Enquanto conversava com Thaís, seu tio, Heraldo, que é mestre de obras, apareceu. Ele reforçou as críticas ao projeto original do imóvel: “A casa está toda rachando. E uma calçada é pra ter dois metros, não seis metros como tinha aqui”, reclamou.
Menos de dois anos após a entrega das casas, veio a pandemia. Thaís, o marido e as crianças ficaram confinados no espaço apertado. “Era enlouquecedor”, ela me disse, enquanto apontava para o quarto que virou cozinha. “A gente pensava: ou aumenta, ou morre sufocado.”
Hoje com quatro filhos, ela também se mostrou afetada pelas críticas nas redes sociais. “O povo da internet me chamou de favelada, sem educação, que eu não estudo, que eu tenho que passar educação pros meus filhos. A minha moradia não significa que não tenho educação.”
Medo de represálias
Conversei com outros moradores, que pediram para que eu não gravasse entrevista com medo da exposição e de eventuais represálias. Segurança e falta de privacidade foram outros motivos apontados para a ampliação.
Eles responderam a críticas sobre a “tomada das calçadas” dizendo que o trecho nunca teve passagem livre: nem no tempo dos barracos, nem nos imóveis entregues pela prefeitura, que previam os carros estacionados onde passariam os pedestres. “E tem calçada do outro lado. É que na foto está circulando por aí, não aparece”, disse um dos moradores.
Nessa conversa, ouvi outras motivações para as ampliações das casas. Entre elas, a ausência de privacidade, já que as portas e janelas davam direto na rua, bem como o barulho constante. “Minha filha é autista, precisa de espaços mais protegidos”, disse uma gestante.
O temor, agora, é de que a repercussão do caso faça com que eles não possam mais morar ali. “Eu estou desesperado com isso. Todo mundo aqui é honesto, trabalhador e não tem para onde ir. Vão tirar a gente daqui?”, me perguntou um homem.
Novo Habitat, velhos problemas
A verdade é que o caso da Rua Novo Habitat, em Diadema, não expôs apenas a violência nas redes sociais. Revelou também os limites de uma política habitacional que, décadas depois de sucessivos programas públicos, ainda não consegue garantir moradia digna e acompanhamento adequado às famílias de baixa renda.
Para entender o problema mais profundamente, resolvi ir atrás do responsável pela entrega dos imóveis em 2018, o ex-prefeito Lauro Michels. Ele me atendeu e relembrou que o projeto nasceu de uma tentativa de evitar o despejo de famílias que viviam em barracos “insalubres e desumanos”.
Perguntei a ele como reagiu às ofensas feitas por figuras da extrema direita. “Ninguém tem mais ou menos caráter por morar aqui ou ali”, afirmou Michels. Para ele, a discussão nas redes se tornou “cansativa” e marcada por generalizações políticas, enquanto as verdadeiras questões — moradia, segurança e acompanhamento — foram deixadas de lado.
O ex-prefeito afirma que as moradias atendiam às necessidades das famílias naquele momento. “No verão, os barracos eram um forno microondas; no inverno, um freezer. O projeto buscou garantir o mínimo de dignidade”, disse.
Sobre as ampliações feitas depois da entrega, o ex-prefeito reconhece que “cada um tem sua necessidade”, mas defende que cabe ao poder público fiscalizar e orientar. “Durante a minha gestão, as casas estavam em ordem. As ampliações respeitavam os recuos e as calçadas”, afirmou.
‘A arquitetura no Brasil ainda é elitista’
Conversei também com a doutoranda em arquitetura e urbanismo Ester Carro, que preside o Instituto Fazendinhando e pesquisa moradia digna nas periferias. Segundo ela, o espanto gerado pelas imagens do Novo Habitat revela mais sobre o olhar de quem critica do que sobre os moradores. “É como se a periferia tivesse aparecido agora”, diz.
Ela lembra que a estética das favelas — marcada por puxadinhos, cores e improvisos — é frequentemente lida como sinal de desordem, quando, na verdade, expressa autonomia e criatividade. “O que muitos chamam de feio é, na verdade, uma arquitetura viva, diversa, feita por quem mora e conhece o território.”
