sábado, janeiro 08, 2022

Se as circunstâncias são boas para os adversários de Bolsonaro e Lula, o que está faltando?

Publicado em 8 de janeiro de 2022 por Tribuna da Internet

Charge do Zé Dassilva: Terceira via | NSC Total

Charge do Zé Dassilva (NSC Total)

William Waack
Estadão

A última vez em que um candidato apostou com sucesso que as várias circunstâncias o ajudariam foi Bolsonaro em 2018. Assim mesmo, ele se empenhou em empurrar as circunstâncias a seu favor (via uso das redes sociais) e teve a facada como um imponderável decisivo (a política é o campo do imponderável). Só que 2018 não se repete, é o consenso geral entre analistas e agentes políticos.

Por isso é que jogar parado como Lula faz é uma tática arriscada sobretudo contra o tempo. Aparentemente o calejado estado-maior petista acha que tudo converge para uma vitória até em primeiro turno. Os “empurrões” (a mãozinha ajudando os fatos) são absolutamente previsíveis: acenos ao difuso “centro” (via Alckmin) e o apelo à memória de tempos melhores (como se sabe, nada muda mais do que o passado).

E OS ELEITORES? – O problema para o cálculo político dos adversários de Lula e Bolsonaro é, em primeiro lugar, estabelecer se as circunstâncias estão atrapalhando ou ajudando as diversas candidaturas. Bolsonaro se esmera em reiterar o que tem de pior em termos de imagem, e Lula o que se espera de pior em termos de falta de ideias para tirar o País da estagnação (como demonstra sua opção de porta-voz para assuntos econômicos).

Mas é essa a percepção geral do eleitorado? Ou só da minúscula parcela dos que se dedicam profissionalmente à política? Não, a eleição não está ainda no horizonte do grande público.

Razoável “consenso” entre profissionais de pesquisas indica uma “demanda do eleitorado” rumo ao que se chamaria (com todas as dificuldades apresentadas pela maçaroca ideológica brasileira) para a “centro-direita”. Mas dentro de um ambiente emocional, importantíssimo para a política, de considerável medo (inflação e corrosão da renda), cautela (pandemia) e resignação (decepção com os incumbentes nos cargos políticos).

COMO INCENDIAR? – Surge daí para os adversários de Lula e Bolsonaro uma conclusão preocupante: as circunstâncias criam a mistura combustível necessária para incendiar uma eleição, mas isso dependerá da capacidade política de criar a faísca. Que é função neste momento de organização e mobilização políticas que rompam medo e resignação através de um “sonho”, de um horizonte além das corretas propostas de saúde, equilíbrio fiscal, educação de qualidade ou transparência democrática (tudo elogiável, sem dúvida).

De fato o País desaprendeu a sonhar consigo mesmo e hoje titubeia entre qual o pesadelo menos pior. Se não houver a “mãozinha” empurrando as circunstâncias, o sonho dependerá do imponderável. É muito alto o risco.

Pronunciamento do general Paulo Sérgio Nogueira vai além da vacinação; um aviso a Bolsonaro e seus seguidores

Publicado em 8 de janeiro de 2022 por Tribuna da Internet

General condicionou volta de militares ao trabalho à vacinação

Pedro do Coutto

O general Paulo Sergio Nogueira de Oliveira, comandante do Exército, fez um pronunciamento na tarde de quinta-feira, estabelecendo a vacinação dos militares e estendendo a sua decisão aos que praticarem fake news, sugerindo inclusive que alertem os seus parentes para tal atividade perniciosa.

O pronunciamento do ministro do Exército, podemos chamá-lo assim, tornou-se extremamente oportuno, talvez por coincidência do destino, no mesmo dia em que Bolsonaro gravou um vídeo que colocou na internet,  levantando suspeição sobre a Anvisa no seu empenho para vacinar a população infantil de 5 a 11 anos de idade.

DECLARAÇÕES – O Globo de ontem, reportagem de Jussara Soares, destaca o assunto realçado também na Folha de S. Paulo, por Vinicius Sassine. Na noite de quinta-feira, tanto a GloboNews, quanto a TV Globo no Jornal Nacional, colocaram no ar o vídeo contendo as declarações de Bolsonaro, e nele reproduziu entrevista que fez a uma emissora de televisão do Nordeste.

A manifestação de Bolsonaro, francamente, não poderia ter sido pior e mais prejudicial à sua própria campanha em busca de votos, num esforço muito grande para reduzir a diferença que Lula da Silva abriu sobre ele, assinalada tanto pelo Ipec quanto pelo Datafolha. Pelo Ipec, 48 a 21, pelo Datafolha, 48 a 22. A rejeição ao governo permaneceu alta. A situação eleitoral do chefe do Executivo revela-se precária e a sua vulnerabilidade só pode ter crescido depois de novamente condenar a vacinação infantil. E não é só.

RECEITA MÉDICA –  Depois de uma audiência pública cujos integrantes foram selecionados pelo ministro Marcelo Queiroga, mas que mesmo assim não aprovou a obrigatoriedade de receita médica, o desastre tornou-se ainda mais amplo. Não é possível que num momento em que a população brasileira adere maciçamente à vacinação contra a Covid-19, haja alguém disposto a votar em Bolsonaro em função de seu posicionamento contrário a que crianças de 5 a 11 anos sejam imunizadas.

