domingo, novembro 25, 2018

Aparelhado pelo PSDB e pelo PT, o Judiciário se tornou um estorvo político


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Charge do Mariano (Charge Online)
Francisco Vieira
O Supremo Tribunal Federal e outras cortes foram infiltrados durante os governos tucanos e petistas, em função da odienta existência do quinto constitucional, que no STF nem existe, pois a livre escolha abrange todas as vagas de ministros, qualquer advogado do partido pode ser nomeado, sem problema, como foi o caso de Dias Toffoli. Portanto, demorará muito tempo até que esse estorvo ideológico seja removido da máquina pública. Afinal, foram oito anos de PSDB e mais treze anos de PT…
Em relação ao novo governo, os magistrados afirmaram que ainda não houve conversas com a equipe de transição do presidente eleito Jair Bolsonaro. Mas demonstraram “disposição de diálogo” em temas como “combate à corrupção, responsabilidade fiscal e também política remuneratória”.
DESDE QUE… – Ou seja, como mercenários que são, estarão dispostos a “quebrar o galho” do novo governo e dos brasileiros nesses assuntos e até mesmo “dispostos a dialogar”. Desde que o aumento salarial saia para a cooptação, claro…!
Os ministros dos tribunais são muito generosos. São tão generosos que, após embolsarem o aumento, serão capazes de decretar ilegais as greves dos policiais, dos médicos e dos professores que reivindicarem, unicamente, alguma reposição salarial.
Na verdade, os magistrados esculhambaram a vida de todos os brasileiros, pois quando são acobertados os ladrões dos recursos do país, automaticamente se prejudica a de forma direta todos os cidadãos, pois se diminui a qualidade de vida e dos serviços públicos oferecidos aos moradores deste gigante adormecido.
CASO FAVRETO – Vejam o caso do desembargador Rogério Favreto, que fez um acordo com três deputados para soltar Lula no plantão do final de semana. Esses “ministros” que iram julgá-lo serão mesmo magistrados ou simples políticos travestidos com becas?
Se Favreto fosse um reles agente penitenciário que tivesse tentado soltar um traficante, estaria preso e no olho da rua, o lascado teria a foto estampada em todos os jornais segurando uma placa preta com letras brancas e ainda teríamos que ouvir o repórter da Rede Esgoto querendo dar lição de moral e dizendo que “ele deveria dar exemplo”…
Mas como é um desembargador nomeado pelo PT no quinto constitucional, o mais provável é que seu inquérito seja arquivado ou Favreto ganhe direito à aposentadoria precoce, que significa conceder férias permanentes a um criminoso vulgar, pagas com recursos públicos.

Mais Médicos: 'Levarei comigo muita saudade', diz médico cubano

Na semana em que o governo de Cuba pediu o retorno dos profissionais, o médico cubano Yoanner Gonzalez Infante compartilhou em redes sociais um desabafo que rodou o mundo



"Bem feita, a medicina familiar é incrível e precisa principalmente de recurso humano. Falamos daquele médico que vai a uma casa onde jamais um médico chegou", diz Yoanner
Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem
Cinthya Leite
O médico cubano Yoanner Gonzalez Infante, 30 anos, é um dos cubanos desligados do Mais Médicos. Na semana em que o governo de Cuba pediu o retorno dos profissionais, ele compartilhou em redes sociais um desabafo que rodou o mundo. Nesta entrevista à repórter Cinthya Leite, ele fala da medicina humanizada e da experiência em Paulista, onde atuou por mais de um ano.

