
Charge do Iotti (Zero Hora)
Carlos Newton
Bolsonaro não tem cultura nem vocação para político, pois seus 28 anos na Câmara passaram quase em branco, com poucos projetos apresentados e que se tornaram leis, como a exigência da impressão do voto na urna eletrônica. Ele sempre tratou a política apenas como meio de vida, para dar sustento às famílias oriundas de seus três relacionamento conjugais sucessivos.
Quando era capitão e se rebelou contra os baixos salários dos militares, escrevendo um explosivo artigo na Veja e liderando um plano ridiculamente “terrorista” para explodir bombas em dependências militares, ninguém poderia prever que ele chegasse à Presidência da República.
BOM DE VOTO – O fato concreto é que, após ser levado a abandonar a farda, o jovem Bolsonaro se candidatou a vereador em 1988 e foi eleito pelo PDC com 11.062 votos, que fizeram dele o 16º vereador mais votado do Rio, cujo mandato ele dedicou à defesa dos militares, policiais e bombeiros.
Dois anos depois, já era famoso no meio, animou-se a sair para deputado federal e teve impressionantes 67 mil votos Percebeu logo que tinha criado uma grife político-militar e em 1992 candidatou a primeira mulher, Rogéria Bolsonaro, para disputar uma cadeira de vereadora e ela foi eleita. Desde essa época, o capitão Jair Bolsonaro só perdeu uma eleição – em 2017, quando disputou a presidência da Câmara. Foi o último colocado, com apenas quatro votos, enquanto Rodrigo Maia recebeu 293.
VIROU EVANGÉLICO – Há alguns anos, com extraordinário senso de oportunidade, resolveu se lançar candidato à Presidência, visando a se beneficiar do desencanto dos eleitores em relação aos políticos em geral. Como parte inicial do plano, em 12 de maio de 2016, no mesmo dia em que o Senado pegava fogo na votação do impeachment de Dilma Rousseff, o capitão-deputado Bolsonaro era batizado no Rio Jordão, em Israel, pelo pastor Everaldo Pereira, criador e presidente do PSC, partido ao qual já se filiara.
Curiosamente, nem mesmo o pastor Everado acreditava nas chances de Bolsonaro e lhe negou a legenda para sair candidato à Presidência. Bolsonaro tentou o PEN, que até virou Patriota, mas às vésperas do prazo fatal acabou se filiando ao PSL, um inexpressivo partido criado pelo deputado pernambucano Luciano Bivar, um cartola futebolístico de má fama.
FACADA ELEITORAL – Os concorrentes eram muito fortes, mas Bolsonaro soube usar a internet e o celular, colocou outdoors nas estradas, fez uma campanha barata e perfeita, que foi amplificada pelo atentado de Adélio Bispo. A facada quase tirou a vida do candidato, mas lhe garantiu a eleição.
Um ano e três meses depois, Bolsonaro infantilmente arrisca esse colossal patrimônio e provoca um choque contra o Congresso e o Supremo. Embriagado pelo sucesso, não lhe passa pela cabeça que no regime presidencialista nenhum presidente consegue governar sem ter maioria parlamentar.
“DUAS CARAS” – Como deputado, era a favor das emendas impositivas, por saber que se trata de uma maneira de evitar que o governo só libere os pedidos dos parlamentares da base aliada, arquivando as emendas dos oposicionistas, como sempre aconteceu. De repente, agora é contra, comportando-se como o personagem “Duas Caras” na história do Batman.
Assim, Bolsonaro traça o mesmo caminho de João Goulart, Fernando Collor e Dilma Rousseff, que não souberam montar uma sólida base parlamentar. Este ano, vai precisar do Congresso para autorizar as pedaladas orçamentárias que vem dando desde o início do governo. Se o Congresso lhe negar a licença para descumprir a “regra de ouro” (limite de gastos), ficará caracterizado o crime de responsabilidade e o impeachment se tornará uma ameaça concreta.
Se Bolsonaro pensa (?) que será socorrido e protegido pelas Forças Armadas, como Hugo Chávez e Nicolas Maduro armaram na Venezuela, desculpe, foi engano. Os militares vão lhe virar as costas, solenemente, tipo “meia-volta, volver”.