Carro aponta que o distanciamento entre arquitetos e moradores é uma das causas da descaracterização dos conjuntos habitacionais. “Quem desenha as nossas cidades? Há consulta aos moradores para entender o que eles querem ou precisam?”, questiona. “A arquitetura no Brasil ainda é elitista. Atende ao gosto da classe média alta e ignora as necessidades reais das famílias populares.”
A pesquisadora, que atualmente cursa o doutorado na USP e na universidade holandesa TU Delft, destaca ainda que o problema vai além das casas. “No Brasil, não existe uma política pública de acompanhamento pós-ocupação”, explica.
Para Carro, o caso de Diadema é um retrato dessa ausência de políticas integradas. “Isso não é exceção. Acontece em praticamente todos os conjuntos que não têm zeladoria ou administração interna”, afirma. Ela defende que o poder público crie conselhos de moradores e processos coletivos de decisão. “Quando há diálogo e gestão, o espaço é cuidado. Quando não há, cada um tenta resolver do seu jeito.”
‘A política habitacional no Brasil é um fracasso’
Uma das maiores referências em urbanismo no país, a professora Raquel Rolnik, da USP, também vê o episódio como sintoma de um problema estrutural. “A história da política habitacional no Brasil é uma história de fracasso”, diz. “A maior parte das moradias foi construída por autoconstrução — pessoas explorando a si mesmas, sem recursos e sem apoio técnico.”
Rolnik critica o fato de a política de moradia ser desenhada a partir dos interesses do mercado e não das pessoas. “Ela é pensada entre a indústria da construção, a imobiliária e a financeira — e muito pouco com base nas necessidades reais da população.”
Para Rolnik, há ainda uma contradição no discurso moralista de políticos que atacaram os moradores de Diadema. “É curioso que alguém como Nikolas Ferreira, defensor da liberdade de construir e do empreendedorismo popular, condene essas famílias. O que elas fizeram é justamente o que ele exalta: criaram soluções por conta própria, sem apoio do estado.”
A gramática do ódio na extrema direita
Foi justamente essa contradição — entre o discurso moralista e a realidade concreta — que me levou a procurar a professora Letícia Cesarino, da Universidade Federal de Santa Catarina, uma das principais pesquisadoras do país sobre extrema direita e linguagem digital. Quis entender por que a história de uma rua periférica virou metáfora moral nas redes e combustível para o discurso de ódio.
Segundo ela, o caso de Diadema mobiliza códigos profundos do imaginário político brasileiro. “A extrema direita transformou o senso comum em arma de guerra”, afirma. “Eles operam com uma gramática de oposições — feio e bonito, ordem e desordem, perigo e segurança — que ativa reações viscerais nas pessoas.”
Para Cesarino, esse tipo de discurso funciona porque apela à emoção e demarca fronteiras entre grupos. “Quando reiterado, ele leva à desumanização. O outro deixa de ser visto como humano.”
Ela explica que o ataque aos moradores de Diadema ecoa a velha narrativa segundo a qual o “cidadão de bem” seria parasitado pelos pobres. “A ideia é que quem trabalha e produz está sendo explorado por quem não quer trabalhar — os favelados, os assistidos, os que bagunçam o que recebem. É um subtexto de parasitismo social que pega muito porque está no senso comum.”
Para ela, essa moralização das causas sociais é o que torna o discurso perigoso. “Eles não enxergam fatores estruturais ou econômicos. Atribuem tudo ao caráter, ao espírito, à moral das pessoas”, diz. “E quando se naturaliza que alguém é ‘irrecuperável’, abre-se a porta para justificar sua exclusão — ou até sua eliminação simbólica.”
Entre as falhas da política habitacional e a ignorância de quem condena, as casas do Novo Habitat se tornaram símbolo de uma velha história: a distância entre o Brasil idealizado e o Brasil que existe — aquele que, sem escolha, precisa continuar construindo sozinho.