
Charge do Paulo Caruso (Arquivo Google)
Carlos Newton
Como era de se esperar, o ministro da Defesa, general Fernando Azevedo, convocou uma reunião extraordinária os comandantes militares para a tarde desta segunda-feira, dia 21, em pleno feriado. A conversa com o general Leal Edson Pujol, o almirante de esquadra Ilques Barbosa Júnior e o tenente-brigadeiro do ar Antonio Carlos Moretti Bermudez, ocorreu por meio de videoconferência, às 16 horas.
O encontro foi convocado pelo ministro no início da tarde de domingo logo após o presidente Jair Bolsonaro ter aparecido de surpresa e participado de uma manifestação diante do Forte Apache, Quartel-General do Exército, em que se pregou mais um golpe militar no país.
FOI UMA PROVOCAÇÃO – Os chefes militares analisaram o estranho comportamento de Jair Bolsonaro, encarado como uma espécie de provocação para que as Forças Armadas se aliem ao presidente na tentativa de pressionar os dois outros poderes da República para que se submetam aos intentos do Executivo.
O mais grave é que o presidente Bolsonaro demonstrou menosprezo às próprias Forças Armadas, ao comparecer diante do Quartel-General do Exército da República para discursar aos manifestantes, que defendiam um novo Ato Institucional nº 5 e o fechamento de dois Poderes da República – o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal.
SEM COMENTÁRIOS – Na reunião, os chefes militares decidiram não se manifestar sobre os acontecimentos de domingo, em que o presidente da República claramente ultrapassou os limites constitucionais de seu cargo. Assim, ficaram valendo os termos da nota divulgada pelo ministro da Defesa na manhã desta segunda-feira, antes da reunião com os comandantes das três Forças.
Na mensagem oficial, o general Fernando Azevedo destacou que “as Forças Armadas trabalham com o propósito de manter a paz e a estabilidade do País, sempre obedientes à Constituição Federal”. Em seguida, referindo-se à pandemia, assinalou que “o momento que se apresenta exige entendimento e esforço de todos os brasileiros”.
Em tradução simultânea, o ministro reproduziu o que contém o artigo 142 da Constituição, ao afirmar que as Forças Armadas “destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”.
ENGANO DE BOLSONARO – Sonhar não é proibido, todos sabem. No entanto, Bolsonaro e os filhos saíram do sonho para o delírio. Foi uma infantilidade pensar (?) que as Forças Armadas pudessem ser novamente pressionadas para descumprir a Constituição. Em 1964 a situação era completamente diferente, com quebra de hierarquia por cabos e sargentos da Marinha e uma série de problemas institucionais. Nada a ver com o Brasil de hoje.
O resultado dos desatinos de Bolsonaro e seus filhos é que as Forças Armadas estão cada vez mais distantes do Planalto, estão atuando no combate ao coronavírus diretamente com governadores e prefeitos e não pretendem intervir caso haja processos de impeachment no Supremo e/ou no Congresso.
Os militares não se sentem representados por Bolsonaro e, democraticamente, vão deixar que o presidente resolva sozinho os problemas que vier a criar. Apenas isso.