terça-feira, março 03, 2026

Ruas, bandeiras e geopolítica: quando a política externa vira arma na disputa interna

Publicado em 3 de março de 2026 por Tribuna da Internet

Manifestações reduzidas insistiram em pautas desgastadas 

Pedro do Coutto

As manifestações bolsonaristas do último fim de semana, relatadas por reportagens de bastidores políticos, trouxeram à superfície um fenômeno recorrente na política brasileira contemporânea: a instrumentalização da política externa como extensão da polarização doméstica.

Em cidades como São Paulo, protestos reuniram apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro empunhando bandeiras do Brasil e dos Estados Unidos, além de cartazes em inglês pedindo “liberdade para Bolsonaro”. O alvo retórico foi o governo de Lula da Silva, acusado de supostamente alinhar o Brasil ao regime do Irã em meio às tensões no Oriente Médio.

NÃO INTERVENÇÃO – A acusação, porém, revela mais sobre a disputa interna do que sobre a real posição diplomática brasileira. Historicamente, o Brasil tem mantido, por meio do Itamaraty, uma linha de política externa baseada no princípio da não intervenção e da defesa de soluções negociadas para conflitos internacionais. A nota oficial citada nas discussões políticas enfatizou exatamente isso: a crítica ao recurso à força militar em detrimento de processos diplomáticos ainda em curso. Trata-se de uma tradição que remonta a décadas e atravessa governos de diferentes orientações ideológicas, sustentando a imagem do país como ator moderador no sistema internacional.

O que se observa, entretanto, é a transformação dessa postura diplomática em narrativa de confronto ideológico. Lideranças da oposição, como o senador Flávio Bolsonaro, reagiram à posição brasileira com críticas duras, sugerindo que a condenação do conflito equivaleria a uma escolha de lado na disputa geopolítica. Esse enquadramento simplifica deliberadamente a complexidade das relações internacionais, convertendo nuances diplomáticas em slogans mobilizadores para consumo interno.

CÁLCULO POLÍTICO – Há, nesse movimento, um cálculo político evidente. Ao associar o governo brasileiro a regimes vistos negativamente pelo eleitorado conservador, a oposição busca reforçar a narrativa de que o atual governo estaria desalinhado dos valores ocidentais e democráticos. O uso de bandeiras norte-americanas nas manifestações, por sua vez, sinaliza não apenas afinidade ideológica, mas também a tentativa de construir um eixo simbólico entre bolsonarismo e o conservadorismo internacional que teve como expoente figuras como Donald Trump. A geopolítica vira, assim, linguagem de pertencimento político.

Do ponto de vista institucional, contudo, a posição brasileira permanece coerente com a tradição de condenar a escalada militar e defender soluções multilaterais. Ao negar legitimidade ao conflito e destacar a existência de negociações diplomáticas em curso, o governo busca preservar o papel do Brasil como mediador potencial, evitando alinhamentos automáticos que reduziriam sua margem de manobra internacional. Essa estratégia não é inédita: já foi adotada em crises anteriores no Oriente Médio, em governos de matizes ideológicos distintos, demonstrando que a diplomacia brasileira opera, muitas vezes, em lógica de Estado, e não apenas de governo.

O problema surge quando a política externa deixa de ser debatida em termos estratégicos e passa a ser absorvida pela lógica da polarização. Nesse ambiente, nuances são descartadas e substituídas por dicotomias simplificadoras: pró-Ocidente ou pró-Irã, pró-democracia ou pró-ditadura. Tal redução empobrece o debate público e obscurece o fato de que a diplomacia brasileira, ao condenar conflitos armados, não necessariamente endossa regimes, mas reafirma princípios jurídicos internacionais como a soberania, a negociação e a resolução pacífica de controvérsias.

IMPACTOS – Além disso, o impacto econômico e social das tensões internacionais — mencionado de forma difusa nas discussões políticas — raramente é tratado com a mesma intensidade que as disputas narrativas. Guerras no Oriente Médio afetam cadeias de energia, comércio e preços globais, com reflexos diretos sobre o custo de vida no Brasil. No entanto, esses efeitos concretos cedem espaço, no debate político, a batalhas simbólicas voltadas mais para a mobilização de bases eleitorais do que para a compreensão das implicações estratégicas de longo prazo.

