quarta-feira, janeiro 12, 2022

O lado social do liberalismo

 




Os liberais têm preocupações sociais. Basta pensar nas ideias liberais sobre crescimento econômico, educação, saúde, segurança social e inclusão social. Não têm é uma visão estatista ou estatizante. 

Por João Pedro Castro Mendes (foto)

Há quem ainda tenha dúvidas sobre o lado social do Liberalismo.

Importa esclarecer essas dúvidas.

O Liberalismo defende os indivíduos. Todos devem ser livres e devem ter igualdade de oportunidades. Os liberais defendem o mérito, sim, mas sabem que a sorte, o azar ou preconceitos podem impulsionar ou condicionar a vida de uma pessoa. A pobreza é um flagelo e deve ser combatida de forma vigorosa; nascer na pobreza não pode ser uma prisão da qual não se consegue sair. Nascer com uma deficiência física ou psíquica não deve ser impeditivo de a pessoa poder prosseguir os seus sonhos. O preconceito não pode ditar que as pessoas sejam impedidas de viver livremente como quem são, ou sejam excluídas da vida em sociedade.

Para combater a pobreza é preciso criar riqueza, ou seja, é preciso colocar a economia a crescer. Para tal, é preciso um mercado a funcionar, de forma concorrencial, dinâmica e inovadora, com poucas barreiras à entrada e à saída, em que sejam combatidos cartéis e abusos de posição dominante. É preciso que as empresas consigam e tenham incentivos para ganhar escala e serem mais produtivas, incluindo em setores de elevado valor acrescentado, para criarem bons empregos que pagam bons salários e oferecem boas condições de trabalho. É preciso abertura a novos empreendedores, que trazem novas ideias e novas formas de fazer as coisas.

Os mercados devem também ser regulados de forma inteligente, desde logo garantindo os direitos dos consumidores, mas também outros interesses sociais que importa proteger. É preciso dinamismo no mercado de trabalho, sem deixar cair os desempregados. Antes pelo contrário. Deve existir uma combinação equilibrada de flexibilidade e segurança. Os desempregados devem ter acesso aos apoios e a formação necessária para encontrarem, facilmente, um novo emprego. Deve haver acesso a formação de qualidade para adultos, que permita requalificar pessoas que disso necessitem. E deve haver poucas barreiras à entrada de novos trabalhadores no mercado de trabalho.

O Estado tem um papel central, ao lado do mercado, na criação de riqueza. Desde logo, exercendo as suas competências básicas de soberania. O sistema de Justiça tem de funcionar. Tem de ser simples, desburocratizado e acessível a todos. Tem de resolver, efetivamente, os problemas das pessoas; não pode deixar os processos arrastarem-se durante anos. O Estado deve também manter um nível baixo de impostos e de esforço fiscal, não deixando os impostos servir de travão a que as pessoas consigam subir na vida com base no seu trabalho, ou ao surgimento e crescimento das empresas. Para o efeito, temos de focar o Estado onde ele deve intervir.

Mas o Estado tem de fazer mais do que isso. O Estado tem de garantir acesso universal, independentemente da condição socioeconómica, a um ensino de qualidade. Para o efeito, deve existir escolaridade obrigatória, e o Estado deve financiar o acesso a uma rede pública de escolas, com elevado grau de autonomia, que não cobram propinas e não podem selecionar alunos (que inclui escolas públicas, mas também privadas ou do setor social) e também dar apoios a quem queira aceder a escolas que cobrem propinas (mediante condições). A escolha deve competir aos alunos e aos encarregados de educação, que devem ter apoios para que esta seja efetiva (incluindo informação rigorosa sobre as escolas). O Estado deve também exercer a sua função reguladora na Educação. Temos de pôr o elevador social a funcionar, para o que o acesso universal a um sistema de educação de qualidade é essencial.

O Estado deve também garantir acesso universal, independentemente da condição socioeconómica, a cuidados de saúde de qualidade. As longas listas de espera que temos hoje, bem além dos limites clinicamente aceitáveis, não são admissíveis. Com a saúde não se brinca. Estas esperas têm efeitos muito nocivos para aqueles que não consigam fugir-lhes por terem recursos para isso. Tal como no caso da Educação, o Estado tem aqui vários papéis. Deve garantir, através de financiamento público, que todos tenham acesso a cuidados de saúde, mas não deve discriminar entre prestadores públicos, privados ou do setor social. Quem deve escolher, deve ser o utente, sem possibilidade de exclusão. O Estado deve prestar informação e regular adequadamente os prestadores. E ninguém pode ser excluído de acesso a cuidados de saúde.

Os liberais defendem que deve existir um sistema de segurança social robusto. Não basta apostar na poupança individual puramente voluntária, embora esta seja essencial, quer para a segurança individual, quer para o investimento e, assim, para a produção e para o crescimento económico. É necessário existir um sistema que garanta que as pessoas não caiam na pobreza caso deixem de trabalhar, quer de forma temporária, quer de forma definitiva, por motivos de saúde ou de velhice. Esse sistema, no entanto, não pode assentar simplesmente em ir buscar recursos aos mais jovens (especialmente tendo em conta a pirâmide demográfica atual), nem depender da constante entrada de novos membros no sistema. Uma componente de capitalização é importante, neste contexto.