ESPONTANEIDADE

Aquele desabafo (Yoanner publicou um texto, no Facebook, depois de o presidente eleito, Jair Bolsonaro, ter declarado condicionar a permanência dos médicos cubanos, no Mais Médicos, à revalidação do diploma e recebimento do salário integral pelos profissionais), e não uma carta aberta a Bolsonaro, foi espontâneo. Foi uma resposta que eu encontrei para reagir a uma ofensa que estava sendo feita não somente a mim, mas a todos os médicos cubanos. Foi um desabafo que começou a se espalhar e, quando percebi, já tinha 32 mil compartilhamentos. Quando eu li as palavras de Bolsonaro em algum veículo jornalístico do qual não lembro o nome, falando que nós éramos fantasiados, que não éramos realmente médicos, e que duvidava que alguém gostaria de ser atendido por um médico cubano, eu tinha todos os motivos para ficar arretado. Ninguém tem o direito de questionar a qualidade dos médicos cubanos desse jeito. Ele também disse que nós não poderíamos trazer a família para o Brasil. Em nenhum momento, contudo, fiquei impossibilitado de trazer a minha família para o Brasil. Eu até poderia, mas as prioridades são outras. Não se pode ficar pensando em viagem de turismo quando se precisa comprar uma máquina de lavar para a mãe ou sapatos e roupas para os sobrinhos. Mas tenho esperança de que ele, como patriota brasileiro, tenha a oportunidade de fazer as coisas certas no Brasil. Ele merece a chance de demonstrar se a gestão como presidente será boa ou ruim.

MEDICINA DE FAMÍLIA

Eu me formei em 2014. Fiz a minha residência em medicina familiar, com o objetivo de tratar a pessoa como um todo, pois não podemos ver uma doença psicológica longe da orgânica. Devemos saber que fatores sociais e emocionais favorecem a presença de determinada doença. Acredito na prevenção. Bem feita, a medicina familiar é incrível e precisa principalmente de recurso humano. Falamos daquele médico que vai a uma casa onde jamais um médico chegou. É emocionante quando as pessoas querem um abraço nosso e dizem que somos os primeiros a chegar à casa delas. Encontrei muitas residências assim em Paulista (município do Grande Recife onde Yoanner atuou por mais de um ano). Certa vez, até fiquei assustado quando vi uma senhora chorando em casa quando cheguei. A agente de saúde perguntou por que, e ela disse que era a emoção por ter um médico em casa. Eu achava até que estava acontecendo alguma coisa, pois nunca tinha visto alguém chorando pelo simples fato de ter um médico em casa. Lembro sempre as palavras da minha primeira preceptora na medicina. Ela dizia que, para não errarmos no atendimento, tínhamos que cumprir um princípio de imaginar que, durante a consulta, aquela pessoa pode ser a nossa mãe, tia, irmão ou vizinho para, pelo menos, fazer um tratamento humanizado.

EMPATIA

Na prática, comprovei que as pessoas, além de estarem carentes de atendimento médico, necessitam da escuta, de se sentir compreendidas por alguém. Para aquelas pessoas que chegam ao consultório com pressão arterial alta, não podemos nos limitar a prescrever um remédio. Temos que tentar achar a causa pela qual uma senhora, por exemplo, tem hipertensão; e podem ser muitas as causas. Então, começamos a conversar, e aquela mulher começa a chorar e a contar sobre uma situação pessoal ou familiar complicada: o filho envolvido com as drogas e desempregado, ela tomando conta dos netos porque a mãe das crianças morreu baleada... Então, a gente escuta essas pessoas, que vão às unidades de saúde para receber atendimento e desabafar. Aí, elas vão em paz para casa porque alguém escutou o que elas tinham para falar.

HUMANIZAÇÃO

Uma das queixas principais da população brasileira é a seguinte: “O médico não me escutou. Eu falei, mas ele nem olhou para minha cara”. Mas nem todos os médicos brasileiros são assim. Na minha vida profissional, tive dois momentos: o primeiro foi com os preceptores cubanos que nos ensinaram a dar os primeiros passos na medicina. Depois, tenho que reconhecer a qualidade das minhas preceptoras brasileiras, sobretudo de Fátima Nepomuceno (médica de família e comunidade). Além de ser muito experiente, é humana e luta por uma saúde pública de qualidade. Ela esclarecia as nossas dúvidas a qualquer hora. Foi uma experiência linda. No Brasil, conheci médicos humanos que, para mim, são e serão, referência para a minha futura vida profissional. A gente não pode generalizar a falta de humanismo dos médicos. Do mesmo jeito que há os brasileiros que não olham para a cara do paciente, existem os médicos cubanos com o mesmo comportamento. Entre os 8 mil e tantos cubanos que atuavam no Brasil, há médicos bons, regulares e ruins. Nem todos são do mesmo jeito; é impossível.

