transformar a cooperação em chantagem. A Argentina, que busca reconstruir credibilidade diante de credores e organismos multilaterais, passa a enfrentar o dilema de depender de um apoio condicionado ao humor político da Casa Branca.
DESCONFORTO – Analistas destacam que a fala de Trump gerou desconforto tanto entre diplomatas quanto nos mercados: a incerteza sobre a continuidade do socorro financeiro fez o peso oscilar e reacendeu a memória traumática de crises passadas.
A postura de Trump revela três camadas de cálculo. A primeira é ideológica: Milei representa, na América Latina, o espelho mais fiel do projeto trumpista — um populismo liberal, avesso ao Estado e ancorado no discurso antissistema.
A segunda é geopolítica: ao consolidar um aliado estratégico em Buenos Aires, os Estados Unidos buscam conter a influência crescente da China e da Rússia na região, reforçando um cinturão conservador em torno de governos de direita na América do Sul.
CAPITAL POLÍTICO – A terceira é doméstica: Trump, em campanha para manter o capital político dentro e fora do país, usa a cena internacional como palco para reafirmar sua autoridade e testar a força de sua retórica de “América dominante”.
Na Argentina, a reação foi imediata. Partidos da oposição classificaram a fala como uma “ingerência inadmissível”, enquanto aliados de Milei tentaram amenizar o tom, alegando que o apoio americano é “estratégico e permanente”. A verdade é que, ao atrelar ajuda a resultados eleitorais, Trump colocou o próprio governo argentino em posição delicada: se vencer, será visto como beneficiário de tutela externa; se perder, como vítima de sabotagem internacional. Em ambos os casos, a soberania argentina sai arranhada.
Historicamente, a América Latina tem sido campo fértil para experiências desse tipo. Durante a Guerra Fria, Washington condicionava empréstimos, armas e infraestrutura ao alinhamento político.
DÚVIDAS – Hoje, o método é mais sofisticado — e, paradoxalmente, mais explícito. A declaração de Trump não apenas reabre velhas feridas sobre dependência e autonomia, mas também lança dúvidas sobre a própria natureza da política externa americana sob seu comando.
O episódio deixa uma lição amarga: quando o poder econômico se transforma em instrumento de pressão política, a cooperação cede lugar à submissão. Ao agir como um banqueiro de eleições, Trump ameaça corroer não apenas a estabilidade de um vizinho estratégico, mas também a credibilidade dos Estados Unidos como líder democrático.
A soberania, em qualquer latitude, não se negocia em troca de dólares. E a democracia, por mais frágil que seja, não pode ser tratada como moeda de apoio eleitoral.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Observem que Trump não é um político-estadista. Pelo contrário, é um político-empresário e quer ter levar vantagem em tudo. (C.N.)