Os liberais defendem que todos devem ser quem são, sem medos. Opõem-se ao preconceito, e combatem-no ativamente. Defendem que as pessoas com deficiências físicas e psíquicas devem ser apoiadas. Dizem não ao racismo, não ao sexismo, não ao preconceito contra pessoas LGBTI+, não à xenofobia. Opõem-se à discriminação e à exclusão social e económica. Defendem o direito à diferença. Defendem que a individualidade de cada um deve ser protegida e potenciada. Todos devem poder procurar a sua felicidade, de acordo com as suas preferências e os seus interesses, na medida em que não infrinjam a liberdade dos outros. Celebram a diversidade, fomentam a inclusão. Defendem que todos, sem exceção, devem poder e conseguir participar na comunidade.

Os liberais têm preocupações sociais. Basta pensar nas ideias liberais sobre crescimento económico, educação, saúde, segurança social, e inclusão social, entre muitas outras. Não têm é uma visão estatista ou estatizante. Não têm as respostas de sempre, que, à Esquerda e à Direita, são apresentadas como as únicas possíveis. Têm uma visão liberal, centrada no indivíduo, no acesso universal, na liberdade de escolha e na equidade. As respostas liberais para os problemas sociais envolvem colocar o Estado, o Mercado, o Setor Social e a Sociedade Civil ao serviço da resolução desses problemas, numa lógica de complementaridade e de maior valor acrescentado.

Os liberais defendem o dinamismo económico, o acesso universal a serviços públicos de qualidade, qualquer que seja o prestador, e a inclusão social.

Os problemas sociais têm respostas liberais. Não há dúvidas quanto a isso.

Observador (PT)

Covid: 3 dados-chave que ainda não sabemos depois de 2 anos de pandemia

 




Dois anos após o início da pandemia, diversas questões sobre o vírus Sars-Cov-2 permanecem sem resposta

Por Carlos Serrano 

"Quanto mais perguntas respondemos, mais perguntas novas surgem". A frase é de Seema Lakdawala, professora de microbiologia e genética molecular da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos.

Lakdawala refere-se à intensa corrida empreendida por cientistas como ela para decifrar o Sars-Cov-2 desde dezembro de 2019, quando o vírus começou a se espalhar.

Pouco mais de dois anos depois, os pesquisadores conseguiram grandes avanços, que permitiram o desenvolvimento de vacinas e tratamentos para combater a covid-19.

Mas a especialista indica que ainda existem dados fundamentais que permanecem desconhecidos. Resolver esses mistérios permitiria fortalecer a luta contra a pandemia.

Existem três questões fundamentais sobre o Sars-Cov-2 que ainda não têm resposta definitiva.

1. A origem exata do vírus

A Agência de Segurança Sanitária do Reino Unido indica no seu site que "a fonte do surto original ainda não foi determinada".

Em fevereiro de 2021, uma equipe da OMS encarregada de pesquisar as origens da covid-19 viajou à China e concluiu que o vírus provavelmente surgiu nos morcegos, mas que seria necessário realizar mais pesquisas a respeito.

'Transmissão de animais para seres humanos ou vazamento de laboratório? É possível que nunca venhamos a saber ao certo qual foi a origem do vírus Sars-Cov-2'

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou que as pesquisas enfrentaram obstáculos causados pela falta de dados e transparência da China.

Uma das conclusões da investigação da OMS foi que é "extremamente improvável" que o vírus tenha chegado aos seres humanos devido a um incidente em laboratório.

Mas Adhanom ressaltou em seguida que essa conclusão era "prematura" e, em um editorial publicado em outubro pela revista Science, ele afirmou que "não se pode descartar um acidente de laboratório até que haja evidências suficientes".

Naquele mesmo mês, a OMS nomeou uma equipe de especialistas para o seu Grupo Consultivo Científico sobre a Origem de Novos Patógenos (Sago, na sigla em inglês), cuja missão é investigar se o vírus passou de animais para os seres humanos nos mercados de Wuhan ou se escapou em um acidente de laboratório.

O grupo teve sua primeira reunião em novembro de 2021. Adhanom explicou que as descobertas de grupos como o Sago podem ser úteis para desenvolver políticas destinadas a reduzir a possibilidade de que vírus de animais infectem seres humanos.

No final de outubro de 2021, as agências de inteligência dos Estados Unidos publicaram um relatório que afirma ser possível que a origem do vírus Sars-Cov-2 nunca venha a ser identificada.

'Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor da OMS, determinou a criação de um grupo consultivo para descobrir a origem do Sars-Cov-2'

O documento descarta que o vírus tenha sido criado como arma biológica e conclui que as hipóteses mais plausíveis são a transmissão dos animais para os seres humanos e uma fuga de laboratório. Mas o relatório adverte que não se chegou a nenhuma conclusão definitiva.