COMPROMETIMENTO

Cheguei ao Brasil em julho de 2017. Fomos logo a Brasília, onde ficamos uns 15 dias esperando a vaga destinada pelo Ministério da Saúde. Com certeza, quando um médico cubano vem ao Brasil, vem disposto a trabalhar no interior do Amazonas, caso seja preciso. É assim que se vê quem está realmente disposto para tratar e atender pessoas onde seja preciso. Não é fazer atendimento nos locais de que se gosta; assim é fácil. Eu assinei um compromisso que, se tivesse que trabalhar nos distritos indígenas, eu iria. Minha vaga foi para o município de Paulista, do qual já fui desligado (como profissional do Mais Médicos). Eu atuava numa unidade de saúde que estava cheia de mofo, sem ar-condicionado, com condições de trabalho difíceis. Fizemos reclamações, e a secretária de Saúde da cidade sempre se preocupava, mas não tinha recursos. Quando a verba chegou, foi a primeira unidade a ser requalificada. Hoje em dia, está nova, até com prontuário eletrônico. É a Unidade de Saúde da Família Maranguape I B. A gente tinha uma área definida para trabalhar, mas geralmente fazia atendimentos de locais descobertos também, pois não negamos consulta a quem não tem um clínico-geral no posto do município onde mora. Fiz muitas visitas domiciliares, vi famílias com muitos problemas que passaram a ser acompanhadas. Não é só diagnosticar esses problemas e deixar escrito no prontuário. Temos que analisar as medidas e fazer o planejamento para reverter todas as coisas ruins diagnosticadas na família.

LEMBRANÇAS

Nos últimos tempos, tinha um grupo de uns quatro ou cinco idosos que me esperavam sair do posto de saúde por volta das 17h, 17h20, já perto de anoitecer. Eles ficavam na frente de casa e me chamavam para bater um papo. Era lindo! E olhe que, ao largar, eu já estava com dor de cabeça, cansado, com sono... Mas eu ficava de 15 minutos a meia hora conversando com eles. É emocionante quando percebemos que a população reconhece o nosso lado humano. É uma injeção que vamos tomando todos os dias para continuarmos amando o que fazemos. A despedida em Paulista foi muito linda; foi uma das poucas vezes em que vimos um prefeito chorando junto conosco. Eu levarei comigo muita saudade, pois é impossível esquecer as demonstrações de carinho que guardamos no coração. E eu vou falar a verdade, viu? Ainda não acredito que vou embora. É um pesadelo que estou vivendo, pois eu não estava preparado para me despedir tão rápido das pessoas. No tempo em que passei trabalhando no Brasil fui assaltado pelo amor da população, pelo carinho de gente que passa na rua e a quem ofereci atendimento. Agradeço ao Brasil ter me acolhido como filho.
https://jconline.ne10.uol.com.br

Feira rebate MP: 'Não há que se discutir necessidade de contratação emergencial'


Feira rebate MP: 'Não há que se discutir necessidade de contratação emergencial'
Foto: Divulgação
Em resposta à denúncia do Ministério Público Estadual (MP-BA), a prefeitura de Feira de Santana afirmou, em nota, que "não há que se discutir a necessidade da contratação em regime emergencial" realizada em 2013.