A vacinação tem o apoio da comunidade científica de modo geral não apenas no Brasil, mas em mais 31 países, entre os quais os Estados Unidos, o Reino Unido, a França, a Itália e a Espanha. Não faz sentido que alguém deixe de levar o seu filho ou sua filha para vacinar-se em função do que disse literalmente o presidente da República. No episódio, ele só pode ter perdido votos para as eleições de outubro deste ano.

AMEAÇA –  Reportagem de Igor Gielow, Folha de S. Paulo desta sexta-feira, revela que o comando do Exército decidiu adiantar exercícios militares diante do temor de violência no caminho das urnas de outubro. O texto da decisão publicada por Igor Gielow é elucidativo.

A decisão do comando, que evidentemente inclui o ministro Paulo Sérgio Nogueira, diz: “Todos os 67 exercícios militares principais previstos para o ano que se encontram  marcados para o último trimestre foram adiantados e deverão ser executados no máximo até setembro. Depois disso, todo o efetivo  estará à disposição para eventuais necessidades”.

Acrescenta a reportagem que as conversações mantidas pelo Alto Comando do Exército tratam do tema polarização política levando em conta o cenário atual das pesquisas eleitorais. Generais temem que a animosidade entre os dois grupos possa descambar para incidentes pontuais de violência ou contaminar discussões em disputas estaduais.

CONVERGÊNCIA DEMOCRÁTICA – Na minha opinião, apreciando-se o documento do general Paulo Sérgio Nogueira com a manifestação do Alto Comando focalizada por Igor Gielow, verifica-se inevitavelmente uma convergência democrática previamente consolidada para impedir que aconteça nas urnas brasileiras de outubro o que ocorreu há um ano nos Estados Unidos,  quando radicais do Partido Republicano invadiram o Congresso na mais que alucinada tentativa de impedir a proclamação da vitória de Joe Biden.

Alguns comentaristas admitem que a atitude alucinada poderá render votos para o Partido Republicano para as eleições deste ano. A democracia, porém, é muito mais forte do que impulsos partidários, sobretudo os que vêm da extrema-direita. Se a violência (parto deste princípio) pudesse assegurar a vitória dos violentos, eles nunca perderiam o poder nos países do mundo. Refiro-me ao mundo democrático, claro.

MENSAGEM –  E, por isso, vejo claramente na manifestação do general Paulo Sérgio Nogueira e na instrução do Alto Comando um sentido tão claro quanto transparente de respeito ao resultado das urnas, e acho que a mensagem foi endereçada ao Palácio do Planalto e aos antigos apoiadores que na Esplanada de Brasília já pediram a intervenção militar e o fechamento do Supremo Tribunal Federal.

Só pode ser esse o motivo, porque na realidade, não faz sentido recorrer à violência a corrente política que está na frente da maratona eleitoral. A violência decorre do inconformismo e do reconhecimento tácito de que os seus autores  tentam escapar dos limites democráticos, um patrimônio popular brasileiro.

ESCOLAS DE SAMBA – O prefeito Eduardo Paes, mais uma vez,  foi ao encontro da reivindicação turística dos hotéis do Rio de Janeiro. Proibiu o Carnaval de rua, mas liberou o desfile das escolas de samba. Como os médicos já assinalaram, a decisão não faz sentido. A contaminação pelo desfile das escolas de samba é muito maior, sobretudo porque são dois dias de aglomerações no sambódromo e também nas concentrações das próprias escolas. Além disso, há o problema dos ensaios nos diversos bairros da cidade.

É recomendável que a questão seja revista para evitar um novo surto da pandemia que subiu exatamente no início deste ano, consequência das aglomerações causadas pelos festejos da passagem de 31 de dezembro, o que não pode representar uma coincidência em todos os países nos quais o fenômeno ocorreu.


8 Corrida por testes de covid esbarra em escassez e filas de espera nas farmácias




A explosão de casos de covid-19 e de pacientes com sintomas gripais tem levado a uma corrida por testes para detectar o coronavírus. Para quem procura os exames nas farmácias, as dificuldades de agendamento e a falta de estoque são os principais gargalos. Em dez unidades da região central de São Paulo das redes Droga Raia, Drogasil e Drogaria São Paulo consultadas pela reportagem nesta sexta-feira, 7, só há possibilidade de agendamento para a próxima quarta, 12. Na rede pública, prefeitos já cobram o governo federal o envio de mais kits com receio de desabastecimento.

Dados da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma) apontam que 283,8 mil testagens foram feitas entre 27 de dezembro e 2 de janeiro: 50% superior ao de 20 a 26 de dezembro. Já o volume de resultados positivos para covid pulou de 22,3 mil (11,8% do total) para 94,5 mil (33,3%). A dificuldade de atendimento no SUS, segundo representantes do setor, também pressiona ainda mais a rede privada. A epidemia de influenza (gripe) em vários Estados e o espalhamento da variante Ômicron do coronavírus, mais contagiosa, são os principais motivos para a aceleração da procura.

