domingo, janeiro 09, 2022

Jungmann diz que Bolsonaro pode estar ameaçando uma volta ao comportamento golpista

Publicado em 9 de janeiro de 2022 por Tribuna da Internet

Inaceitável que se tente fazer crer que urna é possível de fraude", diz  Jungmann - ISTOÉ DINHEIRO

Jungmann elogia disposição do Exército para evitar conflitos

Gabriel Shinohara
O Globo

O ex-ministro da Defesa Raul Jungmann disse neste sábado que há possibilidades de distúrbios caso o presidente Jair Bolsonaro perca as eleições deste ano, como aconteceu nos Estados Unidos com a invasão do Capitólio por militantes republicanos, incentivados pelo então presidente Donald Trump.

Ouvido pelo Globo, o ex-deputado e ex-ministro da Defesa ressaltou que não é de hoje que o presidente Jair Bolsonaro tenta levar as Forças Armadas a apoiar suas ações. Ele lembrou o episódio em que os três comandantes das Forças Armadas entregaram os cargos após Bolsonaro destituir o então ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva.

VACINAR A TROPA – Segundo Jungmann, a recomendação publicada pelo Exército sobre necessidade de vacinação dos militares e seus familiares é “absolutamente de cunho administrativo e não tem nenhum viés político”, ressaltando que cabe ao comandante do Exército proteger a tropa na volta ao trabalho presencial.

“Essa decisão da vacina é uma atitude que revela responsabilidade do comandante do Exército com a tropa e evidentemente que isso desagrada o presidente, mesmo que o então comandante Edson Pujol, o anterior que foi demitido, tenha publicado uma diretriz praticamente semelhante, e mesmo que o atual ministro da Defesa, Braga Netto, também tenha tomado decisão semelhante” — disse o ex-ministro.

POSTURA GOLPISTA – Jungmann afirmou ainda que esse episódio pode significar uma volta do presidente Bolsonaro ao comportamento que tinha até as manifestações do 7 de setembro de 2021, incentivadas por ele com posições de ataque ao Supremo Tribunal Federal (STF), ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e às eleições.

“O que nós estamos vendo é um retorno à escalada. Eu inclusive escrevi sobre isso, conversei com ministros que têm proximidade no Supremo e outras autoridades para os riscos que vamos ter em 2022. Infelizmente eu acredito que todos nós temos que estar prontos para a possibilidade de nós convivermos aqui com conflitos” — afirmou.

E continuou: “O motor disso tudo é exatamente a ambição do Presidente da República de se reeleger mesmo que isso represente cometer um ato de absoluto desrespeito não apenas ao TSE, ao sistema eleitoral, mas a própria democracia” — ressaltou Jungmann.

###
NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG 
– Não vai haver distúrbios nas eleições. A filial Brazil é muito diferente da matriz U.S.A. e temos outro tipo de reação. Ao contrário do que aconteceu nos Estados Unidos, o Exército brasileiro vai estar nas ruas e sufocar qualquer movimentação golpista. Se Bolsonaro bobear, pode acabar em cana, acredite se quiser. (C.N.)

Bolsonaro, por etapas, vai se afastando do caminho que leva às eleições de outubro

Publicado em 9 de janeiro de 2022 por Tribuna da Internet

Charge do Charge do JCaesar (veja.abril.com.br)

Pedro do Coutto

Quem observar com atenção e isenção o comportamento, as atitudes políticas e as declarações do presidente Jair Bolsonaro, inevitavelmente chegará à conclusão de que, por quaisquer motivos, ele está se afastando do caminho que leva às urnas de outubro, pois a cada passo seu ele perde mais votos do que ganha e com isso sua candidatura à reeleição está se esvaziando. Basta ver os fatos.

A sua posição contra a vacina é um absurdo total e, sob o ângulo das eleições, um gesto contra si mesmo e os seus próprios interesses de reeleger-se. A vacinação contra a Covid-19 é extremamente popular, o que é bastante positivo para a população brasileira, fenômeno que está comprovado por já ter abrangido praticamente 170 milhões de pessoas. Fosse a maioria contra a vacina, como é o caso de Bolsonaro, a procura pela imunização não seria tão intensa.

VACINAÇÃO INFANTIL – Agora, o presidente da República com o vídeo que gravou e colocou nas redes sociais afirmou-se contra a vacinação infantil de crianças de 5 a 11 anos, demonstrando até irritação, chamando os que defendem a blindagem prévia à Covid-19 de “tarados por vacinas”. A esse respeito, foi muito bom o artigo de Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo de sábado, que incluiu-se entre os “tarados por vacinas”, e chamou a atenção para os progressos da medicina através do tempo.

