sábado, janeiro 08, 2022

Extrema direita tenta reescrever a violenta invasão do Capitólio como ato patriótico




Homem identificado como integrante do grupo racista Proud Boys faz gesto associado à supremacia branca durante invasão ao Capitólio dos EUA, em 6 de janeiro de 2021 

Por Sandra Cohen 

Plataformas conservadoras são inundadas por infundadas teorias da conspiração para inocentar Trump e seus seguidores.

No primeiro aniversário da invasão do Capitólio, sites e emissoras que alimentam as mentes da extrema direita nos EUA se dedicaram a reescrever, com mentiras, o mais violento ataque à sede do Congresso por multidão de seguidores do ex-presidente Donald Trump. Proliferaram versões fantasiosas, minimizando ou zombando dos atos de vandalismo que naquele 6 de janeiro deixaram sete mortos e mais de 150 feridos.

Teorias da conspiração concentraram-se na tese de que o motim foi orquestrado pelo FBI e que agentes federais e outros infiltrados armaram os manifestantes. E na crença de que a eleição de Joe Biden foi roubada e os democratas são traidores.

Comentarista de maior audiência da Fox News e defensor fervoroso do ex-presidente, o apresentador Tucker Carlson combateu os que chamaram a invasão de ataque terrorista ou de insurreição. A rebelião, segundo ele, foi um ato de patriotismo.

Por esta razão, Carlson confrontou duramente o senador republicano Ted Cruz, que havia classificado os insurgentes como terroristas. “Desde o início, CNN, Político, The Atlantic e todos os âncoras cabeças-de-vento têm chamado o 6 de janeiro de insurreição. Não foi uma insurreição”, resumiu o comentarista.

As mentiras deslavadas que inundaram estas plataformas tinham como objetivo atacar o presidente Joe Biden e absolver Trump e seus partidários. Para os propagadores de fake news e revisionistas do ataque ao Capitólio, como Carlson, a perseguição aos manifestantes acabou criando uma classe de “mártires patriotas”.

    “Fingir que um protesto foi na verdade um golpe fracassado é uma estratégia do Partido Democrata para vencer as eleições de meio de mandato deste ano. Neste ponto, é tudo o que eles têm”, atestou o comentarista da Fox'. 

Em seu podcast “War Room”, Steve Bannon, ex-estrategista da Casa Branca e conselheiro do ex-presidente, deu voz à deputada Marjorie Taylor Greene, eleita como representante do movimento QAnon e que foi expulsa do Twitter por disseminar informações infundadas sobre a vacina contra a Covid-19.

    'Ela atribuiu a responsabilidade do ataque aos democratas, à polícia do Capitólio e ao governo federal. Outro bastião da direita alternativa, o site Breitbart, que já foi dirigido por Bannon, dedicou-se a classificar o aniversário da invasão como “dia da histeria democrata”. 

Numa manobra radical da realidade, um dos dias mais sombrios da democracia americana foi vergonhosamente lembrado por negacionistas como um símbolo de patriotismo. E os indiciados pelo Departamento de Justiça por depredar a sede do Congresso, perseguir congressistas e agredir policiais foram retratados como vítimas ou prisioneiros políticos.

G1

OMS alerta: ômicron é mortal e não deve ser subestimada




Nova cepa de covid-19 tem se tornado predominante em muitos países, levando a aumento no número de casos, hospitalizações e mortes, principalmente entre não vacinados, segundo a Organização Mundial da Saúde.

O diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, declarou nesta quinta-feira (06/01) que a variante ômicron do coronavírus tem causado hospitalizações e mortes em todo mundo e que, por isso, não pode ser subestimada. Tedros também disse, durante entrevista coletiva, que a nova cepa está ultrapassando rapidamente o número de contágios da variante delta em vários países.

"Embora a ômicron pareça apresentar sintomas menos graves em comparação à delta, especialmente nos vacinados, isso não significa que deva ser classificada como branda. Assim como as variantes anteriores, a ômicron está hospitalizando e matando. O tsunami de casos é tão grande e veloz que tem sido avassalador para os sistemas de saúde em todo o mundo", afirmou Tedros.

Estudos sugerem que a ômicron, detectada pela primeira vez em novembro no sul do continente africano, tem menos probabilidade de causar sintomas mais graves nos infectados em comparação com variantes anteriores. No entanto, sua facilidade de transmissão parece ser ainda mais alta.

Os contágios por covid-19 aumentaram 71% em uma semana, em todo o mundo. Apenas nos Estados Unidos, foram registrados mais de 1 milhão de casos em 24 horas. Nas Américas do Norte, Central e do Sul, o número de novas infecções aumentou 100%. Segundo a OMS, em todo o mundo, 90% dos casos graves são de indivíduos não vacinados.

'Objetivo da OMS é ter 70% da população global vacinada até meados de 2022'

Crítica à sede de vacinas das nações ricas

O primeiro pronunciamento de Tedros Ghebreyesus em 2022, a partir de Genebra, na Suíça, ficou marcado também por críticas à ausência de vacinas em países pobres. Ele se referiu à retenção de doses nos países ricos, o que, segundo a OMS, criou o terreno perfeito para o surgimento de novas variantes.