"O problema principal hoje é o estoque", diz o CEO da Abrafarma, Sérgio Mena Barreto. Isso porque, explica, os testes rápidos atingiram o pico por volta de maio do ano passado, quando 380 mil eram comercializados em um período de uma semana. Depois, contudo, a média foi caindo significativamente. "À medida que as pessoas foram se vacinando, a demanda foi baixando. A gente chegou a 90 mil, 100 mil testes por semana por volta de novembro. É óbvio que os sistemas das empresas vão se adaptando", conta Barreto.

"Só que a partir da segunda semana de dezembro isso começou a acelerar de uma hora para outra. Na última semana de dezembro, subiu para 280 mil testes", acrescenta ele. Além da demanda, o recesso de empresas de fornecedoras nesta época do ano e o baixo estoque nas farmácias complicam ainda mais o cenário. Agora, diz Barreto, não dá para prever o que acontecerá nas próximas semanas, até por não se saber qual será o comportamento da curva de contaminação. Mas a expectativa é que os pedidos de insumos que começaram a ser feitos com o aumento repentino da demanda comecem a chegar às farmácias e ajudem a normalizar a situação.

A Droga Raia e a Drogasil informaram, em nota, que "os testes de covid têm se esgotado rapidamente devido à alta demanda da população". Disseram ainda trabalhar para repor os estoques na próxima semana. Já a Drogaria São Paulo afirmou que, "como a procura aumenta a cada dia, os horários de agendamento rapidamente se esgotam". Acrescentou ainda se esforçar para atender a toda a demanda.

"Na semana entre Natal e ano-novo foi uma explosão de testes. Agora virou uma loucura", conta Marcelo Borges, proprietário e diretor técnico do laboratório Ourilab, no interior de São Paulo. Segundo ele, a demanda aumentou cerca de 300% na empresa, enquanto a porcentagem de testes positivos está por volta de 30%.

Borges explica que enquanto na passagem entre 2020 e 2021 também houve explosão na procura, os meses do meio do ano passado registraram "queda muito grande", o que fez com que o laboratório inclusive perdesse insumos. Isso porque, acrescenta, essa matéria-prima costuma ter vencimento muito curto, de cerca de dois meses, o que dificulta que os laboratórios façam estoques robustos para realização de testes de antígeno (o mais rápido), PCR (o molecular, considerado mais preciso), entre outros.

"Até baseados na experiência do ano passado, abastecemos, mas o estoque de testes de covid está se esgotando muito rápido. Nossa estimativa é de que deve durar mais uns cinco dias, se seguir no ritmo atual", diz o dono do laboratório. Os testes de influenza (gripe), explica, se esgotaram ao longo desta semana. "Acreditamos que os fornecedores de insumos não acreditaram tanto no aumento da demanda."

Diante do fato de os testes de influenza serem mais caros, representantes de laboratórios ouvidos pelo Estadão apontaram que, por mais que isso não seja o recomendado, pacientes com sintomas gripais têm preferido realizar só os exames de covid. Quando o resultado dá negativo, explicam, eles presumem que é gripe.

Fornecedora de insumos para diagnósticos in vitro, a Vyttra Diagnósticos informou que a busca pelo combo que testa para covid e influenza de uma só vez saltou 14.864% de novembro para dezembro. Segundo a empresa, ainda não há falta de produtos em estoque, mas há um pico na demanda desde dezembro que, estima, irá continuar enquanto o Brasil estiver "sob a onda da variante Ômicron".

"Verificamos que a Ômicron se tornou a variante predominante em nossas amostras, sendo responsável por mais de 94% dos casos de covid nos nossos testes, sendo que nos últimos sequenciamentos que fizemos, tivemos 100% de Ômicron", aponta David Schlesinger, CEO da Mendelics, empresa que produz testes e diz não necessitar de importações para seus produtos. Na 1ª semana de dezembro, a taxa de casos de positivos na Mendelics estava perto de 3%. Agora, está em torno de 23%.

Prefeito que lidera consórcio vê risco de desabastecimento

O prefeito de Florianópolis, Gean Loureiro (DEM), afirmou nesta quinta-feira, 6, ver risco de desabastecimento de testes de covid diante da escalada de infectados no País. Loureiro preside a Conectar, consórcio que reúne mais 2 mil administrações municipais. O grupo também pediu reforço na entrega de remédios para covid e influenza.

"Vai faltar teste daqui a pouco, com esse aumento da demanda que está tendo [...] O governo federal, que lidera a política nacional, precisa agir rapidamente. Além da taxa de transmissão da covid, que está crescendo de forma gigantesca, temos a questão da Influenza. Quem tem sintomas, faz teste de covid também", disse Loureiro ao Estadão/Broadcast Político.

Loureiro cita que, na capital catarinense, as três Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) da cidade têm média de 800 atendimentos por dia. Na última segunda, 3, o número passou das 3,5 mil. "Na onda (de covid) que teve em março, o problema era de leitos de UTI e mortes. Em que pese a Ômicron ser menos agressiva ao corpo, esses sintomas fracos fazem com que, mesmo que você não seja internado, vá para as emergências. Os prefeitos estão sofrendo com a superlotação. A gente está vivendo colapso das unidades básicas de saúde, emergências de hospitais."