Se for feita uma pesquisa sobre a opinião dos pais a respeito da vacinação dos filhos, o resultado será superior a 80%. Bolsonaro está assim indo contra a opinião pública, contra  a vontade popular, contra os eleitores e eleitoras.

EMENDA CONSTITUCIONAL – Jair Bolsonaro pressionou pela emenda constitucional que adia o pagamento de precatórios. Mas, ao mesmo tempo, alinhou-se fortemente ao Centrão, comandado pelo ex-deputado Valdemar Costa Neto, presidente do PL; partido pelo qual se filiou para disputar a reeleição. Agora, porém, conforme eu disse no início, ele está procurando outra solução que não a eleitoral.

Tanto assim, que anunciou um aumento destinado a repor a inflação para a Polícia Federal, para a Polícia Rodoviária e para a Polícia Judiciária, o que abriu uma crise no funcionalismo federal em bloco, sobretudo por parte dos auditores da Receita. Estava claro que destinar um aumento a determinadas categorias e não estendê-las a todos o funcionalismo só poderia criar uma forte reação em cadeia para que o mesmo reajuste seja aplicado a todos. Aliás, como determina literalmente o artigo 37 da Constituição Federal.

ATAQUES ÀS URNAS – Ao longo dos últimos meses, Bolsonaro atacou as urnas eletrônicas, ameaçou com a não realização de eleições se o voto impresso não fosse revigorado, mas depois recuou de forma total e ficou numa posição que revelou uma falta de segurança em matéria política. O Exército acabou sendo chamado para acompanhar o processo eleitoral no TSE e Bolsonaro mudou de opinião totalmente, como se a presença de um general no plano das eleições alterasse a estrutura das engrenagens das urnas à disposição do eleitorado.

Em determinado momento, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que não cumpriria mais decisões do ministro Alexandre de Moraes. Abriu uma crise incrível. O presidente Michel Temer foi chamado a participar de um pedido de desculpas (de Bolsonaro) por ter sido ele, Temer, o autor da nomeação do ministro para a Corte Suprema. Mas o problema de Bolsonaro com o STF continuou.

Ele que havia participado de manifestação na Esplanada de Brasília com seus apoiadores pedindo o fechamento do STF, um dia afirmou publicamente que, com a nomeação do ministro Nunes Marques , ele passou a ter 10% do Supremo, como se a Corte fosse palco de uma disputa política ou desportiva, além de ter deixado mal o próprio ministro. Nunes Marques assim foi reduzido a um representante da vontade de Bolsonaro no STF.

AFRONTA – Quando do encerramento dos trabalhos da CPI da Pandemia, Bolsonaro promoveu um exercício militar em Brasília com tanques na rua , o que motivou uma forte reação coletiva que viu no episódio uma ideia de intimidação. O presidente da República havia substituído o ministro da Defesa e os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Mas a questão militar que se abriu estava longe de se encerrar.

Agora mesmo, ocorreu o pronunciamento do general Paulo Sérgio Nogueira, ministro do Exército, estabelecendo a vacinação  dos militares da Força e proibindo-os de lançar fake news nas redes da internet. Além de ter comunicado que devem estender a comunicação a seus parentes.

Conforme comentei na edição de ontem, o Comando do Exército estabeleceu normas de comportamento para o dia das eleições a fim de evitar que a polarização provoque hostilidade entre as correntes que se enfrentam nas urnas.

ENDEREÇO CERTO – Na verdade, a decisão do ministro Paulo Sérgio Nogueira teve um endereço muito mais amplo do que apenas pedir atenção para as vacinas. O general, no fundo, alertou para a defesa da democracia e da vontade popular nas urnas.

O presidente Jair Bolsonaro vetou o projeto aprovado pelo Congresso que incluía o Refis às micro e pequenas empresas. A matéria provocou reação no Congresso e pelos micros e pequenos empresários. Um gesto que não acrescentou voto algum, pelo contrário.

Na justificativa, Bolsonaro frisou que a sanção acarretaria uma perda de receita de R$ 1,2 bilhão em 2022. Compare-se esse valor com o orçamento federal para o próximo ano que é de R$ 4,8 trilhões.

VETO – Jair Bolsonaro vetou o projeto aprovado pela Câmara e pelo Senado que permite às emissoras de televisão e rádio podem descontar do Imposto de Renda cedido à Propaganda Eleitoral Gratuita.  O presidente assim ficou contra as empresas de rádio e televisão, sobretudo porque esta compensação no Imposto de Renda tinha sido estabelecida por decreto do presidente Fernando Henrique Cardoso. O veto nada acrescenta para Bolsonaro.