O episódio recente ilustra, portanto, um padrão mais amplo: a política externa brasileira tornou-se mais um campo de disputa identitária interna. Ao transformar a diplomacia em arma retórica, atores políticos reforçam clivagens ideológicas e deslocam o debate de seus fundamentos técnicos para o terreno emocional. No curto prazo, isso mobiliza militâncias; no longo prazo, pode corroer a credibilidade internacional do país, caso a percepção externa seja de volatilidade ou instrumentalização das posições diplomáticas.

Em última instância, as manifestações revelam menos uma ruptura na política externa e mais a continuidade da polarização que domina o cenário político nacional. A disputa não é apenas sobre o que o Brasil diz ao mundo, mas sobre o que cada campo político deseja que o país represente simbolicamente. Entre bandeiras estrangeiras e acusações geopolíticas, o risco é que o debate sobre interesses nacionais concretos se perca na arena das narrativas, onde a política externa deixa de ser estratégia de Estado e passa a ser mais um capítulo da guerra política interna.

Os bad guys

 

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Arte: Marcelo Chello

Você não vai ver nenhuma definição melhor sobre o que está acontecendo no Irã do que a que foi dada pelo cartunista alemão Ben El Halawany. “Os bad guys atacaram os bad guys com a ajuda dos bad guys.” Se segura, MUNDO.

Caso alguém esteja perdido (sei lá, vai que a pessoa estava num retiro), basicamente os Estados Unidos atacaram o Irã no último sábado (sim, eu estava num retiro) com o apoio de Israel. O Ali Khamenei, que era o líder supremo do Irã, foi morto. Não, darling, líder supremo lá no Irã não é tipo Xandão, é tipo o cara que manda mesmo na porra toda.

Mas o tal Khamenei já estava bola 7 há algum tempo porque não é de hoje que a treta rola, não é de hoje que ele é alvo, e dada sua idade de 86 anos a galera já estava vendo quem seria o substituto. Isso significa que logo tomaram o lugar dele para comandar o Irã e já andaram atacando até Dubai (para desespero dos turistas ricos). Sim, o Irã já espalhou a guerra pela região atacando com mísseis e drones.

Donald J. Trump (J de João, juro) está como ele gosta, dando dezenas e dezenas de entrevistas. Uma hora diz que a guerra vai durar dias, outra hora que vai durar semanas. Uma hora diz que vai dominar o Irã, outra hora diz que é pro povo tomar o poder. Uma hora diz que vai fazer do Irã o que fez com a Venezuela (sim, claro, quase igual. Só lembrando que na Venezuela o regime continuou o mesmo). Outra hora não sabe quando é dia ou quando é noite. (Pergunta se ele pediu autorização do Congresso como manda a lei americana? Of course not.)

E o Bibi Netanyahu, o líder israelense, está lá na expectativa de ficar mais tempo no poder enquanto a guerra dura. Sim, eleições adiadas enquanto tem guerra. O que é mais uma guerra para quem destruiu Gaza como ele destruiu, né?

O Khamenei, para quem não sabe, era tudo menos flor que se cheirasse. Cortava internet geral, mandava matar pessoas em praça pública e mulher, então, tratava como lixo.

A propósito, durante os ataques dos americanos e israelenses, uma escola de meninas foi atingida matando mais de 100.

Entendeu agora o bad bad bad guys. Socorro, BRASEW.

Aliás, falando em BRASEW, o Celso Amorim, que é o assessor mega especial do Lula, escalou e diz que matar um líder de um país é condenável e inaceitável e que devemos nos preparar para o pior. Nunca esqueçamos que outro dia Trump já tinha pego o Nicolás Maduro e o mantém preso nos Estados Unidos. Pois bem, será que a reunião que Lula vai fazer com Trump agora em março vai ser mantida? Se for mantida, Lula vai fazer o quê? Logo no sábado, o Itamaraty já se manifestou condenando os ataques americanos.

Basicamente, a economia mundial também está sob ameaça com a alta do petróleo. Sim, darling, sempre alguém ganha muito dinheiro com uma guerra e outros ficam mais pobres.

E pensar que o Trump venceu as eleições dizendo que faria amor, não faria guerra. Que sem ele o mundo viveria uma terceira guerra mundial. Então, tá, né? Acredite no que você quiser durante as eleições.