Além do aumento na quantidade de testes os prefeitos do Consórcio Conectar pedem, no ofício enviado ao Ministério da Saúde, ajuda na montagem de estrutura para aplicação dos exames. "Peguei ginásios, caminhões itinerantes para fazer a testagem, mas tem município que não consegue fazer isso. É necessário dar suporte para todos os municípios e testar todo mundo, tanto os sintomáticos quanto os assintomáticos", relata Loureiro.

Secretário de Saúde do Espírito Santo, Nésio Fernandes afirma que o acesso dos gestores aos exames ficou mais fácil, com maior produção de kits e a oferta de produtos a preço mais baixo. A estrutura dos governos locais para abrir pontos de testagem, entretanto, é limitada. "Há dificuldade financeira de Estados e municípios abrirem rapidamente grandes quantidades de pontos de testagem, em virtude de que existe uma complexidade logística", explicou Fernandes. A ampliação da testagem na rede pública, portanto, envolveria medidas como a contratação de equipamentos de proteção individual e de uma maior quantidade de profissionais para administrar os testes, afirma o gestor capixaba.

Nesta sexta, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, disse que, se for necessário ampliar a oferta de testes, a pasta vai fazer isso. O governo federal promete distribuir 6 milhões de kits de diagnóstico aos municípios na próxima semana. Para o mês de janeiro, a previsão total de entrega é de 30 milhões de unidades.

Estadão / Dinheiro Rural

Além de reforma trabalhista, PT quer rever teto de gastos e privatizações




A indicação do PT de que pode imitar a Espanha e desfazer a reforma trabalhista no Brasil não é a única revisão de medida econômica que o partido discute adotar caso volte ao poder. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e importantes integrantes da legenda também avaliam atuar para reverter outras propostas aprovadas nos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, como o programa de privatizações de estatais - que pouco avançou - e o teto de gastos, principal âncora fiscal da economia.

Uma ala do partido defende incluir na lista do "revogaço petista" a autonomia do Banco Central, aprovado no ano passado pelo Congresso, mas essa discussão ainda está num estágio menos amadurecido.

Líder nas pesquisas de intenção de votos, Lula já tem dado sinais claros de que pretende mudar a orientação liberal que foi dada pelos governos Temer e Bolsonaro. O primeiro movimento claro foi feito em relação a uma revisão da reforma trabalhista, aproveitando o que vem sendo feito nesse sentido pelo governo da Espanha.

"É importante que os brasileiros acompanhem de perto o que está acontecendo na reforma trabalhista da Espanha, onde o presidente Pedro Sanchez está trabalhando para recuperar direitos dos trabalhadores", escreveu Lula nas suas redes sociais, colocando na rua o debate em torno da revisão de medidas liberais. O presidente da Espanha, Pedro Sanchez, agradeceu ontem Lula pela sua postagem. "Obrigado, Lula, por reconhecer este novo modelo de legislação trabalhista que vai garantir os direitos de todos", declarou Sánchez no Twitter (mais informações nesta página).

A discussão é polêmica e provocou reações contrárias. O deputado licenciado Rodrigo Maia (sem partido-RJ), que presidiu a Câmara durante a votação da reforma trabalhista, avaliou que o ponto que gera esse interesse de rever a medida está na discussão sobre a volta de financiamento dos sindicatos, que historicamente formam a base de apoio do PT.

"Ao mesmo tempo que defendem revogar a reforma trabalhista daqui, defendem o modelo econômico da China, que não dá direito nenhum aos trabalhadores", afirmou Maia. "Grande parte da legislação trabalhista antiga gerava uma massa de advogados na Justiça do Trabalho. Isso não resolvia para ninguém", completou o parlamentar, que atualmente ocupa uma secretaria no governo de São Paulo, comandado por João Doria (PSDB), pré-candidato ao Planalto.

Dentro da campanha do ex-presidente, a dúvida, agora, é a forma e o "timing" como essas discussões sobre a revisão liberal devem ser conduzidas e o quanto poderá ser ampliada sem afastar possíveis apoiadores com visão mais liberal. Ao mesmo tempo em que acena com o cavalo de pau na atual política econômica, o partido negocia a vaga de vice de Lula com o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin, que defendeu essas pautas enquanto esteve nas fileiras do PSDB.

BANCO CENTRAL

Na discussão sobre a autonomia do Banco Central, a bancada do PT na Câmara defende a revisão da medida. Mas setores importantes do partido avaliam que a discussão pode ser sensível demais. Para o deputado Carlos Zarattini (SP), a aprovação da autonomia do BC foi um erro porque pode deixar o presidente "de mãos amarradas".

"Sou a favor da revisão. A gente não pode ter o presidente da República de mãos atadas. O Lula nunca interferiu na política do Banco Central nos oito anos que ficou lá, mas o Henrique Meirelles também nunca fez uma política antagônica à política de crescimento econômico. Só que pela forma que o atual presidente do BC atua, vai ser difícil. Porque ele não leva em conta a conjuntura do País e vai ficar no cargo mais dois anos", disse o parlamentar. Conselheiros econômicos do ex-presidente, como o ex-prefeito Fernando Haddad, também já deram declarações no mesmo sentido.