O presidente da República congela os salários, seguindo a política de Paulo Guedes. Mas nada diz quanto à subida acelerada dos preços, o que cria um contraste que só pode prejudicar sua candidatura no desfecho de outubro.

PETROBRAS – No início do ano passado, Bolsonaro substituiu Roberto Castello Branco pelo general Silva e Luna na Presidência da Petrobras porque Castello Branco vinha apresentando uma política de aumentos sucessivos da gasolina, do gás e do óleo diesel. Entretanto, o general Silva e Luna manteve e até ampliou a mesma política, defendendo-a numa entrevista a Irany Tereza, do Estado de S. Paulo de sábado.

Afirmou que a Petrobras não pode fazer política pública, dando a entender não ser possível conter os preços dos combustíveis. Foi um jato de água fria nos que temem reflexos ainda maiores no custo de vida.

VIAGEM –  O presidente da República viajou para Santa Catarina, mergulhando nas praias do estado sem visitar as áreas atingidas por inundações na Bahia, quarto colégio eleitoral do país.

O site do SUS e a página do Ministério da Saúde na internet, segundo versão do ministro Marcelo Queiroga, sofreram a invasão de hackers. Mas isso aconteceu há quatro semanas e o sistema não foi restabelecido. Com isso, os números da pandemia e da vacinação estão sendo revelados de forma incompleta. Não se entende porque o Ministério da Saúde não conseguiu resolver o grave problema.

Bianca Gomes e Mariana Rosário, O Globo de ontem, focalizam o assunto e dizem que há um atraso de uma avalanche de informações sobre novos testes e incidências da doença que não estão vindo a público.

INÉRCIA – O presidente da República não tomou providência alguma. Nem sequer exigiu do ministro Queiroga qualquer ação para restabelecer o universo dos números do setor fundamental à integridade e à própria vida humana. Como se constata, o presidente da República é um adversário de si mesmo.

São fatos que levam à suposição de que Bolsonaro não está muito preocupado com votos, mas com qualquer outro projeto de poder. Mas para o poder só existem dois caminhos: o das urnas ou o das armas. Neste caso, o pronunciamento do general Paulo Sérgio Nogueira tem uma importância decisiva.

Por uma eleição com ideias

 




As bandeiras políticas de Bolsonaro são frágeis. Servem apenas para mobilizar sua militância e, especialmente, os robôs nas redes sociais

Por Marco Antonio Villa (foto)

Como será 2022? Teremos o processo eleitoral mais violento desde 1989. Isso é mais que uma previsão, é uma certeza. O cenário dos três anos de governo Bolsonaro aponta para uma eleição marcada não pela disputa de ideias, mas pela brutalidade, pela selvageria, pela bestialidade. Por um lado, porque Bolsonaro fomentou o ataque sistemático às instituições, aos valores consagrados na Constituição de 1988. Foram meses e meses de ameaças ao Estado democrático de Direito, culminando no trágico 7 de setembro de 2021. Por outro, porque o governo não tem nada a mostrar, nada realizou, não tem o que se chama popularmente de “vitrine”. Desta forma, só pode apostar na violência, na desqualificação pelo ódio dos adversários. Teremos, certamente, confrontos de rua, que vão servir, para o extremismo bolsonarista, como instrumentos de mobilização de suas bases e para justificar o discurso de hostilidade à democracia.

As bandeiras políticas de Bolsonaro são frágeis. Não tem consistência. Servem apenas para mobilizar sua militância e, especialmente, os robôs nas redes sociais, que espalham fake news como se fossem propostas de governo. A tendência é que como sinal de desespero frente ao derretimento eleitoral da sua candidatura, ele retome o ataque às urnas eletrônicas e aponte uma suposta fraude no sistema de apuração dos votos. Será um artifício para desviar a atenção do essencial: ele não vai chegar ao segundo turno pois será humilhado à 2 de outubro, quando da primeira consulta aos eleitores.

A tarefa de todos os democratas, independentemente dos matizes político-ideológicos, é de transformar o processo eleitoral em um palco de discussão dos grandes problemas nacionais. O Brasil não pode perder esta oportunidade histórica. Será o momento da apresentação de propostas para que o eleitorado livremente possa escolher um caminho. E para isso é necessário ampla discussão de ideias e não se perder em questões menores ou, muito menos, cair em provocação de extremistas que priorizaram temas absolutamente secundários e carregados de reacionarismo, como, por exemplo, ser ou não favorável a “banheiro trans.”

