quinta-feira, fevereiro 16, 2023

Na intolerância moderna, é fácil motivar hordas digitais e causar danos a alguém

Publicado em 16 de fevereiro de 2023 por Tribuna da Internet

Salman Rushdie Replies To Person Who Said His Books Are S***

Salman Rushdie, cego de um olho, após o último atentado

Fernando Schüler
Veja

Salman Rushdie está de volta. Ele reapareceu, depois de longa recuperação, com algumas cicatrizes e um tapa-olho cobrindo a lente dos óculos. Durante um longo tempo, Rushdie foi um homem marcado para morrer. Depois de lançar seus Versos Satânicos, em 1988, recebeu a fatwa, a condenação do aiatolá Khomeini. No início viveu recluso. “Nos primeiros meses nos mudávamos a cada três dias”, conta, “e logo me vi sozinho, vivendo em uma casa cercada por policiais”.

Com o tempo, foi relaxando. Mudou-se para Nova York, em 2000, e decidiu que “tinha uma vida para viver”, e não o faria sob a lógica do terror.

ESPIRITUOSO E MODESTO – Tive a rara chance de conhecê-lo, no Brasil, em 2014, e guardo a memória de um homem espirituoso e modesto, em sua fala, dizendo que, “se o mundo por vezes busca nos estreitar, a literatura nos lembra que somos amplos”. Mas seu destino estava marcado. Três décadas se passaram, até que o longo braço do fanatismo o pegou.

Em agosto de 2022, foi esfaqueado quando se preparava para falar em uma escola próxima a Nova York. Foram quinze facadas, que lhe fizeram perder o movimento de uma mão e o olho direito.

Sua volta é uma redenção. A vitória do “espírito humano”, na frase de Winston Smith, o herói de Orwell, em 1984, a seu torturador, quando estava por um fio. Rushdie também esteve por um fio, e só consigo pensar nele como um herói de verdade, em nossa tradição iluminista.

Ainda que assustadora a história de Rushdie pode, estranhamente, nos tranquilizar. Em primeiro lugar pela reação do mundo intelectual. Quando um ato trágico e desumano acontece, aprendemos alguma coisa. Enxergamos uma face da barbárie, e com isso abrimos caminho à frente.

INTOLERÂNCIA – Há algo também tranquilizador por um motivo duvidoso: a agressão que ele sofreu veio de uma “outra cultura”. Do universo sombrio do fundamentalismo religioso, de modo que podemos dizer: por aqui, dois séculos depois de Voltaire, somos diferentes. Superamos o fanatismo, venha ele de onde vier.

E é aí que as coisas começam a embaralhar. Por óbvio não condenamos ninguém mais à morte, por divergência política ou religiosa, fora em um ou outro tuíte ou artigo de jornal, mas andamos longe de um mundo pautado pela tolerância.

Ainda agora, a Fundação para os Direitos Individuais na Educação fez uma ampla pesquisa, nos EUA, perguntado se os cidadãos acham que a democracia está ameaçada “por que as pessoas estão com medo de expressar as suas opiniões”.

EXISTE AMEAÇA – Resultado: 58% dos entrevistados concordaram, parcial ou integralmente. Os números são frios. O interessante mesmo são as histórias. A Fundação identifica casos de professores censurados em universidades por tratarem de temas controversos.

Foram 591 episódios documentados nos últimos sete anos. Um professor é punido por questionar cirurgias transgênero em adolescentes; outro por criticar uma política de cotas e convidar Charles Murray para uma palestra; ainda outros por alguma frase “polêmica” sobre Israel, Maomé, armas, 11 de Setembro, Black Lives Matter.

No conjunto, uma incrível mistura de intolerância, mal-­entendidos e prepotência. Uma vergonha, para ser direito, em um universo — a universidade — que deveria ser espaço de diálogo e liberdade.

E NO BRASIL – Uma vergonha e um alerta. No Brasil, parece evidente que também vivemos uma época de intolerância, e é possível que o shilling effect, ou o “efeito medo” já funcione antes de muita gente dizer alguma coisa fora do padrão.

Há uma sociedade polarizada e ficou fácil mobilizar uma pequena horda digital para causar dano a alguém e pressionar instituições, seja uma rádio, seja uma empresa. Por vezes, a coisa não dá certo.