Na prática, será o próprio Lula que definirá o rumo do discurso econômico da campanha. Até porque o ex-presidente não definiu nenhum nome para liderar a discussão sobre suas propostas na área - e não é certo nem que o faça. Hoje, segundo aliados, a ideia de Lula é ouvir avaliações e receber informações de economistas do PT, como Guido Mantega, Nelson Barbosa e Aloizio Mercadante, mas será ele quem dará a palavra final.

Lula já se manifestou publicamente em março do ano passado contra a autonomia do BC, antes da sua aprovação, mas sem mencionar que poderia rever a medida. "A quem interessa essa autonomia? Não interessa ao trabalhador que foi mandado embora da Ford, o presidente da CUT. Interessa ao sistema financeiro", disse Lula em discurso no Sindicato dos Metalúrgicos.

O atual presidente do BC, Roberto Campos Netto, foi nomeado segundo as novas regras em abril, e tem mandato até 31 de dezembro de 2024.

CONSENSOS

Enquanto isso, frear o programa de desestatizações e o fim do teto de gastos são temas consensuais dentro da campanha. Lula já se queixou publicamente da venda da BR Distribuidora e afirmou que pretende fortalecer a Petrobras, por exemplo.

Na revisão do teto de gastos, a discussão também está bastante avançada. Até porque o atual governo já avançou nessa regra no ano passado ao mudar a forma de cálculo, abrindo margem para poder gastar mais neste ano.

"O governo deve coordenar um ambicioso plano de investimentos públicos e privados, gerando muitos empregos! Tchau teto dos gastos, totalmente desmoralizado por Bolsonaro. A política fiscal tem de servir aos interesses do país e do povo", afirmou a presidente do partido, deputada Gleisi Hoffmann (PR), em postagem no Twitter.

Estadão / Dinheiro Rural

Rejeição ao governo Bolsonaro atinge maior patamar, segundo Modalmais/AP Exata

 




POR ROSANA HESSEL

Após as polêmicas férias em Santa Catarina enquanto moradores da Bahia submergiam nas enchentes, a  reprovação ao governo Jair Bolsonaro (PL) atingiu o patamar mais alto registrado durante o mandato, conforme dados da 63ª edição da Pesquisa Modalmais-AP Exata, que monitora as redes sociais, atingindo 54%.
 
O levantamento divulgado, nesta sexta-feira (07/01), foi realizado entre os dias 3 e 7 de janeiro, e registrou que 54% dos internautas de 145 cidades brasileiras consideram a gestão de Bolsonaro ruim ou péssima. Na pesquisa anterior, esse percentual era de 53,8%, acima dos 53,5% de uma semana antes, mostrando uma curva ascendente da rejeição do presidente. Enquanto isso, a fatia dos que acham a atual administração boa ou ótima caiu de 24,5%, há duas semanas, para 24,1%, nesta semana. O percentual de pessoas que avalia o governo Bolsonaro como regular ficou estável em 21,9%.

A repercussão negativa do presidente farreando nas geladas praias catarinenses e provocando aglomerações sem máscara enquanto os casos de covid-19 devido à nova variante ômicron voltaram a crescer em todo o país, não foi revertida mesmo após a internação de Bolsonaro com crise intestinal no primeiro dia útil do ano.

“A internação do presidente no primeiro dia útil do ano expôs Bolsonaro a uma forte onda de críticas e também revelou dificuldades da militância digital governista em combater o discurso desfavorável. Se, em 2017, bolsonaristas dominavam a narrativa das redes, o cenário, hoje, é completamente diferente. Bolsonaro influencia apenas a sua bolha de apoiadores e revela uma enorme dificuldade de conquistar internautas fora da sua área de influência”, destacou o levantamento.

De acordo com a pesquisa, a internação de Bolsonaro reforçou a ideia de que ele saiu de férias enquanto a Bahia enfrentava problemas graves de cheias. Opositores também conseguiram impor a ideia de que o presidente estaria tentando se aproveitar da internação para gerar comoção, o que foi muito rechaçado. “Além disso, surgiram muitos memes dizendo que Bolsonaro teria obtido uma punição divina e ironizando que ele teria conseguido um atestado para não trabalhar no primeiro dia útil do ano”, acrescentou o documento.

As menções positivas a Bolsonaro tiveram um pico positivo no dia 1 de janeiro, fruto das mensagens desejando feliz ano novo, A internação do presidente na segunda-feira (03), causou uma queda abrupta nas menções positivas, que ainda não foi totalmente revertida, conforme dados da pesquisa.

A pesquisa indicou que houve muitas acusações de que o chefe do Executivo “cometeu excessos nas festas de fim de ano, resultando em problemas
de saúde. “A crise foi reforçada com a notícia de que ele encontrou dificuldades para digerir um camarão engolido inteiro. A reação aos ataques de opositores foi ainda comprometida por uma guerra interna que acontece dentro da esfera do bolsonarismo”, destacou.