O promotor Tiago Quadros denunciou o ex-prefeito de Feira de Santana José Ronaldo e a atual secretária de Saúde do município, Denise Mascarenhas, foram denunciados pelo Ministério Público Estadual (MP-BA). Os dois são suspeitos de burlar a exigência de licitação em contrato com uma cooperativa de saúde [Coopersade] em abril de 2013. Segundo o Ministério Público do Estado (MP-BA), o valor do contrato foi de quase R$ 6,4 milhões (veja aqui).

Ainda segundo nota da prefeitura, o contrato era necessário por se tratar da continuidade da prestação de serviços em área essencial à população, tais como Programa de Saúde da Família (PSF) e unidades básicas de saúde.

"Ao assumir o Governo, em 1 de janeiro de 2013,  o novo gestor encontrou o contrato de prestação de serviços na área de saúde completando o ciclo de 70 meses de vigência. Respeitando orientação do Tribunal de Contas dos Municípios (TCM), que recomenda à administração pública não extrapolar os cinco anos de duração de um mesmo vínculo,  o novo gestor municipal determinou abertura de processo licitatório, publicado no Diário Oficial da União em sua edição dos dias 2 e 3 de fevereiro daquele ano (portanto, apenas 30 dias após empossado), com o objetivo de contratar um novo prestador", diz o texto.

No entanto, devido a um pedido de impugnação relacionado a erros técnicos, a conclusão do processo não ocorreu. "Neste momento, a Secretaria de Saúde, diante da necessidade da revogação do processo, e ao mesmo tempo da manutenção dos serviços essenciais à  comunidade, cumpriu a única alternativa razoável para o momento: a abertura de uma dispensa de licitação para contratação imediata e temporária".

Foi realizada, segundo a prefeitura, tomada de preços de três empresas. Destas, a que apresentou menor valor (R$ 6.379.495,62) foi consagrada vencedora, cumprindo período de abril a outubro de 2013.

"Tão logo iniciou-se o período emergencial, a Secretaria de Saúde iniciou processo licitatório para contratação regular do serviço. Em cláusula, a administração determinou que o contrato de emergência seria interrompido automaticamente, mediante a conclusão da licitação e definida nova empresa prestadora", acrescenta a nota. A licitação foi realizada e, em seguida, revogada, em razão do envolvimento da empresa selecionada em denúncias apuradas pelas autoridades federais.

"A Secretaria de Saúde, mais uma vez em proteção ao direito do acesso do cidadão aos serviços de saúde, prorrogou por dois meses o contrato emergencial com a prestadora anterior. Antes mesmo de vencer os 60 dias, realizou novo processo licitatório, contratando duas empresas para a prestação dos serviços e assim encerrando definitivamente o contrato emergencial. No momento adequado, a Secretaria de Saúde apresentará toda a documentação necessária para comprovar a absoluta regularidade dos atos da administração e o interesse de salvaguardar o Município, em todo este processo", conclui a nota.
Bahia Notícias

