domingo, fevereiro 23, 2020

Para blindar juízes, desembargadores e ministros, Fachin inviabiliza delação de Cabral

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Charge do Aroeira (Jornal O Dia/RJ)
Carlos Newton
Foi decepcionante a decisão do ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal, ao determinar que a delação premiada do ex-governador Sérgio Cabral, assinada com a Polícia Federal, não deve beneficiá-lo nas ações penais nas quais ele já foi condenado a um total de 282 anos de prisão, o que na prática pode inviabilizar o prosseguimento do acordo de colaboração entre o réu e a PF.
A grande dúvida é a seguinte: sem contar com quaisquer benefícios concretos, pois a delação só terá efeitos nos processos que a Justiça vier a abrir a partir das novas denúncias, qual será o interesse que moverá Sérgio Cabral a fazer novos depoimentos?
ALTAS AUTORIDADES – Como se sabe, a delação assinada com a Polícia Federal possibilita investigações envolvendo altas e altíssimas autoridades, todas com foro privilegiado, algumas delas já respondendo a inquéritos que já tramitam em foro privilegiado.
A delação de Sérgio Cabral é considerada altamente explosiva e tem potencial para detonar grande número de juízes, desembargadores, procuradores e ministros de tribunais superiores.
Segundo reportagem de Aguirre Talento em O Globo, por enquanto são duas dezenas de anexos. Mas os depoimentos do ex-governador, se prosseguirem, devem provocar a abertura de pelo menos 80 anexos.
FACHIN ERROU – Tenho muito respeito pelo ministro Edson Fachin, que está fazendo um trabalho admirável na Lava Jato. No entanto, como a máxima vênia, como dizem os advogados, peço licença para discordar de sua decisão, cujo efeito mais prático será “blindar” essa série de altas e altíssimas autoridades, evitando um dos maiores escândalos da História Republicana.
É voz corrente no Rio de Janeiro que o esquema de Cabral envolvia importantes membros do Judiciário e do Ministério Público Estadual, como o ex-procurador-geral Cláudio Lopes, que chegou a ser preso em 2018 e agora é réu por crimes de formação de quadrilha, corrupção e quebra de sigilo funcional.
Portanto, a decisão mais acertada de Fachin seria condicionar aos resultados da delação os benefícios a serem concedidos a Cabral, diante da inequívoca importância do teor de suas denúncias, ao invés de desestimular o delator, ao lhe tirar a perspectiva de obter qualquer resultado satisfatório na redução de sua pena.
CABRAL DEU EXEMPLO – Em seus primeiros depoimentos, Cabral deu exemplo de até onde sua delação pode chegar. Para começar, destruiu o próprio casamento, ao denunciar a própria mulher, Andriana Ancelmo, afirmando que ela não apenas sabia do esquema de corrupção, como participava ativamente, transformando seu escritório de advocacia num centro de lavagem de dinheiro.
Espera-se que Cabral não esmoreça com a decisão de Fachin e siga em frente em sua delação, na esperança de que mais na frente, em função da gravidade de suas denúncias, possa haver real benefício carcerário. Que a meu ver seria mais do que justo, se o ex-governador realmente desmascarar esses bandidos de toga, como diz a ministra aposentada Eliana Calmon, ex-corregedora nacional de Justiça.
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P.S. – Sinto-me pessoalmente ofendido quando algum comentarista diz que estou defendendo Patricia Campos Mello por “corporativismo”. Tenho desprezo por essa prática. Para mim, quem demonstra “espírito de corpo”, na verdade exibe também “espírito de porco”. A piada é velha, mas se aplica perfeitamente a essa decisão do ministro Fachin, eivada de um corporativismo inaceitável. (C.N.)