Ciro melhora performance

O pré-candidato do PDT Ciro Gomes, de acordo com a Pesquia Modalmais/AP Exata tem surpreendido nas redes sociais e é o candidato que apresenta a melhor média de aprovação no Twitter. Nesta sexta-feira, foi o único candidato com mais aprovação do que rejeição, atingindo 53% de menções positivas.

Conforme os dados do estudo, Ciro está conseguindo impor uma agenda econômica na esfera dos que falam de sua eventual candidatura, ao citar um

Plano Nacional de Desenvolvimento. A ideia foi bem vista entre os que citam o presidenciável.  Além disso, a possibilidade de uma chapa entre Ciro Gomes e Marina Silva (Rede), já apelidada nas redes de chapa “Cirina”, tem causado entusiasmo entre potenciais eleitores das duas lideranças, que consideram que a união entre eles é também a associação do desenvolvimentismo com a sustentabilidade.

Ciro ainda tem uma visibilidade pequena em relação a Bolsonaro e ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas eventualmente se aproxima de Sérgio Moro (Podemos). “O ex-juiz tem sido mais falado por conta de ataques do que de suas propostas, o que deixa Ciro em vantagem com relação ao seu adversário mais próximo nas pesquisas”, informou o estudo.

Enquanto Bolsonaro lidera as citações dos presidenciáveis nas redes sociais nos últimos cinco dias, com 57,9%.  Lula, teve 25,8%, enquanto Moro ficou com 10,3% e Ciro, com 4,2%. “Com o cenário favorável que vem se desenhando em torno de Ciro, é provável que o pedetista consiga mais espaço entre os eleitores que buscam uma terceira via”, destacou o relatório. Contudo, o documento reconheceu que a polarização entre Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) segue bastante forte e os dois pré-candidatos alcançaram, nos últimos cinco dias, uma média de 83,6% de todas as menções entre os presidenciáveis. João Dória (PSDB), Rodrigo Pacheco (PSD), Felipe D’Ávila (Novo) e Simone Tebet (MDB) continuam sem conseguir se impor como lideranças de alcance nacional, ao menos nas redes.

No escuro

Outro fator negativo para o governo foram as críticas de especialistas em relação à falta de ação mais incisiva no combate à pandemia do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga. “Especialistas têm manifestado preocupação quanto à falta de dados sobre a variante ômicron no Brasil e a aparente displicência da população na manutenção de cuidados básicos de higiene. O apagão dos dados do Ministério da Saúde ainda mantém os pesquisadores ‘no escuro’ sobre a evolução da pandemia”, informou a pesquisa.

A falta de testagem em massa também impede, segundo os especialistas, a identificação e combate cirúrgico a focos de contágio e controle de novas infecções. Internautas observam que a maioria da população não está obedecendo a protocolos sanitários, e culpam a falta de orientação do Ministério da Saúde.

Correio Braziliense

A fumaça do Capitólio brasileiro




Apesar de armistício, acrobacias antidemocráticas do presidente terão efeito em 2022 e no futuro

Por Bruno Boghossian (foto)

Donald Trump não conseguiu melar a eleição de 2020, mas teve sucesso em seu plano B. Um ano depois da invasão do Capitólio, um terço dos americanos acredita na informação falsa de que a disputa foi fraudada para favorecer Joe Biden, e quase metade dos republicanos não aceita até hoje a vitória do democrata.

O ex-presidente adubou o terreno político dos EUA para preservar sua influência. Mesmo derrotado, ele se consolidou como líder de um processo de divisão da sociedade americana que se tornou uma importante ferramenta eleitoral da direita.

O trumpismo se firmou como uma linha central do Partido Republicano. Dirigentes se recusam a condenar a tentativa de golpe de 6 de janeiro de 2021, tratam o ex-presidente como um candidato competitivo para 2024 e pegam carona nas fantasiosas alegações de fraude para aprovar medidas que restringem o voto de potenciais eleitores democratas.

O golpismo de Trump sobreviveu à tentativa de golpe. Instalou-se como projeto político, infiltrado no eleitorado e na máquina partidária, acelerando um processo de erosão da democracia americana. O mesmo prejuízo pode ocorrer como consequência das acrobacias autoritárias conduzidas por Jair Bolsonaro ao longo de seu mandato.

Embora tenha sido forçado a aderir a um armistício nos últimos meses, o presidente brasileiro conseguiu disseminar uma desconfiança extraordinária sobre o sistema de votação do país. Sua campanha agitou policiais militares dispostos a participar da micareta golpista de 7 de setembro e estimulou o TSE a escalar um general como xerife das próximas eleições.

O primeiro ataque de Bolsonaro ao Capitólio já ocorreu, no último Dia da Independência. O presidente não teve êxito em sua manobra para roubar a eleição com antecedência, mas lançou fumaça suficiente para tumultuar a votação deste ano, alimentar suspeitas sobre o resultado em caso de derrota, gerar dúvidas sobre a posse de seu sucessor e sobreviver na era pós-Bolsonaro.