Tradicionalismo na educação não resiste à ideia da liberdade na era da internet


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Charge reproduzida do Arquivo Google
Pedro do Coutto
O Globo, Folha de São Paulo e Estado de São Paulo, edições de ontem, publicaram com grande destaque a carta aberta do futuro ministro da Educação, Ricardo Velez Rodrigues defendendo o tradicionalismo que marcou a educação brasileira no passado e os valores morais nos quais se baseia a sociedade brasileira. Velez Rodrigues sustentou que, a seu ver, a mesma sociedade é conservadora e quer conservar os valores morais e sociais, rejeitando a introdução de versões ideológicas no sistema de ensino. A meu ver, o tradicionalismo significa um retrocesso, sobretudo na medida em que, voltando-se ao passado, esquece-se a força do presente e o impulso para o futuro.
Estamos em plena era da Internet, comunicação rápida e densa dos conceitos e informações que transmite. A própria imprensa, incluindo jornais, emissoras de rádio e televisão, rejeita qualquer apelo capaz de colocar o passado acima da realidade presente e dos caminhos para uma alvorada modernizadora.
VERSÕES DE VELEZ – Reportagem de Paula Ferreira, Rafael Kapa e Renata Mariz, em O Globo, focaliza de forma bastante ampla as versões destacadas por Velez Rodrigues. O fato é que da mesma forma que não se pode vestir hoje as mesmas roupas do passado, utilizar-se os mesmos remédios, raciocinar-se em bases passadistas, não se pode querer também um estilo de educação que desaparece na névoa do tempo.
Hoje a realidade é outra, os problemas são outros, o comportamento das pessoas é outro, as descobertas científicas são outras, os objetivos dos seres humanos ajustam-se aos tempos que se renovam. Voltar ao passado seria um desastre.
AUTOR DO AMANHà– Um professor pode se tornar um autor do amanhã, um arquiteto do futuro. Mas para isso precisa assumir a posição construtiva de doador de conhecimentos e não a de cobrador de interrogações. É só confrontar os avanços da educação nos demais países para que se chegue à conclusão de que o passado não pode ocupar os pensamentos e vocações da vida de agora. A educação não pode ser o esforço para voltar ao passado.
O passado ficou para trás, é lógico. Logo, o compromisso ideológico constitui a base para os avanços trazidos pela alvorada que se renova.

Metade dos brasileiros não tem rede de esgoto e 15% não bebem água potável


Resultado de imagem para brasil o fracasso do conservadorismoPedro do Coutto
Os dados que se encontram no título fazem parte de um estudo da especialista Virgínia Sodré, diretora do Instituto Aciona Água Brasil. Em forma de artigo, o estudo foi publicado na edição do Valor. Claro que tal situação precisa ser mudada urgentemente, por produzir uma série enorme de problemas ligados diretamente a saúde e a própria condição humana. Eis aí um setor no qual a política de ação não pode ser pautada pelo espírito conservador. Conservar o que? O déficit colossal em matéria de rede de esgoto e também conservar a falta de consumo de água potável que atinge 35 milhões de pessoas. Não é possível. É indispensável romper-se esse anel de ferro em torno de questões profundamente negativas para o desenvolvimento social e econômico do Brasil.
Na cidade do Rio de janeiro, tomando-se por exemplo as favelas, estão elas cada vez mais enraizadas nas encostas dos morros cariocas. A falta de saneamento é uma fonte permanente de várias doenças, refletindo-se até na mortalidade infantil.
ESFORÇO IMENSO – Para romper o anel de ferro a que me referi é preciso um esforço imenso inspirado no sentido da reforma. Todo processo humano é marcado por avanços reformistas, o reformismo parte basicamente da dúvida: se não houvesse dúvida não haveria progresso. A dúvida, assim, é eternamente produzida pelo choque entre as visões reformistas e as conservadoras. Não se pode querer conservar a pobreza e o atraso, no caso do Brasil, principalmente atingindo as faixas menores de renda familiar.
No caso do saneamento, ser conservador significa escravizar no século XXI a prática desumana peculiar ao período da escravidão. A população que não conta com rede de esgoto é duplamente traída na sua vontade existencial: paga impostos para receber serviços básicos em vão. Os impostos atingem sua baixa renda, mas os serviços não vêm em contrapartida.
CONSERVADORISMO – Quando se vê a discussão que domina a base político econômica do governo que assume o Brasil em janeiro de 2019, chega-se à conclusão que o conservadorismo é a engrenagem do atraso que pune imensas parcelas humanas que não tem culpa nenhuma.
No livro que Antonio Houaiss e eu escrevemos há algum tempo – “Brasil: O Fracasso do Conservadorismo” – focalizamos a profundidade da contradição que opõe a ideia conservadora e a libertação reformista.