A China negou categoricamente a teoria de que o vírus teria escapado em um acidente de laboratório.

Em um artigo publicado em novembro de 2021 no portal da internet Stat News, o professor de microbiologia e imunologia da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, John P. Moore afirma que "talvez nunca saibamos a origem da covid-19".

Moore acrescenta que surgiram outras teorias "mais extravagantes" que podem ser descartadas e que hoje o debate se concentra na transmissão natural do vírus e na fuga de um laboratório.

2. A dose infecciosa do vírus

Dose infecciosa é a quantidade de vírus necessária para que ocorra uma infecção.

No caso do Sars-CoV-2, essa dose não é conhecida - ou seja, não está claro qual a quantidade de partículas de vírus inaladas por uma pessoa que é suficiente para o contágio.

"A dose infecciosa de Sars-CoV-2 necessária para transmitir a infecção não foi determinada", segundo indicam os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) dos Estados Unidos.

Os CDC também afirmam que estudos em animais e pesquisas epidemiológicas demonstram que inalar o vírus pode causar a infecção, mas a contribuição da inalação do vírus ou seu contato com membranas mucosas (como os olhos) "permanece sem quantificação e dificilmente será determinada".

"A dose infecciosa de Sars-CoV-2 em seres humanos é muito difícil de ser medida sem infectar seres humanos experimentalmente", segundo declarou à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC, Seema Lakdawala, que é especialista em vírus respiratórios com potencial pandêmico.

Com alguns vírus como os da influenza, por exemplo, basta que a pessoa se exponha a 10 partículas de vírus para ser infectada. Já para outros vírus, como o Mers, é preciso ter milhares de partículas para causar o contágio.

No caso do Sars-CoV-2, essa quantidade é desconhecida. Lakdawala explica que o conhecimento mais próximo provém do vírus 229e, um tipo de coronavírus que causa um resfriado comum e possui dose infecciosa similar à da influenza. "Mas não está claro se o mesmo ocorre com o Sars-CoV-2", ressalta a especialista.

"No caso da variante ômicron, não está claro se ela é mais infecciosa porque são necessárias menos partículas para a infecção. Não sabemos se são necessárias 100, mil ou 10 mil partículas para o contágio", afirma ela.

Claramente, a covid-19 é muito contagiosa, mas isso tanto pode ocorrer porque são necessárias poucas partículas para a infecção (a dose infecciosa é baixa) ou porque as pessoas infectadas liberam grandes quantidades de vírus ao seu redor, segundo Lakdawala.

'A quantidade de vírus necessária para o contágio de uma pessoa é um dado importante, mas de difícil determinação'

Atualmente, grande parte das informações sobre o potencial infeccioso de uma pessoa e as medidas de isolamento é baseada em quanto tempo a pessoa continua liberando o vírus.

Por isso, Lakdawala explica que saber mais sobre a dose infecciosa do vírus poderia servir para avaliar melhor os riscos em espaços como escolas ou restaurantes, conforme o tempo que as pessoas passam em determinados lugares.

"Neste momento, estamos apenas sendo cautelosos e tratando de evitar a transmissão, mas saber a quantidade de vírus necessária poderia ajudar a melhorar algumas medidas", segundo ela. E conclui que, embora não se conheça a dose infecciosa, "com as vacinas, a quantidade de vírus necessária para a infecção provavelmente é mais alta".

"Com a vacina, você precisa respirar mais vírus para iniciar a infecção", segundo Lakdawala.

Atualmente, estão em desenvolvimento diversos estudos em que os voluntários são expostos a diferentes doses do vírus em ambientes controlados. Espera-se que esses estudos forneçam mais informações sobre a dose infecciosa.

3. O nível de anticorpos necessário para evitar a infecção

Atualmente, não se sabe qual quantidade de anticorpos deve ter uma pessoa para ser considerada protegida contra a covid-19.

Essa quantidade é conhecida como "correlato de proteção", pois é um indicador de que o corpo humano está protegido contra a enfermidade ou a infecção. Diversos especialistas concordam que essa quantidade de anticorpos necessária para que alguém seja considerado protegido é um dado fundamental na luta contra a covid-19.

"O correlato de proteção para as vacinas contra o Sars-Cov-2 é uma necessidade urgente", segundo Florian Krammer, professor do Departamento de Microbiologia da Escola de Medicina Icahn do Hospital Monte Sinai, em Nova York, nos Estados Unidos.

Em seu artigo publicado pela revista Science em julho de 2021, Krammer explica a importância de determinar o nível de anticorpos correspondente ao correlato de proteção, ou seja, identificar a quantidade mínima de anticorpos que oferece proteção.

'As vacinas mantêm a proteção contra casos graves de covid-19'

Um motivo é a possibilidade de acelerar a aprovação de novas vacinas com base na leitura do nível de imunidade oferecido, sem necessidade de longos testes de fase 3, segundo ele.