A segunda década desde século foi marcada por anos de recessão econômica. E, socialmente, o país deu um grande salto para trás. Hoje, mais da metade da população vive em insegurança alimentar, isto só para apresentar um dado. É tarefa urgente, urgentíssima, apontar soluções para que o Brasil volte a crescer e possa retomar – e vencer – os grandes problemas nacionais.

Revista IstoÉ

Se houver greve de servidores, a culpa é diretamente de Bolsonaro, afirma Gil Castello Branco




Castello Branco assinala que a decisão de Bolsonaro foi ilegal

Por Israel Medeiros

O governo mantém silêncio sobre a iminência de uma paralisação generalizada dos servidores públicos, que pode impactar serviços e atividades essenciais. Algumas categorias estão com salários congelados desde 2017. Segundo líderes sindicais, o Executivo foi procurado para marcar reuniões, a fim de chegar a uma solução capaz de garantir reajuste salarial.

Porém não houve retorno quanto aos pedidos de reuniões. A falta de resposta pode resultar numa greve geral em fevereiro. Para este mês, estão marcadas paralisações com atos nos dias 18, 25 e 26.

ERRO FATAL –Para Gil Castello Branco, secretário-geral da Associação Contas Abertas, uma eventual paralisação dos serviços públicos terá o governo federal como principal culpado.  Diz o consultor que o presidente Bolsonaro cometeu um erro fatal, ao privilegiar algumas categorias.

“Às vésperas da aprovação do Orçamento de 2022, o Executivo insistiu para que fossem alocados R$ 2,9 bilhões que seriam destinados a reposições salariais, exclusivamente, das carreiras relacionadas à área de segurança (policiais federais, policiais rodoviários federais e agentes do Departamento Penitenciário), categorias essas que o presidente da República considera como parte do seu eleitorado”, enfatizou.

Ele lembrou que o Congresso previu na peça orçamentária R$ 1,7 bilhão para esse fim e, “em tratativas com o Ministério da Economia, reduziu verbas da pasta, notadamente da Receita Federal, destinada a equipamentos e sistemas informatizados”.

AUMENTO SELETIVO – “Ou seja, parafraseando um ditado popular, o governo cutucou o ‘leão’ com vara curta e gerou revolta em todas as demais categorias, que também estão sem reposição salarial”, acrescentou Castello Branco, frisando que, ao agir autorizando aumento seletivo, o governo está incorrendo em grave inconstitucionalidade. Se dá reajuste a uma categoria, tem de atender a todas as outras.

“O aumento seletivo, apenas para aqueles que são considerados como da base eleitoral do presidente, é, inclusive, inconstitucional, como disse o ex-ministro do Supremo, Marco Aurélio Mello.

O consultor assinalou, também, que cada ponto percentual de aumento salarial dos servidores públicos federais gera impacto de R$ 3 bilhões a R$ 4 bilhões no orçamento da União. “Um hipotético pequeno reajuste de 5% ocasionaria aumento da despesa entre R$ 15 e R$ 20 bilhões”.

Nota do blog Tribuna da Internet – É claro que outros candidatos à Presidência, especialmente Lula, do PT, vão explorar esse grave erro administrativo de Bolsonaro, que desde o início do governo vem privilegiando os militares e agora tenta favorecer os servidores federais da área de segurança. (C.N.)

Correio Braziliense / Tribuna da Internet

O bárbaro e o capacho - Editorial

 




Jair Bolsonaro e Marcelo Queiroga patrocinam atrocidades contra a saúde pública e as crianças

Neste início de 2022, assim como há um ano, o Brasil enfrenta uma nova vaga de contaminações pelo agente causador da Covid-19. Desta vez, graças ao progresso da vacinação, o panorama que se descortina no país é, felizmente, bastante distinto daquele de 12 meses atrás.

Com quase 70% da população inoculada com duas doses do imunizante, o vírus já não tem sobre os brasileiros o mesmo impacto devastador do passado.

Se antes um idoso corria sérios riscos de complicações, hoje, vacinado, dificilmente apresentará mais do que sintomas leves. Aos poucos, o pânico de outrora vai cedendo lugar a um convívio mais normal com o vírus, que tende a se tornar endêmico com o tempo.

O que se manteve inalterado nesse período foram as criminosas tentativas de sabotagem do presidente Jair Bolsonaro (PL) e seu séquito negacionista contra toda e qualquer medida capaz de minorar a catástrofe causada pela doença.