O chefe da OMS insistiu para que o mundo compartilhe as vacinas de forma mais justa em 2022, a fim de sustar a onda de "morte e destruição” causada pelo novo coronavírus.

Para 2021, a meta do biólogo etíope era que todos os países tivessem pelo menos 10% de sua população totalmente vacinada até setembro, e um total de 40% até dezembro. Dos 194 membros da OMS, 92 não alcançaram esses percentuais: 36 sequer chegaram aos 10% por não disporem de doses suficientes.

Agora Tedros Ghebreyesus quer que 70% da população total de todos os países esteja vacinada até julho. A julgar pelo curso atual, 109 países não devem alcançar o objetivo.

"A iniquidade vacinal é um assassino de seres humanos e de empregos, e atinge diretamente a recuperação econômica global. Doses e mais doses de reforço apenas num pequeno número de países não darão fim à pandemia, enquanto bilhões permanecerem desprotegidos”, declarou Tedros.

'Técnica da OMS criticou uso incorreto de máscaras sanitárias: "Abaixo do queixo é inútil"

Fim da pandemia em 2022 é polêmico

A diretor técnica da OMS no combate à covid-19, Maria van Kerkhove, declarou ser muito improvável que a ômicron vá ser a última variante do coronavírus a causar preocupação no mundo, antes de um possível fim da pandemia. Ela voltou a insistir para que se mantenham as medidas de prevenção para proteger contra o vírus.

"Façam tudo o que for aconselhado, de maneira abrangente e objetiva. Precisamos aguentar firme e lutar”, reforçou, dizendo-se espantada por ver alguns portando de maneira incorreta os acessórios de proteção sanitária: "É preciso cobrir o nariz e a boca. Máscara abaixo do queixo é inútil”, criticou Van Kerkhove.

O representante da OMS na área de recursos para o coronavírus, Bruce Aylward, acrescentou que "não há necessidade de terminar 2022 com pandemia”. Mas o diretor de emergências da entidade, Michael Ryan, ressalvou ser possível que "estaremos sentados aqui no fim deste ano, de algum modo, tendo a mesma conversa – o que, por si só, já seria uma grande tragédia”.

Deutsche Welle

A combinação de fatores que deixa Brasil e América do Sul mais protegidos contra a ômicron




Alta adesão à vacinação é fator crucial para a relativamente mais alta proteção do Brasil contra a ômicron 

Enfermarias e pronto-socorros lotados de pessoas com problemas respiratórios retratam um momento preocupante da pandemia de covid-19 no Brasil, simultaneamente a uma epidemia de influenza.

Mas, em meio ao avanço global da variante ômicron, que demonstra ser muito mais transmissível, faz o mundo bater recorde de novos casos de covid-19 e já causou mortes por aqui, os dados e os especialistas sinalizam que o Brasil – junto a boa parte da América do Sul – tem atualmente barreiras de proteção mais robustas para evitar que a explosão de infecções resulte em altos números de casos pacientes graves e óbitos.

Em parte, isso se dá tanto por motivos positivos – como a alta adesão da população brasileira às vacinas – quanto por razões trágicas e ao menos parcialmente evitáveis, como a devastação causada no país por ondas e variantes prévias do coronavírus.

“Fomos a região do mundo que mais sofreu: temos o maior excesso de óbitos (em relação às mortes registradas em anos normais, pré-pandemia). Mas também somos a região que mais vacinou até agora. Esses dois eventos geram algum tipo de proteção”, diz à BBC News Brasil o infectologista Julio Croda, pesquisador da Fiocruz e professor associado da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul.

A revista britânica The Economist combinou dados de duas universidades britânicas que estão monitorando a pandemia pelo mundo: o Imperial College London e a Universidade de Oxford, que produz a plataforma Our World in Data.

E, a partir de dados de vacinação e estimativas de porcentagem de populações já infectadas pela covid-19, colocou Chile, Brasil e Uruguai junto a Israel e Reino Unido (dois países com alta taxa de vacinação e rastreio de casos) como os que parecem estar mais protegidos contra a ômicron.

Isso nem de longe quer dizer dizer que é o momento de relaxar nas medidas preventivas. Nesta sexta-feira, a Organização Mundial da Saúde (OMS) advertiu que a ômicron não deve ser tratada como uma variante branda, porque já está provocando mortes e saturação em sistemas de saúde pelo mundo – embora estudos indiquem que ela tem menos probabilidade de causar casos graves do que as variantes anteriores do coronavírus.

A OMS disse que o número de casos globais aumentou em 71% na última semana – e, nas Américas, subiu 100%. A entidade afirma que, entre os casos graves em todo o mundo, 90% são em pessoas que não foram vacinadas.

Mas o argumento de Croda e outros especialistas é de que temos, no Brasil, mais ferramentas para nos protegermos desta vez – desde que consigamos ampliar a vacinação para os públicos que ainda não a receberam (como as crianças) e avançar com a aplicação das doses de reforço.

A alta vacinação

Os três países sul-americanos citados pela The Economist têm altas taxas de vacinação: no Chile, 86% da população está plenamente vacinada – um dos maiores índices do mundo, segundo o Our World in Data. E o governo chileno anunciou que começará a aplicar uma quarta dose da vacina no mês que vem, para grupos considerados prioritários ou vulneráveis.