Krammer explica ainda que conhecer o correlato de proteção também permitiria a vacinação mais eficiente de pessoas imunodeprimidas, por exemplo, aplicando doses de reforço quando se observar que não foi gerada quantidade suficiente de anticorpos.

O especialista também destaca que o correlato de proteção poderia ser um indicador a ser utilizado pelas autoridades sanitárias para determinar qual porcentagem da sua população está protegida.

Ele adverte que é pouco provável que se chegue a identificar um correlato que possa ser aplicado a todas as vacinas, variantes e populações - mas que, mesmo assim, seria "extremamente útil" na luta contra a covid-19.

'Os anticorpos, em forma de Y, atacam o vírus quando entra no corpo'

No caso da variante ômicron, por exemplo, as vacinas geram menos anticorpos neutralizadores do vírus, segundo Lakdawala, "mas isso não significa que não estejamos protegidos", esclarece ela. "Os dados demonstram de forma consistente que as vacinas previnem os casos graves de enfermidade em comparação com os não vacinados".

A especialista acrescenta que o surgimento de novas variantes pode fazer com que os dados de dose infecciosa e correlato de proteção sejam alterados.

"Cada vez que o vírus é transmitido, ele pode sofrer mutações - e cada mutação pode alterar essas variáveis, de forma que é preciso evitar a transmissão", afirma Lakdawala.

Para isso, enquanto os pesquisadores tentam responder estas e outras questões, recomenda-se continuar a manter as medidas de "bom senso": usar máscaras, vacinar-se e manter distância das pessoas

BBC Brasil

A tentação dos cristãos brasileiros

 



Igrejas prostram-se perante Bolsonaro para ocupar o poder

Por Joel Pinheiro da Fonseca 

Na semana passada ocorreu a "Governe Conference", organizada pela Igreja Batista Lagoinha em Orlando, na Flórida. É raro ver uma instituição religiosa ser tão explicitamente instrumentalizada para um projeto político.

No evento, estavam presentes, entre outros, o ministro Fabio Faria e o jornalista foragido Allan dos Santos. A mensagem era clara: os cristãos têm que ocupar o poder e, no presente, isso significa apoiar Bolsonaro. Mas o que explica essa sede de poder justo num evento de igreja?

Afinal, ao contrário de líderes religiosos como Moisés ou Maomé, Jesus não fundou um Estado nem promulgou leis. Ele dizia que seu reino não era deste mundo. Segundo os evangelhos, ele foi acusado de fomentar a rebelião política, mas as acusações eram falsas.

Ademais, uma das três tentações a que o diabo submeteu Jesus foi justamente a do poder: "O diabo transportou [Jesus] a um monte muito alto; e mostrou-lhe todos os reinos do mundo, e a glória deles. E disse-lhe: 'Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares'." Jesus, previsivelmente, recusou a proposta.

Então como algumas igrejas de hoje, que dizem seguir esse mesmo Jesus, justificam o prostrar-se perante Bolsonaro em troca da glória do reino deste mundo? Promovendo a pura e simples paranoia. No dizer de Allan dos Santos: "De um lado você tem psicopatas, assassinos, ladrões, satanistas e, do outro lado, gente normal." Se os cristãos não se mobilizarem, serão devorados por um projeto satânico-comunista --gestado pela todo-poderosa Escola de Frankfurt-- de destruição da família e da sociedade.

Não é a primeira vez que cristãos cedem à tentação do poder. Desde que o movimento inicialmente perseguido chegou ao poder com a conversão do imperador Constantino, foi colocado o problema da relação entre Estado e Igreja.

Em diversos momentos dessa história, movimentos cristãos buscavam se desvencilhar das roupagens mundanas, da tentação do poder, e retomar a mensagem radical de amor ao próximo e esperança no outro mundo: o surgimento dos monges ainda no Império Romano, o movimento de Francisco de Assis no século 12, os reformadores protestantes no século 16.

Lutero, frente uma igreja cujo chefe máximo, o papa, comandava exércitos e exigia dos reis a imposição da doutrina católica, defendeu a liberdade de crença e a doutrina controversa de que dificilmente um príncipe seria um bom cristão. Uma é coisa ser membro de uma igreja, ter um CNPJ, ostentar o título "cristão". Outra é de fato acreditar e seguir os ensinamentos de Jesus. Nem tudo que favorece o primeiro ajuda o segundo.

"Quanto mais poder cultural os cristãos tiverem, mais Nosso Senhor impera.", disse Allan sob aplausos. O poder cultural de cristãos no passado gerou catedrais e A Divina Comédia, mas também a Inquisição, a caça às bruxas, o antissemitismo e a pena de morte a homossexuais. Todos esses, é claro, feitos sob a mesma sensação de que o inimigo poderosíssimo (o judeu, o herege) tem um plano arquitetado nas sombras e está pronto para persegui-los.

O medo ilusório da perseguição assombra as igrejas brasileiras. Mas não vemos igrejas sendo queimadas (ao contrário de terreiros). Com a instrumentalização do medo, justifca-se a busca do poder como cerne da missão espiritual. Resta saber se, assim como em outras épocas, o cristianismo brasileiro saberá reagir. Ou se, com Nietzsche, teremos que admitir que "houve apenas um cristão, e ele morreu na cruz".