Nesta semana li a cartinha de um grupo de alunos do diretório estudantil da Faculdade de Direito da USP tentando banir Janaina Paschoal no retorno à sua atividade como professora. Os argumentos são conhecidos: ela se aliou ao lado “errado” da política, não assinou a carta que deveria ter assinado, curiosamente em “defesa da democracia”. Talvez por isso o caso tenha ganhado notoriedade. De um lado, a defesa da democracia; de outro, a negação do pluralismo.

DE VOLTA AO PASSADO – Apoiadores do lado político que fez 49% dos votos nas eleições devem ser banidos de uma universidade pública. Fosse isso levado à sério, o Brasil voltaria ao século XVIII, quando luteranos não podiam dar aulas em universidades francesas, e católicos em universidades na Inglaterra.

Sempre me impressiona a repetição de erros velhos. A boa notícia é o sentido didático disso tudo. Ele veio pela mão do professor Floriano Marques, com uma resposta simples aos donos da verdade:

“Discordo da quase totalidade de suas opiniões”, referindo-se à professora Janaina Paschoal, “o que não me impede de respeitar seus pontos de vista”.

DEFESA DE PAINE – As palavras do professor me fizeram lembrar de um grande advogado inglês, Thomas Erskine, que fez a histórica defesa de Thomas Paine, em 1792, acusado de sedição pela Coroa.

Paine havia sido um dos heróis da independência americana, era um republicano e crítico feroz do sistema aristocrático inglês. E havia deixado isso claro com a publicação de “Os Direitos do Homem”.

Criticado por assumir a defesa de Paine, a primeira coisa que Erskine faz é uma vigorosa defesa da advocacia. “O mais precioso bem de um inglês é ter a prerrogativa de um julgamento imparcial”, diz.

NÃO ERAM CRIMES – Ele sutilmente deslocava a questão: seu ponto não era defender as posições de Paine, mas mostrar que, por mais que ofendessem as visões do governo e dos próprios jurados, não eram crimes reconhecidos pela lei inglesa. Era preciso distinguir forma e conteúdo.

As ideias de Paine poderiam ser hostis à Constituição, mas seu direito de as expressar estava protegido por essa mesma Constituição.

Erskine perdeu o caso, mas a história lhe deu razão. Seu argumento traduz a mesma tradição iluminista simbolizada naquele rosto marcado de Salman Rushdie. Tradição que reflete o melhor de nossa herança cultural e que pode nos fazer recuar quando alguém propuser expulsar uma professora com ideias divergentes.

SOMOS COMPLICADOS – Ainda guardo na memória as palavras de Rushdie, naquela noite em São Paulo, dizendo que era um erro reduzir as pessoas a um credo político, identidade ou religião. Que somos mais complicados que isso, e que no fim do dia temos mais em comum com os outros do que imaginamos, e que a literatura é um bom caminho para compreendermos essas coisas.

“Vivi para ver a ascensão e queda de um império”, diz Pampa Kampana, personagem fantástico de seu último livro, “e tudo que resta agora é esta cidade de palavras”. É esse o sentido. Um apelo à humildade intelectual.

O reconhecimento de que nossos juízos por vezes falham, miseravelmente, o que frequentemente parecemos esquecer.

Em Sergipe, governo e oposição comem no mesmo prato

 em 16 fev, 2023 8:15

Adiberto de Souza


A cada dia fica mais invisível em Sergipe a linha que separa o governo e a oposição. Ao contrário do que ocorria nos tempos da UDN e do PSD, quando o político mudava de calçada para não cruzar com o adversário, hoje as desavenças têm se restringido às campanhas eleitorais, período em que governistas e oposicionistas se engalfinham nos palanques para atrair a simpatia da plebe rude e ignara. É óbvio que ninguém deseja voltar aos tempos brutos do coronelismo político, quando adversário era tratado como inimigo figadal, porém daí a comer no mesmo prato já é demais também. E foi o que aconteceu ontem, quando as principais lideranças do PT sergipano foram ao comes e bebe oferecido pelo governador Fábio Mitidieri (PSD) ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Todos os felizes convidados para o regabofe pareciam farinha do mesmo saco. Ora, participar do palanque montado para recepcionar o “Barba” é uma coisa. Outra bem diferente é se empapuçar, sem a menor cerimônia, na mesa farta do adversário, deixando transparecer para a opinião pública que os virulentos ataques verbais trocados na campanha passada pelo PSD e o PT não passaram de encenações urdidas para iludir os eleitores incautos. Misericórdia!