O Uruguai tem 76% da população com o esquema vacinal completo.

O Brasil, por sua vez, vive o rescaldo de um apagão de dados oficiais, o que tem deixado no escuro pesquisadores e profissionais da saúde que tentam monitorar o rumo que a pandemia tem tomado por aqui.

Mas, de modo geral, o país tem registrado uma alta adesão à vacinação. A estimativa mais recente, provavelmente desatualizada, é de que em torno de 67% da população esteja com o esquema vacinal completo e que 15,4 milhões de doses de reforço já tenham sido aplicadas.

Embora o Brasil esteja, em relação a outros países, mais protegido contra a ômicron, precisa levar em conta a desigualdade regional na aplicação de vacinas, explica à BBC News Brasil o microbiologista Átila Iamarino.

“Nem todo lugar tem acesso à vacinação dessa forma: temos regiões do interior dos Estados do Norte onde a vacinação não chega a 40% da população de alguns municípios, e são regiões que estão enfrentando falta de leitos agora, por causa de ondas de casos causados ainda pela (variante) delta, antes mesmo da ômicron. Pela falta de vacinação, elas estão suscetíveis a qualquer uma das variantes”, diz o especialista.

“Pelo menos não temos aqui a concentração de grupos antivacina, como nos Estados Unidos e Europa, que montam focos onde a doença consegue circular muito bem”, agrega.

No cenário mais amplo, a América do Sul terminou 2021 como o continente com os mais altos índices do mundo de vacinação contra o coronavírus, com 63,4% de sua população imunizada com duas doses ou vacina de dose única, segundo dados divulgados no final de dezembro pela Organização Mundial da Saúde.

Se levarmos em conta quem tomou ao menos uma dose da vacina, esse índice sobe para 74,3% dos 434 milhões de habitantes sul-americanos.

Esse é o lado positivo dessa história.

O lado negativo é que a região chega a esse patamar depois de ter sido o epicentro mundial da covid-19 e acumulado os maiores índices de mortes pela pandemia em todo o planeta, a um enorme custo social, econômico e de saúde que deixou cicatrizes irreversíveis em milhões de famílias.

Imunidade por contágio

Não sabemos ao certo o quanto da população brasileira foi em algum momento infectada pelo coronavírus, já que o país nunca conseguiu estabelecer um programa amplo de testagem e rastreamento de casos.

Mas tudo indica que os números de infecções são bem maiores que os 22,3 milhões de casos confirmados oficialmente.

Julio Croda estima que entre 30 milhões e 60 milhões de brasileiros tenham pego covid-19 em algum momento, mesmo que assintomáticos. Iamarino acha que esse índice pode passar de 50% dos brasileiros – ou seja, mais de 100 milhões de pessoas.

É importante destacar que, apesar de infecções prévias oferecerem algum tipo de proteção contra a ômicron, essa proteção diminui com o tempo. Além disso, a nova variante tem se mostrado muito mais capaz de driblar a imunidade prévia.

Em dezembro, o Imperial College London estimou que o risco de reinfecção com a ômicron é mais de cinco vezes maior do que com a delta.

A nova variante também é mais eficiente em driblar a vacina – o que explica o recente aumento de testes positivos de covid-19 mesmo entre vacinados.

Mas isso não significa que a vacina não funciona, pelo contrário: a imunização faz com que a maior parte dessas infecções limitem-se a sintomas leves.

Apesar da superlotação no atendimento emergencial em hospitais e UPAs de várias cidades, ainda mais pressionada pela epidemia de influenza, “aqui no Brasil, a explosão da ômicron tem sido sem um impacto importante em hospitalizações e mortes – o que é efeito dessa combinação de fatores (de alta infecção prévia e alta taxa de vacinação)”, agrega Croda.

A ausência de dados oficiais atualizados torna mais difícil avaliar o atual cenário, mas a média móvel de óbitos por covid-19 tem se mantido estável no país, apesar do aumento de casos.

Doses de reforço e vacinação de infectados

O que, então, podemos aprender para tirar proveito dos pontos fortes do Brasil neste momento?

“A lição é que a vacina é essencial, e talvez com uma dose de reforço – é natural que a gente precise (de doses extras da vacina) para manter a resposta imune elevada”, explica Julio Croda.

“Quanto mais pessoas tiverem exposição (ao vírus) protegidas com a vacina, mais provavelmente teremos formas mais leves da doença e menos casos severos, mesmo com novas variantes”, diz ele.

Por sinal, uma pesquisa feita por Croda (e em processo de revisão por pares) aponta que, para pessoas que já haviam contraído o coronavírus, as quatro vacinas aplicadas no Brasil (CoronaVac, Janssen, Pfizer e AstraZeneca) propiciam um alto grau de proteção adicional contra sintomas de covid-19 ou contra formas graves da doença.

Para essas pessoas previamente infectadas, tomar duas doses de uma dessas vacinas (ou dose única, no caso da Janssen) traz uma proteção semelhante à de quem já recebeu a dose de reforço.