Folha de São Paulo

Após diálogo inconclusivo, Rússia e EUA mantêm impasse sobre Ucrânia

 




Diplomatas russos e americanos reviveram nesta segunda-feira, 10, os melhores momentos da Guerra Fria em negociações a portas fechadas em Genebra. No cardápio, o tema principal foi o futuro da Otan e o destino da Ucrânia, ameaçada pela mobilização de 100 mil soldados da Rússia na fronteira. Após oito horas, os dois lados descreveram o diálogo como “útil” e “profissional”, mas sem avanços na posição dos dois países.

Rússia e EUA têm visões diferentes sobre o tabuleiro geopolítico da Europa. Moscou vê como uma ameaça o avanço da Otan em direção a sua fronteira e exige garantias de que Ucrânia e Geórgia, duas ex-repúblicas soviéticas, jamais serão aceitas na aliança militar – como querem os americanos. Washington considera a expansão da organização crucial para a segurança europeia.

Mas a lista de exigências do presidente russo, Vladimir Putin, é ainda mais ambiciosa. Ele quer que a Otan rejeite qualquer cooperação militar com a Ucrânia e outras ex-repúblicas soviéticas, além de retirar armas e tropas do Leste Europeu, o que desmantelaria a proteção militar da Polônia e dos países bálticos – tudo isso sem qualquer contrapartida de Moscou.

Diante de exigências tão irreais, diplomatas americanos temem que o objetivo de Putin seja estipular condições que ele sabe que serão rejeitadas, para obter apoio interno e criar um pretexto para uma ação militar na Ucrânia. Outros analistas acreditam que Moscou tenha inflado o risco de guerra para obter concessões dos EUA nas negociações.

Garantias

Ontem, os russos disseram aos americanos que não há plano de invadir a Ucrânia. “Não há razão para temer algum tipo de escalada”, afirmou Sergei Ryabkov, vice-chanceler da Rússia, após a reunião. Wendy Sherman, vice-secretária de Estado dos EUA, respondeu com cautela. “O diálogo foi uma chance de melhor compreender o outro e as prioridades de cada um.”

Mesmo com a garantia russa, diplomatas europeus e americanos não descartam a possibilidade de invasão da Ucrânia. De acordo com especialistas, a decisão teria de ser tomada em breve, porque a janela para uma ação militar se fecha no final do inverno: o solo congelado começa a derreter em breve, dificultando o avanço dos tanques. Além disso, os soldados russos não podem ser mantidos longe de suas bases por tanto tempo e muitos devem ser substituídos por recrutas mais inexperientes em abril.

Sanções

A crise levou Rússia e EUA ao momento mais tenso da relação bilateral desde o fim da Guerra Fria, nos anos 90. Para evitar uma guerra, europeus e americanos ameaçam o Kremlin com sanções, que incluem a possibilidade de excluir a Rússia do Swift, o sistema internacional de pagamentos, limitar a capacidade dos bancos russos de converter moedas e impor controles de exportação de tecnologias avançadas de aviação, semicondutores e outros componentes.

O presidente dos EUA, Joe Biden, no entanto, ao mesmo tempo em que joga duro, não pode fechar completamente a porta da diplomacia e dar a Putin um pretexto para lançar uma operação militar. Por isso, o diálogo entre os dois se intensificou nos últimos meses.

Negociações

Em dezembro, Biden e Putin discutiram duas vezes o aumento de tropas russas na fronteira ucraniana. Nas conversas, o presidente americano alertou que a Rússia enfrentaria “graves consequências”, incluindo sanções econômicas e financeiras, se atacasse a Ucrânia.

Os dois lados nunca demonstraram otimismo com a negociação. No domingo, a Rússia afirmou que não faria concessões e avisou que o diálogo poderia ser encerrado mais cedo. O secretário de Estado americano, Antony Blinken, disse que não esperava nenhum avanço e o resultado mais provável seria continuar negociando no futuro.

É o que vem acontecendo. Hoje, as negociações seguem em Bruxelas, em uma cúpula entre representantes da Otan e da Rússia. Amanhã, elas serão retomadas em uma reunião da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), em Viena. 

Correio Braziliense / Daynews

Essa direita camicase se autodestrói’, diz senadora Soraya Thronicke




Vice-líder do governo no Congresso e crítica da gestão Jair Bolsonaro, a senadora Soraya Thronicke (PSL-MS) tem batido na tecla de que é preciso construir uma "direita racional". Ao Estadão, a parlamentar defendeu limites à liberdade de expressão, um Estado laico e uma direita sem extremistas - classificados por ela como "camicases". A postura tem lhe rendido apoio, mas também xingamentos, ataques e ameaças virtuais. "Não sou uma bajuladora de mandato. Não serei jamais", afirmou.