Quase sergipano

O governo federal ganhará um auxiliar quase sergipano. Estamos falando do ex-governador de Brasília, Rodrigo Rollemberg (PSB), convidado pelo vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) para assumir a Secretaria de Economia Verde, Descarbonização e Bioindústria. Este ex-gestor da capital federal nasceu no Rio de Janeiro, mas é filho do sergipano Armando Leite Rollemberg, um japaratubense que foi deputado estadual e federal por Sergipe antes de virar ministro do Superior Tribunal de Justiça. Na última eleição, o quase sergipano Rodrigo Rollemberg disputou um mandato de deputado federal, mas não se elegeu. Ah, bom!

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E tome promessas

Como anunciamos aqui, o presidente Lula (PT) veio a Sergipe encher a barriga do povo de promessas, muitas inviáveis a curto prazo, como o imaginário Canal de Xingó. Em Maruim, o “Barba” disse que a roda gigante da economia vai começar a girar. Tomara! Depois anunciou a retomada das obras da interminável duplicação da BR-101, no trecho de Sergipe, almoçou, palitou os dentes e avionou de volta à Brasília. Deixou entre os sergipanos a vã esperança de que as suas promessas serão cumpridas. Oremos!

Turista quer sossego

Ao que parece, é enorme o número de pessoas que preferem a tranquilidade à fuzarca carnavalesca. Ao menos foi o que deixa transparecer um levantamento feito pela Associação Brasileira da Indústria de Hotéis. Segundo a pesquisa, durante o feriado de Carnaval a taxa de ocupação de leitos na rede hoteleira de Aracaju deve chegar a 90% de sua capacidade. O secretário de Comércio e Turismo de Aracaju, Jorge Fraga, garante que quem visita a capital sergipana nesta época do ano quer sossego, coisa que Aracaju oferece de sobra, além de atividades ao ar livre, sol, praias, parques, cultura diversificada e uma culinária de dar água na boca. Aff Maria!

Fuleiragem com a imprensa

Parece que os organizadores da visita do presidente Lula a Sergipe detestam a imprensa. Prova disso foi o cercadinho fuleiro armado para encurralar os jornalistas e radialistas. Presos no apertado curral, montado à distância do palanque, os coleguinhas comeram o pão que o diabo amassou, num calor infernal, provocado pelo sol a pino do verão nordestino. Ufa! Nem uma simples cobertura os infelizes disponibilizaram para proteger quem estava trabalhando. Segundo a comunicação do governo de Sergipe, a sacanagem contra a nossa imprensa foi perpetrada pelos auxiliares do “Barba”. Home vôte!

Bem cotado

Comenta-se nas esquinas de Sergipe que o senador Alessandro Vieira (PSDB) pode ser o coordenador da bancada federal sergipana. Aliado de última hora do governador Fábio Mitidieri (PSD), o tucano não apoia o governo Lula (PT), mas também não faz oposição. O senador ressalta que atua com independência: “Estamos sempre buscando o melhor para Sergipe e para o Brasil”, frisa. Ele revela que a sua missão em Brasília “é garantir a voz da população na tomada de decisões e trabalhar incansavelmente por políticas públicas eficazes”. Então, tá!

Endereço certo

E o senador Rogério Carvalho (PT) postou uma indireta com endereço certo. Após escrever que o Brasil voltou a funcionar e que, graças à PEC da Transição, as obras da BR-101 foram retomadas, o fidalgo fustigou o governador Fábio Mitidieri (PSD), seu principal adversário político: “O engraçado é que quem votou contra a PEC da Transição, hoje [ontem] estava em Maruim tentando pegar carona na obra da BR-101”. Em dezembro passado, da bancada de Sergipe na Câmara federal, apenas os deputados Gustinho Ribeiro (Republicanos) e Fábio Mitidieri votaram contra a PEC citada por Rogério em sua indireta. Crendeuspai!