Ora dirigida contra a vacinação infantil, finalmente anunciada na quarta-feira (5), a máquina de infâmias liderada pela Presidência da República voltou a se movimentar nesta semana. Em entrevista à Rádio Nordeste, Bolsonaro insinuou que haveria interesses escusos da Anvisa e de "tarados pela vacina" por trás da aprovação do imunizante para os mais jovens.

Num legítimo atentado contra a saúde pública, buscou desestimular os pais a vacinarem seus filhos, afirmando que eles não deveriam se deixar "levar pela propaganda".

O pico da baixeza, contudo, deu-se quando o mandatário declarou desconhecer casos de morte por Covid de crianças de 5 a 11 anos, faixa para a qual foi aprovado o imunizante. Mais do que agredir a verdade, a patranha ultraja os familiares das 301 crianças vitimadas pela enfermidade até agora.

Diante de tão graves sandices, é estarrecedora a subserviência do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga. Aquele que, por força do cargo e da formação médica, deveria ser o defensor da ciência, converteu-se em capacho e caixa de ressonância dos desvarios presidenciais.

Como se a sabujice fosse pouca, o ministro presta-se ainda a outras cenas de ridículo servilismo. Na quinta, em lançamento de um programa de sua pasta, afirmou que a primeira-dama é simbolicamente a "mãe de todos os brasileiros".

Não resta qualquer ilusão quanto a sua atuação no cargo. Transigente com as brutalidades dirigidas contra a Anvisa e seus funcionários, propagandeador das estultices de Bolsonaro sobre liberdade e vacinação, cúmplice do atraso na imunização infantil, Queiroga conseguiu, em poucos meses, sacrificar sua reputação, enxovalhar a função que exerce e desonrar toda a classe médica.

Folha de São Paulo

Estado/mercado: o grande debate.




O que deve caber ao Estado e ao mercado em uma economia moderna? E a quantas anda o Brasil nessa equação? 

Por Fernando Schüler* (foto)

Dias atrás li um artigo provocante de Luigi Zingales, um economista que aprendi a respeitar. Zingales é um liberal. Um crítico duro da lógica dos lobbies e da captura do Estado, no que se conhece como “capitalismo de compadrio”. É também um realista. Em um trecho do artigo ele diz que “A revolução neoliberal iniciada por Reagan e Thatcher aparentemente vai terminando. A intervenção estatal à la New Deal está de volta”. A partir daí, ele faz a pergunta que também me faço: o que deve caber ao Estado e ao mercado em uma economia moderna? E a quantas anda o Brasil nessa equação? Este ano tem eleição presidencial, e talvez essas são questões que deveríamos nos fazer.

Se aquela frase de Zingales é verdadeira, então andamos na contramão. Nunca houve por aqui nada muito parecido com uma “revolução neoliberal”. Nos anos 90, privatizamos estatais, criamos uma lei de responsabilidade fiscal e ensaiamos uma reforma do Estado, cujo resultado talvez mais duradouro foi a criação das “Organizações Sociais”. Implantaram-se algumas no governo federal, entre elas o Impa, e em muitos estados (a Osesp, em São Paulo, é o melhor exemplo que conheço). No mais, nossa carga tributária foi de 26% a 32% do PIB, à época do PSDB, entre outras coisas devido à expansão de programas sociais. Houve processos importantes de modernização, mas convenhamos que passamos longe de uma revolução neoliberal.

Um novo ciclo de reformas veio a partir da grande crise de 2015/16. De novo, nenhuma revolução liberal, mas avanços importantes. Colocamos um teto na despesa pública, fizemos uma reforma trabalhista, que (pasmem) acabou com o imposto sindical, e uma reforma previdenciária, em que, talvez por milagre, fixamos uma idade mínima para as aposentadorias. Mais recentemente, o país avançou em algumas reformas setoriais, como o marco do saneamento básico, que exige competição e abre o setor de saneamento para o investimento privado, e a lei das ferrovias, que desburocratiza o setor e vem gerando um boom de novos projetos. Em nenhuma delas o Estado abre mão de controlar o jogo. O que ele faz é mudar os termos do jogo. Ajusta normas e facilita a vida de quem quer investir.

Há algum problema nisso? Trocar “concessões” por “autorizações”, nas ferrovias, e exigir leilões para as empresas que vão tratar nosso esgoto diz respeito a um debate ideológico “de fundo”, como escuto por aí, ou são apenas ajustes finos de regulação que aumentam a eficiência na oferta de serviços?