Eduardo e Carlos Bolsonaro apoiam ataque do gen. Heleno ao Congresso


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Eduardo e Carlos incentivam a disputa entre os Poderes
Pedro do Coutto
Enquanto o presidente Jair Bolsonaro sustentava que a democracia brasileira nunca esteve tão forte, o deputado Eduardo Bolsonaro e o vereador Carlos Bolsonaro, filhos do presidente da República, apoiavam o ataque desfechado pelo general Augusto Heleno ao Poder Legislativo e na sequência criticavam o deputado Rodrigo Maia e o senador Davi Alcolumbre, presidentes da Câmara e do Senado Federal.
Matéria publicada no Estado de São Paulo, destaca o episódio e as contradições que podem ser extraídas dele. A ministra Damares Alves e o ministro da Educação Weintraub também se manifestaram a favor do ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional.
DIZ CARLOS – O Estado de São Paulo não incluiu o senador Flávio Bolsonaro entre os que se posicionaram ao lado de Augusto Heleno. Entretanto chama atenção o texto divulgado por Carlos Bolsonaro que afirmou “ninguém viu a democracia ameaçada quando os poderes Executivos e Legislativos mantinham uma relação promíscua antes do atual governo, o que resultou no mais ecocatastrófico escândalo de corrupção de nossa história”.
A impressão que se tem é que ainda não terminou o episódio, coincidentemente quando a polícia militar do Ceará desencadeia uma rebelião por aumento de salário. O quadro político, como acentuei em artigos anteriores é preocupante. Dá a impressão que Jair Bolsonaro torce para o fechamento dos espaços capazes de unir o Executivo à maioria parlamentar.
GOVERNO VITORIOSO – Não têm razão, nem ele nem o deputado Eduardo Bolsonaro e o vereador Carlos Bolsonaro, pois até hoje o governo saiu-se vitorioso em todas as votações nos projetos de seu interesse, principalmente a reforma da Previdência.
O que se estranha é que a reforma da Previdência Social, considerada peça base para a recuperação econômica do país , não tenha ainda produzido os efeitos projetados pelo ministro Paulo Guedes.
Por falar em Paulo Guedes, o presidente da República (reportagem de Gustavo Uribe e Fábio Pupo) cobrou do ministro o crescimento de 2% do Produto Interno Bruto já em 2020. Não será tarefa fácil, pois é preciso não esquecer que o reforço na equipe do INSS para zerar o atraso de 1 milhão e 500 mil processos de aposentadoria ainda sequer foi escalada.
OUTRA VERDADE – Projeta-se no ar uma outra verdade no caso, podendo o atraso ser consequência também da escassez de recursos financeiros. A matéria de Uribe e Pupo foi publicada pela Folha de São Paulo.
Voltando a falar em recursos financeiros, Gustavo Paul e Renato Andrade, O Globo, destacaram a decisão do governo de reduzir em 135 bilhões de reais o depósito compulsório que os bancos são obrigados a recolher ao Banco Central para garantir seu funcionamento. A medida é vista como uma decisão de estímulo à economia do país.
Sem dúvida, mas o estímulo será uma decorrência do aumento do crédito bancário a disposição do público, uma vez que não existe outra forma de impulsionar o consumo sem que a rede bancária amplie suas linhas de crédito àqueles que irão encontrar no pagamento de juros uma forma de ampliar momentaneamente seu poder aquisitivo.

Bolsonaro caminha pelo Guarujá e pergunta a apoiador “por que todo cearense tem cabeça grande?”


Bolsonaro aproveitou a folga para interagir no litoral de SP
Lucas Melo
Estadão
O presidente Jair Bolsonaro aproveitou a manhã deste sábado, dia 22, para circular pelas ruas do Guarujá, no litoral de São Paulo, onde passa o carnaval. Rodeado de seguranças, tomou café em uma padaria, visitou dois mercados e ainda ‘embarcou’ em um ônibus municipal para cumprimentar moradores.
Em uma das paradas que fez, no bairro de Guaiuba, chamou um apoiador que usava chapéu de cangaceiro e perguntou em voz alta, mas em tom de brincadeira, ‘por que todo cearense tem cabeça grande’.
INTERAÇÃO – Bolsonaro ainda tirou o chapéu do senhor, colocou em sua cabeça e, em seguida, tiraram uma foto. O apoiador, então, afirmou que era do “Rio Grande do Norte”, mas respondeu a pergunta no ouvido do presidente, que, avisou o público que o acompanhava que não poderia revelar o que havia sido dito.
A pergunta foi gravada pela assessoria e postada nas redes sociais oficiais da Presidência. No passeio, Bolsonaro estava acompanhado do deputado federal Hélio Lopes (PSL-RJ), o Hélio Negão, o mesmo a quem o presidente afirmou que “tinha dado uma queimadinha” em live na quinta-feira, dia 20.
DESTINO CERTO – Desde que assumiu o cargo, em 2019, o Guarujá tem sido o principal destino de descanso do presidente. Bolsonaro esteve na cidade litorânea nos feriados da Páscoa, Proclamação da República e em janeiro deste ano, quando tirou alguns dias de folga após o Reveillón.
Assim como das outras vezes, Bolsonaro está hospedado no hotel de trânsito que fica localizado dentro do Forte dos Andradas, a última fortaleza construída no Brasil e inaugurada em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial. A fortificação conta com a praia do Monduba, que fica restrita quando o presidente está no local.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 –  No melhor estilo Bolsonaro “zoeiro”, o presidente conseguiu em poucos dias fazer piadas (desrespeitosas) com “o furo” da jornalista, a “queimadinha” de um deputado negro e a cabeça grande dos nordestinos. Apoiadores acham graça, mesmo muitos sendo mulheres (ou tendo mães, esposas e irmãs), negros e nordestinos. As “anedotas” do “tio” Bolsonaro remam contra a maré. Quem defende e ri, certamente não é alvo cotidiano de “brincadeiras” inofensivas e semelhantes, mas carregadas intrinsicamente de preconceito. Ou se é, ri por ignorância. E antes que algum crítico questione, “mas e o Lula ? Mas e o PT ?”, a resposta é simples, um erro não justifica ou minimiza o outro. Desculpas não são argumentos. Nem têm graça ou poder de persuasão. (Marcelo Copelli)