Duplicação defendida

Os deputados estaduais Georgeo Passos (Cidadania) e Marcos Oliveira (PL) defenderam na Assembleia a união da classe política sergipana em defesa da duplicação da BR-235, no trecho que corta Sergipe. O cidadanista lembrou que o trânsito naquela rodovia é intenso, principalmente entre Aracaju e Itabaiana. Já Marcos afirmou que governos passados chegaram a anunciar estudos em torno da duplicação, só que não se falou mais no assunto: “A dificuldade no trânsito na BR-235 tem atrapalhado o desenvolvimento de toda a região”, discursa o parlamentar do PL. Danôsse!

Apareceu a margarida

Longe dos eventos públicos desde as eleições de outubro, o ex-governador Jackson Barreto (MDB) deu as caras, ontem, no palanque montado em Maruim para recepcionar o presidente Lula (PT). E durante seu discurso, o petista fez questão de citá-lo. Após lembrar que JB é ex-prefeito, ex-governador e seu amigo de sempre, o petista lhe agradeceu pela presença no evento, que marcou a retomada das obras de duplicação da BR-101 em Sergipe. Satisfeito com a citação de seu nome, Jackson ficou de pé e agradeceu os aplausos do público. Marminino!

Fraternidade e fome

O arcebispo de Aracaju, dom João Costa, concede entrevista coletiva, nesta quinta-feira, para falar sobre a Campanha da Fraternidade 2023, a ser lançada, na próxima quarta-feira, pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Neste ano, a Campanha tem que tema “Fraternidade e fome”, e o como lema “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14,16). Esta é a terceira vez que a Campanha da CNBB foca no combate à fome. O tema foi trabalhado em 1975, com o lema “Repartir o pão”, e em 1985, “Pão para quem tem fome”. Amém!

Recorte de jornal

Publicado no jornal aracajuano Folha de Sergipe, em 1º de março de 1908.
Esta coluna é publicada pelos seguintes sites: Destaquenotícias, Infonet, Faxaju, Luxoaju, Leiamaisba, Espaço Vivre e no Jornal Zona Sul.

INFONET

Gilmar impede que juízes derrubem decreto de Lula sobre armas

 MÔNICA BERGAMO

***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 10.09.2021 - O ministro do STF Gilmar Mendes. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 10.09.2021 - O ministro do STF Gilmar Mendes. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)



SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes suspendeu nesta quarta (15) todos os processos de instâncias inferiores que discutem a legalidade do decreto do governo Lula que impôs um controle maior sobre o acesso da população a armas de fogo.

Decisões já tomadas ou que venham a ser publicadas contra a medida baixada por Lula serão imediatamente tornadas sem efeito. O magistrado afirma que a medida busca evitar decisões conflitantes em diferentes varas do país.

Afirma também que "inexiste, na norma constitucional brasileira, um direito fundamental ao acesso a armas de fogo pelos cidadãos e a aquisição e o porte de armas de fogo no Brasil".

Ele disse ainda que é necessário frear uma "tendência vertiginosa de flexibilização das normas de acesso a armas de fogo e munições no Brasil enquanto se discute nova regulamentação da matéria".

Depois de tomar posse, Lula editou um decreto que revogando normas do governo de Jair Bolsonaro que facilitavam e ampliavam o acesso a armas.

O decreto de Lula suspendeu novos registros de armas por caçadores, atiradores e colecionadores (CACs) por particulares, reduziu os limites para compra de armas e munição de uso permitido, suspendeu novos registros de clubes e escolas de tiro e a concessão de novos registros para CACs e criou um grupo de trabalho para propor nova regulamentação para o Estatuto do Desarmamento, de 2003.

"Nos últimos anos, o Estatuto do Desarmamento foi objeto de uma série de regulamentações sucessivas que tinham como propósito declarado a ampla flexibilização do plexo de normas regulamentares relativas à aquisição e acondicionamento de armas e munições, aos requisitos e procedimento de registro e concessão de porte de trânsito de arma de fogo aos CACs e aos requisitos e procedimento de registro de clubes e escolas de tiro, observando-se até mesmo uma ampliação das situações em que o cadastro e registro de armas de fogo poderia ser dispensado", anotou ainda o ministro.

