Publicado em 8 de outubro de 2025 por Tribuna da Internet

Brasil se reposiciona como ator relevante num cenário internacional
Pedro do Coutto
O encontro entre Lula da Silva e Donald Trump, realizado na última segunda-feira, expôs com clareza a natureza móvel da política contemporânea. Ao longo das últimas décadas, poucos cenários foram tão reveladores do poder dos gestos diplomáticos e de sua capacidade de alterar o curso das narrativas internas quanto esse diálogo entre Brasília e Washington.
O Brasil, até recentemente sob o peso de tarifas americanas e alvo de declarações hostis de Trump, viu-se novamente convidado a negociar em pé de igualdade. E o próprio presidente norte-americano, pragmático por essência, reapareceu no centro da cena internacional, sinalizando disposição para uma reaproximação comercial com o país.
ABALOS – O contexto ajuda a dimensionar o significado político desse encontro. Desde o início do ano, a relação bilateral vinha sofrendo abalos. Trump, em sua segunda passagem pela Casa Branca, havia adotado um discurso de defesa intransigente da indústria americana e chegou a anunciar aumento tarifário sobre produtos brasileiros.
As justificativas, típicas de seu estilo populista, misturavam argumentos econômicos e motivações ideológicas, em parte associadas à perseguição judicial de Jair Bolsonaro — seu aliado político mais visível na América Latina. O gesto irritou o Itamaraty, que reagiu apontando o superávit brasileiro nas trocas com os Estados Unidos e pedindo tratamento equilibrado.
Era, portanto, improvável imaginar uma reaproximação no curto prazo. No entanto, a lógica diplomática raramente obedece às expectativas: interesses concretos costumam falar mais alto que ressentimentos.
OPORTUNIDADE – Para Lula, o encontro foi uma oportunidade cuidadosamente construída. Ao aceitar a conversa e enfatizar o pragmatismo econômico, o presidente brasileiro acenou a dois públicos distintos. Internamente, mostrou-se capaz de dialogar com lideranças de direita, o que lhe garante uma imagem de estadista aberto e não sectário.
Externamente, reforçou o papel do Brasil como interlocutor confiável e disposto a recompor pontes. Pesquisas futuras poderão medir o impacto dessa postura sobre sua popularidade, mas o gesto, por si só, já desloca o centro de gravidade da polarização política nacional. Lula sabe que, em tempos de desgaste da política tradicional, gestos de moderação e diálogo têm forte apelo simbólico.
Para Trump, a equação é igualmente estratégica. Envolvido em disputas internas e tentando consolidar apoio popular num ambiente econômico de inflação persistente, ele precisa demonstrar resultados tangíveis. O Brasil, com sua base de commodities e seu potencial de importação de insumos americanos, oferece uma oportunidade de exibir pragmatismo e “capacidade de fazer negócios”.
REVISÃO DE TARIFAS – Segundo informações apuradas por veículos como Bloomberg e O Globo, Trump teria sinalizado disposição para rever parte das tarifas impostas, um movimento que, se concretizado, traria ganhos tanto políticos quanto econômicos. Essa postura reafirma um traço essencial de sua liderança: a capacidade de transformar conflitos em moedas de troca.
O encontro, porém, extrapola o campo econômico. Ele toca diretamente o equilíbrio político interno brasileiro. O bolsonarismo, que construiu pontes diretas com setores da direita americana, sobretudo por meio do deputado Eduardo Bolsonaro, viu-se subitamente deslocado.
A imagem de Lula ao lado de Trump, negociando em pé de igualdade, esvazia a narrativa de que apenas a antiga base bolsonarista manteria interlocução privilegiada com Washington. O gesto reforça a solidão política da extrema direita e recoloca o governo brasileiro no centro do tabuleiro internacional.
TESTE DA REALIDADE – Há também uma lição mais ampla sobre a natureza da política. As teorias de estabilidade ideológica e lealdades fixas raramente resistem ao teste da realidade. A política é movimento permanente, e as alianças são tão sólidas quanto a utilidade que oferecem no momento.
O que ontem parecia impensável — um aceno amistoso entre Lula e Trump — hoje se impõe como fato. Isso não significa adesão ou alinhamento ideológico, mas o reconhecimento de que a diplomacia é, antes de tudo, instrumento de interesse nacional. Lula age em consonância com essa lógica: ao abrir o diálogo, reduz tensões comerciais, fortalece sua imagem internacional e amplia seu espaço de manobra doméstica.
Ainda é cedo para avaliar se a aproximação se converterá em acordos concretos. O histórico de Trump em temas comerciais é volátil, e há resistências internas tanto no Congresso americano quanto em setores industriais sensíveis. Do lado brasileiro, também há cautela: as promessas de redução tarifária precisam se materializar para que o gesto político ganhe densidade econômica.
SIMBOLISMO – No entanto, mesmo que os ganhos imediatos sejam modestos, o simbolismo já é expressivo. O Brasil deixa de ser mero espectador para se reposicionar como ator relevante num cenário internacional marcado por incertezas e rearranjos de poder.
No fundo, o encontro entre Lula e Trump evidencia que as relações internacionais são, cada vez mais, um espelho das dinâmicas internas. Ambos os líderes buscam, a seu modo, legitimação política através da diplomacia.
Lula quer demonstrar competência e moderação; Trump, força e pragmatismo. O resultado é uma reaproximação que, embora surpreendente à primeira vista, é coerente com a lógica da sobrevivência política. E como em todo jogo de poder, vence quem entende que a realidade é móvel — e sabe mover-se com ela.