Aos 48 anos, a advogada e empresária estreou na política em 2018 na onda bolsonarista, mas não promete apoio à reeleição do presidente. "Se ele estiver do lado das bandeiras, de repente eu estarei (com ele). Eu sou fiel aos princípios. Se ele não é, ele é que não estará ao nosso lado", disse. Confira os principais trechos:

O que é "direita racional"?

Nós fomos eleitos (em 2018) levando a bandeira da direita, que estava adormecida e emergiu. Mas misturaram os assuntos. Eu comecei a perceber esses "gaps" na compreensão, coisas esdrúxulas. Eu tenho falado em direita responsável porque a gente está vendo que ficou pejorativo ser de direita. Um monte de gente não sabe o que é ser de direita, não sabe quais são as bandeiras que nós carregamos, não age dentro de uma economia liberal que era a nossa maior proposta. Se somos Estado mínimo, o que a sexualidade das pessoas tem a ver com o Estado? Esses malucos que falam pela direita, para mim, nem de direita são.

Quais coisas esdrúxulas?

Não é uma pauta racional e de democracia essas questões de fechar o STF, atacar os Poderes. Nós vivemos num Estado laico. Eu sou religiosa, mas isso é coisa minha, particular.

Ainda apoia o presidente?

Nas bandeiras às quais ele se mantém fiel, sim. Eu sou fiel às bandeiras da direita de verdade, como Estado mínimo, liberdade econômica, até mesmo a bandeira armamentista. Mas, acima de tudo, defendo a bandeira anticorrupção, que foi deixada de lado. A fidelidade tem que ser aos princípios e às bandeiras. Foi com isso que eu me comprometi e foi com isso que lá na campanha nós nos unimos. Essa "direita camicase" se autodestrói.

Após criticar o blogueiro Otávio Fakhoury na CPI da Covid, a senhora foi atacada nas redes sociais.

Eu não quero ser confundida com essas pessoas, quero ter uma conduta equilibrada e firme. Eu falo o que eu tenho que falar. Não vou na onda, só porque eu sou vice-líder do governo no Congresso. Não tenho apego nenhum a esses crachás e voto do jeito que eu quero. Eu não sou uma bajuladora de mandato. Não serei jamais.

Bolsonaristas a atacam por ser dona de motéis.

Não são liberais na economia? Eu pago imposto, eu emprego, inclusive presidiárias. Minha atividade é legal. Os liberais da economia me criticam e querem usar (isso) contra mim. E aí também entra outra questão: o que é liberdade de expressão? Quer dizer que se eu tenho liberdade de expressão - e ainda tenho imunidade parlamentar - posso te xingar à vontade? Venha com uma atitude que soma. Essa não é solução para absolutamente nada.

Como lidou com as críticas durante a CPI da Covid?

Eu mirei no que eu entendo, na minha concepção do que é certo. Teve um dia que eu entrei numa reunião da ala governista e estava o (Eduardo) Pazuello, já não era mais ministro (da Saúde), explicando como ia defender o tratamento precoce. Do jeito que eu cheguei, eu falei: "É disso que vocês estão falando? Não é possível. Alguém está louco aqui. Alguém está muito fora da casinha". Ao mesmo tempo que fui atacada, pessoas que não imaginavam que eu tinha esse pensamento começaram a prestar atenção.

É favorável ao orçamento secreto?

É um absurdo, está errado. Nada pode ser secreto.

Apoiará a reeleição de Bolsonaro?

Se ele estiver do lado das bandeiras, de repente eu estarei. Eu sou fiel aos princípios. Se ele não é, ele é que não estará ao nosso lado.

Estadão / Dinheiro Rural

O ódio orquestrado nos protestos anticovid na Alemanha




Milhares de pessoas saíram às ruas do país esta semana para protestar contra novas restrições. Cidade de Freiberg, no estado da Saxônia, tornou-se um bastião dos protestos, cada vez mais agressivos.

Por Hans Pfeifer

"No lugar de vocês, eu me mataria!", grita uma mulher enfurecida, por várias vezes. Diante dela, uma corrente de policiais ombro a ombro ostenta capacetes e cassetetes. Camburões da polícia bloquearam a rua. Cem policiais estão no local.

Para os participantes dos protestos contra as medidas de contenção do coronavírus, não há como passar daqui. Ódio e violência escalam. Um grupo formado por dezenas de homens tenta furar o bloqueio e passar por cima dos policiais, causando tumulto.

É final de tarde de segunda-feira (10/01) em Freiberg. E, toda segunda-feira, centenas de pessoas se reúnem na pequena cidade universitária no estado federado da Saxônia (leste da Alemanha) para protestar contra a atual política de restrição ao coronavírus. Freiberg se tornou um bastião dos protestos anticovid na Alemanha.

Os manifestantes se autodenominam "Spaziergänger" (ou "passeantes", na tradução literal). Exigem o fim das restrições causadas pela pandemia de covid-19. E protestam contra uma possível obrigatoriedade de vacinação no país. Nesta segunda-feira, até mil pessoas se reuniram e passaram pelas ruas da cidade.