"Em suma, observou-se clara atuação inconstitucional no sentido da facilitação do acesso a armas e munições no País, beneficiando especialmente a categoria dos CACs (com interpretação cada vez mais leniente de quem nela se enquadraria), a despeito de outros bens jurídicos constitucionais relevantes, como o dever de proteção à vida", seguiu ele.

O magistrado afirma que o assunto do desarmamento versa sobre "tema de grande potencial para lesionar os mais elevados bens jurídico-constitucionais de cunho individual (como vida e integridade física) e valores coletivos de primeira ordem, como a paz social e o Estado Democrático de Direito", o que é ilustrado pela "sequência de acontecimentos transcorridos no período situado entre o fim das eleições gerais e o atentado terrorista de 8 de janeiro de 2023, abertamente patrocinados por grupos armamentistas".

YAHOO

Procuradoria tenta evitar que ação criminal contra Bolsonaro vá para primeira instância

Publicado em 16 de fevereiro de 2023 por Tribuna da Internet

PGR pede arquivamento e cita exploração eleitoral de ação contra empresários

Procuradora recusa uma das ações, mas aceita outras nove

João Pedroso de Campos
Veja

Depois de o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinar o envio de uma ação do senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) contra o ex-presidente Jair Bolsonaro à primeira instância da Justiça do Distrito Federal, na semana passada, a Procuradoria-Geral da República entrou em campo para tentar reverter o entendimento de Fachin.

Em agravo regimental enviado ao ministro na sexta-feira, 10, a vice-procuradora-geral da República, Lindôra Maria Araújo, pede que ele reveja sua decisão, mantenha o caso no STF, rejeite a queixa-crime e determine seu arquivamento, seguindo parecer da PGR, ou envie a questão para julgamento colegiado no Supremo.

PEDIDO DE ARQUIVAMENTO – Fachin mandou a ação ao Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios diante do fim do mandato de Bolsonaro, que encerrou a prerrogativa de foro privilegiado dele no Supremo.

O argumento da auxiliar do procurador-geral da República, Augusto Aras, é de que o próprio STF, ao limitar o foro privilegiado a crimes cometidos durante e em função do mandato, em julgamento em maio de 2018, e em decisões posteriores, determinou que a competência da Corte sobre um processo deve ser prorrogada em algumas situações – mesmo que a prerrogativa de foro privilegiado tenha se encerrado pelo fim de mandato.

Uma dessas situações, sustenta a Procuradoria, é a de haver pedido de arquivamento pelo Ministério Público Federal. A PGR se manifestou em março de 2022 pela rejeição da queixa-crime de Randolfe contra Bolsonaro pelo crime de difamação.

ARGUMENTAÇÃO – “Se pelas conclusões do titular privativo da opinio delicti com atribuição para atuar no feito, a análise dos autos reveste-se de maturidade suficiente para fundamentar o encerramento das investigações, em especial, promovendo-se seu arquivamento, não subsistem motivos para que o feito seja submetido a declínio de competência, quando esta já se encontra prorrogada no âmbito do Supremo Tribunal Federal, conforme sua própria jurisprudência”, escreveu Lindôra Araújo.

Na semana passada, além da ação apresentada por Randolfe Rodrigues contra o ex-presidente, o STF enviou à primeira instância da Justiça Federal do Distrito Federal outros nove pedidos de investigação contra Bolsonaro. A PGR, no entanto, não questionou essas outras decisões.

DENÚNCIA FALSA – Protocolada em julho de 2021 no STF, a queixa-crime de Randolfe Rodrigues, atual líder do governo Lula no Congresso, contra Jair Bolsonaro teve como base um vídeo e postagens publicadas nos perfis de Bolsonaro nas redes sociais naquele mês, em que ele atribuiu a Randolfe negociações pela compra da vacina indiana Covaxin – as tratativas pela aquisição feitas pelo governo Bolsonaro foram alvo de suspeitas e investigações pela CPI da Pandemia. No vídeo, Randolfe cobra celeridade da Anvisa pela liberação do uso dos imunizantes Covaxin e Sputnik no Brasil.

Na ação, que pede a imposição de uma multa de 35 mil reais a Jair Bolsonaro, a ser destinada a pessoas em situação de vulnerabilidade, a defesa de Randolfe Rodrigues afirma que a competência para comprar vacina é do Ministério da Saúde e o senador não teve nenhuma ingerência sobre o processo de contratação.