No governo, o Bolsonaro liberal vai ter de enfrentar o Bolsonaro estatista


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Ilustração reproduzida do Blog da Cidadania
Demétrio MagnoliFolha
Sabe-se que, historicamente, Bolsonaro não é um, mas dois. A narrativa convencional registra uma ruptura radical. O capitão turbulento que evoluiu como parlamentar de convicções nacional-estatistas converteu-se, no umbral de sua campanha presidencial, ao manual econômico do ultraliberalismo.
Sob essa luz, um Bolsonaro sucedeu ao outro, abandonando o personagem original numa reentrância do passado. Contudo, a montagem do governo conta-nos uma história diferente, sugerindo a hipótese de que os dois Bolsonaros convivem num mesmo indivíduo dilacerado entre personas contraditórias.
CIVIL E MILITAR – Paulo Guedes, o ultraliberal de caricatura, concentra poderes inauditos, enfeixando as pastas da Fazenda, do Planejamento e da Indústria e Comércio. O czar da Economia nomeou os integrantes de uma equipe econômica composta por liberais competentes, de credenciais impecáveis. Já o núcleo militar do governo é composto por generais da reserva oriundos da tradição geiseliana.
Os tempos são outros, a obsessão estatista passou, dissolveu-se a geopolítica da Escola Superior de Guerra. Mas, entre os deuses do mercado e os do planejamento, as “forças da ordem” sempre penderão para o segundo. O Bolsonaro original vive nesse núcleo militar, selecionado por ele mesmo, não por um terceiro.
Os dois Bolsonaros são extremistas ideológicos, mas de sinais opostos. Um Bolsonaro tem consciência da presença do outro. De certo modo, o primeiro vigia o segundo, traçando-lhe limites. O presidente eleito refutou a proposta de Guedes de saltar para um regime previdenciário de capitalização individual recordando-lhe que os cidadãos confiam na promessa constitucional de que suas futuras aposentadorias têm a garantia do Tesouro.
COM LIMITES – Roberto Castello Branco descartou a privatização integral da Petrobras alegando não possuir um “mandato” político para tanto. A visão otimista diz que a convivência de extremismos simétricos arredondará as arestas agudas, produzindo um vetor reformista e pragmático.
Os dois Bolsonaros conversam a sós, divergem e convergem, esboçam planos de contingência. Desses diálogos ocultos, vazam indícios indiretos, colunas de fumaça em meio aos campos sujos.
O presidente eleito atribuiu a nomeação de Joaquim Levy ao livre arbítrio de Guedes (“Ele é quem está bancando o nome”) e foi além, marcando nitidamente as posições no palco do poder: “Quem ferrou o Brasil foram os economistas. Eles são parte importante do nosso plano de governo. Eles não podem errar, não têm o direito de errar.”
OS CULPADOS  – A tradução óbvia: Bolsonaro investe numa apólice de seguro para a hipótese de fracasso, que seria jogado às costas dos economistas, os “eles” inclinados a “ferrar o Brasil”. A tradução menos óbvia: a apólice do segundo Bolsonaro é o primeiro. A visão pessimista diz que, diante das esperadas resistências corporativas às reformas econômicas, o Bolsonaro liberal renunciará à Presidência em favor do Bolsonaro estatista.
No centro da mensagem da campanha de Bolsonaro não estava a economia, mas a agenda de valores e costumes. O “mercado”, essa entidade flácida, pervasiva, excitável, apostou especulativamente na mensagem secundária vocalizada por Guedes.
MUITA INCERTEZA – A escalação da equipe econômica preserva as expectativas criadas à margem dos palanques, mas os observadores menos tolos registram elevadas taxas de incerteza. Quando escolhe a terceira pessoa do plural — “eles”— para se referir à sua própria equipe econômica, o presidente eleito sugere que, ao planejar a ofensiva, desenha também o caminho da retirada.
“Guedes não dura seis meses”. A profecia partiu de Cid Gomes, porta-voz informal do irmão, que é pretendente a líder da oposição. O profeta interessado pode estar certo ou errado, mas entendeu algo relevante: no caso de Bolsonaro, em lugar de se sucederem, os estágios crisálida e borboleta se confundem.