Precisamos parar com a conversa fiada de que há uma contradição insolúvel entre Estado e mercado. Mercados competitivos supõem precisamente boa regulação. Não é disso que trata nossa legislação sobre parcerias público-privadas? Por que raios alguém pagaria 70 milhões de reais por uma outorga para administrar o Parque Ibirapuera, em São Paulo, se as regras não fossem claras, se não houvesse um leilão aberto e um contrato de 35 anos para o retorno do investimento? O papel que coube ao Estado? Fixar regras. E o das empresas? Investir, competir, fazer a gestão. Qual é exatamente a contradição aí?

Existem algumas tendências no redesenho das relações entre Estado e mercado em nosso tempo. Uma delas é a crescente especialização dos governos. Eles inclinavam-se a fazer tudo. Administravam estradas e aeroportos, quando não fábricas de aviões, como a nossa Embraer, mineradoras e supermercados. Hoje descobrimos que o governo não é bom em fazer nada disso. Aeroportos com gestão privada são melhores do que os velhos terminais gerenciados pela Infraero, e isso não tem nada a ver com o “Estado abrindo mão de suas funções”. São as funções do Estado que vão se transformando. Proteger interesses difusos, criar ambiente para o desenvolvimento, garantir equidade. Essas, e não comercializar verduras ou prover serviços, são tarefas nobres do Estado.

Outra tendência é a gradativa despolitização de esferas da gestão pública. É o caso da autonomia para o Banco Central. Quem definiu bem isso foi o ministro Barroso, dizendo que instituições como o Banco Central não devem ser “submetidas a vontades políticas, mas a compromissos com a Constituição e o Estado brasileiro”. Vale o mesmo para temas como responsabilidade fiscal ou o funcionamento das agências reguladoras. Pautas que expressam valores e objetivos sociais de longo prazo. Dizem respeito a direitos, e não devem ficar à mercê do pequeno jogo político.

Outra tendência é a autorregulação. A tecnologia avança, dá poder aos indivíduos e desafia velhas instituições. Não foi assim que aconteceu com o transporte urbano? Ainda recordo da discussão sobre se era cabível deixar que carros sem o carimbo das prefeituras circulassem pelas cidades transportando pessoas. Hoje há perto de 1,1 milhão de motoristas de aplicativos, país afora, e pouca gente ainda discute sobre isso. A chamada sharing economy representa essa tendência. Ela explora recursos subutilizados, distribui benefícios de modo difuso e debita seus custos sobre indústrias obsoletas. A tecnologia blockchain vem na mesma direção. O Estado moderno se fez na ideia do controle exaustivo sobre diferentes esferas da vida social, mas terá de dar espaços à regulação aberta e descentralizada. Há quem se assuste com isso; há quem veja aí a melhor promessa de nossa época.

Por fim, vamos consagrando um princípio enunciado por figuras díspares como Hayek e um filósofo igualitarista como Philippe Van Parijs. Ele diz que “ninguém deve cair abaixo de um padrão mínimo de dignidade”. A intenção aqui é clara: não é mais aceitável, em nossa civilização, que pessoas vivam em situação de miséria. Penso nisso quando vejo os viadutos de São Paulo tomados por famílias. Criamos um país em que o governo recolhe 35% da riqueza, em impostos, e convive bem com 13% das pessoas abaixo da linha de extrema pobreza.

O mundo atual assiste a uma longa aproximação entre as agendas do liberalismo e da moderna social-democracia. Economias avançadas são feitas de modelos mistos. Gosto de lembrar do desafio lançado por Mario Covas, em nossa primeira eleição presidencial após a ditadura, dizendo que o Brasil precisava de um “choque de capitalismo”. Logo ele, um convicto social-democrata. Sua provocação permanece, até hoje, parada no ar.

Vai aí o maior desafio deste ano da graça de 2022. Largar o bate-boca vazio e concentrar energias no grande debate sobre o país que desejamos. É esse o tom que deveríamos dar à disputa presidencial. Não sei se é razoável acreditar que isso vai acontecer, mas não tenho dúvidas de que seria o melhor a fazer.

*Fernando Schüler é cientista político e professor do Insper

Revista Veja

Nós e a brisa




Vaticínios sobre a inviabilidade da chamada terceira via são feitos sem que se dê a esse caminho ao menos o benefício da dúvida

Por Dora Kramer

Três ideias rondam o ambiente político neste início do ano eleitoral de 2022: Luiz Inácio da Silva voltará à Presidência, Jair Bolsonaro lançará mão de ilegalidades para resistir à derrota e nenhuma alternativa a tal cenário é possível. Fala-se disso como se o inesperado não pudesse nos fazer uma surpresa, conforme descrito por Johnny Alf em Eu e a Brisa, nos idos de 1967.

