
Charge do Nani (nanihumor.com)
Pedro do Coutto
A exoneração de Marcos Cintra, sob o ponto de vista político, abala fortemente o Ministro Paulo Guedes e descarta a criação de uma nova CPMF, talvez para sempre, nesta gestão. Foi manchete dos quatro grandes jornais, O Globo, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e Valor. O fato essencial da questão foi que a ordem de afastá-lo da Receita partiu do próprio presidente Jair Bolsonaro, no hospital no qual se encontra internado.
Esta informação adicional foi feita pelo General Hamilton Mourão, presidente em exercício, e ganha assim uma importância enorme, na medida em que acentua a revolta justificada do presidente da República, que já havia afirmado ser contra o novo imposto.
EFEITOS – A reportagem de Marcelo Correa, Geralda Doca, Naira Trindade e Jussara Soares, edição de hoje (12 de setembro) de O Globo, destaca bem claramente todo o emaranhado do episódio, cujo desfecho apresenta-se como definitivo. O acontecimento, conforme eu já disse, abala fortemente a posição política de Paulo Guedes, porque, na mesma edição de O Globo, Miriam Leitão destaca que Marcos Cintra não era o único responsável pela elaboração do projeto que visava a implantação de mais um imposto, a nova CPMF..
Miriam Leitão chama atenção para uma entrevista do próprio Paulo Guedes, publicada no Valor, na qual ele falava de um imposto sobre transações financeiras, substituindo a recriação da CPMF. O ministro, lembra Miriam Leitão, falou até numa escadinha para o novo tributo: primeiro 0,2%.
Portanto, Paulo Guedes, na verdade, não poderia agora dizer que não sabia da proposição. Além do mais não só o Valor mas todos os grandes jornais vinham publicando matérias sobre o assunto. Mas no Valor a iniciativa cresce de importância porque as frases contidas na entrevista de Paulo Guedes são absolutamente claras e diretas.
MAL NA FOTO – No final da ópera, Paulo Guedes ficou muito mal na fotografia, como se diz usualmente, e ao assinar a portaria afastando Marcos Cintra, faltou-lhe coragem para assumir os estudos finais do malfadado projeto. Política é assim. Os ocupantes de cargos nos governos têm que estar preparados para desastres do mesmo tipo.
O presidente Bolsonaro já vinha dizendo há tempo que descartava o retorno da CPMF, mesmo sob a sigla de IPF. Assim, Guedes de fato revelou não ter dado importância ao veto do presidente da República. Porque se tivesse dado a importância devida, teria arquivado a simples sugestão de Marcos Cintra.
Não o fazendo, e agora o exonerando, Paulo Guedes desceu fortemente da posição que ocupava no governo Bolsonaro. Ele não podia ignorar o desencadeamento da matéria até o ponto de ruptura ocorrida com a determinação presidencial. Paulo Guedes se precipitou e a precipitação abala seu poder e o expõe a riscos ainda maiores.