O fenômeno

Vamos para a nossa guerrinha diária das notícias aqui. Enquanto o Oriente Médio pega fogo, literalmente, o Valdemar Voldemort anda dizendo por aí que Michelle é um furacão. Mentira, ele disse que ela é um fenômeno mas que o Bolsonaro não quer que ela seja candidata a nenhum cargo no Executivo porque não tem experiência. Ahã, claro, ele tinha muita experiência no Executivo. Na mesma frase, Valdemar lembrou que ela tem enfrentado uma situação muito difícil por ter que cozinhar para o marido de manhã e levar comida no presídio todos os dias. Gente, e os 17 milhões, não dá para pedir no iFood, na Keeta, no 99Food, na padaria da esquina? Ah, será que o Valdemar quis dizer que para Bolsonaro lugar de mulher é na cozinha? Tixa Atômica.

Falando nisso, Flavitcho virou advogado do pai para poder ficar indo e vindo para a Papudinha.

E essa IA?

O Tribunal Superior Eleitoral decidiu que vai proibir conteúdos eleitorais produzidos por inteligência artificial no prazo de 72 horas e 24 horas depois de cada turno das eleições. Hummm, significa que se o cidadão fizer um vídeo hoje tudo bem se ele sem querer viralizar só lá perto do primeiro turno? Vai ser fácil, fácil, a vida do TSE nesta eleição.

E o Lulinha?

O Estadão saiu com essa hoje de que o Lulinha teria dito a interlocutores que de fato viajou para Portugal com passagens pagas pelo Careca do INSS, mas que não passou disso. Vamos combinar que não seria surpresa nem para Lula, que outro dia disse para o filho que só ele sabe o que aconteceu e que se fez errado vai ter que responder por isso. Em nenhum momento comentou se perguntou ou se acredita que o filho não fez nada errado. Só para registrar.

Lá na CPI do INSS, a ex-secretária do Careca disse que ela não emitiu passagens ou fez pagamentos para o Lulinha.

Tchau, BRASEW!

Quando o planejamento não vem, a conta chega com a força das águas

 Quando o planejamento não vem, a conta chega com a força das águas

Por José Montalvão

Tudo o que é feito sem planejamento e sem estudos técnicos cobra seu preço mais cedo ou mais tarde. E, no caso do Distrito do Canché, essa conta tem chegado em forma de enchente, prejuízo e sofrimento para agricultores e pecuaristas ribeirinhos.

Até onde se tem conhecimento histórico, o Canché jamais havia enfrentado inundações dessa magnitude antes da construção do Açude de Cocorobó, também conhecido como Açude de Canudos. A obra, que deveria representar segurança hídrica e desenvolvimento, passou a ser motivo de apreensão sempre que o céu escurece e as trovoadas anunciam o inverno.

Em 2024, a combinação de chuvas intensas com a condução tardia da abertura das comportas de sangramento resultou em uma tragédia anunciada. Segundo relatos dos próprios ribeirinhos, as águas não foram liberadas de forma gradual e preventiva. As comportas só teriam sido abertas quando o reservatório já se encontrava em situação crítica — depois do leite derramado. O resultado foi devastador: plantações perdidas, rebanhos comprometidos, cercas destruídas, casas invadidas pela água e um prejuízo que, até hoje, muitas famílias não conseguiram superar.

Agora, com o reinício das chuvas de trovoadas, dois riachos já começam a sangrar, reacendendo o medo coletivo. Caso o açude volte a sangrar de forma descontrolada, e dependendo da intensidade das chuvas, há o receio concreto de que a história se repita. E não se trata de alarmismo, mas de um temor fundamentado na experiência recente.

O Distrito do Canché e os ribeirinhos não querem paliativos. Não querem migalhas, nem promessas emergenciais após a tragédia consumada. Querem soluções estruturais e definitivas. Querem planejamento técnico, monitoramento permanente do nível do reservatório, protocolos claros de abertura gradual das comportas e, sobretudo, diálogo transparente com a comunidade que vive às margens do rio e sente primeiro o impacto de qualquer decisão equivocada.

Barragens e açudes exigem gestão responsável. O controle de comportas não pode ser improvisado, nem conduzido apenas quando a pressão da natureza já se tornou insustentável. É preciso antecipação, estudos hidrológicos atualizados e articulação entre órgãos estaduais e federais responsáveis pela operação do reservatório.

A esperança da população está na capacidade de articulação do prefeito Tista de Deda, para sensibilizar as autoridades competentes e buscar providências definitivas. Não se trata de politizar a dor, mas de evitar que ela se repita. A cada ano, o prejuízo acumulado enfraquece ainda mais o pequeno produtor, compromete a economia local e amplia a vulnerabilidade social.