E, para quem não foi previamente exposto ao coronavírus, tudo indica que as doses de reforço serão cada vez mais importantes, já que elas recuperam a proteção perdida com o passar do tempo e com a evolução natural do vírus, em variantes que podem se tornar mais perigosas.

Os pontos fracos do Brasil: grupos vulneráveis

Ao mesmo tempo, o que deixa especialistas em alerta é a vulnerabilidade de alguns grupos diante de variantes mais infecciosas, em particular as crianças.

“É um grupo que nos preocupa, porque as crianças não têm acesso à vacina e não tiveram muita exposição à doença, já as escolas ficaram fechadas. Então é um grupo altamente exposto agora”, explica Croda.

Em dezembro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a vacina da Pfizer para crianças de 5 a 11 anos, o que tem enfrentado resistência do governo de Jair Bolsonaro, crítico da vacinação infantil.

Na quinta-feira (6/1), o presidente criticou a aprovação da Anvisa e disse desconhecer casos de mortes por covid-19 nessa faixa etária – apesar de os números do próprio governo confirmarem que 301 crianças de 5 a 11 anos já morreram da doença no país.

Foi só no dia 5 que o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, afirmou que está prevista a chegada de 20 milhões de doses da vacina infantil da Pfizer ao Brasil neste primeiro trimestre, e mais 20 milhões no segundo trimestre.

Além da vulnerabilidade desse público, Átila Iamarino lista também outros obstáculos enfrentados pelo Brasil no momento: em meio à nova explosão de casos de covid-19, será mais difícil – e impopular – implementar medidas de isolamento social, em um momento em que a crise e o desemprego seguem altos no país.

“Vai ser mais difícil ter o distanciamento, apesar de haver a demanda. A pressão econômica e social é muito maior para as pessoas continuarem na rua, e com isso o vírus vai circular muito mais e atingir os mais suscetíveis, que são principalmente as crianças”, afirma.

Outra dúvida, diz ele, é qual será o desempenho da principal vacina que deu início ao programa de imunização contra covid-19 no Brasil: a CoronaVac.

Isso porque os países por onde a ômicron passou com mais força até agora, como África do Sul, Reino Unido e EUA, usam outro regime vacinal, explica Iamarino. E é desses países que saíram as principais lições e os principais estudos científicos sobre a ômicron até agora.

“Nosso alto índice de vacinação é com a CoronaVac, o que é ótimo – ela garantidamente salvou dezenas de milhares de vidas por aqui, quando a vacinação começou. Mas a gente ainda não tem um panorama tão claro de como ela se sai em relação à ômicron na população. É muito provável que ela previna a maioria das hospitalizações como as outras vacinas, mas a gente não sabe”, prossegue.

“É um ponto que eu não diria que é inseguro, mas é incerto. E a gente tem algumas populações de idosos que receberam só a CoronaVac, com duas ou três doses. Quem estudou resposta imune recomenda que essas pessoas recebam doses de reforço de vacina de RNA (no caso, a vacina da Pfizer). Esse é um ponto preocupante que pode fazer diferença aqui no Brasil”, conclui Iamarino.

Croda também ressalta que, no caso de doses de reforço, a resposta imune tem se mostrado maior quando se aplica uma vacina diferente daquela que foi aplicada nas doses iniciais.

POR PAULA ADAMO IDOETA

BBC Brasil / Daynews

Cazaquistão: presidente determina atirar para matar durante tumultos




Manifestações começaram em resposta à alta de preços de combustíveis

Por Olzhas Auyezov, Tamara Vaal, Mariya Gordeyeva e Pavel Mikheyev 

Almaty (Cazaquistão) - O presidente do Cazaquistão, Kassym-Jomart Tokayev, disse hoje (7) que determinou às suas forças de segurança que atirem para matar em tumultos provocados por quem chamou de bandidos e terroristas. A informação foi dada um dia após a Rússia enviar tropas para ajudar a reprimir um levante em todo o país. 

As forças de segurança pareciam estar no controle das ruas da principal cidade do país, Almaty, na manhã desta sexta-feira, mas tiros ainda podiam ser ouvidos após dias de tumultos, nos quais dezenas de pessoas foram mortas e prédio públicos saqueados e incendiados. 

"Os militantes não baixaram suas armas, eles continuam cometendo crimes ou se preparando para eles. A luta precisa ser levada até o fim. Quem não se render, será destruído", afirmou o presidente em pronunciamento na televisão. 

"Eu dei ordem às agências de segurança e ao Exército que atirassem para matar, sem aviso". 

Tokayev culpa terroristas com treinamento internacional pelo pior episódio de violência do país da Ásia Central, em 30 anos de independência. 

O ministro da Defesa da Rússia, citado pela agência Interfax, disse que mais de 70 aviões estão fazendo viagens ininterruptas para levar tropas russas para o Cazaquistão, e que eles estão ajudando agora a controlar o principal aeroporto de Almaty, retomado nessa quinta-feira dos manifestantes. 

As manifestações começaram como resposta à alta de preços de combustíveis e se desdobraram para um movimento contra o governo e o ex-líder Nursultan Nazarbayev, de 81 anos, o governante mais longevo de todas as ex-repúblicas soviéticas. 