sábado, fevereiro 22, 2020

Bolsonaro assina a reforma administrativa e mantém regalias da alta nomenklatura


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Charge do Ivan Cabral (ivancabral.com)
Alessandra AzevedoCorreio Braziliense
O presidente Jair Bolsonaro assinou nesta sexta-feira (21/2) o projeto de reforma administrativa, que reestruturará as regras do funcionalismo federal. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) deve ser enviada ao Congresso depois do carnaval, com ênfase naquilo que o governo defende: acabar com a estabilidade para novos servidores, criar critérios mais rígidos de avaliação de desempenho do servidor e diminuir as remunerações iniciais.
Alguns detalhes podem ficar para regulamentação posterior, por projeto de lei. Na última quinta-feira, o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que Bolsonaro estava fazendo “ajustes” na PEC.
FILIAÇÃO A PARTIDOS – No texto assinado nesta sexta-feira (21/2), o presidente retirou a proibição de que servidores pudessem se filiar a partidos políticos, sugerida pela equipe econômica e alvo de reclamações por parte de entidades representativas de categorias de servidores.
Bolsonaro bateu o martelo sobre a matéria para dar uma sinalização ao mercado, que espera a PEC desde o fim da discussão da reforma da Previdência, em outubro passado.
Alguns episódios contribuíram para o atraso, como o ataque de Guedes aos funcionários públicos, quando os chamou de “parasitas” — cuja repercussão no Congresso foi ruim, tanto que parlamentares não aceitaram o pedido de desculpas do ministro.
TEMA IMPOPULAR – Outro obstáculo para que a PEC avance é a falta de interesse de deputados e senadores, que preferem evitar outro tema impopular depois do desgaste com as mudanças nas regras de aposentadoria e pensão. Desde o começo do ano, dizem que, com a proximidade das eleições municipais, em outubro, o momento não é o melhor para mudar regras que podem sensibilizar o eleitorado.
A proposta já tem efeitos para os atuais servidores. A ideia é criar gatilhos de ajuste fiscal para conter o crescimento das despesas obrigatórias, com medidas como proibição de concursos e redução de jornada e de salário.
A matéria deve ser modificada pelo Congresso. O primeiro grupo de parlamentares que analisará o texto será a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara. Depois, se aceito, a emenda passará para uma Comissão Especial e, em seguida, pelo plenário, em dois turnos. Se aprovada, terá que receber o aval CCJ do Senado e, também duas vezes, do plenário desta Casa.
IDEIA DESCARTADA – A equipe econômica estudou a possibilidade de incluir as diretrizes principais da reforma em alguma PEC em andamento para acelerar a tramitação, mas a ideia foi descartada.  O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), tem dito que cabe ao governo apresentar a proposta. A condução das reformas, na visão dele, não pode ficar “nas costas do parlamento”, afirmou, no início do mês.
Com a PEC da reforma administrativa, outras 12 matérias prioritárias para a agenda econômica podem começar a andar. A lista do Ministério da Economia inclui a reforma tributária, a autonomia do Banco Central, o marco legal do saneamento, a privatização da Eletrobras e as três PECs apresentadas no ano passado por Guedes — do Pacto Federativo, dos Fundos Públicos e a Emergencial.
Também estão no radar do governo a nova lei do gás, a alteração do regime de partilha e o marco legal do setor elétrico.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG 
– A proposta do governo é decepcionante. Não será afetado nenhum dos benefícios abusivos da alta nomenclatura, como os auxílios de moradia, creche, educação, alimentação, carro oficial, combustível liberado, cartão corporativo, plano de saúde extensivo à família e outras coisitas mais. A tal reforma só se refere aos “direitos” dos servidores que ainda farão concursos para serem contratados no futuro distante. Apenas isso. Essa reforma é como a Viúva Porcina, aquela que foi sem ter sido, no dizer genial de Dias Gomes. (C.N.)