Folha de São Paulo

O incendiário do Palácio do Planalto - Editorial




Com reajuste para forças de segurança, Bolsonaro encoraja funcionários públicos e policiais civis e militares a criarem um caos no País

O presidente Jair Bolsonaro armou mais uma crise para seu próprio governo ao prometer reajustes salariais às carreiras policiais ligadas ao Ministério da Justiça, deflagrando uma reação em todas as demais categorias de servidores públicos. Em um país que já sofre com inflação alta, juros em ascensão e desemprego elevado em meio ao recrudescimento de casos de covid-19 e, agora, também de influenza, tudo que a sociedade não precisava era de uma ameaça de greve. A entrega de cargos de chefia por funcionários da Receita Federal, Banco Central e auditores fiscais do Trabalho é mais um elemento de instabilidade para a economia, cujas projeções de crescimento foram reduzidas a 0,36% para este ano, conforme o mais recente boletim Focus.

A resposta da elite do funcionalismo cresce a cada dia, e nem poderia se esperar algo diferente. De acordo com o Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (Sindifisco), cerca de mil servidores já abriram mão de funções comissionadas e, segundo o Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central (Sinal), quase metade dos 3,5 mil em cargos de confiança teria se comprometido a fazer o mesmo. O Fórum Nacional Permanente de Carreiras Típicas de Estado (Fonacate), associação formada por mais de 30 entidades que representam 200 mil pessoas, marcou uma paralisação para 18 de janeiro e não descarta uma greve geral em fevereiro.

A maioria do funcionalismo público não recebe aumento desde 2017 e acumula perdas salariais de 27,2%. Não é privilégio deles. No setor privado, os trabalhadores com carteira assinada obtiveram reajuste de 6,5% entre janeiro e novembro, segundo o Salariômetro da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), também inferior à inflação. O coordenador do levantamento, Hélio Zylberstjan, explicou ao Estado que isso é resultado de uma combinação perversa entre inflação e recessão, que reduz o poder de barganha dos sindicatos. A exceção à regra são justamente os funcionários públicos, cuja estabilidade assegura que protestos não terminem em demissão.

Não se trata de demonizar o instituto da estabilidade, que garantiu o mínimo de independência e autonomia aos servidores em um governo comandado por alguém que submete instituições de Estado a seus propósitos particulares. A questão é que essas categorias vivem uma realidade mais confortável que a dos trabalhadores de forma geral. No topo da carreira, parte do funcionalismo público pode ganhar até R$ 31 mil. Já a renda média dos ocupados formais e informais atingiu o piso de R$ 2.449 no trimestre encerrado em outubro, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE, o pior de toda a série histórica, que teve início em 2012.

A desfaçatez de Bolsonaro é tamanha que tenta revestir um agrado à sua base eleitoral de “reestruturação”, algo que só viria por meio de uma ampla reforma administrativa. Ao elevar os rendimentos da Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e Departamento Penitenciário Nacional em plena recessão, ele indiretamente incentivou o restante de seus apoiadores a cobrar a mesma benesse. O País não deve se surpreender quando policiais civis e militares começarem a pressionar os governadores por aumento em seus rendimentos – quem não se lembra das crises de segurança pública no Espírito Santo e no Ceará? De sua parte, o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que outras duas categorias até agora não reveladas podem ser contempladas por reajustes, o que é quase um estímulo para os servidores federais mostrarem sua força com filas de caminhões em portos e fronteiras.

Para completar, o governo dá mais uma prova de ser incapaz de elaborar um Orçamento que cumpra as exigências legais. Como mostrou o Estado, a verba reservada é suficiente para uma parte de 2022, mas não contempla o necessário para todos os meses de 2023, o que resultará em um aumento menor ou no envio de mais um projeto de lei ao Congresso para ampliar os recursos. Nunca se viu tamanho amadorismo no setor público.

O Estado de São Paulo

Contrato nupcial entre desiguais




PSB está com pouco poder de barganha para negociar com PT

Por César Felício (foto)

A federação partidária é uma velha aspiração do PSB. Não à toa foi um parlamentar do partido que propôs o projeto aprovado no ano passado. Isso em 2015, iniciativa do então senador Antonio Carlos Valadares.

O parceiro preferencial de quase todas as articulações partidárias sempre foi o PT. Está claro, portanto, que ainda que possam acontecer outros matrimônios no jogo das legendas, os protagonistas da novela que o mundo político acompanha são PT e PSB. Partidos de centro-direita podem se federar, mas a Federação é uma antiga ideia da centro-esquerda.

Andam mal as negociações, dada a resistência petista em ceder espaços, e caciques partidários de fora da esquerda apostam que o casamento não irá se concretizar.

“A questão central é a governança. Vai ser preciso um estatuto da federação. São muitas as dúvidas. As convenções serão conjuntas ou cada sigla terá que fazer a sua? se forem juntas, como vai ser a ponderação? quem vai ter mais peso?”, indaga um adversário certo da esquerda este ano.

Ele enumera outras dificuldades: a federação valerá por quatro anos, depois de celebrada. Ou seja, vigorará nas eleições municipais de 2024. Não se trata apenas de uma coligação presidencial, mas de 27 acertos este ano, uma vez que ela precisa ser repetida em todos os Estados. E daqui a dois anos precisa se repetir nos 5.570 municípios.