Nazarbayev passou a presidência a Tokayev há três anos, mas acredita-se que sua família tenha mantido poderes em Nur-Sultan, a capital construída especialmente para o governo e que leva o nome do ex-presidente. 

O Ministério do Interior informou que 26 "criminosos armados" foram "liquidados", enquanto 18 membros da polícia e da guarda nacional teriam sido mortos desde o início dos protestos, números que parecem não ter sido atualizados desde ontem. O canal estatal de televisão falou em mais de 3,7 mil prisões. 

Na manhã desta sexta-feira, novos tiros podiam ser escutados perto da principal praça em Almaty, onde as tropas haviam lutado contra manifestantes durante o dia anterior. Correspondentes da Reuters viram veículos blindados de transporte de tropas ocupando a praça. 

Algumas centenas de metros dali, um cadáver estava em um carro altamente danificado. Em outra parte da cidade, uma loja de munições havia sido saqueada. 

Agitações generalizadas foram registradas em outras cidades por todo país, de 19 milhões de pessoas. A internet foi cortada desde quarta-feira (5), tornando difícil determinar a extensão completa da violência. 

Reuters / Agência Brasil

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Presidente do Cazaquistão ordena polícia a atirar para matar

Em meio a violentos protestos, presidente da ex-república soviética culpa terroristas por tumultos e afirma que os que não se renderem serão eliminados. Governo diz que 26 "criminosos armados" já foram "liquidados".

Após dias de violentos protestos, o presidente do Cazaquistão, Kassym-Jomart Tokayev, afirmou nesta sexta-feira (07/12) que autorizou forças de segurança a abrir fogo contra "terroristas" e atirar para matar, prometendo destruir "bandidos armados".

Num pronunciamento transmitido pela TV, Tokayev culpou "terroristas" pelos tumultos, afirmando que cerca de 20 mil "bandidos" atacaram a capital financeira e maior cidade do país, Almaty. "Terroristas continuam a destruir propriedades e a usar armas contra civis", afirmou. "Aqueles que não se renderem serão eliminados."

Ele também descartou dialogar com os manifestantes, como pediram outros países, afirmando que isso seria sem sentido. "Que negociações podem ser travadas com criminosos, assassinos? Estamos lidando com bandidos armados e treinados", declarou Tokayev.

O Ministério do Interior cazaque afirmou nesta sexta-feira que 26 "criminosos armados" foram "liquidados", 18 ficaram feridos e mais de 3 mil pessoas foram detidas. Também foram registradas as mortes de 18 membros das forças de segurança, e mais de 700 ficaram feridos, segundo a pasta.

"Que negociações podem ser travadas com criminosos, assassinos? Estamos lidando com bandidos armados e treinados", disse o presidente Kassym-Jomart Tokayev

Piores protestos em três décadas

O Cazaquistão vive os piores protestos populares desde que a ex-república soviética alcançou a independência, há três décadas. As manifestações começaram depois de os preços do gás liquefeito de petróleo (GLP), usado por muitos cazaques para abastecer seus carros, quase dobrarem na virada do ano.

Milhares foram às ruas em Almaty e na província ocidental de Mangystau, reclamando que o aumento do preço é injusto devido às vastas reservas do Cazaquistão, exportador de petróleo e gás.

Os protestos logo se espalharam pelo país na Ásia Central, refletindo um amplo descontentamento com a continuidade do mesmo partido no poder desde a independência.

'Prédio da prefeitura em Almaty, a maior cidade do Cazaquistão, foi incendiado durante protestos'

Os atos se tornaram extremamente violentos, com prédios governamentais sendo saqueados e incendiados. O acesso à internet foi bloqueado pelo país a partir de quarta, e dois aeroportos foram fechados, incluindo um em Almaty.

Numa concessão aos manifestantes, o governo anunciou a limitação dos preços dos combustíveis por 180 dias e uma moratória sobre os aumentos das tarifas de serviços públicos.

Tokayev vem oscilando entre a tentativa de apaziguar os manifestantes, incluindo a aceitação da renúncia de seu governo, e promessas de medidas duras para reprimir os tumultos.

'Protestos foram motivados por alta de combustível'

Ajuda russa

O presidente apelou a uma aliança militar liderada pela Rússia, a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC), para combater o que chamou de "grupos terroristas" que "receberam treinamento extensivo no exterior".

Além da Rússia, a aliança inclui cinco ex-repúblicas soviéticas – o próprio Cazaquistão, Belarus, Armênia, Tajiquistão e Quirguistão – e já enviou tropas para o território cazaque para uma missão de paz. A OTSC disse que 2.500 de seus soldados permanecerão no país por alguns dias ou semanas.

Nesta sexta, Tokayev afirmou que soldados vindos da Rússia e de países vizinhos haviam chegado e estavam numa base temporária no país. Autoridades do Cazaquistão insistiram que os soldados da aliança não combaterão os manifestantes, mas garantirão a segurança de instituições governamentais.

O Ministério da Defesa russo afirmou nesta sexta que mais de 70 aviões estavam voando sem parar para transportar tropas russas para o Cazaquistão.

O presidente cazaque agradeceu aos líderes de Rússia, China, Uzbequistão e Turquia pelo apoio, com um agradecimento especial ao presidente russo, Vladimir Putin, por enviar tropas no âmbito da missão de paz.