Planejar não é luxo; é obrigação. Estudar impactos não é burocracia; é prevenção. Quando o poder público falha na antecipação, quem paga é o povo — e paga caro.

Que 2024 sirva de lição. Que as chuvas deste ano não encontrem omissão, mas responsabilidade. Porque, quando o planejamento falta, a água não perdoa.


José Montalvão -  Funcionário Federal Aposentado, Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública,  pós-graduação em Jornalismo proprietário do Blog DedeMontalvão, matrícula ABI C-002025

Lula e Celso Amorim reativam diplomacia de crise diante da escalada no Oriente Médio


Governo avalia impactos da escalada de conflitos

Kellen Barreto,
Túlio Amâncio,
Fernanda Rouvenat
G1

O assessor especial da Presidência da República, embaixador Celso Amorim, conversou por telefone, na manhã desta segunda-feira (2), com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre a escalada de conflitos no Oriente Médio.

Lula está em Brasília, enquanto Amorim cumpre agenda no Rio de Janeiro. Em entrevista à GloboNews nesta manhã, o chanceler adiantou que ligaria para o presidente. Os dois avaliaram os desdobramentos mais recentes da crise e possíveis iniciativas diplomáticas do Brasil, incluindo a atuação do Itamaraty e a defesa de uma solução negociada para reduzir as tensões na região.

ESFORÇOS DA DIPLOMACIA – Durante a ligação, Celso Amorim lembrou ao presidente Lula os esforços da diplomacia brasileira, em 2010, ao lado da Turquia, para a Declaração de Teerã — iniciativa que teve repercussão internacional positiva, mas acabou rejeitada pelos Estados Unidos (entenda mais abaixo).

A Declaração de Teerã foi uma proposta apresentada em 2010 por Brasil, Turquia e Irã para tentar reduzir a tensão em torno do programa nuclear iraniano. Pelo acordo, o Irã enviaria parte de seu urânio enriquecido para a Turquia, onde o material ficaria sob custódia internacional, em troca de combustível nuclear para um reator de pesquisas médicas. A iniciativa buscava evitar novas sanções e abrir espaço para negociações, mas foi rejeitada pelos Estados Unidos e não avançou.

AVALIAÇÃO DE IMPACTOS –  No momento, o governo brasileiro também avalia impactos da escalada de conflitos e possíveis desdobramentos diplomáticos, inclusive com os Estados Unidos. Celso Amorim afirmou que o Brasil “deve se preparar para o pior” cenário, já que o conflito com o Irã tem potencial de se alastrar.

Até o momento, o governo brasileiro divulgou uma nota em solidariedade as vítimas e pediu pelo fim de ações militares na região do Golfo. Também nesta segunda-feira (2), após a conversa entre Lula e Amorim, o Ministério das Relações Exteriores informou que o ministro Mauro Vieira conversou por telefone com o chanceler dos Emirados Árabes Unidos, Abdullah bin Zayed Al Nahyan.

Os dois trataram sobre os desdobramentos da guerra no Oriente Médio e o fechamento do espaço aéreo na região. Entre as preocupações do Itamaraty ao país árabe é com a situação de brasileiros que estão nos aeroportos de Dubai e Abu Dhabi, diante das restrições de voos.

ENCONTRO ENTRE LULA E TRUMP –  O governo brasileiro e o governo dos Estados Unidos preparam uma visita de Estado do presidente Lula a Washington ainda no mês de março. As datas cotadas inicialmente são entre os dias 15 e 17 de março, contudo, como adiantou o blog da Ana Flor, esse encontro pode atrasar.

Com os ataques ao Irã e a escalada de conflitos na região, com os Estados Unidos envolvidos diretamente, o Itamaraty não descarta alterações na agenda do encontro entre Lula e o presidente Donald Trump.

CAUTELA –  O Itamaraty também está em contato com as embaixadas de países que registraram ataques ao longo do fim de semana, como Israel, Irã e Emirados Árabes. Segundo interlocutores da área internacional do governo, o momento é visto com “cautela” dentro do governo, por conta da relação com os Estados Unidos e também para não deixar de manter a tradição brasileira de sempre condenar guerras e conflitos.

Além disso, hoje a preocupação de diplomatas, internacionalistas e especialistas no assunto é com relação às regras do direito internacional, e os últimos acontecimentos, como o sequestro de Nicolás Maduro da Venezuela, tem quebrado de convívio entre os países, o que é classificado como retrocesso.

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