A resolução aprovada pelo Tribunal Superior Eleitoral em dezembro estipula que o arranjo todo precisa ser oficializado pela justiça até o dia 2 de abril. Daqui a menos de três meses, portanto. Sendo que o exame da federação pelo TSE só está assegurado para aqueles que requererem o registro até 1º de março. Faltam 53 dias.

Tudo precisará estar posto sobre a mesa com clareza, até porque, conforme o TSE consignou no artigo 11 da resolução, “as controvérsias entre os partidos políticos relativas ao funcionamento da federação constituem matéria ‘interna corporis’, de competência da justiça comum”.

A conclusão deste adversário das esquerdas é que a federação é factível quando há uma assimetria muito grande entre uma sigla e outra, de maneira a que haja um partido que mande e outro que obedeça. Poderia ser o caso, por exemplo, do PT com o PCdoB. Ou do PSDB com o Cidadania, para citar um possível enlace em outro campo ideológico. O PSB é um partido de porte médio, com controle de máquinas estaduais, sendo Pernambuco a mais relevante.

O que conta, e muito, a favor é que a proximidade entre os partidos é histórica. Principia em 1994, a primeira eleição geral das duas siglas, de presidente a deputado estadual. PT e PSB firmaram alianças em 18 Estados, inclusive em São Paulo, algo que não mais se repetiria. O PSB só não compôs a chapa com Luiz Inácio Lula da Silva porque um escândalo atingiu o senador José Paulo Bisol, que havia sido escalado como vice.

Também foi significativamente forte na eleição de 1998. Naquela ocasião, Luiz Inácio Lula da Silva foi um candidato representando uma frente da esquerda contra um incumbente, Fernando Henrique Cardoso. Ou seja, uma eleição disputada na mesma plataforma do que a atual, ainda que naquela ocasião as chances de vitória do petista fossem reduzidíssimas, como a história comprovou. Naquela eleição, PT e PSB voltaram a se unir em 18 Estados.

A eleição seguinte, 2002, foi marcada pela verticalização das coligações, ou seja, pela obrigatoriedade das alianças estaduais repetirem uma coligação presidencial. Como tanto PT quanto o PSB lançaram candidatos naquele pleito - o vitorioso Lula e o então governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho pelos socialistas - coligações entre os dois partidos nos Estados ficaram interditadas judicialmente. Foi o ponto fora da curva.

Em 2006, foi Lula que disputou como incumbente. A verticalização ainda vigorou, mas o PSB não fechou aliança presidencial e assim pôde negociar nos Estados. Uniu-se ao PT em 16 unidades federativas. Quatro anos depois, na eleição de Dilma, a proximidade se repetiu. Novamente aliança em 16 Estados.

A partir daí o PT começou a declinar e o PSB se distanciou. Em 2014, eles se separaram na eleição presidencial, com a candidatura de Marina Silva pelos pessebistas, mas ainda assim foram realizados seis acertos regionais com os petistas. Em 2018, PSB e PT marcharam juntos em apenas sete Estados.

Com exceção da disputa de 2002, a história mostra portanto que o PSB se interessa mais pela aproximação quando Lula é o grande operador da aliança. Ele foi o candidato em 1994, 1998 e 2006 e atuou diretamente na eleição de 2010. Na de 2014, como se sabe, Lula teve menos protagonismo. Na de 2018 estava preso, mas ainda assim conseguiu inviabilizar à distância uma aliança do PSB em apoio a Ciro Gomes (PDT). PT e PSB se uniram em Minas Gerais e Pernambuco, onde respectivamente governavam, e o PSB ficou neutro na presidencial.

Além da tradição, joga também a favor de uma aliança o aperto da cláusula de barreira e o fim das coligações proporcionais fora do ambiente da Federação. É uma circunstância que não existia nos outros pleitos e que tirou muito o poder de barganha de todos os partidos que não têm um candidato presidencial próprio, como é o caso do PSB há oito anos.

A Federação de partidos é um passo enorme em relação a todas as demais aproximações entre o PT e o PSB, em termos de complexidade para funcionar e na quantidade de arestas a aparar. Nada garante que o arranjo vá sair. Mas, em se tratando de uma candidatura presidencial de Lula, é razoável supor que o PSB estará disposto a fazer concessões.

Até porque está com poucas e cartas na mão. Se o PT não atender as exigências, o PSB fará o quê? tirar Ciro Gomes do isolamento? Lançar Márcio França para presidente? Ambas as alternativas não são aleatórias, chegaram a ser mencionadas por integrantes do partido. Difícil é acreditar que estas empreitadas garantam a eleição de bancadas expressivas, e o PT sabe e se aproveita disso.

As pesquisas que mostraram Lula vencendo a eleição presidencial ainda no primeiro turno, em um certo sentido, tornaram a conversa mais difícil.. Deixaram o PT mais arrogante e cobiçoso de ter só para si o efeito de puxador de voto que o cabeça da chapa deve ter. Se o casamento sair, será entre desiguais.

Valor Econômico

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