em 14 out, 2025 3:56

Ricos no Brasil: ‘brasileiro é obcecado por ricos por crença ilusória na mobilidade social’, diz antropólogo que se infiltrou na elite –
Rute Pina
Role, Da BBC News Brasil em São Paulo

Em uma tarde em Genebra, na Suíça, o antropólogo Michel Alcoforado precisou aconselhar uma herdeira em crise moral. A brasileira, dona de um fundo de investimentos, se questionava se valeria a pena pagar 15 mil euros para fazer a cópia de um perfume, usado por gerações de mulheres da sua família.
Filha de um ex-banqueiro e de uma família tradicional de São Paulo, ela dizia questionar o tamanho da desigualdade social, já que poderia adquirir uma fórmula naquele valor enquanto milhares de brasileiros estão na miséria.
“Ela decide comprar porque entende que aquilo resgatava uma tradição familiar e que o cheiro ficaria marcado para ela e para seus descendentes. Eu e você, que compramos perfumes de massa, não teremos jamais essa possibilidade”, diz o antropólogo.
Ele, que estuda há 15 anos a vida dos super-ricos brasileiros, diz que esse episodio é um símbolo do tamanho dos muros construídos para separar as classes sociais no país. “Isso revela uma distância enorme, até no cheiro, não só no dinheiro.”
O resultado da sua pesquisa é o livro Coisa de Rico: A Vida dos Endinheirados Brasileiros (Todavia), que em dois meses de sua publicação já vendeu mais de 37 mil exemplares e está na sétima tiragem — a primeira esgotada antes mesmo do lançamento.
“Aqui [no Brasil] a gente gosta de rico. Gostamos de saber dos ricos porque, de algum modo, todo mundo imagina que em algum momento ficará rico, uma crença ilusória sobre o processo de mobilidade da sociedade brasileira”, afirmou em entrevista à BBC News Brasil.
Alcoforado, doutor pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e fundador da consultoria Consumoteca, ganhou o apelido de “antropólogo do luxo” ao investigar o impacto do consumo na vida dos brasileiros.
Ele defende que a régua da renda ou do patrimônio não basta para entender quem é rico no Brasil. Para o antropólogo, a riqueza no país é uma questão de performance e domínio de códigos.
Em sua pesquisa, ele ressalta que, ao contrário dos EUA, onde a ideia de riqueza está ligada à construção de um império, a elite brasileira a associa à conquista, naturalizando a própria posição de poder.
“A ideia do vocabulário da conquista traz algo fundamental para pensarmos as diferenciações de classe no Brasil: ela está muito atrelada à busca incessante por naturalizar a posição”, afirma.
O antropólogo, que também é host do podcast É Tudo Culpa da Cultura e comentarista da rádio CBN, afirma que sua pesquisa trata, sobretudo, de como a desigualdade social brasileira é mantida e reproduzida. Toda matéria aqui.
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