As manifestações são proibidas. É que, diante das altas taxas de infecção, somente um máximo de dez pessoas pode se reunir no estado da Saxônia.

Os militantes transformaram o veto a aglomerações num jogo de gato e rato com a polícia. Pequenos grupos se encontram, dispersos, ao redor de um parque no centro de Freiberg. Com comandos de apitos e palavras de ordem, começam a se movimentar e se juntam. Se a resistência da polícia fica maior, eles voltam a se espalhar rapidamente. Em todas as ruas, é possível ver grupos inquietos, em sua maioria formados por homens jovens, que estimulam o jogo.

Pivôs extremistas de direita

Nas redes sociais, os manifestantes tentam promover as manifestações como um suposto protesto comunitário, de cidadãos indignados. É verdade que vários cidadãos comuns participam. Mas a marcha desta segunda-feira foi dominada por homens musculosos vestindo trajes típicos da extrema direita e de hooligans.

"Muitos deles não são de Freiberg, viajaram especialmente para cá", observa Astrid Ring. Há meses, a jornalista cobre os protestos para a publicação local Freie Presse Freiberg.

"Hoje, a atmosfera está especialmente agressiva", comenta Ring, que está acompanhada de um fotógrafo do jornal, constantemente atacado com bombinhas. Astrid liga para a redação, relata sobre detenções.

"Não estou aqui sozinha!", garante à editora, pelo telefone. A imprensa foi declarada inimiga pelos grupos de direita no local. "Às vezes, tenho a impressão que eles falam comigo como se eu não fosse um ser humano", explica a jornalista, que só pode contar com a proteção da polícia de forma limitada. O jogo de gato e rato com os policiais transforma a situação na cidade num cenário confuso. Em toda parte, grupos fragmentados se deslocam pela cidade escura.

Na verdade, a polícia já desistiu antes do início da aglomeração proibida. "Não poderemos prender o maior número possível de pessoas", explica um porta-voz, antes do protesto. O motivo é a falta de policiais em número suficiente para fechar brechas, já que os líderes por trás dos protestos agem estrategicamente.

Toda segunda-feira, o grupo extremista de direita "Freie Sachsen" ("Saxões Livres") anuncia cada vez mais marchas simultâneas para sobrecarregar propositalmente a polícia. Os extremistas de direita organizam a contestação na plataforma Telegram e estimulam o ódio.

Policiais são xingados de milicianos e mercenários, políticos e adversários são declarados inimigos do povo. Os organizadores também recebem cada vez mais apoio do partido ultradireitista alemão AfD.

Cresce a resistência contra a direita

Sybill Matthes está preocupada com sua cidade. "As pessoas não se tratam mais normalmente umas às outras", acusa a dentista, que critica ainda o fato de que a classe política e polícia não restringiram mais cedo as manifestações. "Quase saiu tudo do controle".

Atualmente, Sybill também protesta – mas contra os protestos.

Ela integra a iniciativa "Freiberg para todos", que tenta ser uma reposta à multidão na rua. Mais de 5 mil cidadãos e cidadãs de Freiberg já apoiam a iniciativa, incluindo o prefeito, Sven Krüger. "Me assusta quando políticos são ameaçados, bens são destruídos. Para mim, é aí que se ultrapassa a linha vermelha", afirma à DW.

Os apoiadores da iniciativa se veem como a verdadeira maioria na cidade que não quer mais se calar. Na Saxônia, existem atualmente iniciativas parecidas em muitas cidades e comunidades, que encontram cada vez mais apoiadores.

O problema dessas iniciativas: elas respeitam as regras. Assim, em Freiberg, o contraprotesto é apenas pequeno, já que respeita as restrições: no máximo, dez participantes por grupo.

Jenny Fritsche é uma delas. Ela fica atordoada com o ódio e a violência na cidade, e sofre ameaças pelo seu engajamento contra o extremismo de direita.

As ameaças deixam marcas. Fritsche fala de uma cultura do medo na cidade. Ao mesmo tempo, ela se sente privilegiada. "Meus amigos sírios e afegãos não têm coragem de ir às ruas aqui às segundas-feiras", conta.

Segundo Fritsche, Freiberg ainda tem uma situação relativamente tranquila. Nos vilarejos do entorno, quem tem opinião política diferente é socialmente estigmatizado por grupos de direita e de extrema direita.

Como muitos cidadãos no interior da Saxônia, ela se pergunta quanto tempo vai aguentar e se não deveria se mudar, como muitas outras pessoas engajadas – também por causa dos filhos. Mas, até segunda ordem, Fritsche quer ficar. "Alguém tem que fazer esse trabalho", afirma.

Deutsche Welle

Inteligência artificial e defesa nacional




Se o Brasil não dispuser de capacidade tecnológica, estará em grande desvantagem em seu poder de dissuasão. 

Por Rubens Barbosa 

Quem quer que se torne o número um na Inteligência Artificial (IA) será o líder do mundo (ruler of the world), previu, em 2017, o presidente da Rússia, Vladimir Putin. China e EUA estão hoje bem à frente do desenvolvimento da tecnologia cognitiva.