'Presidente cazaque pediu ajuda a aliança militar liderada por Moscou'

"Terroristas ainda estão usando armas"

Nesta sexta, Tokayev declarou que a ordem constitucional estava "majoritariamente restaurada em todas as regiões do país" e que autoridades locais tinham a situação sob controle.

O presidente acrescentou, no entanto, que "terroristas ainda estão usando armas e danificando propriedades" e que "ações antiterroristas" deveriam prosseguir.

Tiros ainda foram ouvidos em Almaty na manhã desta sexta-feira. A agência estatal russa Tass noticiou que o prédio onde fica a filial cazaque da emissora Mir, financiada por vários ex-Estados soviéticos, estava em chamas.

Correspondentes da agência de notícias Reuters viram oficiais armados ocupando a principal praça da cidade, onde houve enfrentamentos com manifestantes na véspera. A poucos metros dali, um corpo foi avistado num veículo civil severamente danificado.

Entretanto, o aeroporto de Almaty – que havia sido invadido e apreendido por manifestantes – estava novamente sob o controle das forças de segurança cazaques e da OTSC, comunicou o Ministério da Defesa da Rússia. O aeroporto permanecerá fechado até sexta-feira à noite, noticiou a estação de TV local Khabar 24.

Na capital, Nur-Sultan, o aeroporto está operando como de costume, segundo a Khabar 24, e o acesso à internet foi parcialmente restaurado. O tráfego ferroviário foi retomado no país.

Deutsche Welle

Acordem, o candidato é Moro




Por Diogo Mainardi (foto)

A primeira pergunta a ser respondida sobre 2022 é a seguinte: Jair Bolsonaro vai levar sua candidatura até o fim? Meu palpite é que ele vai pular fora da disputa presidencial. Dou até uma data: junho ou julho. Se o sociopata tiver a certeza de que vai ser derrotado por Lula no segundo turno ou, de maneira ainda mais humilhante, no primeiro, ele desiste. O outro fator que pode persuadi-lo a fugir das urnas é Sergio Moro. Se meu candidato subir uns seis ou sete pontinhos nas pesquisas, o futuro presidiário vai buscar um caminho mais seguro para tentar evitar a cadeia.

William Waack disse na quinta-feira que o pesadelo encarnado por Jair Bolsonaro e Lula só poderá ser derrotado se o candidato da Terceira Via souber oferecer um sonho para o eleitorado. Ele está certo. Antes disso, porém, é preciso escolher um candidato. Sendo ainda mais claro: é preciso acordar para o fato de que só surgiu um nome capaz de enfrentar o duplo pesadelo — o de Sergio Moro. Ele talvez não seja o candidato dos sonhos para uma parte da Terceira Via, mas é o único. Essa é a realidade.

Assim que Moro for escolhido como candidato único da Terceira Via, a campanha vai mudar. A lógica de uma disputa polarizada só funciona quando há equilíbrio entre os dois polos. Esse equilíbrio, que já é praticamente inexistente, considerando a vantagem insuperável de Lula sobre Bolsonaro, deve desaparecer de uma vez por todas, porque uma candidatura mais competitiva de Moro vai acabar atraindo uma fatia do eleitorado bolsonarista. E, sem o pesadelo bolsonarista, o pesadelo lulista também se distancia.

Não sei se alguém já teve essa conversa com Bolsonaro. Suponho que não. Mas o abandono de sua candidatura tem tudo para representar o fato “imponderável” citado por William Waack — uma “mãozinha” do destino, como ele disse.

Isso só vai se realizar, porém, se houver um trabalho conjunto para empurrar a candidatura de Moro, cuja campanha, até agora, foi uma porcaria. Ele precisa de gente. É o que se espera daquela turma que passou o último ano defendendo a Terceira Via. União Brasil, Novo, Cidadania, PSDB e MDB devem se reunir com movimentos sociais, empresários e banqueiros para oferecer uma saída ao país, que já tem um rosto e um nome. Sim, é Sergio Moro.

Revista Crusoé

Bolsonaro não será reeleito




Bolsonaro perceberá uma verdade histórica: todos os governos que se fundaram em compra de apoio e proteção, tropas mercenárias no passado e políticos venais no presente, acabaram sendo abandonados por eles quando a derrota ficou evidente.

Por Carlos Fernando dos Santos Lima (foto)

Jair Messias Bolsonaro não será reeleito presidente da República em 2022. Se o final do ano é pleno de retrospectivas, o início exige dos comentaristas uma visão prospectiva, uma série de previsões sobre como a política, a economia e até os times de futebol irão se comportar neste ano. Qualquer previsão, por óbvio, é um risco, mas há aquelas que são muito mais seguras que outras. Assim, considerando a máxima do grande Barão de Itararé, “de onde menos se espera, daí que não sai nada”, é possível afirmar que o Brasil irá seguir mais um ano de péssimas notícias na economia e na política, pois nesses dois campos estamos presos às nossas péssimas escolhas do passado e à incapacidade como sociedade de tomarmos decisões difíceis, mas necessárias, e de as implementarmos efetivamente, doa a quem doer.