O vídeo em que aparece cobrando a Anvisa, diz a ação, foi “mera súplica cidadã” para que o imunizante fosse comprado com mais celeridade.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – O dado mais importante da reportagem está sem destaque. É o fato de a Procuradoria comandada por Aras ter apoiado o envio de nove processos contra Bolsona para a primeira instância federal, que julga muito mais rápido do que o Supremo. Mas tudo isso é perfumaria, porque Bolsonaro está perto dos 70 anos e os crimes vão prescrever, garantindo a impunidade dele. (C.N.)

Crença na capacidade de mudar o mundo pode ser só um engano para todos nós

Publicado em 16 de fevereiro de 2023 por Tribuna da Internet

O irracional respeito à autoridade é o maior inimigo da verdade. (Albert Einstein)Luiz Felipe Pondé
Folha

A humanidade não está adaptada ao progresso. Evoluiu na escassez e na hostilidade do meio ambiente. O progresso é uma doença evolucionária. A crença na sua capacidade de mudar o mundo para melhor pode ser um dos maiores enganos da história da adaptação da espécie.O sucesso temporário da técnica nos faz delirar acerca de nossa autonomia racional, moral e política.

Não se trata de nostalgia do passado —o mundo nunca foi um paraíso. Trata-se de constatar que as dificuldades às quais os humanos estavam submetidos podem ter funcionado como controle dos seus delírios e falta de noção de limites.

AMBIENTE HOSTIL – Uma vez tendo vivido por centenas de milhares de anos num meio ambiente que lhe era hostil, os humanos ficavam constrangidos em seu poder imaginativo e destrutivo. Com isso não me refiro apenas a riscos ambientais evidentes, refiro-me também à própria noção de progresso técnico, moral e político infinito.

A definição de animal racional para o ser humano me parece excessivamente afobada, afinal, a frágil e recente razão não é algo facilmente aprendido. Pelo contrário, suspeito mesmo que nos seja antinatural, por isso, tamanho esforço para agirmos de forma racional.

Faço aqui minhas as reflexões do filósofo basco espanhol Miguel de Unamuno (1864–1936) na sua obra capital —traduzida no Brasil— “Del Sentimiento Tragico de La Vida En Los Hombres y En Los Pueblos”, Alianza Editorial.

OBSESSÕES IRRACIONAIS – Tomando como referência filósofos importantes da tradição ocidental, Unamuno levanta a hipótese de que mesmo eles, figuras conhecidas pela capacidade racional de articulação de conceitos e ideias, criaram sistemas apenas para manifestar seus humores fisiológicos e suas obsessões irracionais.

Por exemplo, a ideia hegeliana de que o real seja racional é incrivelmente inconsistente. Reconstruindo o real a partir de conceitos pensados, Hegel (1770-1831) cria um mundo que não existe, como se este fosse um Lego de peças abstratas.

O real tem pouco de racional e aquilo que nele o é dura pouco tempo e depende de exterioridades incontroláveis pela razão. Limites biológicos, fisiológicos, políticos, sociais, históricos, psicológicos, e por que não, cosmológicos impõem fracassos os mais variados a sustentação racional do mundo.

Se as pessoas são irracionais, inconsequentes e egoístas…...IRRACIONALIDADES – Empresas pouco devem à meritocracia, vitórias em eleições pouco devem a históricos de boa gestão, decisões humanas pouco levam em conta qualquer forma de coerência moral de comportamento, a vida afetiva é um caos submetido a todas as mais diversas variáveis contingentes.

Impulsos religiosos irracionais condicionam muito mais o dia a dia do que supostas informações científicas. Aliás, falando em ciência, esta está muito longe de se caracterizar pela pureza do método em si —como crê o senso comum—, sendo muito mais objeto de vaidades, políticas institucionais, oportunidades de ascensão nas carreiras dos profissionais, assim como de financiamento em pesquisas.

A intenção kantiana de afirmar a existência de uma razão pura organizando o conhecimento caduca na sua crítica da razão prática — nome técnico para sua ética— diante do fracasso da sua crença de que seres humanos possam mesmo ser éticos a partir de imperativos racionais.