Pois no imprevisível junto às artes do acidental é que residem a graça e a essência de uma eleição sob as regras da democracia, onde o que vale é a vontade de milhões de pessoas envolvidas num processo que só acaba quando termina.

Portanto, aos arautos das convicções inamovíveis conviria flexibilizar as respectivas mentes de modo a não se tornarem reféns de profecias que se autorrealizam.

De algum modo já vivemos isso desde quando forças políticas começaram a se mobilizar em torno de outra hipótese que não a repetição de velhos erros. De de lá para cá, o que se vê são vaticínios sobre a inviabilidade da chamada terceira via.

Isso sem que se dê a esse caminho ao menos o benefício da dúvida. Uma chance real, não meramente retórica, expressa em frases do tipo “…caso subam nas pesquisas” acompanhadas de toda sorte de desqualificações porque ninguém ainda foi capaz de ameaçar a dianteira de Lula e Bolsonaro. A oito meses da eleição.

A essa altura, Fernando Henrique hesitava em deixar o Ministério da Fazenda, Fernando Collor era nanico nas pesquisas e Jair Bolsonaro, tratado como cavalo paraguaio atolado em chuva de verão. Lula esteve no pódio três vezes antes de sagrar-se campeão, a reeleição de Dilma Rousseff foi dada como perdida, Marina Silva vista como a grande possibilidade da estação, e por aí vão os exemplos sem nos esquecermos de uma arrancada de Ciro Gomes e da repentina derrocada de Roseana Sarney. Tudo isso a meses de cada uma daquelas eleições.

Cabe lançar dúvida também sobre o forrobodó institucional que Bolsonaro estaria preparando para evitar deixar o Palácio do Planalto. Primeiro, porque não está fora de questão uma desistência. Do Palácio, não do Planalto, candidatando-se a outro cargo a fim de não perder o foro privilegiado. Para isso, contudo, precisaria se desincompatibilizar da Presidência até abril, deixando Hamilton Mourão por seis meses no cargo. Impossível não é, mas improvável.

Em segundo lugar, o fracasso das investidas antidemocráticas torna lícito duvidar do êxito de ações ao modo de Donald Trump no fatídico janeiro de 2021. Se Bolsonaro precisou acomodar sua viola na sacola da moderação pós-7 de setembro, quando ainda dispunha de um ano de mandato pela frente, não será derrotado que terá apoio para tentar melar o resultado.

Por último, vamos ao primeiro: Lula. O ex-presidente em sua espetacular marca de campeão absoluto nas pesquisas tornou-se estuário não apenas dos votos de seus admiradores, mas de toda sorte de expectativas embaladas no critério único de que vale qualquer coisa para impedir a reeleição do atual presidente.

Até mesmo deixar de lado a busca de uma melhor solução para optar pela parte do problema. Ou Jair Bolsonaro não é fruto dos desmandos do PT? Ou não foi eleito na batida da tecla da escolha do “menos pior”, que, na visão de um grande contingente de eleitores, seria a volta dos salvados dos funis do mensalão, do petrolão, do populismo na economia e da vocação para açambarcar o poder de modo hegemônico?

Não parece racional o país eleger Lula para fugir de Bolsonaro, que foi eleito para evitar o PT. Volta-se ao ponto inicial e não se avança no jogo. É preciso alguma clareza. A respeito do fato de Lula e companhia não acharem que fizeram nada de errado.

As pessoas lembram dos feitos, relevam os malfeitos e não se perguntam, por exemplo, como o Lula de novo presidente conduziria suas relações com o Congresso. Comprando outra vez na base da mesada? Os contratos com fornecedores e prestadores de serviço seguiriam na mesma linha, dado que na concepção do PT os escândalos foram fruto de ficção persecutória e, portanto, a tendência é a repetição.

Concorrer na seara de Lula e Bolsonaro é tarefa difícil. Mas não impossível se houver boa vontade para aceitar que uma pessoa normal no Planalto já é bem melhor que locatários do Palácio adeptos da teatralidade, da flexibilidade moral, da intimidade com a mentira, do sectarismo intenso e da aversão ao contraditório. Para dizer o mínimo.