Entretanto, correndo o risco de parecer Cassandra, capaz de ver o futuro, mas amaldiçoada por ninguém acreditar em suas previsões, uma coisa me parece certa: Jair Bolsonaro não será reeleito. Essa tendência me parece inexorável, mesmo com todos os estelionatos fiscais promovidos pelo presidente e por seus correligionários e siglas mercenárias comandadas por Arthur Lira. Bolsonaro perceberá uma verdade histórica: todos os governos que se fundaram em compra de apoio e proteção, tropas mercenárias no passado e políticos venais no presente, acabaram sendo abandonados por eles quando a derrota ficou evidente. Assim será com o Centrão, que se encaminhará naturalmente para a candidatura de Lula, seu antigo mecenas, que já está ao menos no segundo turno das próximas eleições.

Bolsonaro corre ainda o risco de nem sequer chegar ao segundo turno, mas essa já é uma aposta mais arriscada. Certo é que a polarização com Lula lhe beneficia, ou melhor, beneficia a ambos, e a dificuldade da terceira via em falar a mesma língua desses dois populistas certamente será mais um obstáculo ao crescimento de um movimento ético e livre dessa polarização que nos mantém presos a ciclos de crescimento raquítico seguidos de longos períodos recessivos. Bolsonaro representa – infelizmente – uma parte de nossa população autoritária e pouco educada, e a única mensagem que compreendem é a do ódio ao que não entendem.

Assim como esse grupo de obscurantistas de direita, há também os equivocados de esquerda, que se apegam a Lula, último populista desse reduto ideológico, para voltarem ao poder. É muito triste que a esquerda ética da Nova República tenha se rebaixado ao proselitismo da corrupção no poder. De qualquer modo, Lula irá navegar nos erros de Bolsonaro – o que não será difícil, pois este último corresponde perfeitamente ao que popularmente é conhecido como “espírito de porco”, sempre disposto a criar cizânia e a impor sua visão preconceituosa e desagradável aos demais. Infelizmente estamos presos a essa roda de corrupção, preconceito e atraso com esses dois candidatos, mas a visão maniqueísta da política poderá nos impor ambos no segundo turno, o que me leva novamente a minha previsão inicial: Jair Messias Bolsonaro não será reeleito presidente da República em 2022.

Isso acontecerá seja pela humilhação de uma eleição de Lula já no primeiro turno – difícil de acontecer, mas não improvável – seja por nem sequer Bolsonaro chegar a esse, com a perda do segundo posto para um candidato da terceira via. Entretanto, mesmo na hipótese assustadora de ambos se enfrentarem em um segundo turno, Bolsonaro não terá – bem como Lula – o voto de parte significativa dos eleitores da terceira via. Isso porque o modelo do voto no “menos pior”, característica do sistema eleitoral de dois turnos, não irá prevalecer. Os eleitores conscientes vão optar pelo voto nulo – que será uma forma digna e honesta de negar apoio a esse atual estágio de nossa cleptoplutocracia, para usar um neologismo do falecido professor Luiz Flávio Gomes.

Assim, fica claro que Bolsonaro foi um soluço de uma direita autoritária e preconceituosa que se encontrava adormecida na Nova República, mas que acordou com o advento das redes sociais e a corrupção entranhada no modelo de presidencialismo de coalizão, exacerbada pelo apetite de poder do Partido dos Trabalhadores, o PT. O resultado, com uma diferença de pouco mais de 10% dos votos válidos, da eleição de Bolsonaro em 2018 contra um candidato fraco e desconhecido em pleno auge da operação Lava Jato demonstra que minha previsão de derrota de Bolsonaro é uma aposta confiável e factível. Qualquer um que insistir no atual presidente será apenas mais um fanático que pouco se importa com o futuro do país.

O que resta saber, portanto, é como impedir que a outra face do populismo e da corrupção volte ao poder. O desafio da terceira via é encontrar o tom certo do discurso que fará unir o centro democrático e o empresariado, prontos a aceitarem essa candidatura, com a população desejosa – e viciada – em líderes messiânicos. Ninguém se elege no Brasil sem propostas que sejam compreendidas pela população. Será preciso falar aos milhões de desempregados que perderam as esperanças, aos empreendedores amedrontados pelo espectro da inadimplência, às mulheres que veem a fome adentrar em suas casas, enfim, será preciso deixar claro que nenhum receituário liberal poderá colocar de lado as aflições e problemas reais e inadiáveis que a população brasileira enfrenta neste exato momento.

O desafio, portanto, da terceira via não é fácil. O derretimento de Bolsonaro é inevitável, mas a transferência de votos para Lula é um problema a ser solucionado. O quadro de candidatos ainda está indefinido, mas vem se cristalizando de uma maneira muito rápida. Após a derrota de Eduardo Leite para João Doria, o panorama parece ter se definido entre esse último e Sergio Moro, com Ciro Gomes correndo desesperadamente para não ser atropelado por Lula. No espectro da centro-direita a candidatura de Eduardo Leite era muito mais bem vinda que a de Doria, pois este último não possui a qualidade do “novo”, melhor representado pelo governador do Rio Grande do Sul.