Como todo avanço e inovação tecnológica, a IA pode ser utilizada para projetos voltados para o bem, mas também para o mal. Apresenta muitos aspectos positivos, mas também negativos. Pelo potencial de risco de sua utilização, não deixa de ser surpreendente que até aqui a incorporação da IA na indústria bélica tenha sido tão pouco discutida.

Na edição de janeiro, a revista Interesse Nacional (www.interessenacional.com.br) traz dois artigos, de Dora Kaufman e Marcelo Tostes, que resumem as tratativas internacionais para regulamentar o “sistema de inteligência artificial, que pode ser entendido como um sistema baseado em máquina, projetado para operar com vários níveis de autonomia, e que pode também, para um determinado conjunto de objetivos definidos pelo ser humano, fazer previsões, recomendações ou tomar decisões que influenciam ambientes reais ou virtuais”, na definição da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). 

A Unesco (a Ética na IA), a União Europeia (IA Act), os EUA (FDA e Senado, com Projeto de Lei sobre Responsabilização Algorítmica) e a Administração da Cibernética Espacial, na China, apresentaram propostas que tratam de diversos aspectos desse sistema. Acrescento que o governo brasileiro divulgou, em 2021, a Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial (Ebia), com fortes críticas por parte de especialistas por suas limitações técnicas e políticas. A Câmara dos Deputados aprovou, no ano passado, o Projeto de Lei 21/2020, que propõe a criação de uma base legislativa geral e vinculante para regular os sistemas de inteligência artificial no País.

No campo militar, a IA representa o maior salto tecnológico qualitativo desde o aparecimento da energia nuclear e da produção de armas nucleares, com a diferença de o desenvolvimento e aplicação da IA ser substancialmente menos custoso e potencialmente mais fácil de ser empregado, inclusive por terroristas e por Estados Párias (Rogue States). A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) está desenvolvendo novas formas de guerra cognitiva, usando supostas ameaças da China e da Rússia para justificar travar batalha pelo cérebro, no domínio humano, para fazer de todos uma arma. Será a militarização da ciência do cérebro que envolve “hackear o indivíduo, explorando as vulnerabilidades do cérebro humano para implementar uma engenharia social mais sofisticada”. 

Apesar de as autoridades militares da China, da Alemanha, da Rússia, dos Estados Unidos e de diversos outros países terem anunciado, há algum tempo, que a criação de sistemas de combate integralmente autônomos não era seu objetivo, tais sistemas provavelmente já devem ter sido criados. Na percepção militar, apenas sistemas de combate com IA poderão, no caso de guerras, penetrar em áreas fechadas e operar com uma relativa liberdade.

A regulamentação da utilização da IA para fins militares, contudo, começou a ser discutida no âmbito das Nações Unidas, mas encontra resistência por parte das principais potências que procuram ganhar tempo para obter vantagens, antes da negociação de acordos que coloquem limites e cautelas ao seu uso. Como, aliás, foi o que aconteceu com as armas nucleares, cujo tratado de não proliferação só se materializou quando finalmente as potências nucleares deram seu assentimento.

O problema que desafia os organismos multilaterais é como controlar os “sistemas de armas autônomas letais” (Laws, na sigla em inglês), representados por qualquer plataforma móvel: drones, androides, aviões que voam sozinhos. A IA pode substituir os recursos humanos em tudo, desde armas operacionais para coleta e análise de inteligência, sistemas de alerta antecipado, e de comando e controle. A utilização de drones para fins militares (robôs assassinos) já está muito difundida e a guerra antissatélite vem esquentando.

A disputa entre os EUA e a China pela hegemonia global no século 21 passa pela corrida tecnológica em todos os segmentos, inclusive na utilização da IA para fins militares, com impactos que vão alterar a correlação de forças no mundo. Os EUA contam com seus aliados europeus na Otan e a China, com seus parceiros, inclusive a Rússia.

As rápidas transformações que ocorrem em decorrência desses avanços tecnológicos trarão impactos importantes sobre países, como o Brasil. Do ângulo da Política Nacional de Defesa e da Estratégia Nacional de Defesa, se o Brasil não dispuser de capacidade tecnológica para utilizar o sistema de inteligência artificial, estará em grande desvantagem em seu poder de dissuasão, caso tenha de enfrentar qualquer ameaça para a defesa de seus interesses, seja em seu território, seja na sua extensão marítima. Urge, pois, a expansão da capacidade de criação e de desenvolvimento para a utilização da IA pelo Ministério da Defesa. Nesse sentido, o Centro de Defesa Cibernética, no âmbito do Exército, deveria ser fortalecido com recursos humanos e financeiros para, com o apoio da base industrial de defesa, gerar produtos, inclusive de uso dual para o mercado doméstico e para exportação.

*PRESIDENTE DO CENTRO DE DEFESA E SEGURANÇA NACIONAL (CEDESEN) E MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS

O Estado de São Paulo

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