Revista Veja

Confiança na ciência e estômago forte - Editorial




Não há qualquer razão para crer que o interesse da Anvisa ao aprovar a vacinação infantil seja outro que não aumentar a proteção dos brasileiros

Na volta ao Palácio do Planalto, após um período de dolce far niente no litoral de Santa Catarina e uma parada em um hospital de São Paulo para tratar de problemas no intestino, o presidente Jair Bolsonaro indicou que os brasileiros precisarão ter estômago forte para suportar mais um ano de suas mentiras e distorções sobre a gravidade da pandemia de covid19, não bastasse o tanto de dor e angústia que a peste já causou.

No mesmo dia em que o Ministério da Saúde, finalmente, anunciou as regras para a vacinação de crianças de 5 a 11 anos contra o coronavírus, Bolsonaro voltou a atacar a imunização infantil e, como se isso fosse pouco, insinuou que interesses escusos de técnicos da Anvisa poderiam estar por trás da aprovação da vacina da Pfizer para aquele público. “Qual é o interesse da Anvisa? Qual é o interesse daquelas pessoas taradas por vacinas?”, questionou Bolsonaro em entrevista à TV Nova Nordeste, de Pernambuco.

O que Bolsonaro fez foi gravíssimo. Não há o mais tênue indício de que o interesse dos técnicos da Anvisa ao aprovar a aplicação da vacina da Pfizer em crianças de 5 a 11 anos – a mesma vacina que já é aplicada neste público em diversos países – seja outro que não aumentar o nível de proteção dos brasileiros contra um vírus que já matou 620 mil pessoas no País. Um presidente da República não pode lançar aleivosias no ar como se não tivesse responsabilidade por tudo o que diz, faz ou escreve. Se Bolsonaro o fez, é porque se sente absolutamente confortável por não ter sido contido até agora em sua espiral de barbaridades na condução do País durante a crise sanitária. Além dele, chegará o dia em que todos os que deixaram de cumprir seus deveres constitucionais também haverão de prestar contas à Justiça.

Na mesma entrevista, o presidente mentiu despudoradamente à Nação ao dizer que “algum moleque que morreu de covid tinha outra comorbidade qualquer”. Bolsonaro não tem dados para confirmar a afirmação. Se tem, não os apresentou. Afirmando “não conhecer” nenhuma criança que tenha morrido em decorrência da covid-19 no País, Bolsonaro também revelou ignorância, para dizer o mínimo, sobre dados do próprio Ministério da Saúde. De acordo com o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e o Sistema de Informação de Vigilância da Gripe (Sivep-gripe), 560 crianças entre 5 e 11 anos morreram por covid-19 desde o início da pandemia. A doença foi a maior causa de morte infantil no País depois dos acidentes de trânsito.

Para reforçar, com base em evidências, a gravidade da covid-19 para as crianças, o pediatra Marco Aurélio Sáfadi, consultor da Organização Mundial da Saúde (OMS) e representante da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) na audiência pública convocada pelo Ministério da Saúde sobre a vacinação infantil, demonstrou que a covid-19 foi a doença que mais matou crianças no Brasil entre todas as doenças para as quais há vacinas (sarampo, meningite, tuberculose, rotavírus, entre outras). A SBP publicou nota em que defende enfaticamente a vacinação de crianças contra o coronavírus, reforçando para pais e responsáveis que a vacina aprovada pela Anvisa é segura e eficaz.

À medida que a vacinação dos adultos avança, o público infantil passa a ficar ainda mais vulnerável à contaminação pelo coronavírus. A razão é evidente: ainda não há barreira imunológica nas crianças que impeça a circulação do patógeno, o que reforça a necessidade de vacinação. Ademais, ainda que nas crianças as manifestações da doença tendam a ser mais brandas, isso não significa que o risco de efeitos mais severos esteja totalmente descartado. Também é importante reforçar que, se a esmagadora maioria das crianças não desenvolve a forma grave da covid-19, caso não sejam vacinadas, elas podem transmitir o vírus para pessoas mais velhas, e estas sim apresentarem quadros mais críticos.

Pais e responsáveis devem confiar no histórico de segurança e sucesso dos programas de vacinação do País, uma referência internacional. Quanto mais brasileiros estiverem vacinados contra a covid-19, de todas as faixas etárias, mais próximo o País estará do fim deste pesadelo.

O Estado de São Paulo

Em destaque

As duas Masters derrotas do Estado Democrático de Direito

Publicado em 03/05/2026 às 06:07 Alterado em 03/05/2026 às 09:18   E o acordão no Congresso para enterrar a CPI do Master, dará certo? Há qu...

Mais visitadas