Resta agora esperar que o tempo e o desenvolvimento das campanhas da terceira via mostrem competência para conquistarem os eleitores. Lula e Bolsonaro são conhecidos, para o bem e para o mal, e representam a manutenção das tensões sociais e econômicas no país. E é exatamente nisso que eles apostam. Com certeza, outra previsão fácil para este ano é a de que não será um período de paz e tranquilidade, seja pelo recrudescimento da Covid, seja pela péssima condução da economia, ou ainda pelas tensões naturais de uma disputa política. Mas nunca estivemos tão necessitados da superação desses problemas, e isso somente será possível fora do eixo autoritário-populista que Lula e Bolsonaro representam. Espero estar errado, mas estamos caminhando sobre o fio da navalha para evitarmos que projetos autoritários e equivocados conquistem o país – e não estou falando aqui de Jair Bolsonaro, pois este não ganhará as eleições.

Revista Crusoé

A lição do 6 de Janeiro nos EUA - Editorial




O triunfo da democracia depende da disposição dos cidadãos e das instituições de defendê-la de ataques cada vez mais desabridos

Há um ano, milhões de pessoas no mundo inteiro assistiram atônitas ao que até então era impensável. No dia 6 de janeiro de 2021, uma turba de vândalos, inconformados com o resultado da eleição presidencial norte-americana, tomou de assalto o Capitólio, sede do Poder Legislativo dos Estados Unidos, para impedir a certificação da vitória do democrata Joe Biden.

Cinco pessoas morreram e centenas ficaram feridas naquele fatídico dia. Congressistas e seus auxiliares tiveram de construir barricadas com o que tinham à disposição e se trancar em seus gabinetes para escapar da fúria dos insurgentes. Um grupo deles chegou a levar uma forca para o Congresso com a intenção de matar o então vice-presidente Mike Pence, presidente da sessão do Congresso que, ao final daquele mesmo dia, acabou por cumprir a Constituição e certificar a eleição de Biden como o 46.º presidente dos Estados Unidos.

Em discurso para marcar o primeiro ano do infame ataque ao Capitólio, Biden afirmou que a insurgência “não representou a morte da democracia”, mas, antes, “o renascimento da liberdade” em seu país. No entanto, o presidente americano ressaltou que, a despeito da gravidade do ataque à União, o mais grave desde a Guerra Civil Americana (1861-1865), “a democracia venceu” graças ao sacrifício dos que se dispuseram a defendê-la no momento mais dramático da história americana em muito tempo. Esta talvez seja a principal lição que pode ser aprendida com o trágico evento de um ano atrás.

A democracia, nos Estados Unidos ou em qualquer país, não prevalece por si só, não se sustenta apenas pela força de suas muitas virtudes. O triunfo do regime democrático depende fundamentalmente da disposição do povo e das instituições do Estado em defende-lo todos os dias contra ataques cada vez mais desabridos. Nos Estados Unidos, a ameaça à democracia não foi de todo dissipada. “Se não formos vigilantes, a democracia não se sustenta”, disse Biden, alertando para a divisão dos americanos e para a conversão de segmento majoritário do Partido Republicano em uma seita antidemocracia sob o comando de Trump.

Biden responsabilizou diretamente seu antecessor não só por ter incitado a sedição, mas por continuar a minar a confiança de parcela da sociedade americana no processo eleitoral de seu país. Trump, disse Biden, “criou uma rede de mentiras” para desacreditar o resultado do pleito, sem apresentar um indício de prova que consubstancie suas alegações. Não são poucos os americanos que ainda hoje acreditam que Biden seja um presidente “ilegítimo”, mesmo contra a lógica e todos os fatos que apontam exatamente o contrário.

Tudo não passa de um discurso falacioso, contra o qual os únicos antídotos, lá ou cá, são o jornalismo profissional e independente, o espírito público de servidores leais à Constituição e a responsabilidade individual dos cidadãos.

As mentiras de Trump, que levaram à tentativa de golpe e ainda hoje contaminam o debate público em seu país, ecoam no Brasil. Sentado no Palácio do Planalto está um dos mais notórios imitadores do bufão americano. O presidente Jair Bolsonaro responde a inquéritos na Justiça por disseminar mentiras sobre a segurança das urnas eletrônicas. Dado seu comportamento indigno na Presidência, é difícil imaginar uma pacífica transferência de poder a um sucessor caso Bolsonaro seja derrotado na eleição de outubro.

É importante lembrar que Bolsonaro já ameaçou a Nação ao sustentar que a eleição americana “foi fraudada” e que, “se tiver voto eletrônico no Brasil em 2022, vai ser a mesma coisa lá dos Estados Unidos” (sic), referindo-se à invasão do Capitólio. Bolsonaro é alguém que ascendeu politicamente incitando a baderna institucional. Como militar, não respeitou a disciplina nem a hierarquia do Exército Brasileiro. Portanto, não há razões para acreditar que ele haveria de se comportar como estadista em caso de derrota. Todo cuidado é pouco.

As instituições devem estar vigilantes e agir para levar à Justiça todos que se levantarem contra a Constituição do País. “Não se defende o império das leis apenas quando é conveniente”, advertiu Biden. O alerta está dado.

O Estado de São Paulo

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