FRAQUEZA MORAL – Não é à toa, diz Unamuno, que Kant (1724-1804) se desesperou diante da fraqueza de sua crença na racionalidade da moral. Se não for Deus a regular a ética, de nada adiantam seus imperativos racionais.

Para Unamuno, Hegel e Kant — os pais do discurso filosófico da modernidade, segundo Habermas (1929) — nada mais eram do que obsessivos a sonhar com um mundo limpinho em que a irracionalidade humana seria varrida da face da Terra.

Segundo o filósofo basco, o caráter visceral humano permanece sendo a causa eficiente e definitiva do comportamento dos homens. É o “homem de carne e osso”, e sua irracionalidade profunda, conceito central na filosofia de Unamuno, que determinam tudo mais. A modernidade com sua tara manifesta pela ideia de gestão racional de tudo é um surto psicótico em que a deusa razão nada mais é do que um fantasma nu a nos guiar para lugar nenhum.

 


Inabilidade de Campos Neto: Governo Lula não pode depender da boa vontade de empresários

Publicado em 16 de fevereiro de 2023 por Tribuna da Internet

Campos Neto disse que investidores devem ter ‘mais boa vontade’ com governo

Pedro do Coutto

O confronto entre o governo e o Banco Central, previsto para hoje no CMN, foi adiado para uma próxima oportunidade no que se refere à meta de inflação para este ano, e que o Banco Central estima em apenas 3,7%. Houve algum posicionamento de parte do presidente Lula que causou a trégua, uma vez que o objetivo inicial era que, como membros do Conselho Monetário Nacional, o ministro Fernando Haddad e a ministra Simone Tebet contestassem a previsão.

Mas o problema continua, pois a contradição não se encontra apenas na projeção dos juros, mas também nos 13,75% ao ano estabelecidos pela taxa Selic que funcionou em função da inflação de 2021, que foi de 10%, e que a meu ver foi surpreendentemente mantida pelo Bacen quando a inflação de 2022, segundo o IBGE, foi de apenas 5,7%. Os juros reais, portanto, taxa menos inflação, alcançaram de três pontos para oito pontos percentuais. O índice Selic é aplicado para corrigir a dívida interna brasileira.

DECLARAÇÃO – Campos Neto também foi de uma infelicidade enorme ao dizer que o empresariado nacional precisa ter boa vontade para com o governo Lula, como se o governo dependesse da boa vontade de empresários. O presidente do Bacen está confundindo a autonomia da sua posição com a autonomia política geral do país.

Não havendo coincidência entre as duas correntes, é claro que Campos Neto tem que deixar o posto. Caso não, o presidente do Banco Central teria um poder igual ao do presidente da República. Campos Neto está se deslumbrando com um poder que não possui. Ele pode divergir do governo, mas se essa divergência se aprofundar, ele tem que deixar o posto.

No Congresso, o PT continua atacando Roberto Campos Neto. O assunto é exposto na reportagem de Eliane Oliveira, Manoel Ventura, Fernanda Trisotto, Renan Monteiro, Ivan Martinez-Vargas, Flávio Tabac e Nicolas Iory, O Globo desta quarta-feira. O impasse prossegue e terá novas etapas pela frente.

RETORNO – Bolsonaro afirmou que voltará ao país em março e assumirá a liderança da oposição a Lula. Portanto, abre-se um novo capítulo do bolsonarismo contra Lula. Bolsonaro, que chegou a admitir pedir asilo político na Itália, mudou de opinião e resolveu partir para uma nova frente de combate antes mesmo que termine o seu julgamento do Tribunal Superior Eleitoral e por tribunais de Primeira Instância para os quais o Supremo transferiu diversos processos contra ele.

Sinal que Bolsonaro conta com a mobilização de um setor militar expressivo para liderar a oposição anunciada. O projeto de decreto que estabelecia a intervenção do TSE e anula as eleições de 2022 encontrado na residência do ex-ministro Anderson Torres foi incluído no processo contra Bolsonaro na medida em que o recurso de seus advogados foi rejeitado por unanimidade. Bolsonaro deixou sua marca na investida golpista e agora anuncia o seu retorno ao Brasil. Decidiu enfrentar diretamente os processos e confrontar-se com a Justiça Eleitoral.


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