Publicado em 26 de outubro de 2025 por Tribuna da Internet
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Lula apressou-se em corrigir a frase diante da repercussão
Pedro do Coutto
A recente declaração do presidente Lula da Silva, feita durante sua visita à Indonésia, de que “os traficantes são vítimas dos usuários de drogas”, provocou um abalo político que foi muito além de um deslize de retórica.
Em um tema tão sensível quanto o das drogas, onde segurança pública, saúde e moral social se entrelaçam, a fala soou, para muitos, como uma inversão perigosa de papéis. Lula, percebendo a repercussão negativa, apressou-se em corrigir a frase, afirmando que se tratava de uma colocação infeliz. Explicou que sua intenção era destacar a relação direta entre o aumento do consumo e o crescimento do tráfico — ou seja, a lógica de que o mercado ilegal prospera porque há demanda. Mas o estrago simbólico já estava feito.
INADEQUADA – A repercussão foi imediata e intensa. Pesquisas apontaram que cerca de 69% dos brasileiros desaprovaram a declaração inicial, considerando-a inadequada. Em um país em que a violência associada ao tráfico de drogas é uma das principais preocupações da população, sugerir qualquer tipo de atenuante moral para quem lucra com o sofrimento alheio é visto como um erro grave.
Para a oposição, a fala soou como um ato de leniência. Deputados e líderes conservadores afirmaram que o presidente “desrespeitou as vítimas” e “romantizou o crime”, num momento em que a segurança pública se mantém no topo das demandas eleitorais.
Por outro lado, o episódio também expôs uma verdade incômoda: o tráfico só existe porque há consumidores. Essa constatação, embora óbvia, costuma ser evitada no debate político. A fala de Lula, ainda que mal formulada, acabou tocando nessa ferida.
MERCADO CONSUMIDOR – Segundo dados do World Drug Report 2024, do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), o Brasil figura entre os maiores mercados consumidores de cocaína do mundo. Isso significa que o combate ao tráfico, por mais vigoroso que seja, jamais será eficaz sem uma política paralela de redução de demanda — que envolva prevenção, educação, tratamento e reinserção social.
Lula, ao tentar corrigir o rumo, lembrou que o consumo de drogas é um problema global e que o enfrentamento precisa ser conjunto. Mencionou ainda a necessidade de campanhas de conscientização semelhantes às que reduziram drasticamente o tabagismo nas últimas décadas.
De fato, as políticas públicas de combate ao fumo — que associaram restrições, aumento de impostos e forte mudança cultural — conseguiram reverter hábitos profundamente enraizados. Aplicar a mesma lógica ao consumo de drogas ilícitas, porém, é um desafio muito mais complexo, que exige não apenas ação governamental, mas também um esforço social contínuo.
POSTURA MAIS AGRESSIVA – Enquanto o governo brasileiro tenta se equilibrar entre repressão e prevenção, os Estados Unidos adotam uma postura mais agressiva. Sob o comando do presidente Donald Trump, o país tem classificado cartéis de drogas latino-americanos como organizações terroristas, autorizando inclusive ações militares contra embarcações suspeitas no Caribe.
Lula, por sua vez, criticou essa estratégia, defendendo que qualquer punição deve ser precedida de julgamento e baseada em provas concretas — uma defesa do devido processo legal que reforça a diferença de abordagem entre os dois países.
A polêmica, entretanto, trouxe implicações eleitorais evidentes. Com a corrida presidencial de 2026 já no horizonte, cada frase do presidente passa a ser medida não apenas pelo seu conteúdo, mas também pelo seu impacto na opinião pública. A fala sobre os traficantes deu munição à oposição e acendeu um sinal de alerta dentro do próprio governo, que agora busca reforçar sua imagem de firmeza no combate ao narcotráfico.
DIVULGAÇÃO – O Planalto tem divulgado com mais intensidade ações da Polícia Federal e parcerias internacionais no enfrentamento às organizações criminosas, numa tentativa de reverter o dano de imagem.
Em última instância, a fala de Lula evidencia a dificuldade de tratar de um tema que mistura ética, saúde e criminalidade. Usuários e traficantes não são lados equivalentes de uma mesma moeda — mas estão ligados por uma dinâmica econômica e social que precisa ser enfrentada de forma integrada.
SEM BRECHAS – A repressão ao tráfico é indispensável, mas será sempre insuficiente se não vier acompanhada de políticas de prevenção e redução de danos. E, acima de tudo, a comunicação presidencial precisa traduzir essa complexidade com cuidado, sem abrir brechas para interpretações distorcidas.
No fim, o episódio serve como lição. A política não se faz apenas de intenções, mas também de palavras. Em tempos de alta polarização, uma frase mal colocada pode se transformar em combustível para narrativas adversárias e ameaçar agendas inteiras. Lula corrigiu o rumo a tempo, mas o caso reforça que, quando se trata de segurança pública e drogas, o equilíbrio entre empatia e firmeza é tão delicado quanto necessário.