Um até breve para Tarcísio Holanda, um dos maiores jornalistas de política deste país


Resultado de imagem para tarcisio holanda jornalistaVicente Limongi Netto
A partida do valoroso e ético Tarcísio Holanda entristece a alma e o coração de todos nós, que tivemos a honra e o prazer de conviver com ele. O legítimo jornalismo político fica ainda mais pobre, repetitivo, enfadonho, presunçoso e medíocre.
O brilhante TH, como era conhecido, sempre teve trânsito livre nas duas Casas do Congresso e era muito respeitado pelos militares nos tempos da ditadura militar, embora não pactuasse com o regime de exceção.
MUDANÇA PARA BRASÍLIA – Foi um dos primeiros jornalistas de política a enfrentar o desafio de ir morar em Brasília, naqueles anos áridos e poeirentos, junto com Ari Cunha, Carlos Chagas, Oliveira Bastos, Carlos Castello Branco, Toninho Drummond, Evandro Carlos de Andrade, Gilberto Amaral , Murilo Melo Filho, Paulo Cabral, Alberto Homsi, Wilson Queirós Garcia, Cleber Praxedes e seu irmão Haroldo Holanda, que tem um filho jornalista, chamado Ricardo Holanda.
Sempre pronto a ajudar os colegas mais jovens.  Fulgurante inteligência. Repórter atilado. Agitado e completo. Careca privilegiada, que antes era apelidado de “Diabo Louro”. Magistral cearense.  Mestre na informação segura. Fôlego de profissional exemplar.
Tinha programas no rádio e na televisão. Escrevia para impressos de vários Estados. Marcou época no Jornal do Brasil. Com Castelinho, João Emilio Falcão, Wilson Figueiredo, Marcos Sá Correa e o pai, Villas-Boas. A então equipe da Política do Jornal do Brasil era sensacional. 
PRIMEIRO TIME – Respeitado por chefes de Estado e homens públicos expressivos. Fontes de Tarcísio eram iluminadas. Craques do primeiro time da política. Textos de Tarcísio, sobretudo políticos, eram saboreados com satisfação. Jorravam informações seguras e exclusivas.  Ágil no teclado. Já marcava presença antes dos computadores. 
Assumiu a presidência da Associação Brasileira de Imprensa quando a instituição enfrentou sua maior crise, e conseguiu conciliar as brigas internas ideológicas e sem sentido. 
Jornalistas da estirpe de Tarcísio Holanda estão acabando. Imagino a tristeza de Helio Fernandes, mestre dos mestres, têmpera forte., ao saber da notícia da partida do TH. As Leis de Deus são implacáveis e severas. Costuma levar os melhores para perto de Si. Até breve, TH!
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NOTA DA REDAÇAO DO BLOG – Mais um querido amigo que se vai para o outro lado da cerca, onde o grande jornalista cearense Hamilton Alcantara certamente o aguarda, para recepcioná-lo com todas as honras. (C.N.)   

Supremo decide que é inconstitucional a exigência de diploma para o exercício do jornalismo


Por maioria, o Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, nesta quarta-feira, dia 17/06/2009, que é inconstitucional a exigência do diploma de jornalismo e registro profissional no Ministério do Trabalho como condição para o exercício da profissão de jornalista.

O entendimento foi de que o Decreto-Lei 972/1969, baixado durante o regime militar, não foi recepcionado pela Constituição Federal (CF) de 1988 e que as exigências nele contidas ferem a liberdade de imprensa e contrariam o direito a livre manifestação do pensamento inscrita no artigo 13 da Convenção Americana dos Direitos Humanos, também conhecida como Pacto de San Jose da Costa Rica.

