Uma das principais entidades do lobby armamentista no Brasil vem usando o sistema de justiça para intimidar jornalistas e organizações da sociedade civil, na tentativa de silenciar críticas.
É o que demonstra um levantamento inédito da Rede Liberdade, que atua em casos de violação de direitos e liberdades individuais.
Nos últimos cinco anos, a Associação Nacional Movimento Proarmas abriu 27 ações no judiciário contra jornalistas e entidades que fizeram algum tipo de publicação crítica à organização – o equivalente a uma média de um processo judicial a cada dois meses. Só em 2021 foram 20 processos contra veículos da imprensa.
O Proarmas foi criado por Marcos Pollon inspirado na organização estadunidense National Rifle Association, a Associação Nacional do Rifle, que utiliza o mesmo lema da entidade brasileira: “não é sobre armas, é sobre liberdade”.
Para defender a possibilidade de proliferação de fuzis no país, a entidade usa o eufemismo de que luta pela "restauração do direito fundamental de permanecer vivo por meio do acesso à legítima defesa".
Uma das autoras do levantamento sobre a controversa estratégia judicial do Proarmas, a advogada Amarílis Costa, diretora executiva da Rede Liberdade, diz que a entidade instrumentaliza o Poder Judiciário como uma arena política.
"Esse tipo de ação temática tem uma finalidade envolta na intimidação da imprensa, na corrosão da esfera pública, e principalmente na criação de uma atmosfera predatória em relação à Justiça", diz.
A maior parte dos processos abertos pelo Proarmas são por “obrigação de fazer” e “danos morais” de matérias jornalísticas, geralmente por publicações que relacionam entidade com o aumento de circulação de armas ilegais.
A diretora-executiva do Instituto Sou da Paz, Carol Ricardo, diz que as ações judiciais da entidade ligada a Pollon são uma tentativa de intimidar a sociedade civil e a imprensa que publica pautas críticas sobre armas e CACs, que é a categoria de colecionadores, atiradores desportivos e caçadores.
“Isso demonstra um jogo muito pesado e antidemocrático - a gente viu lá atrás o dono da Havan e a própria Universal - essa é uma estratégia para você calar a voz de jornalistas e organizações que se opõem”, afirma Ricardo.
A entidade abandonou 14 processos e, em alguns casos, não respondeu a pedidos do judiciário essenciais para que as ações fossem adiante, como a apresentação da ficha com os nomes dos seus alegados 3 mil membros.
Além disso, o estudo da Rede Liberdade aponta que costuma ocorrer uma fixação indevida do valor da causa. Apesar de a associação ter pedido indenizações que chegam a R$ 3 milhões, o Proarmas costuma registrar o valor da causa em apenas R$ 10 mil, o que evita o risco de um pagamento proporcional de custas processuais ao final da ação.
“A gente tem atuado muito firmemente no Ministério da Justiça no sentido do mapeamento dessas violências e na construção de uma espécie de rol dos assediadores judiciais. Queremos entender os padrões do assédio judicial direcionado a jornalistas e profissionais de comunicação, e coibir isso”, defende Amarílis Costa, que integra o Observatório da Violência contra Jornalistas e Comunicadores Sociais, na Secretaria Nacional de Justiça.
Carol Ricardo, do Sou da Paz, lembra que Pollon não só defende a pauta armamentista, como se destacou no Congresso Nacional na defesa de pautas anti-democráticas.
"É um deputado que joga muito com o bolsonarismo e com uma lógica golpista muito forte. O que nos leva a esse lugar de: bom, se é só sobre o cidadão de bem que quer ter armas, preocupa esse jeito tão desequilibrado. A gente não sabe se amanhã, essa turma não sairá por aí para defender um golpe ou qualquer coisa assim", analisa.
Entrei em contato com o deputado Marcos Pollon, que informou que hoje é apenas apoiador da associação. "Não respondo mais pela associação desde as eleições de 2022", escreveu em mensagem. Questionei sobre a maior parte dos processos serem da época de sua gestão no Proarmas, mas não houve retorno até a publicação da matéria.
Já o Proarmas defendeu que os processos são para "combater informações falsas e distorcidas decorrentes do viés desarmamentista e por vezes até preconceituoso".