Mourão se torna um contrapeso à voracidade ultraliberal do governo Bolsonaro


O vice-presidente eleito, general Hamilton Mourão, no CCBB, onde está o escritório de transição
Mourão tem colocado as coisas nos devidos lugares
Janio de FreitasFolha
O único erro nas escolhas de Jair Bolsonaro, até agora, é irreparável e prenuncia um poderoso contrapeso para a voracidade direitista dos demais escolhidos, tão coincidentes com as posições do presidente eleito. A cada dia o general e vice-presidente eleito, Hamilton Mourão, se caracteriza mais, em muitos sentidos, como um caso à parte na cúpula do futuro governo. Condição que, fora dali, tem até suscitado expectativas distensionantes.
Escolha talvez não seja a palavra adequada para a inclusão do general na chapa que o leva ao poder. Uma informação com boa origem, mas ainda sob ressalva, indica que Bolsonaro foi “aconselhado” na área militar, quando já tinha seu escolhido, a ceder a vice a Mourão.
ALTO CONCEITO – A desafinação com as ideias de Bolsonaro, sobretudo nas relações internacionais, e com sua conduta desatinada, bem conhecida no Exército que o dispensou, estavam entre os primeiros motivos para a iniciativa do “conselho”. O complemento, com o nome, veio do conceito de Mourão nos altos escalões militares (o general foi eleito neste ano para a presidência do Clube Militar).
Ainda antes da eleição, Bolsonaro pediu à sua volta que silenciassem, embaraçado com a franqueza do vice contrário a afirmações suas e a vazamentos de intenções de Paulo Guedes. O silêncio durou pouco. Houve quem atribuísse as discordâncias a truque eleitoral, atenuando um pouco o extremismo direitista do candidato a presidente.
A divergência continua, porém. E, mais do que isso, adota uma segurança afirmativa que não se assemelha a arroubos. Mostra-se não só em contradição com medidas previstas pelos planejadores do governo, como desqualificantes para o próprio Bolsonaro. Francas e ditas com naturalidade.
RETÓRICA – “Às vezes o presidente tem uma retórica que não combina com a realidade”, diagnóstico comprovado e reiterado, agora, ao Financial Times e republicado em Toda Mídia, da Folha. Ainda: “A China não está comprando o Brasil”, desmentido frontal ao argumento maior de Bolsonaro para propagar o afastamento brasileiro na relação com a China (Bolsonaro é adepto da hostilidade belicista de Trump aos chineses).
Mas Mourão não fica só em considerações de aparência pessoal. Antecipa o que, diz, virá a ser. À parte a posição de Moro ou contra ela. “Tenho certeza absoluta de que nós não vamos brigar” [com a China]. A mudança da embaixada brasileira em Israel, de Tel Aviv para Jerusalém, já reafirmada por Bolsonaro, “é uma decisão que não pode ser tomada de afogadilho, de orelhada”. Sobre o fim do Mercosul, também dado como decisão, “antes de pensar em extinguir, derrubar, boicotar, temos que fazer os esforços necessários para que atinja os seus objetivos”.
O Mercosul continua, pois, seja qual for o desejo comum a Bolsonaro, Paulo Guedes, ao chanceler medievo. E vai por aí. Ou vão por aí, o grupão para um lado, Mourão para o outro.
HABILIDADE – O revestimento da dissociação é, da parte do vice, uma habilidade política nas formulações que, também nisto, contrasta com a batalha de Bolsonaro para coordenar palavras, por poucas que sejam.
A exposição das posições de Mourão é, em geral, acompanhada de umas frases que aparam a contestação. E tudo se passa sem cerimônia, no clima dos que conversam à vontade. Não é o clima em que os quatro Bolsonaros e seus principais circunstantes convivem.
São muito poucos os elementos para imaginar os futuros possíveis, ou não, dos embates que se insinuam. Ainda assim, pode-se aventurar a probabilidade de que os desdobramentos sejam influenciados, ou mesmo decididos, pelas forças das respetivas retaguardas. Não as partidárias. As militares.

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