A decisão foi tomada no julgamento do Recurso Extraordinário (RE) 511961, em que se discutiu a constitucionalidade da exigência do diploma de jornalismo e a obrigatoriedade de registro profissional para exercer a profissão de jornalista. A maioria, vencido o ministro Marco Aurélio, acompanhou o voto presidente da Corte e relator do RE, ministro Gilmar Mendes, que votou pela inconstitucionalidade do DL 972.

Para Gilmar Mendes, “o jornalismo e a liberdade de expressão são atividades que estão imbricadas por sua própria natureza e não podem ser pensados e tratados de forma separada”, disse. “O jornalismo é a própria manifestação e difusão do pensamento e da informação de forma contínua, profissional e remunerada”, afirmou o relator.

O RE foi interposto pelo Ministério Público Federal (MPF) e pelo Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão do Estado de São Paulo (Sertesp) contra acórdão do Tribunal Regional Federal da 3a Região que afirmou a necessidade do diploma, contrariando uma decisão da 16a Vara Cível Federal em São Paulo, numa ação civil pública.

No RE, o Ministério Público e o Sertesp sustentam que o Decreto-Lei 972/69, que estabelece as regras para exercício da profissão – inclusive o diploma –, não foi recepcionado pela Constituição de 1988.

Além disso, o artigo 4o, que estabelece a obrigatoriedade de registro dos profissionais da imprensa no Ministério do Trabalho, teria sido revogado pelo artigo 13 da Convenção Americana de Direitos Humanos de 1969, mais conhecida como Pacto de San Jose da Costa Rica, ao qual o Brasil aderiu em 1992. Tal artigo garante a liberdade de pensamento e de expressão como direito fundamental do homem.

Advogados das partes

Essa posição foi reforçada, no julgamento de hoje, pela advogada do Sertesp, Taís Borja Gasparian, e pelo procurador-geral da República, Antonio Fernando Souza. A advogada sustentou que o DL 972/69 foi baixado durante o regime militar e teve como objetivo limitar a livre difusão de informações e manifestação do pensamento. Segundo ela, o jornalista apenas exerce uma técnica de assimilação e difusão de informações, que depende de formação cultural, retidão de caráter, ética e consideração com o público.

Em apoio a mesma tese, o procurador-geral da República sustentou que a atual legislação contraria o artigo 5o, incisos IX e XIII, e o artigo 220 da Constituição Federal, que tratam da liberdade de manifestação do pensamento e da informação, bem como da liberdade de exercício da profissão.

O advogado João Roberto Piza Fontes, que subiu a tribuna em nome da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), advertiu que “o diploma não impede ninguém de escrever em jornal”. Segundo ele, a legislação dá espaço para os colaboradores com conhecimentos específicos em determinada matéria e, também, para os provisionados, autorizados a exercer o jornalismo onde não houver jornalista profissional formado nem faculdade de Comunicação.

Segundo ele, o RE é apenas uma defesa das grandes corporações e uma ameaça ao nível da informação, se o jornalismo vier a ser exercido por profissionais não qualificados, assim como um aviltamento da profissão, pois é uma ameaça a justa remuneração dos profissionais de nível superior que hoje estão na profissão.

Também em favor do diploma se manifestou o a advogada Grace Maria Mendonça, da Advocacia Geral da União (AGU). Ela questionou se alguém se entregaria na mão de um médico ou odontólogo, ou então de um piloto não formado. Segundo ela, não há nada no DL 972 que contrarie a Constituição Federal. Pelo contrário, ele estaria em plena consonância com a Carta.

Votos

Ao acompanhar o voto do relator, a ministra Cármen Lúcia disse que a CF de 1988 não recepcionou o DL 972. “Não há recepção nem material nem formal”, sustentou ela. Além disso, a ministra considerou que o artigo 4o do DL contraria o artigo 13 do Pacto de San Jose da Costa Rica.

No mesmo sentido votou o ministro Ricardo Lewandowski. Segundo ele, “o jornalismo prescinde de diploma”. Só requer desses profissionais “uma sólida cultura, domínio do idioma, formação ética e fidelidade aos fatos”. Segundo ele, tanto o DL 972 quanto a já extinta – também por decisão do STF – Lei de Imprensa representavam “resquícios do regime de exceção, entulho do autoritarismo”, que tinham por objeto restringir informações dos profissionais que lhe faziam oposição.

Ao também votar pelo fim da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista, o ministro Carlos Ayres Britto distinguiu entre “matérias nuclearmente de imprensa, como o direito a informação, criação, a liberdade de pensamento”, inscritos na CF, e direitos reflexamente de imprensa, que podem ser objeto de lei. Segundo ele, a exigência do diploma se enquadra na segunda categoria. “A exigência de diploma não salvaguarda a sociedade para justificar restrições desproporcionais ao exercício da liberdade jornalística”, afirmou.

Ele ponderou, no entanto, que o jornalismo continuará a ser exercido por aqueles que tem pendor para a profissão, sem as atuais restrições. Ao votar contra elas, citou os nomes de Carlos Drummond de Andrade, Otto Lara Resende, Manuel Bandeira, Armando Nogueira e outros como destacados jornalistas que não possuíam diploma específico.

Por seu turno, ao votar com o relator, o ministro Cezar Peluso observou que se para o exercício do jornalismo fossem necessárias qualificações como garantia contra danos e riscos a coletividade, uma aferição de conhecimentos suficientes de verdades científicas exigidas para a natureza do trabalho, ofício ou profissão, o diploma se justificaria.

Entretanto, segundo ele, “não há, no jornalismo, nenhuma dessas verdades indispensáveis”, pois o curso de Comunicação Social não é uma garantia contra o mau exercício da profissão.

“Há riscos no jornalismo?”, questionou. “Sim, mas nenhum é atribuível ao desconhecimento de verdade científica que devesse governar a profissão”, respondeu, ele mesmo.

Ele concluiu dizendo que, “há séculos, o jornalismo sempre pôde ser bem exercido, independentemente de diploma”.
O ministro Eros Grau e a ministra Ellen Gracie acompanharam integralmente o voto do relator, ministro Gilmar Mendes.
Último a proferir seu voto no julgamento, o decano da Corte, ministro Celso de Mello, acompanhou o relator do recurso. O ministro fez uma análise histórica das constituições brasileiras desde o Império até os dias atuais, nas quais sempre foi ressaltada a questão do livre exercício da atividade profissional e acesso ao trabalho.

Ainda no contexto histórico, o ministro Celso de Mello salientou que não questionaria o que chamou de “origem espúria” do decreto-lei que passou a exigir o diploma ou o registro profissional para exercer a profissão de jornalista, uma vez que a norma foi editada durante o período da ditadura militar.

Para o ministro, a regra geral é a liberdade de ofício. Ele citou projetos de lei em tramitação no Congresso que tratam da regulamentação de diversas profissões, como modelo de passarela, design de interiores, detetives, babás e escritores. “Todas as profissões são dignas e nobres”, porém há uma Constituição da República a ser observada, afirmou.

Divergência

Ao abrir divergência e votar favoravelmente a obrigatoriedade do diploma de jornalista, o ministro Marco Aurélio ressaltou que a regra está em vigor há 40 anos e que, nesse período, a sociedade se organizou para dar cumprimento a norma, com a criação de muitas faculdades de nível superior de jornalismo no país. “E agora chegamos a conclusão de que passaremos a ter jornalistas de gradações diversas. Jornalistas com diploma de curso superior e jornalistas que terão, de regra, o nível médio e quem sabe até o nível apenas fundamental”, ponderou.

O ministro Marco Aurélio questionou se a regra da obrigatoriedade pode ser “rotulada como desproporcional, a ponto de se declarar incompatível” com regras constitucionais que preveem que nenhuma lei pode constituir embaraço a plena liberdade de expressão e que o exercício de qualquer profissão é livre.

“A resposta para mim é negativa. Penso que o jornalista deve ter uma formação básica, que viabilize a atividade profissional, que repercute na vida dos cidadãos em geral. Ele deve contar com técnica para entrevista, para se reportar, para editar, para pesquisar o que deva estampar no veículo de comunicação”, disse o ministro.

“Não tenho como assentar que essa exigência, que agora será facultativa, frustando-se até mesmo inúmeras pessoas que acreditaram na ordem jurídica e se matricularam em faculdades, resulte em prejuízo a sociedade brasileira. Ao contrário, devo presumir o que normalmente ocorre e não o excepcional: que tendo o profissional um nível superior estará [ele] mais habilitado a prestação de serviços profícuos a sociedade brasileira”, concluiu o ministro Marco Aurélio

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